Título original: Rabos de Lagartija
Ano da edição original: 2000
Autor: Juan Marsé
Tradução: António Pescada
Editora: Publicações D. Quixote
Ano da edição original: 2000
Autor: Juan Marsé
Tradução: António Pescada
Editora: Publicações D. Quixote
Um poderoso romance sobre os frágeis limites entre a realidade e a ficção, a verdade e a mentira, o bem e o mal, o amor e a indiferença As personagens memoráveis deste romance - como o par terno formado pelo adolescente David e o seu cão Faísca, o apaixonado inspector Galván, ou a Rosa Bartra, a bela ruiva grávida - obedecem a uma tristeza e a uma trama histórica muito concretas, mas também à ilusão dos sonhos, concretizada aqui nas aparições imaginárias de um pai libertário fugido à polícia e de um piloto pedante da RAF que, a partir de uma velha fotografia de revista colada na parede, age como confidente do fantasioso David.
Rabos de Lagartixa é um livro triste e ternurento, cuja história se passa em Barcelona, nos anos 40, uma Barcelona empobrecida pela guerra e pela ditadura.
David é um adolescente que vive com a mãe, "A Ruiva", grávida de 7 meses, o pai desapareceu, (aparentemente era anti-regime) para nunca mais voltar.
David passa os dias angustiado, enraivecido e perdido. Tem uma imaginação muito fértil, imagina conversas com o pai desaparecido, com o irmão por nascer e com um piloto das forças aliadas que vive num poster na parede do seu quarto.
Luta contra a presença de um inspector da polícia, que utiliza a desculpa de andar à procura do pai de David para se aproximar da mãe deste. O inspector desenvolve pela Ruiva uma obsessão. Embora o sentimento pareça genuíno e o Inspector possa nem ser tão má pessoa como David pensa, a forma como este se intromete na vida dos dois, já devastada, é meio assustadora.
Gostei muito. Gostei da história, gosto sempre muito das personagens de Juan Marsé. São sempre meio estranhas, dificilmente nos parecem reais, no entanto é tão fácil sentirmos que, de certa forma as conhecemos e, acabamos por desenvolver sentimentos por elas. Gostei particularmente da relação de David com a mãe e deste com Pauli.
Juan Marsé é sempre de recomendar. Se nunca leram, façam o favor de experimentar. É uma lufada de ar fresco e de bom humor. :)
Boas leituras!
Excerto (pág. 62):
"David respeita a sua memória, embora gostasse de não ter de pensar nele com tanta frequência. Acontece que, quando menos espera, vê-o furtivamente como nunca antes tinha imaginado vê-lo, perseguido pelas suas fúrias e os seus demónios, de costas e a afastar-se muito curvado pelo ribeiro acima, com uma mão ensanguentada no cú e balanceando a garrafa com a outra. Um mendigo bebedolas vagueando pelo leito seco do Ribeiro. É ele, pois quem havia de ser. Além do seu aspecto indecoroso e do seu ar de derrota, por cima da sua cabeça despenteada e iracunda, o crepúsculo estende a sua ilusão opalina com uma intensidade e uma vermelhidão que David também nunca viu, e que subitamente lhe faz fugir o chão debaixo dos pés. Constata à sua volta, sem a menor estranheza, uma surda ressonância como da sucata de guerra, ferros e vozes criapadas debaixo das águas que já passaram, e então concentra-se com mais atenção. O corte na nádega vai deixando no pedregal do ribeiro um rasto de sangue.
- Aonde vais com esse ar de perdulário, pai?
- O meu cinto, onde está o meu cinto?
- Com quem estás a falar? - pergunta Paulino.
- Deve estar por aí. E nem queiras saber como. Feito em merda. Que desastre Pauli. Que vergonha.
Enquanto acaricia o Faísca, o seu amigo Paulino deixa vaguear o olhar ribeiro acima, onde as hortas de alfaces e de tomateiros invadem o leito seco.
- Tu sabes lá como andará. Estás um pouco passado, David, de verdade - diz bruscamente e agacha-se diante de uma rocha caliça. Antes de fugir para debaixo desta, a lagartixa olha para ele com o seu olhinho de chumbo. - Merda!
- A minha cabeça é uma passarinhada - lamenta-se David tapando uma orelha. Fecha o canivete com cabo nacarado e acrescenta: - Voltamos para casa. Já não serve de nada, eu tenho um zumbido nos ouvidos e o Faísca está a cair."
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