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janeiro 22, 2012

[Filme] Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres

Título Original: The Girl With The Dragon Tattoo
Realização: David Fincher
Duração: 158 min
Origem: USA

Sinopse:
Mikael Blomkvist é um jornalista de meia-idade, divorciado, que tem passado a sua vida a denunciar a corrupção do mundo dos negócios de Estocolmo na sua revista Millennium.
Quando Henrik Vanger, um poderoso empresário, o convida para um trabalho de investigação, Mikael tem nas mãos material irrecusável. Mas para sua surpresa descobre que, desta vez, esse material não tem nada a ver com escândalos financeiros, mas com o desaparecimento da sobrinha do empresário, Harriet, 36 anos antes, num encontro de família. Com a ajuda da sua nova e rebelde parceira, Lisbeth Salander, uma hacker de alto nível com problemas de comportamento social, irão desvendar muitos segredos da família de Henrik, até então escondidos na penumbra.


Fui ontem ver a versão de David Fincher para a sobejamente conhecida história de Stieg Larsson, Millenium I - Os Homens que Odeiam as Mulheres e gostei bastante.
Já vi os três filmes suecos de que gostei bastante mas acho que este do David Fincher consegue captar melhor a essência do livro, sendo-lhe mais fiel e fiquei com a sensação de que conseguiu explicar melhor todos os acontecimentos. Digo isto porque, vi todos os filmes com o meu mais-que-tudo, que não leu os livros e que neste, pese embora já ter visto os filmes suecos, não houve necessidade de o enquadrar com pormenores do livro, o que acabou por acontecer depois de vermos a versão sueca dos mesmos.

Gostei da escolha dos actores e, embora  Noomi Rapace como Lisbeth Salander seja difícil de igualar, a actriz escolhida por Fincher para este papel, Rooney Mara, não deixou mal a Lisbeth. Embora num registo um pouco diferente porque a Lisbeth de Rooney Mara tem uma aparência mais frágil que a de Noomi Rapace, ambas apanharam muito bem a personalidade da Lisbeth de Stieg Larsson.
Daniel Craig foi também uma boa escolha para o Mikael Bloomkvist, talvez até mais credível que o Michael Nyqvist, da versão sueca.

Embora o filme tenha sido feito a contar com as adaptações dos dois últimos livros da trilogia, não sei se este será o género de filme que o público americano aprecie e valorize de forma a que seja possível a realização/produção dos outros dois filmes. Mas este é, por si só, um filme que vale a pena ver, independentemente de vir a ter continuação ou não.

Deixo-vos os trailer da versão David Fincher:


E o trailer da versão de Niels Arden Oplev, Män Som Hatar Kvinnor:


maio 29, 2011

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar - Stieg Larsson

Título original: Luftslottet Som Sprängdes
Ano da edição original: 2007
Autor: Stieg Larsson
Tradução do Inglês: Mário Dias Correia
Editora: Oceanos

Contém spoilers
"Lisbeth Salander sobreviveu aos ferimentos de que foi vítima, mas não tem razões para sorrir: o seu estado de saúde inspira cuidados e terá de permanecer várias semanas no hospital, completamente impossibilitada de se movimentar e agir. As acusações que recaem sobre ela levaram a polícia a mantê-la incontactável. Lisbeth sente-se sitiada e, como se isto não bastasse, vê-se ainda confrontada com outro problema:o pai, que a odeia e que ela feriu à machadada, encontra-se no mesmo hospital com ferimento menos graves e intenções mais maquiavélicas...
Entretanto, mantêm-se as movimentações secretas de alguns elementos da Säpo, a polícia de segurança sueca. Para se manter incógnita, esta gente que actua na sombra está determinada a eliminar todos os que se atravessam no seu caminho. Mas nem tudo podia ser mau: Lisbeth pode contar com Mikael Blomkvist que, para a ilibar, prepara um artigo sobre a conspiração que visa silenciá-la para sempre. E Mikael Blomkvist também não está sozinho nesta cruzada: Dragan Armanskij, o inspector Bublanski, Anika Gianninni, entre outros, unem esforços para que se faça justiça. E Erika Berger? Será que Mikael pode contar com a sua ajuda, agora que também ela está a ser ameaçada? E quem é Rosa Figueirola, a bela mulher que seduz Mikael Blomkvist?"
Fim dos spoilers. ;)

