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outubro 11, 2011

Olhai os Lírios do Campo - Erico Veríssimo

Título original: Olhai os Lírios do Campo
Ano da edição original: 1938
Autor: Erico VeríssimoEditora: Edição "Livros do Brasil"

"Eugénio Fontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama.
Sensível, comovente, Olhai os Lírios do Campo é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida."

Olhai os Lírios do Campo é, como a sinopse diz, um convite à reflexão sobre os valores que realmente importam cultivar e passar às gerações futuras. É um livro sobre o amor e a influência que uma única pessoa pode ter na nossa vida, condicionando as nossas escolhas e tornando-nos, neste caso, melhores pessoas.

Eugénio cresceu numa família pobre, trabalhadora e humilde. Sempre foi um miúdo que se sentia de certa forma deslocado. Sentia vergonha do pai, que respeitava mas não amava, por este ser submisso e sem qualquer ambição. Nunca percebeu que para poder dar um futuro diferente aos filhos, ao pai de Eugénio não sobrava muito tempo para ambições próprias. A relação com a mãe, embora melhor não deixava de ser distante e, com o irmão Ernesto vivia num permanente conflito que acabou na saída deste de casa para nunca mais ninguém saber dele.

Eugénio cresce a querer ser médico para poder cuidar de gente como o pai, doente e sem condições para receber o melhor tratamento. Pretende melhorar a vida de toda a família. Quando se forma, Eugénio continua a querer melhorar a sua vida, mas já não inclui nos seus planos a família, da qual apenas lhe resta a mãe, nem tem qualquer pretensão de dedicar-se à medicina solidária.
Apaixonado por Olívia, acaba por se casar com Eunice por interesse, julgando vir a encontrar nessa união a felicidade e tudo aquilo que sempre sonhou.

Eugénio não é má pessoa, é covarde, sim, mas má pessoa não. Sofre de um complexo de inferioridade quase patológico e talvez venha daí a sua procura cega por uma vida diferente da dos pais. Uma vida submissa, de cabeça baixa, sentindo que não valiam nada, onde apenas existia espaço para o trabalho, sem direito a qualquer conforto ou bem-estar.

No entanto Eugénio não encontra a felicidade junto da riqueza, do luxo, das festas e das conversas cultas. É quando perde a pessoa que mais amou que ele se apercebe de que anda a desperdiçar a vida e decide mudar radicalmente de rumo. Eugénio encontra no trabalho honesto, na partilha com quem tem pouco, a humanidade que passou a vida toda a tentar afastar e encontra, finalmente, uma forma de ser feliz e, encontra sobretudo paz interior para poder apreciar tudo aquilo que na realidade sempre teve mas nunca soube apreciar. Finalmente pôde ser ele sem sentir pousados em si os olhos recriminatórios de uma sociedade à qual julgou querer pertencer.

Olhai os Lírios do Campo é um livro onde pouco ou nada acontece mas onde o pouco que acontece é muito e bastante para tornar este livro uma leitura obrigatória. :)
Confesso que estava à espera de outro tipo de livro. Do Erico Veríssimo apenas tinha lido o Um Certo Capitão Rodrigo - que faz parte da obra maior do autor, O Tempo e o Vento - já opinado aqui e, julguei que todos os livros dele seriam assim. Enganei-me mas não me senti enganada, antes pelo contrário. Gosto de autores que tenham a capacidade de escrever em vários registos e sempre com qualidade. E este é o caso de Erico Veríssimo, se não soubesse que os dois livros foram escritos pela mesma pessoa não teria forma de associar um ao outro. Viva a esquizofrenia dos escritores! :)

Recomendo como é evidente!

Boas leituras! ;)

Excerto:
"Os seus pensamentos eram um tumulto. Ele e o cachorro - as duas figuras centrais do Mundo naquele momento. O cachorro era mais bonito, mais bem cuidado e mais feliz do que ele. Eugénio Fontes, menos do que um cachorro. Gente pobre. Vida de cachorro. Meu pai e eu: olhos de cachorro. Cachorro escorraçado. (...) Ele fora tratado como um negro. Não era ninguém. Valia menos do que as formigas que caminhavam ali em cima das lajes, carregando folhas e gravetos, menos do que as formigas que o cachorro do inglês agora procurava lamber com a língua húmida e vermelha."

agosto 04, 2010

Um Certo Capitão Rodrigo - Erico Veríssimo

"«Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabe de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas...» E tudo mudou."

