dezembro 28, 2015

O Rebate - J. Rentes de Carvalho

Título original: O Rebate
Ano da edição original: 1971
Autor: J. Rentes de Carvalho
Editora: Quetzal Editores

"Numa aldeia de Trás-os-Montes a chegada de um dos seus filhos emigrados para França, que vem endinheirado e casado com uma francesa, provoca um verdadeiro cataclismo.
Em França o Valadares, trabalhando na terra como um mouro, é premiado com a fortuna do patrão desde que case com a filha - moça doidivanas e descontrolada.
Valadares e a mulher vêm a Portugal quando das tradicionais festas da aldeia. A partir desse momento a perturbação causada pelo comportamento de ambos - ele, através do dinheiro, buscando uma ingénua e primitiva glória no seu burgo; ela usando a sedução e a provocação erótica na fauna masculina aldeã - desencadeia um rol de acontecimentos desgraçados que o rebate final expressa eloquentemente."

Tinha saudades de J. Rentes de Carvalho mas ainda não foi este livro que me encheu o coraçãozinho de fã. Tendo em conta a minha opinião sobre o livro de David Soares - Lisboa Triunfante (post anterior), tenho algum pudor em dizer que tive, novamente, muita dificuldade em entrar na história, embora neste por razões diferentes e menos esotéricas. Se na próxima leitura voltar a acontecer, apago estes dois posts e faço uma pausa nas leituras, porque o problema é claramente meu! :) 
O que é que não resultou em O Rebate? Muitas das vezes não fazia ideia de quem estava a falar. As vozes de todos na aldeia confundem-se, e ao não se distinguirem uns dos outros (talvez seja mesmo essa a intenção), a leitura torna-se confusa e algumas vezes frustrante, mas passemos ao que interessa. :)
Numa aldeia em Trás-os-Montes, todos aguardam com alguma ansiedade o regresso de um filho da terra, o Valadares, emigrado em França. Diz-se que enriqueceu por lá e que vem casado com uma francesa.


O livro acaba por ser um retalho de pequenas histórias individuais, que se vão tocando, mas sem alterarem muito o comportamento da comunidade. Um dos habitantes suicida-se e a mulher perde o filho que carrega na barriga. Seria o seu sexto filho e a vida na aldeia segue como dantes. Uma mulher, vítima de violência doméstica, sai de casa à procura do marido que a engana com outra e é encontrada no fundo de um penhasco. O marido, agora viúvo, torna-se obcecado por uma miúda mais nova, com idade para ser filha dele. A comunidade segue inalterada. O jovem padre da aldeia, que vive atormentado, não se sabe muito bem com o quê, tenta suicidar-se e o seu rebanho nem pestaneja.
A única pessoa que parece capaz de agitar as águas é mesmo a francesa, a mulher do Valadares, que foi obrigada a casar com o português. Incapaz de se adaptar à vida da aldeia, lança a confusão entre os homens da aldeia, apenas para provocar o marido ou apenas porque é divertido.
O Valadares, que vinha convicto de vir impressionar os seus compatriotas, com o seu sucesso em França, encontra uma inesperada resistência aos seus encantos e ao seu dinheiro.
Por fim, em toda a aldeia existe uma tensão sexual quase palpável, com origem em desejos reprimidos e recalcados e que parece ser a única coisa que une todos os homens da aldeia.

A aldeia transmontana retratada em O Rebate não vai de encontro à imagem bucólica e virtuosa da vida no campo, alimentada na altura pelo Estado Novo (o livro foi escrito em 1971). Nesta aldeia transmontana habitam homens embrutecidos pelo álcool, pelas dificuldades da vida e pela falta de moral. Habitam mulheres embrutecidas pelos brutos dos maridos, pela falta de oportunidades e incapacidade de fazer melhor.
É uma aldeia habitada por gente pobre e remediada, mas essencialmente é uma aldeia cujos habitantes são, na sua essência amorais, oportunistas, mesquinhos e tacanhos. Curiosamente a pessoa mais sã da aldeia é mesmo o bêbado da aldeia.
 
Não fosse o facto de não me ter adaptado à forma como a história é contada, sem que se consiga perceber, a maior parte das vezes, a que personagem o autor se está a referir, e este livro teria tudo para me encher as medidas. A história é interessante e o retrato de época, carregado de crítica social está muito bem conseguido, juntando o facto de ser um livro de J. Rentes de Carvalho poderia ter sido memorável. Mas infelizmente, o que me ficou desta leitura foi a memória da frustração por não estar a conseguir entrar no ritmo da história...

Não posso não recomendar J. Rentes de Carvalho. Este recomendo, mas para uma altura em que se sintam com maior capacidade de concentração.

Boas leituras!

Excerto (pág. 23):
"Faziam duas terras de pão, ao terço, mas paga a semente e o adubo, que fica? Cada colheita trazia a ameaça da venda do palheiro, porque casa meeira ninguém queria e a horta não prestava, plantavam lá meia saca de batatas e um cesto de nabos, o resto do ano iam à jeira ou abalava ele com os resineiros pela serra fora, aos meses. Lágrimas que vinham da aflição de agora e dos males sem cura, do filho nascido morto, e deste por nascer, lágrimas de tudo. A fazer gastos e tinham tantas necessidades, cheios de dívidas! O Marques ameaçava, guardava o dinheiro das jeiras por conta do adubo, ou do que teriam de comprar - «lá recebes!» mas nunca o viam, sempre com fome, sempre a dever, só a roupa do corpo. Um dia nem os remendo teriam onde pegar.
Parou, a não acreditar nos olhos, uma burra presa à argola do palheiro e a outra, solta, a focinhar nas silvas do muro. Correu aos tropeções, tomada de um pressentimento, sem cautelas, insensível às topadas, sem ar.
 - Ó Chico!
As burras, despertas, levantaram a cabeça. Abrandou a corrida, sem poder mais, o ventre despegado, encostou-se à porta, incapaz de chamar outra vez."

dezembro 25, 2015

Lisboa Triunfante - David Soares


Título original: Lisboa Triunfante
Ano da edição original: 2008
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência

"Lisboa Triunfante é um romance épico sobre a rivalidade entre duas figuras misteriosas, cuja contenda milenária se cruza com a história da capital portuguesa. Desde as origens pré-históricas de Lisboa até aos anos turbulentos que antecederam a implantação da República, passando pela elevação da cidade a capital do a Reino por Afonso III e pela construção enigmática do Mosteiro dos Jerónimos, a galeria de personagens que dão vida a Lisboa Triunfante contém figuras como Frei Gil de Santarém, D. João V e Aquilino Ribeiro. Reunindo elementos de romance histórico e fantástico, este é um livro definitivo sobre uma Lisboa mágica, que possui tanto de reconhecível quanto de maravilhoso. Lisboa Triunfante é um triunfo da imaginação."

De David Soares apenas tinha lido O Evangelho do Enforcado de que gostei bastante (a minha opinião aqui). Não sei se a minha opinião sobre este Lisboa Triunfante sofreu por ser o meu segundo livro de um autor que me deixou com expectativas elevadas... A verdade é que tive muita dificuldade em entrar na história, não me identifiquei com a escrita que achei, principalmente no início, forçada na utilização de termos e expressões que, duvido alguém saiba o que querem dizer. Achei a história confusa. Tenho pena de não ter conseguido apreciar o livro porque ao ler outras opiniões fico com a sensação que me escapou qualquer coisa. :/

De uma forma muito resumida, porque confesso que tenho alguma dificuldade em opinar sobre este livro, Lisboa Triunfante, tendo como palco a cidade de Lisboa, conta a história da própria cidade e de sua construção. Lisboa é o fruto de uma luta intemporal entre duas forças poderosas, a raposa, trapaceira, imaginativa e criativa - adorada pelas mulheres - e o lagarto, símbolo da razão e da lógica - seguido pelos homens - acredita na destruição como catalisador da evolução e do desenvolvimento, o que resulta da destruição e sempre melhor do que aquilo que existia.
No início, numa Lisboa por inventar, era a raposa quem reinava, as mulheres eram as líderes numa incipiente sociedade pré-histórica até que os homens, orientados pelo lagarto, as derrotam e assistimos, através da escrita de David Soares ao aparecimento dos primeiros alicerces de Lisboa até aos dias de hoje. Lisboa é o resultado desta luta entre estas duas figuras poderosas, que lutam entre si, deixando as suas marcas na majestosa arquitectura da cidade.