Chega assim ao fim a Trilogia Millennium. Trilogia que teria sido decalogia não tivesse o autor, Stieg Larsson, falecido antes de terminar o quarto dos dez livros que tinha planeados com Lisbeth e Mikael Blomkvist. Aqui entre nós que ninguém nos ouve, por muito que tenha gostado da Lisbeth e companheiros, dez volumes teriam sido um exagero. Achei até que este terceiro poderia ter sido bem mais pequeno... :)

Este terceiro volume começa exactamente onde o anterior acabou. Lisbeth, depois de no segundo volume ter regressado do mundo dos mortos, dá entrada no hospital em estado considerado muito grave. Com uma bala alojada no crânio, os médicos não se atrevem a avançar prognósticos. No mesmo helicóptero que a levou ao hospital viaja o homem que a pôs entre a vida e a morte, também ele bastante ferido, e que tem sido a causa de todos os problemas que Lisbeth já enfrentou na vida. Irá Lisbeth recuperar, sem sequelas, dos ferimentos? Será essa a única preocupação de Lisbeth enquanto estiver internada no hospital? Ou o homem que quase a matou vai, mais uma vez tentar acabar com a vida de Lisbeth?
Enquanto Lisbeth, no hospital, luta para sobreviver, cá fora Mikael Blomkvist continua a trabalhar num artigo que vai ajudar a ilibar Lisbeth de todas as acusações que pendem sobre ela e que terá de enfrentar assim que estiver em condições de receber alta médica. O artigo em que Mikael Blomkvist está a trabalhar envolve pessoas que pertencem à Polícia Secreta sueca, a Säpo, e que vão fazer tudo para impedir qualquer investigação sobre os podres da Companhia. Portanto, Lisbeth está entre a vida e a morte no hospital, Mikael e todos na redacção da Millennium são ameçados e perseguidos por causa do artigo e, para ajudar à festa, Erika Berger tem à perna um tarado qualquer que a persegue e ameaça. Um livro cheio de coisas boas, portanto. :)
Sobre a história mais não digo sob pena de spoilar toda a trilogia. :) Cuidado que a sinopse não tem e que pode, inclusive, estragar algumas revelações do segundo volume, para quem ainda não o leu. Para além de ser uma sinopse que levanta falsas questões, mas isso é outra história. :)

Confesso que este último livro não me convenceu, achei-o demasiado extenso e a história não foi exposta de uma forma cativante, Lisbeth quase não aparece e Mikael, aparecendo mais, pareceu-me menos interessante que nos primeiros dois livros e é, neste livro, até um pouco irritante. As histórias que giram à volta da conspiração contra Lisbeth têm algum interesse, mas estão de tal forma rodeadas de informação secundária que parece que estamos a ler um livro sobre a história da polícia secreta sueca. Este livro pedia acção e um ritmo mais acelerado, o que nos outros livros não me fez assim tanta falta. No fundo acho que este livro poderia ter ganho se fosse mais sucinto e mais objectivo. Stieg Larsson quis falar de tanta coisa, introduziu tantas personagens, que a história de Lisbeth perdeu alguma consistência.
Para além disso a história do tarado que persegue Erika Berger e todos os outros dilemas que esta atravessa ao longo deste livro não me interessaram por aí além e senti-os apenas como distracções. Erika sempre me foi algo indiferente, pelo que o seu maior protagonismo neste livro fez com que a minha leitura se ressentisse um pouco. Para além disso, Mikael Blomkvist neste livro pareceu-me demasiado convencido, muito presente na história mas com uma presença muito superficial, muito pouco emotiva e sem empatia com as outras personagens. Mais uma consequência da ânsia do autor de falar de tudo e mais alguma coisa, tornando a história demasiado tentacular, notando-se que sentiu alguma dificuldade em fechar todas as frentes que abriu.

Enfim, o livro tem coisas boas, como é óbvio, tudo o que me fez gostar e querer ler a trilogia está também neste terceiro volume, mas a verdade é que neste o equilíbrio entre a história central e todos os temas paralelos não foi tão bem conseguido. Não é mau, mas podia ser bem melhor. :)

Recomendo a trilogia mas, como já o referi antes, nunca ao preço de editora que sobrevaloriza e muito estes livros. Leiam se tiverem oportunidade, mas se não o fizerem não vem daí mal ao mundo! :)

Boas leituras!


Excerto:
"Faltava pouco para a uma e meia quando Hanna Nicander, uma das enfermeiras, acordou o Dr. Anders Jonasson.
- Que se passa? - perguntou ele, ainda meio atordoado.
- Helicóptero a chegar. Dois pacientes. Um homem já de idade e uma rapariga; ela com ferimentos de bala.

