Mostrar mensagens com a etiqueta João Tordo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Tordo. Mostrar todas as mensagens

janeiro 15, 2022

A Noite Em que o Verão Acabou - João Tordo

Título: A Noite em que o Verão Acabou
Ano da edição original: 2019
Autor: João Tordo
Editora: Companhia das Letras

"14 de Setembro de 1998. O dia em que Chatlam, uma pequena vila americana, acordou em choque com o homicídio de Noah Walsh. O principal suspeito: a sua filha de dezasseis anos.

No Verão de 1987, o adolescente Pedro Taborda apaixona-se por Laura Walsh, a filha mais velha de um magnata nova-iorquino. Ela e Levi - uma criança misteriosa - passam férias com os pais no Lagoeiro, uma pacata cidade algarvia. Rica e moderna, a família Walsh tem tudo para dar muito nas vistas no sul de Portugal. Inebriado pelas formas perfeitas e pelos modos ousados de Laura, Pedro encontra na rapariga americana o seu primeiro amor. Mas quando o Verão acaba, a família Walsh regressa aos Estados Unidos e o destino fica por cumprir.
Dez anos depois, Pedro, decidido a tornar-se escritor, vai estudar para Nova-Iorque. Fascinado com Gary List, antigo prodígio das letras americanas, chega aos Estados Unidos determinado a perseguir os sonhos da juventude. Ao reencontrar Laura, está longe de suspeitar que esse acaso o mergulhará no crime mais falado dos anos noventa, o homicídio do milionário Noah Walsh.
Com um segundo homicídio a atrapalhar a investigação e uma corrida para salvar Levi, de apenas dezasseis anos, acusada de matar o pai, Pedro e Laura enredam-se irremediavelmente na teia de segredos que envolve a família Walsh, desde os anos quarenta do século XX até ao impensável desfecho nas primeiras décadas do novo milénio.

Porque em Chatlam - e neste thriller imparável - nada é o que parece."

A sinopse é clara quanto à história. Pedro Taborda, em 1987, é um adolescente a passar férias no Algarve com a família. Laura é uma adolescente americana que também está de férias no Algarve.
As duas famílias acabam por criar laços durante aqueles dias intermináveis de verão e a entrada de Laura na vida de Pedro vai marcá-lo para a vida, não só porque o primeiro amor é algo que dificilmente se esquece, mas também porque os Walsh são exuberantes e pouco convencionais.
Após as férias de verão, os dois mantém contacto durante algum tempo, até que a vida acaba por espaçar as cartas que, um dia, findam de vez. 

Anos mais tarde, Pedro vai estudar para os Estados Unidos e reencontra Laura. Pouco tempo depois do reencontro, o pai de Laura é encontrado morto em casa e tudo indica que terá sido assassinado pela irmã mais nova de Laura, a estranha Levi. Laura não acredita que a irmã seja culpada e enquanto decorrem as investigações oficiais, Laura "arrasta" Pedro numa corrida contra o tempo para encontrar o verdadeiro culpado e provar a inocência de Levi.
Como seria de esperar, a investigação desenterra histórias do pai, algumas antigas, outras mais recentes. Nenhuma delas muito abonatória para o pai.

Basicamente, em termos de fio condutor do livro, é isto - a relação de Pedro com Laura, a investigação que iniciam os dois e que nos leva a conhecer melhor a história dos Walsh e, por fim, o desvendar do mistério que envolve a morte de Noah Walsh.

Pessoalmente não acho que seja este o género em que João Tordo mais brilhe, embora a forma como ele aborda o género também não seja a mais convencional.
O mistério dos assassinatos até está bem conseguido e a forma como se vão desvendando as coisas é interessante. É engraçado não ser uma investigação policial típica, tem uma velocidade diferente e o foco acaba, até por ser outro. O livro é muito mais do que uma investigação desenfreada ou uma corrida contra o tempo. Talvez por isso tenha alguma dificuldade em classificá-lo como policial e menos ainda como um thriller. O que não é uma coisa má, apenas pode ser enganadora para quem vai ler o livro.

Achei que o livro poderia ser bem mais pequeno. Dispensava, a maioria das páginas dedicadas à vida de Pedro. Não sinto que tenham acrescentado alguma coisa à história e eram, muitas vezes, completamente irrelevantes para a mesma. Sou sincera, não achei o Pedro uma personagem muito interessante e tudo o que o envolvia apenas a ele era só aborrecido... Desculpa João Tordo. :)

Não amei mas também não detestei. Só não me vai ficar na memória por muito tempo. 

