"Editada em 1867, esta obra cedo se tornou objecto da atenção crítica de Camilo. Embora tendo alcançado ao tempo um menor êxito comercial que outros títulos romanescos — realidade que Camilo adopta para um exercício irónico sobre os merecimentos das novelas — a verdade que «A Bruxa de Monte Córdova» deve ser "encarada como texto paradigmático do universo ficcional de Camilo e da mundividência que o enforma", permitindo "trilhar caminhos susceptíveis de conduzir ao âmago desse universo" e perceber que "em Camilo as histórias de amor nunca são apenas histórias de amor. São também preciosos testemunhos da organização sócio-económica de um tempo e de um lugar em que matrimónio e património eram faces de uma mesma e única moeda." (sinopse daqui)Depois de ter lido o livro de Anton Tchekov, A Minha Mulher (a minha opinião aqui), que me soube a tão pouco por ser pequeno, fiquei com o bichinho do século XIX e fui à estante ver quem seria o feliz contemplado, se o Eça se o Camilo. Ganhou o Camilo, até porque do Eça já li quase tudo o que tenho aqui em casa. :)
Já não lia Camilo Castelo Branco há uns bons aninhos e quando comecei a ler este A Bruxa de Monte Córdova, senti alguma estranheza e desconforto com a linguagem. Confesso que fiquei um pouco assustada porque sempre me tive como uma pessoa que gostava de Camilo Castelo Branco. Insisti na leitura e, em boa hora o fiz, porque acabei por encontrar o ritmo da narrativa e o livro revelou-se bem interessante, onde reencontrei o escritor e as suas histórias dramáticas e ao mesmo tempo divertidas, devido à ironia que está presente em muitos dos diálogos.
Tendo como pano de fundo a Guerra Civil Portuguesa, que ocorreu entre 1831 e 1834, e opôs os defensores de D. Pedro I e da sua filha D. Maria II, liberais e constitucionalistas, aos defensores de D. Miguel I, os absolutistas e tradicionalistas, A Bruxa de Monte Córdova relata-nos a história de amor entre Tomás de Aquino e Angélica Florinda. Esta é uma história trágica para cujo desfecho muito contribuiu a época conturbada em que se vivia, mas principalmente a falta de carácter dos representantes de Deus na terra, que incentivavam o fanatismo e o histerismo religiosos.
A partir daqui é só spoilers!!!!!!!
Tomás de Aquino, segundo filho de uma família de fidalgos, está, desde que nasceu destinado à vida religiosa. Tomás entra para o Convento de Tibães contra a sua vontade mas, respeitando a vontade do pai torna-se um frade beneditino. Ao entrar para o convento encontra tudo menos Deus, os companheiros são mesquinhos, cruéis e muito pouco cristãos. Tomás sofre com a separação de Angélica e não encontrando consolo em Deus, foge. Não procura Angélica porque, sendo um frade não poderá casar com ela. Alista-se, então no exército de D. Maria II e luta corajosamente pela causa liberal, tendo a esperança de que os seus votos um dia sejam anulados junto de Roma.
Quando Tomás entra para o convento, Angélica é uma rapariga de 17 anos, a mais formosa da aldeia, a quem todos cortejam. No entanto, ela encontra-se prometida, desde os 12 anos (?!), a um tio (?!?!?!) brasileiro e rico que por ela se encantou e que a virá desposar quando ela completar 19 anos. No dia em que o tio chega, Angélica foge e abriga-se no Convento de Santa Clara, onde mais tarde, Tomás a reencontra. Renasce o amor entre os dois e decidem viver juntos, mesmo que em pecado, enquanto Tomás luta pelos liberais.
Quando Tomás morre na Batalha do Cabo de São Vicente, Angélica entra novamente para o Convento de Santa Clara e entrega o filho de ambos aos cuidados de Frei Jacinto de Deus, um dos facilitadores da fuga de Tomás do Convento de Tibiães e um dos seus maiores amigos.
No convento Angélica, guiada espiritualmente por Frei Silvestre, é acometida por culpas e fervores religiosos que a tornam louca e histérica. Culpa-se pela morte de Tomás pois foi ela quem o desviou do caminho religioso, vivendo com ele em pecado e tendo um filho fora do matrimónio. Este Frei Silvestre é uma criatura sinistra, um charlatão de falinhas mansas que ganha a vida a vender supostas relíquias religiosas: tinha distribuído no país tal porção de falanges dos dedos de S. Bono presbítero e mártir, que preciso fora ter o santo mais braços que Briareu, para que todos os ossos fossem dele. Frei silvestre, o fradinho do arrábido, incentiva a expiação de Angélica, pois só o sofrimento poderá salvar Tomás das chamas do Inferno e proíbe-a de ver o filho.
Frei Jacinto de Deus cuida da criança até morrer e, depois de muitas voltas e contratempos o filho de Tomás e Angélica acaba Conde de Burgães, depois de uma passagem bem sucedida pelo Brasil. É um homem bem formado e justo, ciente das suas origens e orgulhoso delas. Acaba por reencontrar a mãe, agora conhecida como a bruxa de Monte Córdova, nome que lhe veio de anos de peregrinação e penitência onde granjeou a fama de exorcista. Exorcista sim, mas das almas doentes de amor, dos amores proibidos pelos pais e pela sociedade. Angélica curava as doenças de amor, aconselhando os pais a deixarem as suas filhas casarem com quem desejavam e não com velhos babões, tios e afins. ;)
O livro acaba com Angélica a morrer nos braços do filho depois de este lhe dizer que a perdoa por tudo. :)
Acabaram os spoilers! :)
Depois da dificuldade inicial em entrar na história, acabei por gostar deste livro. Gostei principalmente da envolvente histórica e da caracterização da sociedade e do pensamento das pessoas que o escritor faz ao longo do livro. A história em si, é Camilo, sem tirar nem pôr, (embora aqui ninguém morra tuberculoso e de amor :p) e destaco as personagens que ele criou para este livro, especialmente o Tomás de Aquino e o Frei Jacinto de Deus. A conversa que este tem com o Frei Silvestre, o frade charlatão, é do melhor que há. :)
Para quem gosta do género, recomendo. Para uma primeira leitura de Camilo Castelo Branco, aconselho outros livros dele. Talvez os mais conhecidos como o Amor de Perdição, Queda de Um Anjo e por aí fora. :)
Boas leituras!