- Já vou, já vou - resmungou Jonasson, cansado."


Deixo-vos os trailer do terceiro filme:


Não posso deixar de expressar a minha estranheza por Stieg Larsson descrever o Blomkvist como um homem extremamente bem parecido e a quem as mulheres dificilmente resistem. Tendo visto os filmes é inevitável que a imagem de Blomkvist que eu tenho na minha cabeça seja a do actor que o representa no filme e, não querendo discutir gostos, que todos sabemos que não se discutem, a verdade é que o actor está longe de ser irresistível! Tirando a imagem dos actores que são diferentes da imagem que Stieg Larsson transmitiu nos livros, os filmes estão bastante fieis a eles e vale a pena ver, principalmente porque a interpretação da actriz Noomi Rapace, que faz de Lisbeth Salander, é digna de ser ver. :)

maio 15, 2011

A Rapariga que Sonhava Com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo - Stieg Larsson

Título original: Flickan Som Lekte Med Elden
Ano da edição original: 2006
Autor: Stieg Larsson
Tradução do Inglês: Mário Dias Correia
Editora: Oceanos

"Depois de uma longa estada no estrangeiro, Lisbeth Salander regressa à Suécia, cede o pequeno apartamento onde vivia à sua amiga Miriam Wu, e instala-se luxuosamente numa zona nobre da cidade. Pela primeira vez na vida é economicamente independente, mas cedo percebe que o dinheiro não é tudo: não tem amigos, nem família e está só. Mikael Blomkvist, que tentara contactar Lisbeth Salander durante meses, sem sucesso, desiste e concentra-se no trabalho. À Millennium chegou material para uma notícia explosiva: o jornalista Dag Svensson e a sua companheira Mia Johansson entregam na editora dois documentos que provam o envolvimento de personalidades importantes numa rede de tráfico de mulheres para exploração sexual. Quando Dag e Mia são brutalmente assassinados, todos os indícios recolhidos no local do crime apontam um suspeito: Lisbeth Salander. O seu passado sombrio e pouco convencional não abona a favor da sua imagem e a polícia move-lhe uma implacável perseguição. Lisbeth Salander, que está disposta a romper de vez com o passado e a punir aqueles que a prejudicaram, tem agora de provar a sua inocência e só uma pessoa parece disposta a ajudá-la: Mikael Blomkvist que, apesar de todas as evidências, se recusa a acreditar na sua culpabilidade."

E Lisbeth Salander volta, neste segundo livro da trilogia, para me fazer companhia. Companhia estranha, é certo que por vezes perturbadora, mas essencialmente boa companhia. Lisbeth continua, neste livro, a ser uma personagem que me fascina. Gosto realmente desta rapariga! :)

Em A Rapariga que Sonhava Com Uma Lata de Gasolina e um Fósforo (mais um título muitíssimo bem escolhido), encontramos Lisbeth multimilionária, depois de no livro anterior ter desviado uns quantos milhões ao corrupto Wennerström, que regressou recentemente à Suécia e não sabe muito bem como se adaptar à sua nova condição de muito rica. A Lisbeth que encontramos está mais madura e aparentemente mais equilibrada e serena. Depois de um ano fora, ela não é esperada por ninguém, as poucas pessoas que se preocuparam com o seu desaparecimento súbito, já haviam desistido de a procurar e seguiram com as suas vidas. Foi o caso de Mikael Blomkvist, que depois de várias e infrutíferas tentativas para a encontrar se rendeu à evidência de que ela não desejava ser encontrada por ninguém, muito menos por ele.
É penosa a solidão e o desamparo de Lisbeth, na fase inicial do livro, mais ainda porque é uma solidão evitável, uma vez que existe quem se preocupe e goste dela.