A parte mais interessante são mesmo as descrições, que acredito serem próximas da realidade, de Lisboa em tempos idos. Os cheiros, as pessoas e os costumes.

E é isto. Não sei que mais dizer, a não ser que, embora não tenha adorado o livro, também não o odiei. Acho que não o entendi ou não me apanhou numa fase boa. Estes rodeios todos para vos dizer, que se o tivesse odiado não o recomendaria, no entanto recomendo. Recomendo porque embora não tenha sido leitura para mim, sinto que é definitivamente leitura para muitos, tendo em conta as opiniões que li sobre ele. Talvez numa outra vida venha a ser leitura para mim. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 25):
"A morte não era uma realidade desgostosa. Eles acreditavam que cada indivíduo tinha duas almas: uma que ascendia ao céu e outra que permanecia com as ossadas. Era esse espírito que urgia satisfazer para que não abandonasse a sepultura em busca dos vivos. O protocolo lúgubre era respeitado desde a descarnação. O cadáver era  desbastado com gumes de pedra até os ossos ficarem límpidos; em seguida, o estômago, morada dos espíritos, era queimado com frutas e flores para, consoante a forma do fumo, serem hierarquizados aqueles que iriam consumir a carne. A prática não condicionava o apetite das matriarcas que comiam sempre primeiro: os retalhos mais tenros, assim como o fígado, eram para elas. Naquela noite, o menino só tivera direito a um pedaço do músculo tibial porque tinha sido o último a comer: fora o fumo a falar. A chefe comera a coxa da mulher e dividira o fígado dela com as irmãs. Ele sabia que a chefe precisava de comer melhor que os outros para liderar, para se manter forte à frente do grupo, mas... A mãe dele tinha morrido e ele só tinha comido um bocado da canela?!
Matutou sobre isso durante a viagem enquanto tentou tirar a bolinha de carne dentro do buraco no dente."

outubro 16, 2015

Nenhum Olhar - José Luís Peixoto

Título original: Nenhum Olhar
Ano da edição original: 2000
Autor: José Luís Peixoto
Editora: Bertrand Editora

"Numa aldeia do Alentejo, com um pano de fundo de uma severa pobreza, o autor vai tecendo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência: o pastor taciturno que vê o seu mundo desmoronar-se quando o diabo lhe conta que a mulher o engana; o velho e sábio Gabriel, confidente e conselheiro; os gémeos siameses Elias e Moisés, cuja terna comunhão se degrada no momento em que um deles se apaixona; ou o próprio Diabo. As suas personagens são universais, assim como a sua esperança face à dificuldade.«... a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final...»"
"«Hoje o tempo não me engana. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um não quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desafiados de nuvens. E o céu, daqui parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.»"

Desde Livro (opinião aqui) que nunca mais tinha lido José Luís Peixoto e depois deste Nenhum Olhar, espero que não passe tanto tempo até ao próximo livro dele.

Nenhum Olhar é um livro imensamente triste, cheio de silêncios e olhares que dizem tudo. Conversa-se pouco na aldeia alentejana que o autor retrata. 
As personagens vivem uma vida desencantada, algumas presas a convenções e ao que se espera deles. Vivem com a consciência de que abdicaram de lutar pela felicidade para cuidarem dos outros, para não romperem com as regras instituídas e estabelecidas. Não perseguiram a felicidade por cobardia ou porque, simplesmente, não saberiam como fazê-lo.
Outros nunca encontraram a felicidade e quando esta aparece não hesitam em agarrá-la com todas as forças que possuem. Outros ainda, tendo nas mãos aquilo que desejaram, estragam tudo por causa de mal-entendidos, da má língua do povo e da maldade de algumas pessoas.

Surpreendeu-me a capacidade de amar em gente que tem tão pouco. A profundidade dos sentimentos em pessoas que quase nunca tiveram razões para sorrir. Surpreendeu-me, ao mesmo tempo, a dormência dos que abdicaram de ser felizes e a dor atroz de quem vê a felicidade escapulir-se por entre os dedos sem que nada possa fazer para mudar o destino. Surpreendeu-me a falta de esperança e a capacidade de amar e de sofrer. Surpreende-me a imutabilidade do tempo, como se a aldeia vivesse presa a um paradoxo temporal, onde geração atrás de geração a história está condenada a repetir-se ad eternum.
Acima de tudo, surpreendeu-me a capacidade de José Luís Peixoto nos fazer sentir toda esta panóplia de sentimentos através de palavras tão simples e com a criação de momentos tão tristes e ao mesmo tempo tão enternecedores.

Nenhum Olhar retrata uma realidade triste com que todos nós nos conseguimos identificar, de certa forma. A vida nas aldeias isoladas, onde o tempo parece seguir outras regras, onde todos se conhecem, ou pensam conhecer e onde o destino parace ser mais certo do que a morte.

E sem nada ter dito sobre a história em si, acho que não preciso dizer mais nada, a não ser que recomendo sem qualquer hesitação. :)

Boas leituras

Excerto (pág. 209):
"A dor: um silêncio de sentido sobre todos os gestos, um abismo a calar o significado de todas as palavras, um véu a tornar o tempo inútil. A mulher que amara mesmo, que amara mesmo, e que não era mais nada no mundo. E a solidão era um céu maior que a noite e onde não havia mais que a noite e frio, era um lugar negro que o olhar vida."

outubro 11, 2015

O Rapaz de Pijama às Riscas - John Boyne

Título original: The Boy in the Striped Pyjamas
Ano da edição original: 2006
Autor: John Boyne
Tradução do castelhano: Cecília Faria e Olívia Santos
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Bruno, de nove anos, nada sabe sobre a Solução Final e o Holocausto. Não tem consciência das terríveis crueldades que são infligidas pelo seu país a vários milhões de pessoas de outros países da Europa. Tudo o que ele sabe é que teve de se mudar de uma confortável mansão em Berlim para uma casa numa zona desértica, onde não há nada para fazer nem ninguém para brincar. Isto até ele conhecer Shmuel, um rapaz que vive do outro lado da vedação de arame que delimita a sua casa e que estranhamente, tal como todas as outras pessoas daquele lado, usa o que parece ser um pijama às riscas."

Bruno é um rapaz de nove anos, filho de um militar importante na estrutura criada por Hitler. Vive em Berlim, sem nunca ter conhecido outra realidade, protegido dos horrores que estão a ser perpetrados mesmo ao seu lado, contra os judeus. Quando o pai é promovido, pelo Führer, e é enviado para dirigir um dos campos de concentração mais infames do Holocausto, Auschwitz, decide levar toda a família, a mulher e os dois filhos, Bruno e Gretel. De um momento para o outro, todo o pequeno mundo de Bruno desaba. Fica perturbado com a ideia de abandonar a sua casa de cinco andares em Berlim e de não poder viver todas as aventuras que tinha planeadas para o Verão que se aproxima com os seus melhores amigos. Angustia-o não saber quanto tempo irá ficar longe de Berlim e nem sequer tem noção da distância que irá percorrer até Auschwitz, nome que nem sabe dizer, julgando todo o tempo que lá permanece que está  em Acho-Vil.