A minha opinião sobre o talento de João Tordo, não ficou, em nada, beslicada. Acho até saudável ele não ter problemas em experimentar novas abordagens e, no fundo, escrever o que lhe apetece, sem se sentir na obrigação de seguir uma cartilha. 

Recomendo, porque dentro do género é um livro que pode ser interessante. 

Se nunca leram João Tordo, não comecem por este ou outros do género. O primeiro que li dele foi o As Três Vidas (opinião aqui) e fiquei fã.  No entanto, de todos os que já li dele, aqueles que mais me dizem são os da "Trilogia dos lugares sem nome" - O Luto de Elias Gro (opinião aqui); O Paraíso Segundo Lars D. (opinião aqui) e O Deslumbre de Cecília Fuss, que ainda não li. Têm muito por onde escolher. :)

Boas leituras!


Excerto (pág.14):

"Na tarde em que comecei a chorar, a cadela trazia a boneca na boca, mordendo-a com a força dos seus caninos de bicho ainda jovem.
Chorei todas as noites durante uma semana, a boneca caída no relvado da casa de férias dos meus pais. Tornou-se o brinquedo de Niki até o meu pai a guardar na garagem. Era a única memória física que me restava de Laura e de Levi, que regressaram aos Estados Unidos no final de Agosto; uma coisa velha feita de trapos, com dois botões a servirem de olhos, cabelo ruivo e uma boca infeliz. A seguir - porque aos treze anos recuperamos com facilidade dos choques emocionais - , distraí-me com o ténis, a exploração do terreno dos lagartos e as parvoíces da minha irmã e esqueci-me temporariamente da ausência das raparigas americanos no Lagoeiro.
No anos seguinte, Laura e Levi não voltaram como prometido (...)"

agosto 23, 2020

O Paraíso Segundo Lars D. - João Tordo

Título: O Paraíso Segundo Lars D.
Ano da edição original: 2015
Autor: João Tordo
Editora: Companhia das Letras

"Numa manhã de Inverno, Lars sai de casa, enxotado por uma dolorosa insónia, e encontra uma desconhecida a dormir no seu carro. Ele é um escritor sexagenário há muitos anos sem vontade de escrever; a rapariga chama-se Glória e vive os dias conturbados da juventude. Poucas horas mais tarde, Lars parte em viagem com a jovem, deixando para trás um casamento de uma vida inteira e um romance inédito: O luto de Elias Gro.
A mulher de Lars é quem assume as rédeas da narrativa, tal como tentara fazer com a vida do marido, cavaleiro solitário. Refém das memórias, por vezes cómicas, por vezes dolorosas, dos anos vividos com o escritor, a narradora reconstrói uma cartografia emocional do seu casamento, que é afinal um mapa de solidão e de afectos. Com a vida paralisada pela ausência de Lars, o seu caminho cruza-se com o de Xavier, um jovem estudante de Teologia. Juntos, investigação o paradeiro de Lars e, pelo caminho, explorarão uma certa ideia do Paraíso."

O Paraíso Segundo Lars D. é um livro intimista e essencialmente triste. Há algo de intrinsecamente triste em toda a história de Lars D., contada pela sua mulher quando Lars, um dia sai de casa e nunca mais regressa. Há muita solidão nesta narrativa que acaba por se tornar numa viagem quase desapegada pelo casamento dos dois.
Lars D., um escritor genial, uma personagem respeitada, cujo processo de criação surge como sendo muito difícil, muitas vezes doloroso, que o afasta de todos, que o obriga a viver apenas consigo e com os seus traumas e problemas interiores. 
A mulher de Lars D., aparece-nos como a pessoa por detrás do génio, que afasta todas as interferências no processo criativo, que o ajuda a levantar-se quando cai, que o alimenta e mantém fisicamente saudável. A mulher que vive todo o seu casamento, a cuidar de um homem que, na maior parte das vezes não parece aperceber-se que ela está lá. A mulher que abdica de tudo para que ele possa continuar a escrever e ela tenha o privilégio de estar ao lado dele. A mulher que casou com ele e não esperava mais do que isso, apenas estar presente quando ele precisasse, antecipar as suas necessidades e dar-lhe condições para criar a sua próxima grande obra. A mulher que, quando ele desaparece, se apercebe que os anos do seu casamento foram os anos mais solitários da sua vida. Com Lars D. fora da sua vida, terá de reaprender a viver para si, apenas para si, e a aceitar que nunca é tarde para se ser feliz.

Agrada-me muito esta fase mais intimista de João Tordo, a escrita mais madura e o que consegue transmitir-nos enquanto leitores. Tinha gostado muito do Luto de Elias Gro (opinião aqui)e, acho que gostei ainda mais deste O Paraíso Segundo Lars D.. Mais simples na narrativa, mas muito eficaz nas emoções que transmite.