As vidas de Mikael e Lisbeth voltam a cruzar-se quando Dag Svensson e Mia Johansson são assassinados e a principal suspeita é Lisbeth.
Dag era um jornalista que estava a escrever um livro, a ser editado pela Millennium, sobre o tráfico de mulheres, algumas menores, na Suécia e Mia, namorada de Dag, estava em vias de terminar a sua tese de doutoramento sobre o mesmo tema. Ambos pretendiam revelar e expor publicamente figuras importantes da vida política e social sueca, envolvidas no tráfico de mulheres e comércio sexual das mesmas. Mikael Blomkvist vê-se de repente envolvido em mais uma corrida contra o tempo, enquanto tenta provar a inocência de Lisbeth e ao mesmo tempo encontrar o verdadeiro responsável pelo crime que vitimou os seus dois amigos. O historial de violência e o internamento de Lisbeth numa clínica psiquiátrica, que foi a sua casa na adolescência, não vão facilitar a tarefa de Mikael, muito menos com a polícia e a opinião pública sueca a considerarem-na uma sociopata tresloucada que nunca deveria ter tido alta da clínica. Enquanto isso, Lisbeth vai fazendo a sua própria investigação mais com o intuito de encontrar Zala, um nome ligado ao seu passado e que surgiu associado ao tráfico de mulheres que Mia e Dag investigavam, do que para provar a sua inocência. Chega inclusive a afirmar que não é inocente, isto porque "Não há inocentes. Há apenas diferentes graus de responsabilidade."
Lisbeth não tem, nem nunca teve, uma vida fácil e neste livro ela inicia uma viagem ao passado para o resolver definitivamente. Deixar de fugir ou de se esconder deixou de ser opção. Conhecendo Lisbeth, sabemos de antemão que as coisas não vão correr bem para muita gente e a própria Lisbeth irá passar por situações de vida ou morte.
E acho que não vale a pena dizer mais nada acerca da história do livro, até porque o giro é ser-se surpreendido. :)

À semelhança do Os Homens que Odeiam as Mulheres, já lido e comentado aqui, Stieg Larsson não tem qualquer pressa em avançar para a acção, perde-se em pormenores e histórias paralelas, o que provavelmente acaba por afastar alguns leitores menos pacientes. E mesmo o mais pacientes (caso da que aqui vos escreve) por vezes sentem alguma impaciência pela calma que define todo o livro, pelos desvios que distraem e que nos afastam da acção e da vida das personagens. No entanto confesso que, depois de lido, a impressão que fica é a de que acabámos de ler um livro com mais de 600 páginas, sem qualquer esforço e as personagens eram reais e estiveram sempre muito próximas. E isso é positivo. :)
É claro que existem passagens do livro que são perfeitamente dispensáveis, como a da descrição de um Mikael deslumbrado com a máquina de café topo de gama que Lisbeth tem no novo apartamento. Dispensável é também a muita publicidade que se faz ao IKEA e à Apple e passava bem sem saber que Bublanski e Modig (polícias destacados para a investigação criminal) foram ao Burger King e comeram um Whooper e um Veggie Burger, respectivamente. Enfim, distracções dispensáveis mas que não pesam muito na opinião final acerca do livro.

Gostei! E gostei porque está bem escrito, porque gosto muito da forma como o autor vai construindo a história e da forma como no final as peças do puzzle encaixam na perfeição. Porque e, mais uma vez o tema é a violência sobre as mulheres e nunca é demais alertar para qualquer tipo de violência, quer seja sobre as mulheres quer seja sobre homens ou crianças. Neste livro agradou-me especialmente que o desenrolar da história fosse credível, coisa que nos livros do género não é muito comum. Excepção feita para a sensação de que a Suécia só pode ser minúscula, porque toda a gente se conhecia... :) Gostei que me permitisse ter uma imagem da Suécia e dos suecos mais realista, atenuando um pouco a imagem de que os países nórdicos são perfeitos e infalíveis. Mas o que me faz dizer que gostei sem grandes hesitações, é a personagem da Lisbeth. Gosto dela, e sei que é das poucas personagens que me vai ficar pela memória, quando tiver acabado de ler a trilogia. Aliás, uma das críticas menos boas que posso fazer ao livro é mesmo ter achado que, sendo um livro centrado nela, a presença dela poderia ter sido mais evidenciada e explorada.
Finalmente, gostei porque mesmo já tendo visto os filmes e, portanto já conheça o fim da trilogia, o prazer da leitura não foi muito afectado e, só posso imaginar e invejar, confesso, o friozinho na barriga que certas passagens mais tensas poderão provocar. Mesmo nestas condições, gostei do livro e mesmo nestas condições vou ler já a seguir o terceiro e último livro da trilogia.