Quando chegam a Acho-Vil, Bruno fica chocado com a sua nova casa, velha, muito mais pequena que a mansão de Berlim. Não tem vizinhos e por isso, aparentemente não tem nenhuma criança com quem brincar. Fica intrigado com a vedação que consegue ver da janela do seu quarto e com o facto de todos, com excepção dos militares, daquele lado da vedação vestirem pijamas às riscas. Não consegue perceber e sente-se pessoalmente atingido por ter de ficar deste lado da vedação sozinho, sem ninguém com quem brincar enquanto do outro lado existem tantas crianças, que de certeza têm imensas coisas para fazer e espaços para explorarem.

Um dia decide explorar a floresta que circunda a casa, caminhando junto à vedação. Nesse dia conhece Shmuel, um menino do outro lado da vedação, com a mesma idade de Bruno e, imagine-se a coincidência, que faz anos no mesmo dia de Bruno. A amizade entre os dois desenvolve-se e Bruno encontra em Shmuel alguém com quem partilhar as suas angústias ao mesmo tempo que tem alguma dificuldade em perceber as do amigo. Um dia surge a oprtunidade de Bruno conhecer o outro lado da vedação, algo que sempre pediu a Shmuel e que foi sempre recusado. O que o espera Bruno do outro lado terão de ser vocês a descobrir lendo o livro.

Há qualquer coisa que falha neste livro e não sei dizer bem o quê. Não sei se é o excesso de ignorância de Bruno sobre o mundo que o rodeia - um miúdo alemão, filho de um proeminente militar alemão - nunca ter ouvido falar em judeus não é credível. Ou em casa ou na escola, é praticamente impossível que não tivesse sido, de uma forma ou de outra, doutrinado nesse sentido. Acho que foi principalmente isso que falhou nesta história. A personagem de Bruno não é credível e como tal, pareceu-me até, algumas vezes ofensiva a falta de conhecimento, a falta de alcance em perceber que, nitidamente Shmuel não era feliz, passava fome e estava ali contra a sua vontade. Achei algumas vezes ofensiva esta falta de sensibilidade de Bruno, mais concentrado nos seus problemas e na sua vida, parecendo que Shmuel nada mais era do que uma distracção e um divertimento que o ajudava a ultrapassar a solidão que foi encontrar em Acho-Vil.
Não esqueço, no entanto, que O Rapaz de Pijama às Riscas é um livro direccionado para um público mais jovem e que assume aqui um carácter mais genérico, não sendo assumidamente uma história sobre o Holocausto. Diria que acaba por ser uma espécie de alegoria aos horrores da intolerância, da discriminação, da violência gratuita, por um lado e, colocando no seu oposto, a inocência de duas crianças que se aproximam independentemente da cor da pele, das crenças religiosas, da educação e das suas vivências actuais. Portanto, a mensagem que passa é muito bonita, é enternecedora. Não acho que a escrita de John Boyne tenha conseguido passar de forma clara esta mensagem, percebemo-la, mas não a sentimos. Não posso deixar de pensar que, esta mesma história escrita por Pepetela ou Mia Couto teria um impacto completamente diferente. Quem leu este e já leu um dos dois que refiro, perceberá o que quero dizer.

Resumindo e baralhando, não é que não tenha gostado, como disse a mensagem subjacente é pertinente e ao envolver duas crianças no contexto em que viveram, teria de ter um coração de pedra para dizer categoricamente que não gostei. No entanto, é por envolver duas crianças, que nunca se deveriam ter conhecido com aquela vedação a separá-los que sinto que faltou alguma coisa a este livro.

Recomendo pelo tema e porque acaba por ser uma leitura interessante.

Boas leituras!

Excerto (pág. 157):
"- Quer dizer que não sabes? - perguntou ela.
 - Não - disse Bruno. - Não percebo porque é que não podemos passar para o outro lado. Que mal é que nós fizemos para não podermos ir para o outro lado brincar?
Gretel olhou-o e, de repente, desatou a rir, só parando quando reparou que Bruno estava a falar a sério.
 - Bruno - disse ela num tom de voz infantil, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo -, a vedação não está ali para nos impedir de passar para o outro lado. É para os impedir a eles de passarem para este.
Bruno pôs-se a pensar naquilo, mas continuava a não perceber.
 - Mas porquê? - insistiu.
 - Porque eles têm de os manter juntos - explicou Gretel.
 - Com as suas famílias, queres tu dizer?
 - Bem, sim, com as sua famílias. Mas também com os da sua espécie.
 - O que queres dizer com «os da sua espécie»?
Gretel suspirou e abanou a cabeça.
 - Com os outros judeus, Bruno. Não sabias? É por isso que eles têm de os manter todos juntos. Eles não se podem misturar connosco.
 - Judeus - disse Bruno, experimentando a palavra. Gostava bastante da maneira como soava. - Judeus - repetiu ele. - Todos os que vivem daquele lado da vedação são judeus.
 - Sim, é isso - disse Gretel.
 - E nós, somos judeus?
Gretel ficou boquiaberta, como se tivesse acabado de levar um estalo na cara.
 - Não, Bruno - disse ela. - Não, claro que não somos. E tu nem sequer devias dizer uma coisa dessas.
 - Mas porquê? Então, o que é que nós somos?
 - Somos... - começou Gretel, mas depois teve de parar e pensar antes de responder: - Somos... - repetiu ela, mas não estava muito certa de qual seria a resposta a esta pergunta. - Bem, nós não somos judeus - disse ela por fim.
 - Eu sei que não - disse Bruno frustrado. - O que eu quero saber é: se não somos judeus, então o que é que somos?
 - Somos o oposto - respondeu Gretel muito depressa, parecendo bem mais satisfeita com esta resposta. - Sim, é isso mesmo. Somos o oposto.
 - Está bem - disse Bruno, satisfeito por ter finalmente tudo esclarecido na sua cabeça. - Os opostos vivem desta lado da vedação e os judeus vivem daquele.
 - Isso mesmo, Bruno.
 - Então os judeus não gostam dos opostos?
 - Não, estúpido, somos nós que não gostamos deles. (...)
 - Então, porque é que nós não gostamos deles? - perguntou ele.
 - Porque eles são judeus - disse Gretel.
 - Estou a ver. E os opostos e os judeus não se dão muito bem.
 - Não, Bruno - disse Gretel."

outubro 04, 2015

Casa de Campo - José Donoso

Título original: Casa de Campo
Ano da edição original: 1978
Autor: José Donoso
Tradução do castelhano: Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu
Editora: Cavalo de Ferro

"Romance escrito, segundo a crítica «com mão de mestre e cabeça de génio», Casa de Campo é um dos livros fundamentais na Obra de José Donoso e na literatura sul-americana.
A história narra os acontecimentos vividos durante alguns dias numa grande casa senhorial. A ausência temporária dos proprietários adultos origina que as crianças assumam o controlo da casa e a transformem, juntamente com os servos, em domínio erótico e febril.
Construída pela rica família Ventura, a casa, com os seus salões, quartos e caves labirínticas é um lugar de magnificência, mas também de convite à transgressão. Esta festiva irrupção de pulsões reprimidas propiciará durante alguns dias uma ruptura radical com a ordem social e a instauração de um novo mundo mágico, anárquico, exuberante, mas igualmente doloroso."

Não me recordo como foi que este livro acabou nas estantes aqui de casa. Gostei da capa, do preço mas principalmente acho que gostei da comparação com a obra máxima de William Golding, O Deus das Moscas (opinião aqui), e com o facto de ser um autor sul-americano. :)

Casa de Campo é uma metáfora ao Chile de Pinochet e Salvador Allende. José Donoso, procurou de forma metafórica, recriar nesta história uma parte da história do Chile, da sociedade chilena e da forma como se viveram os anos da ditadura de Pinochet.