Primeiro livro que leio do Erico Veríssimo e posso dizer que gostei bastante. Todo ele está escrito num tom divertido, ligeiro e as personagens são cativantes e interessantes.

O Capitão Rodrigo Cambará chega a Santa Fé, montado no seu cavalo e com o seu violão a tiracolo. O Capitão, com cerca de 30 anos, é um homem da guerra, lutou em várias batalhas, contra os castelhanos, na defesa das fronteiras. É na guerra que se sente realizado, sentindo orgulho por todos os homens Cambará terem perecido guerreando e não na cama. Dono de uma personalidade explosiva, é divertido, mulherengo, conflituoso, irrequieto e muito charmoso, com um encanto a que poucos resistem. Ele chega a Santa Fé, em 1828, e decide ficar, mesmo contra a vontade da população que vê nele um perigo, sedutor e conflituoso, todos receiam que traga problemas ao lugar. Quanto mais oposição encontra mais vontade ele tem de ficar. Ao conhecer Bibiana Terra, filha de Pedro Terra, o Capitão encontra mais uma razão para ficar e, conquistar o coração daquela "potranquinha arisca" torna-se a sua obsessão.
Bibiana é a moça mais bonita de Santa Fé cobiçada por Bento Amaral filho do homem mais poderoso da vila, Ricardo Amaral, uma espécie de presidente a quem todos temem e obedecem. Rodrigo tem bom coração e descobre que o que sente por Bibiana é mais que desejo sexual, ama-a e deseja casar-se com ela e constituir família. O pai de Bibiana, Pedro Terra, homem experiente, é o único na vila que não sucumbe aos encantos de Rodrigo, sabe que homens como ele não assentam, não casam sem fazer as mulheres infelizes. Amando a filha acima de tudo e de todos, não consegue impedir que esta se case com Rodrigo. No primeiros tempos os dois são felizes, mas quando Bibiana engravida do primeiro filho, Rodrigo começa a sentir o peso da responsabilidade que é ter uma família e começa a sentir-se infeliz com a sua vida rotineira, atrás de um balcão a vender cebolas, sentindo falta das suas aventuras e de se deitar com todas as mulheres que deseja. Dando razão aos receios do sogro, Rodrigo começa a jogar, a beber e a ser negligente com a família.

Passam-se alguns anos e a situação política no Brasil torna-se cada vez mais instável. Após a independência do Reino de Portugal, declarada por D. Pedro I em 1822, existiam no Brasil algumas facções que eram contra o Império Brasileiro e queriam uma verdadeira separação entre o Brasil e Portugal. Não sendo inicialmente um movimento separatista, o conflito a que se chamou a Revolução Farroupilha, ocorreu na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e terminou na criação de um estado republicano e independente, a República Rio-Grandense.
O Capitão Rodrigo envolveu-se nesta batalha, lutando ao lado de Bento Gonçalves um dos líderes dos Farroupilhos. Liderou a invasão de Santa Fé e acaba morto quando decide tomar pela força o casarão de Ricardo Amaral, fiel ao Império. O Capitão Rodrigo Cambará tem em Santa Fé a sua derradeira batalha e morre como sempre desejou: a combater. No entanto, como Bibiana diz, um homem como o Capitão Rodrigo nunca morre e a verdade é que, contra todas as expectativas ele nunca a abandonou, a não ser para combater e regressou a casa, para morrer, mas regressou.

Descobri, depois de ter lido este livro, que ele faz parte de uma obra maior, O Tempo e o Vento, uma trilogia composta por: O Continente, O Retrato e O Arquipélago. Obra maior da literatura brasileira que conta a história do Estado do Rio Grande do Sul. Este Um Certo Capitão Rodrigo é, pelo que percebi, um capítulo ou uma parte do primeiro romance, O Continente. Fiquei muito curiosa para ler a restante obra. Quero muito conhecer a história da família Terra, principalmente a de Ana Terra, a mãe e avó de Pedro e Bibiana Terra, respectivamente. E gostaria de continuar a seguir a história dos filhos do Capitão Rodrigo. Além disso gosto muito desta parte da história do Brasil. :) Não sei é se vai ser muito fácil comprar os livros por cá... :)

Recomendo este livro, sem reservas!

Boas leituras! :)

Nota: Existe, pelo menos uma adaptação desta obra, O Tempo e o Vento (ver excerto aqui), produzida pela Tv Globo e estreada em 1985.