Posto isto, só posso dizer para lerem! ;)


Excerto:
"Estava deitada de costas, presa por correias de couro à armação de ferro da cama estreita. As correias, cruzadas, apertavam-lhe o peito, e tinha as mãos algemadas aos lados do catre.
Havia muito que desistira de tentar libertar-se. Estava acordada, mas tinha os olhos fechados. Se os abrisse, ver-se-ia, envolta em escuridão; a única luz era uma débil risca amarelada que se filtrava por cima da porta. A boca sabia-lhe mal e ansiava por poder lavar os dentes."

Trailer do filme baseado no segundo volume da trilogia e bastante fiel à história:

agosto 13, 2010

Os Homens Que Odeiam As Mulheres (Millennium I) - Stieg Larsson

"O jornalista de economia Mikael Blomkvist precisa de uma pausa. Acabou de ser julgado por difamação ao financeiro Hans-Erik Wennerström e condenado a três meses de prisão. Decide afastar-se temporariamente das suas funções na revista Millennium. Na mesma altura, é encarregado de uma missão invulgar. Henrik Vanger, em tempos um dos mais importantes industriais da Suécia, quer que Mikael Blomkvist escreva a história da família Vanger. Mas é óbvio que a história da família é apenas uma capa para a verdadeira missão de Blomkvist: descobrir o que aconteceu à sobrinha-neta de Vanger, que desapareceu sem deixar rasto há quase quarenta anos. Algo que Henrik Vanger nunca pôde esquecer. Blomkvist aceita a missão com relutância e recorre à ajuda da jovem Lisbeth Salander. Uma rapariga complicada, com tatuagens e piercings, mas também uma hacker de excepção. Juntos, Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander mergulham no passado profundo da família Vanger e encontram uma história mais sombria e sangrenta do que jamais poderiam imaginar."

Finalmente li o primeiro volume da saga Millennium do Stieg Larsson. Este livro já estava há algum tempo na minha estante, intocável. Fui adiando a leitura porque o burburinho à volta desta trilogia era ensurdecedor e a verdade é que não gosto de ler os livros que toda a gente anda a ler. Gosto de esperar uns meses, às vezes anos para os ler sem a excitação que por vezes acompanha estes fenómenos literários. Com este a oportunidade de o comprar mais barato fez com que chegasse mais cedo cá a casa. :)

Os Homens Que Odeiam As Mulheres não é um policial comum, tem um ritmo mais lento, onde os pormenores e detalhes são importantes e onde as personagens se querem bem desenvolvidas, sem se tornarem transparentes para o leitor. Não sabemos tudo sobre as suas vidas porque, como Lisbeth Salander diz, toda a gente tem segredos. É assim que tem de ser para que as sintamos mais próximas e mais reais e não apenas personagens de uma história grotesca e violenta passada na Suécia. Desta forma criamos empatia com os protagonistas da história, Mikael Blomkvist, um jornalista de economia conhecido pelas suas investigações sobre a corrupção no mundo empresarial e, Lisbeth Salander uma rapariga com uma inteligência muito acima da média, socialmente inadaptada e uma hacker excepcional.
Inicialmente as histórias destas duas personagens correm paralelas. De um lado temos Mikael Blomkvist, um dos sócios de revista Millennium, acabado de ser condenado por difamação e a precisar de uma pausa para se recompor e preparar uma estratégia que lhe permita recuperar a, até então, imaculada reputação jornalística. Quando Henrik Vanger o procura para que este investigue o desaparecimento de Harriet Vanger, sobrinha-neta de Henrik, desaparecida há mais de quarenta anos, Mikael aceita. A proposta é financeiramente tentadora mas o principal incentivo são os factos sobre Weennerström que Henrik alega ter em seu poder e que poderão ser muito úteis a Mikael. Desta forma, Mikael concorda em mudar-se para a ilha de Hedeby, onde o clã Vanger reside. Viverá lá durante um ano, durante o qual deverá investigar as suspeitas de Henrik, de que Harriet terá sido assassinada por um dos membros da família Vanger. Henrik deposita todas as suas esperanças em Mikael, pretende que este traga uma nova visão ao mistério, pois esta será sua derradeira tentativa para desvendar o súbito desaparecimento de Harriet, algo que se tornou numa obsessão e que o atormenta há demasiado tempo.
Quando o livro começa, Mikael nada sabe de Lisbeth Salander, nunca falou ou sequer se cruzou com ela. No entanto, Lisbeth sabe tudo acerca de Mikael. Mais do que ele poderia alguma vez imaginar. Lisbeth trabalha com investigadora freelancer para uma empresa de segurança, a Milton Security, e é a melhor que eles têm. Não há nada que ela não consiga descobrir acerca de uma pessoa. Mikael foi mais um trabalho, encomendado por Henrik Vanger, com o intuito de saber se ele seria de confiança. Lisbeth é uma rapariga com um passado obscuro e doloroso. Tem a mãe no asilo, alheada da realidade e que a confunde constantemente com a irmã. Lisbeth, embora adulta, está sob custódia do estado sueco, por ser considerada violenta e socialmente incapaz de tomar conta da sua vida, tendo-lhe sido designado um tutor. Durante a investigação de Mikael os caminhos dos dois acabam por se cruzar e ela acaba por ajudá-lo na missão que este tomou em mãos. Mikael foi a única pessoa que Lisbeth deixou entrar na sua vida, surpreendendo-se a si própria com a facilidade com que confiou instantaneamente nele. Juntos formam uma dupla improvável, porque Mikael, embora descontraído, é orgulhosamente correcto e honesto e, Lisbeth tem uma noção ligeiramente diferente dos limites legais e morais impostos por uma sociedade a que não sente pertencer. A verdade é que acabam por formar uma dupla imbatível! :)