Os Venturas, são uma família antiga, tradicional e muito rica. Fizeram e fortuna com a exploração de minas de ouro num lugar isolado, com mão de obra nativa. É para controlar a exploração e recolher os dividendos das minas, que todos os anos passam os três meses de Verão em Marulanda, na Casa de Campo. Reúnem toda a família, os adultos e os filhos, mais de trinta crianças e adolescentes, e um séquito impressionante de criados.
Os Ventura são um grupo estranho... Vivem numa espécie de mundo alternativo, afastados da realidade, condicionando todas as conversas e acontecimentos às suas próprias interpretações, por mais absurdas que estas sejam. Vivem uma farsa, que se transmite às crianças Ventura, praticamente ignoradas pelos pais durante os três meses que permanecem na Casa de Campo. São controlados pelos criados, um grupo comandado pelo Mordomo, escolhido todos os anos pelos Ventura de forma criteriosa. Este tem autorização para castigar todas as crianças que quebrarem as regras impostas pelos adultos, embora não seja incorruptível, é uma figura que todos aprendem a temer desde muito cedo. As crianças surgem, no príncipio, como um grupo mais ou menos homogéneo, sendo difícil muitas vezes distinguirem-se-lhes traços particulares. Tal como o núcleo dos adultos, são todos de certa forma iguais e formatados.

Quando os adultos decidem passar um dia inteiro fora, deixando as trinta e três crianças entregues a si próprias o dia inteiro, muitas das crianças vêem a oportunidade de se rebelarem contra as regras rígidas da família e pôr em marcha planos antigos de fuga. Alguns acreditam que os adultos nunca mais voltarão e por isso vão tentar criar uma sociedade mais justa na Casa de Campo, com a ajuda dos nativos, os temidos antropófagos, com quem estavam proibidos de falar, por serem selvagens perigosos e cheios de doenças.
O único adulto que fica na casa é o tio Adriano, um Ventura por casamento, que há anos vive fechado e sedado num quarto da casa, fazendo a viagem para a Casa de Campo, todos os anos, fechado numa espécie de jaula, como se fosse um animal. Adriano teve a ousadia de questionar as regras dos Venturas. Médico de profissão, preocupava-se com os nativos e tinha por hábito visitá-los para cuidar deles. Depois de uma tragédia se abater sobre ele, foi enclausurado pelos restantes familiares. Quando os adultos partem para seu passeio, Wenceslau liberta o pai e é sobre a orientação débil de Adriano que alguns dos miúdos Ventura tentam criar uma nova ordem na Casa de Campo.
Nesta sociedade, como é natural, existem os que nada querem modificar, que são forças de bloqueio, que conspiram para manterem as regalias que acreditam ser suas apenas e só porque nasceram na família Ventura.
Sem querer entrar em pormenores para não contar demais sobre o desenvolvimento da história, um dia transforma-se num ano e os criados, sob o comando do Mordomo, regressam para a Casa de Campo, com o objectivo de colocar tudo nos eixos. Preparar o regresso dos patrões, não se sabe bem quando, e receber as boas das palmadinhas nas costas pelo bom serviço prestado à família Ventura. Com o Mordomo e os serviçais, vem o medo, a repressão e a violência gratuita. Algumas das crianças resistem, mas no fim de contas, não passam de crianças que apenas querem os pais de volta, por mais negligentes que estes tenham sido, por piores que sejam e mesmo que o amor que recebam de volta seja apenas uma ilusão. 
Estas crianças são como um povo que procura num pai protector, conforto e alimento, sem questionar como é que isso lhes é entregue. Cresceram castradas, sem qualquer liberdade e tornam-se adultos com dificuldade em decidir, em pensar, em fazer diferente. Adultos com pouca empatia pelos outros e pelo bem-estar dos que os rodeiam. Não sabem como fazer melhor ou fazer diferente, sem consultar o pai, a entidade protectora que, ilusoriamente os mantém aquecidos e alimentados. 
E, no fim, nada disso importa, porque por mais que o homem faça, por mais que tente controlar os acontecimentos e o seu semelhante, será a natureza a vencer. Só ela permanecerá, milhões de anos após a nossa extinção, sem qualquer lembrança da nossa existência, indiferente à nossa passagem pela terra. :)

Confesso que tinha algumas expectativas relativamente a este livro e foi por isso que o escolhi para companhia nas férias. Infelizmente não me senti muito sintonizada com a história e com a forma como é contada por José Donoso. Percebo onde ele quer chegar, consigo perceber as metáforas e o paralelismo com a história recente do Chile. Percebo isso, gosto do que tenta fazer, mas pessoalmente não me senti envolvida. Estranhei a forma como tudo aquilo se desenrola, não senti que o que se passava era credível e, eu que até gosto de narradores metediços e que nos provoquem ao longo da leitura, achei o narrador aborrecido e inconveniente, cortando o ritmo da narrativa, já de si, lento e estranho. Depois disto tudo, não posso dizer que tenha gostado. Não me deixo de sentir frustrada por não ter gostado... Não odiei, não amei... preferia que tivesse sido diferente.

Independentemente da minha opinião menos boa, acho que posso recomendar. A verdade é que só li críticas boas ao livro e por isso acho que lhe podem dar uma oportunidade. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 30):
"A biblioteca dos Venturas não podia satisfazer os empenhos de aprendizagem de ninguém, como tambén não o podiam as declarações dos grandes a respeitos dos livros: «Ler só serve para estragar a vista»; «os livros são coisas de revolucionários e de professorzecos pretensiosos»; «Através dos livros ninguém consegue adquirir a cultura que o nosso exaltado berço nos proporcionou». Por estas razões, proibiam o acesso das crianças à extensa sala de quatro pisos guarnecidos com balaustradas e remates de pau-santo. Esta proibição, no entanto, não passava de uma das muitas proibições retóricas que eram utilizadas para domar as crianças: sabiam que por trás daqueles milhares de lombadas de peles soberbas não existiam uma só letra de forma. O bisavô mandou construí-los quando, num debate do Senado, um liberal de meia-tigela e muito resplendor lhe chamou «ignorante, como todos os da sua casta»."

setembro 01, 2015

o apocalipse dos trabalhadores - valter hugo mãe

Título original: o apocalipse dos trabalhadores
Ano da edição original: 2008
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara Portugal
 
"A resistência de maria da graça e de quitéria, duas mulheres-a-dias e carpideiras profissionais que, a braços com desilusões e desconfianças várias acerca dos homens, acabam por cair de amores quando menos esperam. Com isso, mudam radicalmente o que pensam e querem da vida. Este é um romance sobre a força do amor e como ela se impõe igual a uma inteligência para salvar as personagens das suas condições de desfavor social e laboral.
Passado na recôndita cidade de Bragança, este livro é um elogio à força dos que sobrevivem, dos que trabalham no limiar da dignidade e, ainda assim, descobrem caminhos menos óbvios para a mais pura felicidade."