Gostei muito e recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras!

Excerto (pág. 74):
"Xavier trouxe tudo para a mesa e começamos a comer. A refeição era um dos rituais que eu e Lars nunca descurávamos. Ao longo de várias décadas, a maneira de comer do meu marido levou-me ao desespero e ao amor mais profundo. Quando ainda era jovem, ele comida apressadamente e, depois de terminar, ficava a observar-me enquanto eu comia, muito mais devagar. Os anos passaram e, no período de trabalho mais fértil, ele chegava às refeições como quem chega a uma corrida de estafetas e comia ainda mais depressa, mastigando tudo ao mesmo tempo (brócolos, bife, vinho, pudim). Depois dizia:
    Sabe tudo a coentros.
    Até o pudim?, perguntava eu. 
    Sobretudo o pudim. 
    E desaparecia para o escritório. 
No entanto, nem depois de ter deixado de escrever, quando se dedicava ao ascetismo e comia pouquíssimo, Lars faltava às refeições. Nunca: as refeições eram nossas e ele participava sempre delas, como um cavalo que tem de ir ao bebedouro para não perecer."

janeiro 03, 2018

O Luto de Elias Gro - João Tordo

Título original: O Luto de Elias Gro
Ano da edição original: 2015
Autor: João Tordo
Editora: Companhia das Letras

"Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbért, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios na local que escolheu para se isolar: um farol abandonado; à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passa a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.
O Luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso."

O Luto de Elias Gro é o primeiro livro da "trilogia dos lugares sem nome". O primeiro lugar sem nome é uma pequena ilha no meio do Atlântico onde todos os seus habitantes são de certa forma peculiares. Alguns nasceram na ilha e nela viveram toda a sua vida, outros foram lá parar depois de algum acontecimento trágico nas suas vidas e por lá ficaram, lá viveram e morreram.

O narrador, personagem sem nome, desta história é um dos que foi para a ilha à procura do natural isolamento que um farol desactivado lhe poderia trazer. Procurava um sítio onde não tivesse de falar com outras pessoas, onde ninguém o conhecesse e onde ninguém estivesse interessado em conhecê-lo. Queria liberdade para poder afogar todas as suas mágoas e enfrentar todos os seus demónios sem ser julgado.
No entanto, nem todos os habitantes da ilha estão interessados em respeitar a vontade do novo inquilino do farol. O padre, que não é padre, Elias Gro, faz os possíveis para que ele se sinta acolhido, obrigando-o a participar na vida da pequena comunidade.
É desta forma que conhece Cecília, a filha de Elias Gro. Cecília é uma menina de onze anos, muito perspicaz e inteligente, que cresceu muito sozinha na ilha, sem mais crianças para brincar, embora frequente a escola no continente. É uma miúda sedenta de atenção e parece encarar o mau humor do nosso narrador, que chega a ser ofensivo e violento com a pequena Cecília, como um desafio. Percebemos logo que ele gosta muito da miúda, que a acha peculiar no bom sentido e divertida. A presença de Cecília faz-lhe bem, mas também lhe traz lembranças do seu passado com as quais ainda não consegue lidar.
Ao longo do livro vamos acompanhando o processo de luto do narrador. Vamos conhecendo o que o levou a procurar isolar-se do mundo, num farol perdido numa ilha perdida no meio do Atlântico. Descobrimos um homem que perdeu tudo e que não sabe lidar com isso. Refugia-se na bebida e torna-se uma pessoa desprezível. Quer afastar de si toda e qualquer manifestação de bondade, não se sente merecedor da compaixão dos outros. Quanto mais os habitantes da ilha o tentam incluir,  mais ele os afasta. A única pessoa que parece conseguir, de alguma forma, criar brechas na barreira protectora que criou à sua volta, é Cecília.

Todos naquela ilha têm problemas, todos eles conhecem a perda e vivem com ela e, todos têm diferentes maneiras de fazer o luto. Todos eles encontraram formas de continuar a viver depois da morte. O nosso narrador também vai acabar por sair do buraco escuro e fundo para onde foi quando a vida lhe pregou uma partida. A viagem não será fácil e levará algum tempo até que ele consiga ver para além da sua própria dor.

Já há algum tempo que não lia João Tordo e confesso que me estava a fazer alguma falta. :)
O Luto de Elias Gro é de certa forma diferente do que tenho lido do João Tordo. Os anteriores estavam envoltos em mistério, em segredos por desvendar. Este é definitivamente mais introspectivo. Procura provocar em quem lê, alguma da dor, raiva, tristeza, angústia e impotência que o narrador sente nos diversos estágios do seu luto.
Embora pareça e, de certa forma, seja um livro pesado, está escrito com algum sentido de humor que aligeira um pouco a atmosfera mais negra da história.