Não vou esmiuçar o mistério porque seria impossível fazê-lo sem desvendar pormenores que poderiam revelar demais. Apenas digo que a família Vanger é tudo menos convencional e tem uma quantidade generosa de esqueletos cabeludos no armário. E estes esqueletos são fruto de psicopatias assustadoras e muito, muito feias. Mikael não poderia nunca imaginar que se estava a meter com uma gente tão doentia.
Acrescento apenas que o título, Os Homens Que Odeiam As Mulheres, é um título mais do que adequado, pois o livro fala muito de violência contra as mulheres. Com descrições nada agradáveis de ler, mas que fazem parte da história e que são importantes para criar o ambiente de horror que se pretende. Pessoalmente não achei que fossem cenas gratuitas, apenas postas para chocar. Acho que fazem sentido, mas que não são agradáveis de ler, lá isso não são.

Apercebo-me, ao reler o que já escrevi, que ainda não disse se gostei do livro ou não. Confesso que tive algumas dificuldade em opinar sobre este Millennium I, exactamente porque tenho sentimentos ambíguos relativamente a ele. Acho que gostei, mas ao mesmo tempo estava à espera de mais. Gostei da escrita, nada de extraordinário, mas eficaz. Gostei da forma como a história foi contada, da maneira como as peças do puzzle se foram juntando e não adivinhei o final, o que é bom. Adorei a personagem da Lisbeth e estou curiosíssima para saber mais sobre ela no próximo livro. Gostei do Mikael, gostei da sua personalidade, é quase impossível não simpatizar com ele porque é muito transparente e muito honesto em todas as coisas que faz e diz e, por isso, faz sentido que seja uma personagem mais estanque, que não evoluiu quase nada ao longo do livro. O Mikael que desce as escadas do tribunal nas primeiras páginas é igual, na sua essência, ao Mikael que temos no fim do livro.
No entanto, houve uma ou outra coisa de que não gostei assim tanto, como a história paralela sobre o Mikael e o Wennerström. Muita finança e conversa empresarial que têm o dom de me desligar o cérebro. :| Foi com algum esforço que li algumas dessas partes. Não sei se esta parte da história será importante para os outros livros, mas neste serviu apenas para nos ajudar a conhecer o carácter do Mikael e para o escritor dar uma alfinetada na alta finança e na corrupção que grassa no meio. Como bom sueco que era, a preocupação com estes assuntos, e outros, está bem patente. :)
O mistério do desaparecimento da Harriet foi relativamente interessante, com reviravoltas e descobertas por vezes rebuscadas, que só são problemáticas se não forem fãs do género policial/horror, que é o meu caso, em que acho tudo sempre pouco verosímil. No entanto neste livro isso nem me incomodou muito, consegui manter um espírito mais aberto relativamente a esses pormenores. Afinal de contas fazem parte do género e se lá não estivessem o livro não teria fim, porque seria impossível resolver o mistério. :)

Concluindo, tinha algumas expectativas para este livro mas, como é raro adorar, venerar ou vibrar com policiais e livros de horror, não seria de esperar que este fosse tão diferente ao ponto de me arrebatar no entanto, gostei bastante, pelo menos o suficiente para querer ler os outros dois e ver o filme e, por isso recomendo. ;)

Notas:Podem ver o trailer do filme, Man Som Hatar Kvinnor, baseado neste livro, aqui: