julho 03, 2011

A Noite do Oráculo - Paul Auster

Título original: Oracle Night
Ano da edição original: 2003
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições Asa

" No dia 18 de Setembro de 1982, após vários meses de recuperação de uma doença quase fatal, o escritor Sidney Orr entra numa papelaria de Brooklyn e compra um bloco de notas azul de fabrico português. Nos nove dias que se seguem, Sidney vai viver sob influência do livro em branco, preso num universo de arrepiantes premonições e de acontecimentos desconcertantes, que ameaçam destruir o seu casamento e minar a sua confiança na realidade.
Por que é que a sua mulher, Grace, começa a comportar-se de uma forma tão desconcertante pouco depois de ele ter começado a escrever no estranho bloco de notas? Porque é que o dono da papelaria encerra precipitadamente o estabelecimento no dia seguinte? Qual é a ligação entre uma lista telefónica polaca, de 1938, e um romance perdido cujo protagonista consegue adivinhar o futuro? Quando é que a animosidade explode e passa a violência? Até que ponto é que o perdão é derradeira expressão do amor? Dúvidas e incertezas de simples seres humanos, a braços com as múltiplas e nebulosas esferas da vida quotidiana.
Romance hipnótico, reflexão sobre a natureza do tempo, e uma viagem pelo labirinto da imaginação de um homem, A Noite do Oráculo é um tour de force narrativo que confirma reputação do autor como um dos mais arrojados e originais escritores da América dos nossos dias."

Este é o segundo livro que leio de Paul Auster - o primeiro foi O Livro das Ilusõesaqui comentado - e com ele o autor ganhou um lugar junto dos meus escritores favoritos. :)

A Noite do Oráculo conta a estranha história de um escritor, Sidney Orr, e do seu encontro com um, aparentemente normal, caderno de capa azul, de fabrico português. Este encontro, que mudará a vida de Sid, acontece durante um dos seus "passeios higiénicos", que fazem parte do seu tratamento de recuperação, depois de ter regressado, contra todos os prognósticos, do mundo dos mortos.
Sid entra na papelaria de Mr. Chang e fica enfeitiçado por um caderno de capa azul, que lhe restitui a vontade de escrever, depois de tantos meses parado. No momento em que o compra e trava um estranho diálogo com Mr. Chang, Sid não sonha que a sua vida começa naquele momento a perder, gradualmente, consistência. A sua mulher, Grace, começa a ter comportamentos atípicos, passando por estados depressivos, seguidos de sentidas declarações de amor, que deixam um confuso Sid em estado de pânico, com receio de perder a pessoa mais importante da sua vida. O melhor amigo de ambos encontra-se com um problema de saúde que lhe poderá custar a vida e, Sid trava uma luta diária para recuperar da doença que quase o matou a ele.
Enquanto escreve no caderno, Sid entra numa espécie de transe, como se o caderno lhe possibilitasse o acesso a uma outra dimensão onde as preocupações deixam de o atormentar. Nele Sid inicia a história de Bowen, um editor que tem a oportunidade de deixar para trás o passado, abandonar a sua vida antiga e todos os que dela faziam parte, e recomeçar a partir do zero, num sítio onde ninguém o conhece. Será possível abandonar toda a nossa vida, sem olhar para trás? Ou há laços que são difíceis de quebrar?
As histórias de Sid e de Bowen vão sendo contadas em simultâneo e em ambas nós, leitores, vamos sentido uma crescente apreensão relativamente ao que poderá acontecer. O que espera os dois protagonistas deste livro?
Um escritor que viu a sua filha morrer afogada e que faz uma ligação improvável entre o que aconteceu e aquilo que tinha escrito, deixa de escrever, pois "as palavras podiam alterar a realidade e, portanto eram demasiado perigosas para serem confiadas a um homem que as amava acima de tudo." As palavras podem realmente matar?

E da história mais não digo! :)

A Noite do Oráculo é um livro viciante, onde Paul Auster consegue manter a nossa curiosidade ao longo de todo o livro. Quando pensamos que se calhar não haverá mais para além daquilo que já foi dito e, intimamente nos começamos a sentir defraudados, eis que o autor nos faz esquecer tudo o resto quando os presságios se cumprem e o destino cai sobre os nosso protagonistas de forma avassaladora!
Paul Auster é dono de uma escrita muito próxima, extremamente fluída e eficaz. A sensação que me acompanhou ao longo de todo o livro foi a de que o narrador estava ao meu lado a contar-me aquela história cada vez mais intrigante. Foi, também por isto que se tornou difícil largar o livro e, quando o largava, não foram raras as vezes em que dei por mim a pensar na história e no rumo que iria tomar. Corri o risco de, na noite em que comecei a ler, só o conseguir largar no fim... E não foi o sono que me venceu mas sim, a responsabilidade! :) E o melhor é que sendo um livro que, logo de início prometia ser bom, acabou por cumprir o prometido no fim, o que nem sempre acontece! :)