Maria da Graça é uma mulher nos seus quarentas, casada com o único pescador de Bragança, cidade sem mar, pelo que o marido passa a maior parte do ano fora, embarcado. É uma mulher frustrada, confusa, trabalhadora e sem nunca ter conhecido o amor, nem do marido nem de ninguém, vive na ilusão de que o que sente pelo patrão é amor. No entanto, não deixa de o odiar. O patrão é um homem mais velho e culto que se acha no direito de a "atacar" sempre que quer e pode. O Sr. Ferreira parece ter o necessário para ser feliz mas vive ele próprio com os seus fantasmas que o impedem de olhar a vida de frente. Maria da Graça vive atormentada por esta relação e todas as noites sonha que está às portas do céu, onde vai parar depois de o patrão a ter morto e onde São Pedro lhe recusa a entrada, noite após noite.
Maria da Graça aparece-nos como uma mulher inteligente e dividida. Dividida entre o que gostaria de ser o que lhe permitem ser. Dividida entre o amor e o ódio pelo patrão. Dividida entre o desespero e a esperança de dias melhores. Dividida entre as lágrimas e a gargalhada.
Quitéria é a melhor amiga, e vizinha, de Maria da Graça. É uma mulher livre, despreocupada e de certa forma feliz. Não é casada e tem uma verdadeira obsessão por homens mais novos. Não procura o amor, apenas a satisfação sexual. Sem saber como vê-se enamorada de Andryi, um dos seus jovens amantes, imigrante ucraniano, trabalhador da construção civil, com uma história familiar difícil. Quitéria surge aqui como a protectora de Maria da Graça e também de Andryi. É efectivamente uma mulher de bem com a vida, despudorada e imensamente bem disposta. Segue à risca o ditado "se vida te dá limões faz limonada".
Andryi é um jovem de vinte e tal anos, que veio para Portugal, como tantos dos seus compatriotas à procura de uma vida melhor. Deixa na Ucrânia os pais e vive em Portugal angustiado com o destino dos dois. Sem se conseguir adaptar ao nosso país e a nós, vive calado, fechado sobre si mesmo. Tenta ser um robot, uma máquina de trabalho que nada sente e nada vê. Quer apenas ganhar dinheiro para enviar aos pais. Com Quitéria inicia uma relação, ao princípio meramente física, depois desconfiada e magoada, que acaba por se transformar numa espécie de amor. Encontra em Quitéria compreensão e alguma da ternura deixada na Ucrânia.

Há qualquer coisa que me incomoda neste livro e não consigo dizer o quê. Não senti grande empatia com as personagens, nem com os seus problemas. Não achei credíveis as vidas de Maria da Graça e Quitéria, talvez porque não as consegui encaixar nas vidas das empregadas domésticas que conheço, que também nada têm a ver com os estereótipos que muitas vezes lhes estão associados. Consigo identificar-me com o tema, com a vida dura e sem grande perspectiva que muitas destas mulheres têm, uma vida de trabalho fisicamente desgastante e pouco valorizado. 
Acho interessante e valorizo a escolha dos protagonistas improváveis, mulheres a dias e imigrantes do leste, não sei é se valter hugo mãe os terá conseguido caracterizar da melhor forma. Neste sentido o livro acabou por não estar à altura do que esperava, porque uma das características mais interessantes de valter hugo mãe é a capacidade que tem de encarnar as vivências das suas personagens, como se tivesse efectivamente passado pelas mesmas experiências, e transmitir na escrita todas as emoções e sensações vividas.

Embora esteja longe de ser um livro mau, não foi, para mim, uma leitura marcante. Esperava mais, ou diferente, de valter hugo mãe e é por ser de valter hugo mãe que o recomendo sem reservas.

Boas leituras!

Excerto (pág. 56):
"áquela hora, a maria da graça levava as mãos ao pescoço e começava a perceber que morreria. a vida não lhe duraria interminavelmente e aos quarenta anos, era verdade, estaria quase no fim. o senhor ferreira, vindo-lhe ao de cima todo o suspeitado lado obscuro, atirava-se a ela com um punhal longo e afiado. abria-lhe o corpo de cima a baixo enquanto ela pedia ao são pedro que visse tal acto e medisse tal fúria para se apiedar da sua alma. o santo homem, preocupado com as admissões à porta do céu, ouvia pouco o que a mulher lhe gritava, ou não fazia caso, e o senhor ferreira investia mais e mais, até impossivelmente o corpo dela resistir. até que a sua própria consciência percebesse que o sonho exagerava no efeito cruel, porque ninguém sobreviveria tanto tempo a tantos e tão duros golpes. sentido-se ser morta, a maria da graça sabia não estar a morrer, mas garantia-se de que o aviso estava feito e, de olhos abertos na escuridão, o suor no rosto por tão grande susto, decidia mais uma vez depositar-se nos braços do maldito, o seu amado futuro assassino. não sorria, começava a chorar por acreditar que o amor era sempre igual à morte."

agosto 24, 2015

O Mar de Ferro - George R. R. Martin

Título original: A Feast for Crows (part 2)
Ano da edição original: 2005
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência

"Quando Euron Greyjoy consegue ser escolhido como rei das Ilhas de Ferro não são só as ilhas que tremem. O Olho de Corvo tem o objectivo declarado de conquistar Westeros. E o seu povo parece acreditar nele. Mas será ele capaz?

Em Porto Real, Cersei enreda-se cada vez mais nas teias da corte. Desprovida do apoio da família, e rodeada por um conselho que ela própria considera incapaz, é ainda confrontada com a presença ameaçadora de uma nova corrente militante da Fé. Como se desenvencilhará de um tal enredo?

A guerra está prestes a terminar mas as terras fluviais continuam assoladas por bandos de salteadores. Apesar da morte do Jovem Lobo, Correrrio ainda resiste ao poderio dos Lannister, e Jaime parte para conquistar o baluarte dos Tully. O mesmo Jaime que jurara solenemente a Catelyn Stark não voltar a pegar em armas contra os Tully ou os Stark. Mas todos sabem que o Regicida é um homem sem honra. Ou não será bem assim?"

Termino assim o 4º volume (8º na edição portuguesa, da Saída de Emergência) da saga As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin e, à semelhança do O Festim dos Corvos, não se avança muito na história, o que não quer dizer que não se passe nada. :)
À semelhança dos outros livros, algumas personagens morrem, alguns mistérios vão sendo revelados, muitas das personagens continuam a ser dúbias nas suas intenções e a luta pelo Trono de Ferro continua.

*Só pode conter spoilers*

Arya Stark, continua em Bravos, a trabalhar para se tornar uma discípula do Deus das Muitas Caras e a lutar para ser ninguém. Esquecer que foi Arya Stark não é tarefa fácil e esquecer a vontade de vingar os Stark parece ser ainda mais complicado. É uma miúda inteligente, mas não passa de uma miúda. Torço por ela, e gostava que ela não se transformasse numa espécie de monstro. Vamos ver o que o autor lhe reserva.

Vamos encontrar Sansa, agora Alayne, apresentada como filha do Mindinho, ainda no Ninho de Águia, junto do primo Robert. O Mindinho tem planos para ela. Vamos ver se se concretizam.
Um aparte e uma referência à série televisiva, George R. R. Martin, tem sido bem mais simpático com Sansa no livro do que na série, particularmente desde que esta fugiu de Porto Real. E mais não digo. ;)


Cersei parece estar perto de conseguir tudo aquilo com que sempre sonhou, ser Rainha e reinar, sem que nenhum homem mande nela. Parece, mas na realidade nem tudo lhe corre como planeado. Numa tentativa de afastar os Tyrell de Porto Real e do trono, tenta prejudicar Margaery, a jovem rainha do Rei Tommen. Consegue prejudicá-la mas não sem que alguns dos estilhaços a atinjam também. Como irá ela conseguir libertar-se da teia que ela própria criou?

Jaime é enviado, pela irmã, para Correrrio, com a missão de acabar com o cerco já longo ao castelo de Correrrio onde Brynden Tully, tio de Catelyn Stark, recusa render-se e ajoelhar ao Rei Tommen. Irá Jaime quebrar mais uma promessa, a que fez a Catelyn Stark, de nunca mais levantar uma arma contra um Tully ou um Stark? Estará sequer preocupado com isso?

Sobre Brienne não me vou alongar, para não estragar a história a quem ainda não leu, mas neste volume  continua a sua busca por Sansa e é protagonista de uma das cenas mais chocantes do livro. E mais não digo.

