setembro 27, 2026

Rabos de Lagartixa - Juan Marsé

Título original: Rabos de Lagartija
Ano da edição original: 2000
Autor: Juan Marsé
Tradução: António Pescada
Editora: Publicações D. Quixote

Um poderoso romance sobre os frágeis limites entre a realidade e a ficção, a verdade e a mentira, o bem e o mal, o amor e a indiferença As personagens memoráveis deste romance - como o par terno formado pelo adolescente David e o seu cão Faísca, o apaixonado inspector Galván, ou a Rosa Bartra, a bela ruiva grávida - obedecem a uma tristeza e a uma trama histórica muito concretas, mas também à ilusão dos sonhos, concretizada aqui nas aparições imaginárias de um pai libertário fugido à polícia e de um piloto pedante da RAF que, a partir de uma velha fotografia de revista colada na parede, age como confidente do fantasioso David.

Rabos de Lagartixa é um livro triste e ternurento, cuja história se passa em Barcelona, nos anos 40, uma Barcelona empobrecida pela guerra e pela ditadura.

David é um adolescente que vive com a mãe, "A Ruiva", grávida de 7 meses, o pai desapareceu, (aparentemente era anti-regime) para nunca mais voltar. 

David passa os dias angustiado, enraivecido e perdido. Tem uma imaginação muito fértil, imagina conversas com o pai desaparecido, com o irmão por nascer e com um piloto das forças aliadas que vive num poster na parede do seu quarto.

Luta contra a presença de um inspector da polícia, que utiliza a desculpa de andar à procura do pai de David para se aproximar da mãe deste. O inspector desenvolve pela Ruiva uma obsessão. Embora o sentimento pareça genuíno e o Inspector possa nem ser tão má pessoa como David pensa, a forma como este se intromete na vida dos dois, já devastada, é meio assustadora. 

Gostei muito. Gostei da história, gosto sempre muito das personagens de Juan Marsé. São sempre meio estranhas, dificilmente nos parecem reais, no entanto é tão fácil sentirmos que, de certa forma as conhecemos e, acabamos por desenvolver sentimentos por elas. Gostei particularmente da relação de David com a mãe e deste com Pauli.

Juan Marsé é sempre de recomendar. Se nunca leram, façam o favor de experimentar. É uma lufada de ar fresco e de bom humor. :)

Boas leituras!


Excerto (pág. 62):
"David respeita a sua memória, embora gostasse de não ter de pensar nele com tanta frequência. Acontece que, quando menos espera, vê-o furtivamente como nunca antes tinha imaginado vê-lo, perseguido pelas suas fúrias e os seus demónios, de costas e a afastar-se muito curvado pelo ribeiro acima, com uma mão ensanguentada no cú e balanceando a garrafa com a outra. Um mendigo bebedolas vagueando pelo leito seco do Ribeiro. É ele, pois quem havia de ser. Além do seu aspecto indecoroso e do seu ar de derrota, por cima da sua cabeça despenteada e iracunda, o crepúsculo estende a sua ilusão opalina com uma intensidade e uma vermelhidão que David também nunca viu, e que subitamente lhe faz fugir o chão debaixo dos pés. Constata à sua volta, sem a menor estranheza, uma surda ressonância como da sucata de guerra, ferros e vozes criapadas debaixo das águas que já passaram, e então concentra-se com mais atenção. O corte na nádega vai deixando no pedregal do ribeiro um rasto de sangue.
- Aonde vais com esse ar de perdulário, pai?
- O meu cinto, onde está o meu cinto?
- Com quem estás a falar? - pergunta Paulino.
- Deve estar por aí. E nem queiras saber como. Feito em merda. Que desastre Pauli. Que vergonha. 
Enquanto acaricia o Faísca, o seu amigo Paulino deixa vaguear o olhar ribeiro acima, onde as hortas de alfaces e de tomateiros invadem o leito seco.
- Tu sabes lá como andará. Estás um pouco passado, David, de verdade - diz bruscamente e agacha-se diante de uma rocha caliça. Antes de fugir para debaixo desta, a lagartixa olha para ele com o seu olhinho de chumbo. - Merda!
- A minha cabeça é uma passarinhada - lamenta-se David tapando uma orelha. Fecha o canivete com cabo nacarado e acrescenta: - Voltamos para casa. Já não serve de nada, eu tenho um zumbido nos ouvidos e o Faísca está a cair."