Resumindo e baralhando, gostei da história e das personagens e gosto sobretudo da forma como João Tordo nos conta esta história.

Só posso recomendar!

Boas leituras! :)



Excerto (pág.168):
"Eu respirava com dificuldade, alguma coisa parecia ter-se alojado na minha traqueia. A memória das vozes ao telefone e da vigília afrontava-me; dentro de mim, um animal ferido raspava ferozmente o chão de gravilha com unhas retrácteis, e uivava, procurando sair da toca.
Tenho pena é das lesmas, disse Cecília. E das lagartas. Não têm como se proteger.
As lagartas fartam-se de ser lagartas e fazem uma casinha nojenta de baba, disse eu. E depois transformam-se em borboletas, e toda  a gente gosta de borboletas. Nunca vi ninguém fazer mal a uma borboleta. Quando muito, espalmam-nas no meio das páginas de um livro, para sempre. É uma vida bestial. Muito melhor do que a nossa.
As lagartas esvaziam o estômago e segregam uma enzima que forma uma crisálida, disse Cecília, em tom de correcção.
És muito esperta, ripostei. Aposto que te dizem isso na escola. Lembras-te dessas coisas todas, nada te escapa, pois não?
A diferença é que nós, ao contrário das lagartas, somos muito mais como os cães. Vida de cão, é assim que se diz. Sabes porquê? Porque a nós ninguém nos dá nomes em latim nem nos espalma entre as páginas de um livro, para que a nossa beleza fique preservada para sempre. Não existe filatelia humana.
Lepidopterologia.
O quê?
Filatelia é coleccionar selos. Lepidopterologia é como se chama à ciência dos insectos.
E que tal coleccionar borboletas? Serve-te? Ou precisas de saber dezenas de palavras impronunciáveis das quais te irás esquecer assim que começares a crescer?
Cecília desviou o olhar para a janela. Parecia magoada. Irado, eu escutava o meu próprio tom de voz, a roçar a violência, e percebi que estava fora de mim. Aquela versão chegara com a força e imprevisibilidade das tempestades: quanto mais olhava para a rapariga, mais desejava anulá-la. (...) Olhava para Cecília e via uma outra, que não era Cecília, alguém de que ainda não vos falei (porque não consigo, não sou capaz); alguém que não existe e, todavia, é a figura central destas páginas. O fantasma de Banquo sentado à mesa real."

agosto 24, 2014

Anatomia dos Mártires - João Tordo


Título original: Anatomia dos Mártires
Ano da edição original: 2011
Autor: João Tordo
Editora: Publicações D. Quixote

“Um jornalista insensato e ambicioso quer provar ao seu editor – um comunista irascível, alcoólico e com bastante desprezo pelos jovens – que não é só mais um na redacção. Escolhido para ir a Berlim entrevistar o biógrafo de um mártir religioso, aproveita a deixa para fazer, no seu artigo, uma analogia com a história de Catarina Eufémia, a camponesa que se tronou um ícone do Partido Comunista, mas de quem, na verdade, pouco ou nada sabe. Quando, porém, o artigo é publicado, as reacções de indignação por parte dos leitores não se fazem esperar, algumas das quais bastante ameaçadoras; e, na noite em que o editor é encontrado na rua em coma, aparentemente brutalizado, o jornalista pergunta-se se não terá sido por defender publicamente o seu artigo e começa a suspeitar de que existe muito mais em jogo do que a simples memória de uma camponesa assassinada pela GNR durante a ditadura. É então que decide investigar obsessivamente a vida de Catarina, desbravando por entre o nevoeiro que paira sobre os mártires e os transforma em mitos de que sempre alguém se apodera. E encontra realidades bem distintas – e mais tenebrosas – do que podia esperar.”