Neste volume passamos ainda pela viagem de Samwell até casa, por Dorne onde se insinuam planos de vingança há muito em andamento, e pela ascensão dos Homens de Ferro e toda a devastação que trazem com eles.
Não voltámos à Muralha e a Jon Snow, não se fala de Stannis e Melisandre, não sabemos mais nada de Daenerys Targaryen, Tyrion e Varys não mais são referidos. Bran Stark e os seu companheiros estão esquecidos desde que encontraram aquela personagem arrepiante e foram ajudados por Samwell.
George R. R. Martin promete, no fim deste 4º livro da saga, que o próximo - A Dance With Dragons - será dedicado a algumas destas personagens.
Gostei deste volume, embora não tenha avançado muito na história, fechou alguns assuntos e algumas das personagens tiveram desenvolvimentos potencialmente interessantes. :) 
Desta vez vi a série televisiva antes de terminar a leitura deste O Mar de Ferro, o que fez com muitas das coisas que li não fossem novidade. Aliás a season 5 avançou de tal maneira na história de algumas das personagens, que julgo que a leitura do 5º volume - A Dance With Dragons - não trará muitas surpresas... :/ 
Como algumas das personagens têm rumos diferentes do que aconteceu na série, acredito que ao virar de cada página poderá haver uma surpresa. :)

Boas leituras!


Excerto (pág. 259):
"Isto é um sonho terrível, pensou. Mas se estava a sonhar, porque doía tanto?
A chuva parara de cair, mas o mundo inteiro estava molhado. Sentia o manto tão pesado como a cota de malha. As cordas que lhe prendiam os pulsos estavam empapadas, mas isso só as apertara mais. Virasse as mãos como virasse, não conseguia libertar-se. Não compreendia quem a atara ou porquê. Tentou perguntar às sombras, mas elas não responderam. Talvez não a ouvissem. Talvez não fossem reais. Sob as camadas de lã húmida e cota de malha enferrujada, tinha a pele corada e febril. Perguntou a si própria se tudo aquilo seria apenas um sonho de febre."

agosto 20, 2015

Sunset Park - Paul Auster

Título original: Sunset Park
Ano da edição original: 2010
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições ASA

"Durante os meses sombrios do colapso económico de 2008, quatro jovens ocupam ilegalmente uma casa abandonada em Sunset Park, um bairro perigoso de Brooklyn.
Bing, o cabecilha, toca bateria e dirige o Hospital das Coisas Escangalhadas, onde conserta relíquias de um passado mais próspero. Ellen, uma artista melancólica, é assaltada por visões eróticas. Alice está a fazer uma tese sobre a forma como a cultura popular encarava o sexo no pós-guerra. Miles vive consumido por uma culpa que o leva a cortar todos os laços familiares. Em comum têm a busca por coerência, beleza e contacto humano.
São quatro vidas que Paul Auster entrelaça em tantas outras para criar uma complexa teia de relações humanas, num romance sobre a América contemporânea e os seus fantasmas."

Paul Auster é um dos meus escritores preferidos. Um contador de histórias, original na forma como passa a mensagem. Um narrador de emoções e de pessoas. Gosto da forma como escreve e das pessoas que habitam as histórias de Auster.
Sunset Park não é um livro menor, mas é um livro onde a imaginação e a sensação de irrealidade que muitas vezes povoam os livros de Auster não estão tão presentes. É, de certa forma, um livro mais normal.
Miles após um acontecimento traumático que não consegue ultrapassar, decide partir, afastar-se de tudo e de todos. Abandona a universidade e a perspectiva de uma carreira brilhante, os pais e a madrasta. Parte sem destino e sem planos e a única pessoa com quem mantém contacto é com Bing, uma espécie de amigo, que de certa forma o mantém ligado a Nova Iorque e à família. Através dele vai sabendo do pai e da madrasta e também da mãe, uma estrela de Hollywood. Miles nunca mais falou com ninguém, a não ser com Bing. Bing, sem que Miles o saiba, vai mantendo os pais deste informados das andanças do filho, tornando os sete anos de ausência - ausência de notícias e de explicações - menos dolorosos.
Ao fim de sete anos, vê-se obrigado a regressar a Nova Iorque e é acolhido por Bing, tornando-se no mais recente habitante da casa abandonada em Sunset Park, que Bing e duas amigas, Ellen e Alice, ocupam, de forma ilegal.
Reata relações com o pai e com a mãe e dá-lhes, finalmente, as explicações possíveis. É recebido de braços abertos, mas o pai, com quem mantinha uma relação mais chegada, tem alguma dificuldade em voltar a abrir de forma incondicional o seu coração a um filho que o abandonou, sem que houvesse espaço para um telefonema, uma carta, um recado, o que quer que fosse, durante os longos sete anos em que aguardou pacientemente que o filho se reencontrasse e decidisse voltar. A madrasta, a mulher que o criou após o divórcio dos pais e o afastamento da mãe, encontra ainda mais dificuldades em compreender os motivos de Miles e recusa-se a falar com ele.

Grande parte da história roda à volta de Miles e da sua personalidade. Fechado sobre si mesmo, com dificuldades em partilhar com os outros os medos, os anseios e aquilo que tanto o atormenta. Para os outros, Miles surge como uma figura misteriosa e portanto encantador e atraente. Uma pessoa com um passado doloroso, ferido de uma forma profunda e inegavelmente inteligente. Na realidade Miles acaba por ser pouco mais do que um egoísta, com muita dificuldade em pensar para além do seu umbigo e dos seus problemas. Não é consciente do seu egoísmo, ou seja, não alimenta de forma consciente a admiração e o fascínio que parece provocar nos outros. Mas para mim, não passa de um egoísta e de um cobarde. Não regressa a casa porque sente que já lidou com todos os seus fantasmas, nem porque sente que o sofrimento dos pais deva chegar ao fim. Regressa porque se vê obrigado a isso, porque precisa de fugir de uma outra situação em que se viu envolvido. Ao regressar pelos motivos errados o que faz no fim do livro não deveria surpreender, no entanto, a mim surpreendeu-me... Fui apanhada na "receita" de Auster, onde ao longo dos livros, que já li dele, tudo corre mal mas no fim, a sensação que fica é de esperança, de que o caminho das personagens que deixamos de acompanhar, após o último ponto final, na última página, será menos penoso. Este Sunset Park, é um bocadinho o inverso, nada corre excepcionalmente mal durante toda a história e no fim, não há redenção ou esperança. No último ponto final, não diria que todas as personagens estejam piores, mas Miles ainda tem um longo caminho a percorrer e não sinto que exista muita esperança na sua recuperação. :)

Paralela à história de Miles, Paul Auster explora a crise imobiliária que atingiu os EUA em 2008. As pessoas que tiveram de abandonar as casas e entregá-las aos bancos, o desemprego e a falta de perspectiva dos jovens, obrigados, no limite, a ocupar espaços abandonados por não terem dinheiro para fazer face às despesas do dia-a-dia. Uma visão do sonho americano transformado em pesadelo.