Mar da Tranquilidade - Emily St. John Mandel

Título original:
Sea of Tranquility
Ano da edição original: 2022
Autor: Emily St. John Mandel
Tradução: Marta Mendonça
Editora: Editorial Presença

Edwin St. Andrew­ tem 18 anos quando faz a travessia do Atlântico de barco. ao entrar na floresta, em pleno coração selvagem do Canadá, Edwin está deslumbrado, e eis que, de súbito, ouve o som de um violino ecoando num terminal de dirigíveis - uma experiência que o abala profundamente.
Dois séculos depois, Olive Llewellyn, uma autora famosa, faz a promoção do seu livro. Olive viaja por toda a Terra, mas a sua casa fica na segunda colónia lunar, um lugar de pedra branca, torres piramidais e beleza artificial. na história do seu romance bestseller, há uma estranha passagem: um homem toca violino e o som ecoa num corredor de um terminal de dirigíveis, enquanto as árvores da floresta rasgam o céu à sua volta.
Quando Gaspery-Jacques Roberts, um detetive da Cidade da Noite, é contratado para investigar uma anomalia, descobre uma série de vidas em suspenso: o filho exilado de um conde que enlouqueceu, uma escritora retida longe de casa devido à pandemia que assola a Terra e um amigo de infância, também da Cidade da Noite, que, como Gaspery, vislumbrou a oportunidade de fazer algo extraordinário que causará uma disrupção na linha de tempo do Universo.
Esta é uma história que se move entre o mais profundamente humano e terno e a mecânica do puzzle e do mistério - para nos levar numa viagem virtuosíssima, com o equilíbrio e a beleza a que Emily St. John Mandel já nos habituou.

Gostei bastante deste livro de ficção científica. Começo a achar que afinal até gosto deste universo literário.

Passa-se numa realidade em que a humanidade habita Luas, depois de a Terra ter sido utilizada até a exaustão e ter-se tornado um sítio pouco agradável para se viver.

Olive Llewellyn é uma escritora que viaja para a Terra para promover o seu último livro. Durante a tour de promoção, cruza-se com Gaspery, um homem misterioso que a questiona sobre um fenómeno que Olive experienciou, onde se viu, por momentos, projetada para uma outra realidade - num aeroporto onde um velhote tocava violino. 
Gaspery desaparece, não sem antes a alertar para um acontecimento futuro, na Terra, que ela deverá evitar, caso contrário morrerá.

Num outro arco da história, Edwin St. Andrew, um jovem com 18 anos, dois séculos antes de Olive viver, atravessa o oceano Atlântico, rumo ao Canadá. Numa floresta isolada daquele país, vive uma experiência muito semelhante à que Olive viveu dois séculos depois. Vê-se num espaço desconhecido para ele, onde um velhote toca violino.

O que une estas duas pessoas? O que é que ambos experienciaram, de forma tão vívida e que não conseguem explicar? Quem é Gaspery e porque é que parece saber tudo o que vai acontecer?

É uma história muito bem escrita, com personagens cativantes. Gostei tanto que li como ebook mas já comprei o livro, em papel. Comprei este e o Estação Onze, também da Emily St. John Mandel.  Acho que vai ser uma daquelas que vou querer ter por perto.

Recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras.

Excerto (pág. 37):
"Quando recupera os sentidos, está na praia, ajoelhado sobre pedregulhos, a vomitar. Tem a vaga memória de se ter debatido para sair da floresta, completamente cego de pânico, um pesadelo de sombras e verde desfocado, ramos a fustigarem-lhe a face. Levanta-se, trémulo, e aproxima-se da beira da água. Entra nela até aos joelhos - o choque do frio é maravilhoso, é o que lhe restituirá a sanidade mental - e ajoelha-se para lavar o vomitado do rosto e da camisa, mas é derrubado por uma onda, pelo que, quando por fim se põe de pé, está engasgado com água do mar e ensopado até aos ossos.
Agora está sozinho na praia, mas vê movimento entre os edifícios de Caiette, na meia distância. O padre a desaparecer no interior da igreja branca na coluna."