João Tordo tem sido um escritor que me tem dado algum gozo conhecer. Com Anatomia dos Mártires, embora o tema seja muito interessante e as reflexões que faz muito pertinentes, achei-o um pouco repetitivo ao longo de todo o livro, o que me deu uma sensação de estagnação. Ao longo da leitura só me lembrava de uma crítica algures que dizia que João Tordo utilizava demasiadas provocações, referindo-se muito a acontecimentos já passados mas dos quais o leitor nada sabe, ou seja levanta muito a ponta do véu e no fim, debaixo do véu não havia assim nada de muito extraordinário. Confesso que este Anatomia dos Mártires é um pouco assim. Não é que me tenha sentido defraudada nas minhas expectativas, mas esta técnica de prender o leitor à história terá sido utilizada em demasia. :)

Expectativas à parte, o meu gosto na descoberta de João Tordo em nada foi beliscado por este livro menos ao meu gosto. A escrita dele agrada-me e a forma como ele nos apresenta uma história, como explora as personagens e nos mantém interessados é algo com o qual me identifico. Neste Anatomia dos Mártires gostei sobretudo do tema. Da reflexão que faz sobre a relação das pessoas com a política, das crenças humanas e da religião. Gostei da interpretação que dá as estas personagens que vivem muito para além dos seus feitos, como Catarina Eufémia, nome que não me era estranho, mas não sabia ao certo quem era e qual o papel que lhe coube numa época tão cheia de mártires.
Achei a caracterização da personagem principal, o jornalista, muito bem conseguida. A representar muito bem a soberba dos jovens, o facto de acreditarmos que sabemos tudo e que não existe nada que a geração que nos criou tenha para nos ensinar. A ignorância de toda uma geração sobre um dos, senão mesmo o mais importante acontecimento da nossas vidas, como país e como sociedade, o 25 de Abril de 1974 e toda a luta que o tornou possível.
O jornalista representa a geração daqueles que ficou sem nada por que lutar, uma geração sem ideologias, sem fé, um pouco desenraizada da terra, culturalmente europeu, uniformemente europeu, sem nada que o distinga de um alemão ou francês.
Um jovem adulto, não estou a falar da geração que agora atravessa os 20, mas dos que já entraram há muito nos 30 e se aproximam dos 40, os filhos da revolução dos cravos. Um homem, adulto, egoísta, que não soube lidar com a morte da mãe e não sabe como viver com o envelhecimento do pai, que despreza e praticamente abandona. A forma como este homem lida com o pai é, à falta de melhor expressão, chocante. Um homem que vive obcecado consigo mesmo, até quando pensa que está a fazer coisas pelos outros, é só em si e na sua sanidade mental que pensa.
Este jornalista parece horrível... e na realidade não me ocorre nada de muito positivo sobre ele. É depressivo, centrado em si, incapaz de assumir responsabilidades pelos seus actos.

Resumindo, a história é boa, as personagens estão bem construídas. O que me deixou um travo amargo foi a repetição de ideias que acabam por não ser mais desenvolvidas a cada repetição e o uso excessivo do "se eu soubesse na altura o que ia acontecer...". Tirando isso, gostei. Não é o meu preferido dele, mas acho que tem coisas muito boas que fazem com que o recomende sem hesitações.

Boas leituras!

Excerto (pág. 156):
"«Claro que estás enganado. Olha para o país à tua volta: quem é que grita à porta dos tribunais hoje em dia? São as mulheres. Quem é que vai à frente das manifestações contra o governo? São as mulheres. Historicamente, elas tornam a repressão mais suave. Por um lado, e em certos contextos, são muito mais histriónicas; por outro têm a seu favor o poder da comoção, que lhes permite desafiar a autoridade.» Ouvi-a pigarrear. «Seria impensável que um polícia, hoje, se atrevesse a tocar numa mulher, que carrega um filho ao colo, pelo menos numa sociedade democrática. Ou talvez tenha sido isso que pensou Catarina e as outras mulheres que a acompanhavam: que, apesar de não conhecerem a democracia ou nunca terem ouvido falar nela, que nem uma besta como o tenente Carrajola se atreveria a tocar-lhe mesmo debaixo de um regime que usava a força como modo de repressão. Teoricamente, está correcto: é uma demonstração de força e, ao mesmo tempo, de fragilidade. Faz parte do reportório da resistência, em situações de manifestação, que os mais fracos tomem a liderança.»
«Enganaram-se.» rematei.
«E não nos enganamos todos?» (...) "

outubro 21, 2012

Hotel Memória - João Tordo


Título original: Hotel Memória
Ano da edição original: 2007
Autor: João Tordo
Editora: Quidnovi

"Onde termina a culpa e começa a expiação? Em Nova Iorque, um estudante apaixona-se por uma rapariga enigmática com quem vive uma intensa relação. Mas a morte desta, inesperada e violenta, enche o protagonista de culpa e remorso, lançando-o numa espiral descendente até o transformar num vagabundo, sem dinheiro e sem posses. Prisioneiro do Memory Hotel, um pardieiro na baixa de Manhattan que parece destinado a albergar criaturas perdidas como ele próprio, é contratado por Samuel, um milionário excêntrico, para procurar um fadista português emigrado para os Estados Unidos quarenta anos antes.
Tendo Nova Iorque como pano de fundo, dos anos sessenta até ao presente, e criando a figura inesquecível de Daniel Silva, o fadista que conquista Manhattan com o seu talento, Hotel Memória é, ao mesmo tempo um romance de mistério e uma aventura nos meandros da condição humana - uma história simultaneamente intrigante e comovente, que lida com os fantasmas da memória, da culpa e da redenção."