Não sendo o livro que mais gostei, até agora, do Paul Auster, é um livro que vale pela envolvência, pelas personagens e por toda a bagagem que Paul Auster transporta para as suas histórias, que se transformam em múltiplas histórias dentro da história. Só posso recomendar. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 7):
"Há cerca de um ano que ele fotografa coisas abandonadas. Há pelo menos dois trabalhos todos os dias, por vezes até seis ou sete, e, sempre que entram numa nova casa, ele e os seus colegas vêem-se confrontados com as coisas, as inúmeras coisas rejeitadas, tudo aquilo que as famílias deixaram. As pessoas ausentes, todas elas, fugiram precipitadamente, humilhadas, confusas, e é certo e seguro que, onde quer que vivam agora (se é que encontraram um sítio para viver e não estão acampadas nas ruas), os seus novos alojamentos são mais pequenos do que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso - de bancarrota e falta de pagamento, de dívidas e execução de hipotecas - e ele tomou a seu cargo a tarefa de documentar os derradeiros resquícios dessas vidas dispersas, a fim de provar que as famílias desaparecidas estiveram em tempos ali, que os fantasmas das pessoas que ele nunca verá e nunca conhecerá ainda estão presentes nas coisas rejeitadas que ele e os seus colegas encontram espalhadas por todo o lado nas casas vazias."

agosto 17, 2015

Chama Devoradora - John Steinbeck

Título original: Burning Bright
Ano da edição:1950
Autor: John Steinbeck
Tradução: Virgínia Motta
Editora: Editora "Livros do Brasil"

"O tema de Chama Devoradora é chocante e até sensacional. Nas mãos de um escritor menor, poderia tornar-se licencioso, mórbido e obsceno. Mas John Steinbeck, que é um dos maiores escritores da América, trabalhou-o com coragem, audácia, lucidez e compaixão. Esta é, afinal, a história do impulso fundamental, a ânsia de procriar, a necessidade premente de continuar a espécie, conduzindo-a à imortalidade...
As personagens de Steinbeck encontram-se a braços com uma dolorosa situação humana, em que intervêm as mais importantes emoções do homem, tais como o amor, o orgulho, o egoísmo, a lealdade e abnegação."

Chama Devoradora é um livro original na forma como conta a história que Joe Saul, Mordeen, Vítor e Amigo Ed partilham. Estes sãos os nomes que Steinbeck decidiu dar às suas personagens, mas poderiam ter sido outros porque o que eles representam é a espécie humana, as nossas  preocupações, os nossos anseios, os nossos desejos e objectivos. As realidades de onde vimos até podem ser diferentes, mas na essência somos de facto muito semelhantes, programados para preservar a espécie, embora muitas vezes pareça exactamente o oposto.

Em três cenários à primeira vista díspares, um Circo, uma Quinta e no Mar, eles vão ser confrontados com dilemas morais, escolhas difíceis. Vão lutar pelo que acreditam, vão cometer injustiças e provocar angústias em quem amam. Vão percorrer um caminho juntos, aprender, crescer e no fim perceber que estavam errados. :)

Foi bom voltar a Steinbeck numa história deste tipo, muito diferente das que lhe são tão características. Uma espécie de experiência literária, explicada pelo próprio no início do livro e que lhe correu francamente bem.

Steinbeck não se recomenda, os livros dele são uma espécie de inevitabilidade à qual nenhum leitor quererá escapar. ☺

Boas leituras!

Excerto (pág. 111):

"(...) Não passa de um rosto qualquer. Os olhos, o nariz, a forma do queixo... Eu pensava que urgia preservá-los por serem meus. E não é assim. É a raça, a espécie que deve sobreviver sempre, a nossa mesquinha e feia espécie, fraca e feia, dilacerada por mil loucuras, violenta e agressiva, a única que tem consciência do mal e ainda assim o pratica; a única que tem consciência da pureza e continua a ser impura, que reconhece a crueldade e sem mantém intoleravelmente cruel.
(...) A nossa querida espécie, nascida sem coragem e, no entanto, cheia de valentia; nascia com uma inteligência bruxuleante e, contudo, trazendo a beleza nas mãos. Que outro animal, além do homem, se pode gabar de haver criado beleza? Com todos os nossos horrorres e todas as nossas faltas, arde em nós uma chama única. E isso é o mais importante de tudo. Uma chama única."

agosto 04, 2015

A Companhia do Diabo - David Liss

Título original: The Devil's Company
Ano da edição:2009
Autor: David Liss
Tradução: Ana Mendes Lopes
Editora: Saída de Emergência

"1722, Londres. Benjamin Weaver, judeu português, espadachim destemido, antigo pugilista e mestre do disfarce, vê-se aprisionado num jogo mortífero contra uma das figuras mais enigmáticas do seu tempo: Jerome Cobb.

Chantageado a roubar documentos com segredos valiosos da poderosa Companhia Britânica das Índias Orientais, cedo Benjamin se apercebe que esse roubo é apenas o primeiro passo numa audaciosa conspiração. Para salvar os seus amigos das garras de Cobb, Benjamin terá de infiltrar a Companhia, manipular vários dos seus mais influentes membros e desvendar uma trama secreta que envolve rivais, espiões estrangeiros e oficiais do governo.

Com milhões de libras e a segurança da nação em jogo, Benjamin enfrentará conspirações secretas, inimigos formidáveis e aliados inesperados. Numa pesquisa histórica escrupulosa de David Liss, A Companhia do Diabo retrata o nascimento das corporações modernas, numa narrativa de grande suspense."

Os livros do David Liss foram dos primeiros, da então nova editora Saída Emergência, a captar a minha atenção. A Saída de Emergência na altura veio trazer uma lufada de ar fresco ao mundo editorial, com as capas diferentes de todas as que até aí existiam, autores desconhecidos (muitos deles portugueses) e mais direccionada para a literatura Fantástica e o Romance Histórico, onde se encaixavam os do David Liss - A Conspiração de Papel, O Mercador Português e O Grande Conspirador. A verdade é que acabei por ficar com um carinho especial pelos livros do David Liss e pela sua personagem fetiche, Benjamim Weaver, um ex-pugilista judeu, descendente de portugueses a viver na Londres do século XVIII. :)
Já lá vão uns anos desde que li o último dele, e ao pegar neste A Companhia do Diabo, foi como reencontrar um velho conhecido e gostar do que encontramos porque ele envelheceu bem.
Isto tudo para dizer que, para mim David Liss, é um daqueles autores a quem reconheço falhas, mas do qual gosto muito. É um daqueles autores, sobre os quais a minha opinião será sempre mais baseada em emoções e menos racional. Porque que é que gosto? Olhem, porque sim! :)
Com isto não quero menosprezar os livros, ou dizer que são maus, longe disso. Quero antes dizer que não são obras-primas mas também não são apenas entretenimento. Para além de nos deixarem bem-dispostos, aprendemos algumas coisas e estão relativamente bem escritos (avaliando apenas as obras traduzidas). Acho que são, acima de tudo despretensiosos.

Relativamente ao A Companhia do Diabo, é um livro que se lê muito bem e onde reencontrei um Benjamin Weaver aparentemente mais maduro, a trabalhar como detective privado e com fama de ser muito bom naquilo que faz. Tão bom que chama a atenção de Jerome Cobb, um homem misterioso que ninguém parece conhecer. Cobb arrasta Weaver para uma missão perigosa, envolvendo a Companhia das Índias Orientais, o comércio de tecidos e algumas das figuras mais importantes da sociedade londrina, ameaçando-o, caso não colabore, prejudicar o tio e dois amigos.
Pouco habituado a seguir regras e a ser obrigado a fazer o que quer que seja, Benjamin irá, como é natural, lutar com todos os meios ao seu alcance para reverter a situação em que se encontra a seu favor. Algumas coisas correm-lhe de feição, outras nem tanto.

O livro lê-se muito bem, embora às vezes se possa tornar um pouco maçudo. Não sei se maçudo é o termo correcto, às vezes parece que Weaver verbaliza demasiado o que lhe passa pela cabeça, a escrita pode parecer, por vezes, menos polida, menos madura ou trabalhada. No entanto, nada que estrague o ritmo da história e que impeça o envolvimento e o interesse em descobrir e desvendar o mistério. A descrição da época e o ambiente criado, estão bem conseguidos, bem como as personagens. Acho-lhes piada e gosto da forma como a história se vai desenrolando.
O tema também nos prende ao livro e é interessante perceber como é que as grandes companhias, financeiras ou comerciais, neste caso, nasceram. O comportamento e a influência que tinham na altura e que permanece, nos dias de hoje, praticamente inalterado. A forma abusiva com que tratavam os concorrentes e os meios que utilizavam para sabotar todo e qualquer acontecimento que pudesse vir a ser uma ameaça ao lugar que ocupavam e ao poder que adquiriram e não pretendiam perder. Valia tudo, no século XVIII e continua a valer tudo no século XXI. Os meios utilizados até podem não ser os mesmos, mas os fins continuam a justificá-los.

