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agosto 23, 2020

O Nosso GG em Havana - Pedro Juan Gutiérrez

Título original: Nuestro GG en la Habana
Ano da edição original: 1984 
Autor: Pedro Juan Gutiérrez
Tradução: Magda Bigotte de Figueiredo
Editora: Publicações Dom Quixote

"O escritor britânico Graham Greene chega a Havana em Julho de 1955 e mergulha num mundo trepidante e vertiginoso, onde confluem artistas porno, travestis, agentes do FBI e do KGB, caçadores de nazis e a mafia italiana de Nova Iorque.
Baseado em factos reais, este romance recria um momento apaixonante, e até agora desconhecido, da história cubana mais recente. É, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a arte da escrita e os avatares do ofício de escritor."

Foi muito bom regressar a Pedro Juan Gutiérrez. Acho a escrita dele muito envolvente e toda a dinâmica cubana muito divertida, embora os temas subjacentes não sejam motivo para diversão.
Em O Nosso GG em Havana, o escritor Graham Greene vê-se, involuntariamente envolvido no submundo de Havana em 1955, quando descobre, nas primeiras páginas dos jornais, que se encontra preso em Havana, em circunstâncias no mínimo embaraçosas para si. 
Em Havana, em 1955, coexistiam, com diferentes interesses, agentes do FBI, do KGB, caçadores de nazis e a mafia italiana. E todos eles parecem interessados em que Graham Greene dê uma ajuda às suas causas. 😊

É um livro pequenino, que se lê numa tarde de praia, ou no jardim. E, embora seja um livro pequenino, com tão poucas páginas, consegue ser um livro divertido, com as habituais referências sexuais, onde todo o ambiente vivido em Havana salta da páginas e sentimos o calor denso nas casas, ouvimos a música dos cafés e quase conseguimos sentir o cheiro das ruas de Havana.
Acho que Pedro Juan Gutiérrez não é um escritor que agrade a todos, mas acho que só se o lermos teremos a certeza se se entranhou ou se se estranhou. :) No meu caso entranhou-se logo no primeiro livro que li dele e nunca o estranhei.
Procurem-no nas estantes das vossas bibliotecas e dêem-lhe uma oportunidade. Acho-o uma óptima companhia.

Boas leituras!

Excerto (pág. 16):
"Os cartazes apareciam cobertos de fotografias de homens e mulheres nuas, exibindo a sua beleza. As arcadas tinham lâmpadas coloridas. GG atravessou para o passeio em frente para observar o ambiente antes de entrar na sala. Havia putas baratas e sujas, vendedores de bagatelas, barracas de fritos, gente, ruído, música, luzes coloridas. Centenas de chineses, contaminados pelos cubanos haviam perdido a sua tradicional compostura, lenta, silenciosa e comedida. Gritavam, vociferavam, apreciavam a mercadoria, moviam-se rápida e incessantemente. Havia um cheiro enjoativo a fruta podre e a fritos de tasca ordinária. Duas putas aproximaram-se dele sorrindo. Suadas e sujas, cheiravam mal. Uma tinha os dentes estragados pelas cáries. Mal olhou para elas e rapidamente se escapuliu. Atravessou de novo a Rua Zanja. Comprou bilhete. Cobraram-lhe um dólar e cinquenta, mais do que o preço real, e entrou na sala."

março 12, 2010

Carne de Cão - Pedro Juan Gutiérrez

"Sentia dentro de mim um odioso cocktail de violência, agressividade, luxúria, sadismo, necessidade de álcool. Mas também sentia que o meu coração se endurecia. Cada dia mais e mais. Era o que queria: ter um coração de pedra. Assim diz o protagonista de Carne de Cão, que pretende ganhar distância, solidão e silêncio interior. Tenta afastar-se, fugir do descalabro e da loucura quotidiana de uma vida à beira do abismo. Mas à sua volta tudo se desmorona como um furação tropical insaciável e voraz que desgasta e corrói o nosso homem. Carne de Cão é provocadoramente autobiográfico e em carne viva. Como nos seus livros anteriores, aqui o escritor cubano faz um striptease enquanto sorri ironicamente e troça de tudo e de todos. Uma obra simultaneamente escrita com um ritmo desesperado e com mão de mestre."

Este é o segundo livro que leio deste escritor, o primeiro foi o Trilogia Suja de Havana, e tal como com primeiro, voltei a ter alguma dificuldade em começar a leitura. Com o Trilogia Suja de Havana cheguei mesmo a pô-lo de lado, até porque não sou fã de contos mas, quando voltei a ele encontrei algum sentido e acabei por gostar bastante dele. Não são, no entanto, nem contos nem livros comuns os que Pedro Juan Gutiérrez escreve.

Este Carne de Cão é o último de cinco livros que Pedro Juan Gutiérrez escreveu sobre Cuba e as personagens bizarras, ou não, que habitam Havana e arredores. Fecha-se desta forma o que o autor chamou de o "Ciclo de Havana Central".
Talvez devesse ter lido estes livros na sequência certa, porque senti um salto muito grande entre o primeiro e o último, a personagem (supostamente o próprio autor) aparece aqui tão deprimido, tão amargurado e tão desencantado que me fez alguma confusão.
A semelhança do Trilogia Suja de Havana, o livro tem uma forte carga sexual, com mulheres tentadoras e desinibidas. A linguagem do escritor é crua, directa sem pudores e, se acreditarmos que escreve sobre si próprio, as situações acabam por nos parecer algo insólitas. :) Mas nem só de sexo vive o autor (aparentemente o clima de Cuba torna as pessoas ninfomaníacas) aliás, é bem provável que o sexo seja um pouco como o rum, que todos bebem em grandes quantidades, ajuda as pessoas a esquecerem os problemas e a vida miserável que levam. Bebem até à inconsciência tentando enganar a solidão e o desgosto. Pedro Juan Gutiérrez descreve-nos um país pobre, miserável mesmo e cada vez mais violento. Embora eu associe Cuba à cor, à música e à alegria das Caraíbas e o autor nos fale de um calor insuportável, do mar e da praia o cenário que imagino é cinzento e triste. As pessoas estão tão cansadas e deprimidas com a vida, que a paisagem envolvente como que se esbate. De certa forma é perturbadora esta imagem de Cuba, embora não totalmente inesperada mas, a ideia que ele passa e, sendo este o último livro da série, é que o país caminha para o suicídio lento, com o povo a perder o sentido de humor e a capacidade de enfrentar os problemas a rir. Não deixa de ser triste...

Embora eu não goste muito de ler contos, porque sou demasiado cusca e quero sempre saber mais, a verdade é que os de Pedro Juan Gutiérrez estão todos interligados e acaba por ser um livro "normal" com capítulos muito pequeninos. :)
Para quem possa sentir-se melindrado com alguma linguagem mais... hum, digamos que mais sexualmente explícita, este não será um livro aconselhável. Caso contrário poderá ser uma leitura interessante, embora a ache mais direccionada para leitores masculinos. Fez-me lembrar um pouco a série televisiva Californication com o David Duchovny, muitas mamocas e afins... Enfim, mais ao gosto dos homens. :)

Concluindo, com mamocas ou sem elas, vou querer ler os que me faltam deste "Ciclo de Havana Central". A escrita dele é divertida e até a linguagem que pode parecer, por vezes, exagerada e deslocada, acaba por ser estranhamente acertada. :)