A leitura deste livro do João Tordo, autor que tanto gozo me tem dado descobrir, apanhou-me numa altura mais atribulada e por isso de menor disponibilidade mental para a leitura em geral. Senti que o li um pouco distraída da história que me estava a ser contada e não me consegui "entregar" à leitura como acho que o livro merecia. Com isto quero dizer que embora tenha gostado do livro fiquei com uma ideia demasiado vaga do mesmo e fui passando pelas páginas sem permitir que estas me marcassem de alguma forma. Este merecia uma leitura diferente e voltará a ser lido, estou certa disso.

Feita a ressalva, passemos à história. 
O protagonista da história é, mais uma vez, uma personagem sem nome. Neste livro o protagonista é um estudante, oriundo de uma pequena cidade europeia que deixou, rumo aos Estados Unidos, mais precisamente ruma à Big Apple, para prosseguir os estudos em Literatura. Este homem, surge-nos, desde logo, como alguém inseguro, tímido, com uma personalidade pouco vincada, que parece ter encontrado nos livros e na bolsa de estudo que conseguiu, uma forma de escapar a uma família aparentemente sufocante, que raramente é mencionada. Mesmo nos seus piores momentos a possibilidade de recorrer à família nunca é equacionada.
Tudo parece correr bem e, embora não seja a pessoa mais sociável do mundo, encontra em Manuel e em Kim, a rapariga por quem se apaixona, toda a companhia de que precisa.
A imagem que é passada dele é a de uma pessoa um pouco vazia de ideias próprias, sem grandes vivências próprias para além das que encontra nos livros. Kim, por outro lado surge-nos como uma miúda cheia de mistérios, de ar distante, que parece já ter percorrido um grande caminho para estar onde está. O nosso protagonista apaixona-se por ela logo no primeiro momento em que se cruzam e é uma paixão breve mas intensa, que acabam por viver.
Quando Kim morre de forma inesperada e violenta, a vida deste homem muda, literalmente da noite para o dia, iniciando-se aí uma espiral crescente de loucura, alheamento e solidão. Destroçado pela perda da mulher que amava, corroído pela culpa que não consegue evitar sentir pela sua morte, soterrado em memórias do que viveram juntos e do que esperava viver ainda com ela, torna-se um homem muito só, tristemente só... A solidão é, aliás, um sentimento ou uma condição, da qual sofrem muitas das personagens criadas por João Tordo.
Sem força anímica para dar uma volta à sua vida depois de Kim morrer, vira-se para a bebida e quando é obrigado a sair da residência universitária, por ter perdido a bolsa, chega a dormir na rua. Vai trabalhar em locais e para pessoas de índole duvidosa e acaba a viver no Hotel Memória, o único abrigo que consegue pagar. É no Hotel Memória que muitos dos acontecimentos têm origem e é para lá que tudo parecer tender. É lá que conhece Samuel e ouve falar pela primeira vez do fadista português Daniel Silva, um mito da cultura nova iorquina que, reza a lenda era dono de uma voz prodigiosa mas que nunca chegou aos ouvidos do grande público porque a única cópia da sua única gravação em estúdio desapareceu sem deixar rastro, tal como o seu autor.
Samuel é um multimilionário, mecenas da cultura, e procura o protagonista para que este o ajude a encontrar Daniel Silva. O que o levou a ele, quem é Daniel Silva e qual e o interesse de Samuel no mesmo, são apenas algumas das questões que vão sendo respondidas ao longo do livro e que ajudam o nosso protagonista a sair do estado de apatia em que se encontrava. 

É um livro muito bem escrito, com uma aura de mistério que João Tordo consegue transmitir muito bem. A história, à semelhança dos outros dois livros que li dele, é um pouco absurda, no sentido de não ser, de todo, uma história linear e que respeite uma estrutura narrativa típica dos livros de mistério ou mesmo dos policiais. As personagens são estranhas, inadaptadas e cheias de conflitos interiores. O protagonista vai sofrer, e muito até conseguir encontrar a paz interior necessária para prosseguir com a sua vida. Esta não é uma personagem particularmente simpática, é fraco, como se costuma dizer "não tem espinha dorsal", mas acaba por crescer, ao longo de livro, tornando-se mais merecedor da nossa empatia. Aliás, com excepção de Kim e Manuel, com quem foi fácil criar alguma empatia, nenhuma das outras personagens são simpáticas. Não quero dizer com isto que são más personagens, ou mal concebidas, antes pelo contrário, são antes seres humanos cheios de vícios, egoístas, que se movimentam num mundo cheio de tudo e ao mesmo tempo cheio de nada. 