Parece ser comum que Paul Auster faça sofrer as suas personagens, que brinque com as suas vidas, mudando-as de forma inesperada, uma vezes para melhor, outras nem por isso. No entanto, a esperança é, nos dois livros que já li dele, o sentimento comum e que no final prevalece.
O Oráculo da Noite é um livro sobre a passagem do tempo, sobre as pessoas que partem e são esquecidas. Quem fica para nos recordar quando já nenhum de nós cá estiver? Um livro sobre a memória e sobre a importância das nossas vivências e actos passados. Como é que o nosso passado afecta os dias que vivemos e que viveremos? Um livro sobre confiança, perdão e amor. Um amor incondicional, feito de tudo isto: tempo, memórias, passado, confiança e perdão. Um livro a não perder!

Gostei muito e ler Paul Auster é puro prazer, pelo que, voltarei a ele o mais breve possível!


Excerto:
"Eu era o primeiro cliente do dia e o silêncio era tão denso, tão pronunciado, que conseguia ouvir a lapiseira do homem arranhando o papel atrás de mim. Hoje, quando me ponho a pensar naquela manhã, o som da lapiseira é sempre a primeira coisa que me ocorre. Admitindo que a história que vou contar faz algum sentido, estou em crer que foi aí que ela começou - no espaço daqueles breves segundos, quando o único som que restava no mundo era o som daquela lapiseira arranhando o papel."

Nota:
Relativamente ao caderno de fabrico português que tanto me intrigou, pelos vistos é apenas fruto da imaginação do escritor (segundo o próprio esclareceu numa entrevista que não consegui encontrar na internet mas que alguém menciona neste blogue: Sunset Park). No entanto, e a título de curiosidade, a papelaria referida no livro, Paper Palace, tem uma homónima (pelo menos passou a responder por esse nome) Palácio de Papel, em Portugal, Lisboa que, na verdade, vende uns cadernos azuis, imperfeitos e exclusivos (notícia do Diário de Notícias aqui: Azuis, imperfeitos mas exclusivos). Coincidência?

7 comentários:

  1. Olá,
    Li este livro em 2004 e recordo que na altura não me entusiasmou.
    Agora, fiquei com vontade de voltar a lê-lo, com outros olhos. Vou colocá-lo na minhas lista de releituras.
    Já leu "Invisível"? Para mim é um dos melhores de Paul Auster.
    Boas leituras.

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  2. Teresa Dias: Eu gostei bastante deste livro mas, como acontece em muitos livros, a altura em que se lê pode ser um factor mais do que determinante para a impressão que o livro nos deixa e, por isso, espero que a sua releitura, a acontecer, seja positiva. :)
    Vou tomar nota da sua sugestão, se bem que, com ou sem sugestão, o livro viria parar às minhas mãos. Estou a gostar muito de descobrir Paul Auster. :)

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  3. Cheguei cá via Cormac Mccarthy, o uso dos 'e' é deveras fatela! Falta Jorge Amado na tua lista...
    Vou voltar!

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  4. $hort: O uso do "e" é irritante, é verdade, mas felizmente não o suficiente para estragar o livro. :)
    Li Jorge Amado há uns bons anos atrás e nunca mais li nada dele. É um daqueles autores que não me cativou muito na altura, no entanto, tenciono voltar a ler qualquer coisa dele porque acho que agora vou saber apreciar melhor os seus livros. Ainda não calhou... :)
    Volta que és bem vindo.

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  5. Ó Short mas Cormac Mccarthy (ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS), tal como Philp Roth, é um escritor grande, grande, imenso. Paul Auster é diferente mas não deixa de ser também um belíssimo escritor.

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  6. Ando a ler "A Noite do Oráculo" para uma apresentação da disciplina de Português e estou a gostar bastante... A minha prof. já me sugeriu também o "No País das Últimas Coisas". Com alguma experiência literária, nunca tinho lido na de Auster!

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  7. Embora conheça mal a obra de Paul Auster, é um daqueles autores que parece que já conheço há muito tempo. Como tem uma obra extensa é um escritor para se ir lendo com calma. :) Esse que referes ainda não li.

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