É um livro relativamente pequeno, em número de páginas, mas é um que exige uma leitura mais cuidada, mais atenta para poder saborear e apreender tudo aquilo que está para além das palavras.

Gostei e recomendo!

Boas leituras!

Excertos:
"Acordado, concluía que a solidão não era um estado de espírito, mas a ausência dele - agora que não sentia nada, que não estava em estado nenhum, nem aqui nem ali, mas num mundo entre dois mundos, estava mais sozinho do que alguma vez estivera. Não era eu, nem era outrem; era um casulo disposto a ser preenchido, um espírito vazio ansiando por uma chegada."

"Deitado sobre a cama, esperando que Manuel regressasse, começava a entender o poder fascinante da memória sobre a minha vida - sobre qualquer vida. Tudo era memória. O presente era a memória de si próprio, e era possível existir apenas se pudéssemos conservar as recordações de momentos que nunca se repetiriam. E, no entanto, paradoxalmente, a memória era aquilo que de mais falível um homem possuía: nomes esquecidos ou trocados, caras que se confundiam com outras, lugares onde julgávamos já ter estado, um lápis desaparecido para sempre, os constantes deslizes que tornavam a realidade o lugar de um romance, de uma história, encantadora pela sua falibilidade, e não pela sua certeza."

agosto 20, 2011

O Bom Inverno - João Tordo


Título original: O Bom Inverno
Ano da edição original: 2010
Autor: João Tordo
Editora: Publicações D. Quixote

"Quando o narrador - um escritor frustrado e hipocondríaco - se desloca a Budapeste para um encontro literário, está longe de imaginar até onde a literatura o pode levar. Planeando uma viagem rápida e sem contratempos, acaba por conhecer um escritor italiano mais jovem, mais enérgico e muito pouco sensato, que o convence a ir com ele até Sabaudia, em Itália, onde o famoso produtor de cinema Don Metzger reúne um leque de convidados excêntricos numa casa escondida no meio de um bosque. O cinema não é, porém, a única obsessão de Don: da sua propriedade em Sabaudia levantam voo balões de ar quente estranhamente vazios, construídos como obras de arte por Andrés Bosco, um catalão cuja relação com o produtor permanece um enigma. Nada, aliás, na casa de Metzger é o que parece; e, depois de uma primeira noite particularmente agitada, o narrador acorda com a pior notícia possível: Don foi encontrado morto no seu próprio lago. Bosco toma nas suas mãos a tarefa de descobrir o culpado e de o castigar, isolando o grupo de convidados na casa e montando-lhes um verdadeiro cerco. Confrontados com os seus piores medos, assustados, frágeis e egoistas, estes começarão a atraiçoar-se e a acusar-se mutuamente, num pesadelo que parece só poder terminar quando não sobrar ninguém para contar a história."

Depois de ter lido, mais precisamente devorado, o As Três Vidas (comentado aqui) as minhas expectativas para uma próxima leitura de João Tordo eram, naturalmente, elevadas. Embora estas não tenham sido totalmente satisfeitas, também estão longe de terem sido goradas. O livro acabou por ser diferente do que eu estava à espera mas bom na mesma. :)

Este livro, à semelhança do As Três Vidas, é um daqueles livros em que não faz muito sentido discorrer acerca da história porque é complicado deixar alguma coisa de fora. Tudo tem um contexto e, ou se refere sem contextualizar, o que não faz muito sentido, ou corre-se o risco de transcrever o livro para aqui e, também não é isso que se pretende. ;)

Livros assim são os que mais me custam a opinar, porque acho que só lendo se tem uma ideia correcta do que são. São histórias, mas não são apenas um relato de uma sucessão de acontecimentos. João Tordo é definitivamente um excelente contador de histórias, tem uma imaginação e uma capacidade de interligar os acontecimentos que é fora de série. As personagens são todas únicas, cada uma com as suas particularidades e com a sua devida importância para a história. Tanto a história como as personagens estão extremamente bem construídas e a curiosidade pelo desenrolar dos acontecimentos é uma constante. O que também é constante é a dificuldade em catalogar o livro. É um policial, cheio de suspense, quase a roçar o terror. Está cheio de coisas bizarras, um pouco nonsense às vezes, com diálogos fantásticos, alguns com uma profundidade desconcertante e personagens sui generis que o autor explora e expõe tornando-as a todas, de diferentes formas, interessantes e psicologicamente densas, mesmo Don Metzger o morto que apenas conhecemos pelas palavras dos outros.

Acho que não vale a pena acrescentar mais nada porque para perceber só mesmo lendo. :)

Acrescento que, autores como João Tordo, Saramago, João Aguiar, José Luís Peixoto (só me saíram Jotas, as outras letras que me desculpem) e muitos outros, tornam o prazer da leitura, em português, num prazer que é diferente daquele que se sente com um livro traduzido. A forma como brincam com uma língua que é tão nossa torna os livros muito mais próximos e, isso é algo que começo a valorizar cada vez mais. A literatura portuguesa tem vindo a ganhar cada vez mais espaço nas minhas estantes.

Quanto a este livro em particular e ao autor em geral, só posso aconselhar a leitura, sem qualquer reserva.

Boas leituras! ;)


Excerto:
"Foi assim que o Bom Inverno começou. Foi em Sabaudia, foi há uns meses (embora me pareça ter sido há muito mais tempo), foi por acaso e, ainda assim, sempre que penso nas coisas que me aconteceram, coloco a possibilidade de não ter existido qualquer acaso e de tudo poder ser explicado para depois, com um sorriso e um abanar frouxo da cabeça, dizer a mim próprio que e escusado estar a adiantar-me porque o melhor é começar pelo início."

janeiro 13, 2011

As 3 Vidas - João Tordo

"Que segredos rodeiam a vida de António Augusto Millhouse Pascal, um velho senhor que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e um rol de clientes tão abastados e influentes como perigosos e loucos? São estes mistérios que o narrador - um rapaz de família modesta - procurará desvendar durante mais de um quarto de século, não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por aquela estranha personagem se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida.
Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta - época de todas as ganâncias - e cruzando a história sangrenta do século XX com a das personagens, As Três Vidas é, simultaneamente, uma viagem de autodescoberta através do "outro" e a história da paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Millhouse Pascal, e do destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do avô, inexoravelmente ligado à sorte de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da corda bamba em que se sustém."

Este livro é das melhores coisas que li nos últimos tempos! É o que me ocorre dizer agora que cheguei ao fim, não sem alguma pena por ter de o fechar e largar. João Tordo entrou, definitivamente no meu coraçãozinho de leitora e hei-de devorar tudo o que escreveu e escreverá. Muito, muito bom!
As leituras deste início de ano estão a ser tão boas, que até tenho medo de pegar no próximo... :) Só posso desejar que assim continue e que sejam sintomas de um ano cheio de boas descobertas literárias, mas não só, entenda-se.

Quanto ao livro o que será que posso dizer sobre ele? Bem, primeiro a história é fantástica e as personagens idem idem, aspas aspas. João Tordo consegue fazer-nos sentir medo, apreensão e desperta-nos de tal maneira a curiosidade e o interesse, que largar o livro é difícil. Para onde é que a história vai levar o narrador, de quem nunca sabemos o nome? Quem é Millhouse Pascal, e porque é que é procurado por homens tão perigosos e perturbados na sua Quinta do Tempo, uma propriedade perdida no Alentejo dos anos oitenta? Que papel teve Millhouse na história sangrenta do século XX? Quem é Artur, o jardineiro que raramente vemos a jardinar, e fiel empregado de Millhouse? Conseguirá o jovem sem nome, o rapaz que nunca cresceu, alcançar Camila do alto da sua corda bamba? Conseguirá alguma vez viver sem ela, esquecê-la e aos acontecimentos que marcaram a sua passagem pela Quinta do Tempo?
Perguntas e mais perguntas, mistérios e mais mistérios e uma imaginação ilimitada preenchem as páginas deste livro. Dizer mais seria redutor e, por isso fico-me por aqui, porque há livros assim, difíceis de explicar.

Recomendadíssimo! :)

"Foram horas longas. Assim que chegámos à estrada, Artur ligou o rádio, e a voz do locutor, intercalada com música, foi o único som que ouvimos durante grande parte do caminho. A certa altura o jardineiro começou a assobiar, acompanhando uma canção. Olhando o seu perfil, agarrado ao volante, de mãos longas e venosas, queixo proeminente e olhos vítreos, perguntei-me quantas vezes teria ele feito aquela mesma viagem. Tive, de repente, a terrível certeza de que Artur lidava frequentemente com a morte."

Nota: Este foi um dos dois livros ( o outro é a próxima leitura) que trouxe da Biblioteca e agora estava aqui a pensar que não o quero devolver... :/ Será que o posso "perder"? ;)