Resumindo e baralhando, recomendo por diversas razões:
1ª É um livro do David Liss e, já o disse, acho-lhe piada;
2ª A história é boa e está bem escrita;
3ª O tema é interessante;
4ª Não sei se é por Benjamin ser descendente de judeus portugueses, mas sente-se alguma lusofonia no livro o que é curioso porque David Liss, até onde sei, não tem qualquer ligação com Portugal.

Poderia continuar a enumerar as razões pelas quais recomendo os livros de David Liss, mas acho que não iria acrescentar nada ao que já foi dito, portanto, leiam!:)

Boas leituras!

Excerto (pág. 93):
"Vim aqui repetir o aviso do senhor Cobb para que não investigue a natureza dos seus negócios. Ele teve conhecimento de que tanto o seu tio como o seu amigo andaram a fazer perguntas pouco apropriadas sobre a sua pessoa. uma vez que se encontrou com o senhor Gordon e com o seu tio, assim como mais tarde se encontrou com o senhor Franco, não posso deixar de pensar que o senhor continua a prosseguir com as investigações contra as quais foi firmemente avisado.
Não lhe respondi.Como poderiam eles saber? A resposta era óbvia. Estava a ser seguido e não por Westerly, porque um homem daquele tamanho não podia viajar pelas ruas sem ser visto. Havia outras pessoas a seguir-me. Quem era Jerome Cobb para ter tantos homens ao seu serviço?"

agosto 01, 2015

Ferrugem Americana - Philipp Meyer

Título original: American Rust
Ano da edição:2009
Autor: Philipp Meyer
Tradução: Ester Cortegano
Editora: Bertrand Editora (Colecção 11x7)

"Passado num cenário de grande beleza mas economicamente destruído, Ferrugem Americana é um livro sobre o fim do sonho americano, mas é também uma história de amizade, lealdade e amor.
Isaac fica a tomar conta do pai depois do suicídio da mãe e da fuga da irmã para a Universidade de Yale. Quando finalmente decide partir, acompanhado pelo seu melhor amigo, o temperamental Billy Poe, antiga estrela de futebol americano do liceu, são apanhados num terrível acto de violência que muda para sempre as suas vidas. 
Com ecos dos romances de Steinbeck, Ferrugem Americana, leva-nos ao coração da América contemporânea num momento de profunda inquietação e incerteza quanto ao futuro. Um livro negro, lúcido e comovente, onde se trava uma batalha entre o desespero e o desejo de transcendência, entre a destruição e a capacidade redentora do amor e da amizade."

Adorei este livro. Li há uns anos uma crítica sobre ele (Bibliotecário de Babel) e desde aí, nunca mais me saiu da cabeça. 

Gostei muito da forma como a história é contada, de todas as personagens e de toda a envolvência. O ambiente opressivo de cidades fantasmas e indústrias abandonadas. Pessoas que esperam, de certa forma resignadas, talvez adormecidas, sem esperança, por dias melhores, pela prosperidade prometida. Algumas destas pessoas parecem, após anos, ainda espantadas, incrédulas com o que a vida lhes reservou. O que fazer quando tudo aquilo que planeamos para o nosso futuro está longe daquilo que vivemos no presente?
Ferrugem Americana é um livro sobre o sonho americano, sobre a volatilidade da economia, especialmente num mundo globalizado, onde as variáveis são cada vez mais e cada vez menos controláveis, à micro escala do comum dos mortais.
 
Isaac é um jovem extremamente inteligente a quem todos vaticinavam um futuro brilhante, longe da cidade pequena que o viu nascer e crescer. Pouco sociável e com poucos amigos, Isaac é no entanto um miúdo muito leal, com um elevado sentido de dever. 
Tudo parece correr bem, até que a crise do aço se instala e as fábricas começam a fechar. O pai de Isaac é um dos que acaba desempregado e obrigado a procurar trabalho longe de casa. Um dia sofre um acidente e regressa a casa numa cadeira de rodas. Na mesma altura, a mãe de Isaac suicida-se. A partir daqui tudo na vida de Isaac se desmorona, o seu futuro brilhante começa a escapar-se-lhe por entre os dedos e parece totalmente perdido no dia em que a irmã mais velha, também ela uma aluna brilhante, parte para a Universidade e  o deixa sozinho com o pai. Embora a irmã tenha planos para ela e para o irmão, este sente-se abandonado e sente que de certa forma ela lhe roubou o futuro.
Aos 21 anos, Isaac nunca ingressou na universidade, nunca teve coragem de abandonar o pai, embora este não lhe pareça particularmente grato.
 
Billy Poe, a estrela de futebol da escola e da cidade, único amigo de Isaac, é um dos poucos que poderia ter partido da cidade e que, por diversos motivos, nunca o fez. De temperamento difícil e explosivo, é no entanto um bom rapaz que viveu toda a vida com a sensação de que todos estão à espera que falhe. Acha que não merece mais do que aquilo que tem. Vive sem perspectivas, num limbo entre a inércia e a vontade de concretizar os seus sonhos.

A amizade entre os dois e o que os une acaba por ser o fio condutor de toda a história, o elemento aglutinador das vidas de todos os que os rodeiam.
Isaac, Billy Poe, a família de ambos, a cidade onde vivem, toda a região são os destroços de políticas desconexas, de decisões irresponsáveis, do cada vez maior distanciamento entre os governos e a vida das pessoas que governam. São uma visão de desespero, de inércia e de resignação, mas ao mesmo tempo, uma visão de esperança, que nos lembra a todos nós que aquilo que realmente importa nas nossas vidas está muito para além do dinheiro e da economia e que o que realmente importa é das poucas coisas que está nas nossas mãos manter.

Só posso recomendar, sem reservas! Philipp Meyer passou a constar na minha lista de escritores a seguir. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 454):
"Estava no fim da sua linha, ela não fora muito longa. Não sabia o que esperava. Mais avisos, como um cancro, só que houvera avisos, houvera muitos avisos, ele não fora capaz de os ver. E assim, ali estava ele, era inevitável, não poderia ter sido de outra maneira."

junho 29, 2015

Sombras Queimadas - Kamila Shamsie

Título original: Burnt Shadows
Ano da edição:2009
Autor: Kamila Shamsie
Tradução: Helena Lopes
Editora: Civilização Editora

"9 de Agosto de 1945. Nagasáqui. Hiroko Tanaka, de 21 anos, embrulhada num quimono com três grous pretos estampados nas costas, esta apaixonada pelo homem com quem vão casar, Konrad Weiss. Num milésimo de segundo, o mundo fica branco. No entorpecimento consequente ao explodir a bomba que oblitera tudo o que ela conheceu, apenas restam as queimaduras em forma de ave nas suas costas, uma memória indelével do mundo que perdeu.
Dois anos depois, procurando recomeçar, Hiroko viaja para Deli. Vai conhecer a meia-irmã de Konrad, Elizabeth, o marido desta, James Burton, e o empregado deles, Sajjad Ashraf. Com o passar dos anos, outros lares substituem os que ficaram para trás e as velhas guerras são ultrapassadas perante os novos conflitos. Mas as sombras da história - pessoais, políticas - alongam-se sobre os mundos entrelaçados dos Burton, dos Ashraf e dos Tanaka quando são transportados do Paquistão para Nova Iorque e, no espantoso clímax da história, para o Afeganistão no pós-11 de Setembro."

 
Este livro chamou-me a atenção primeiro pelo nome e depois pelo tema, o lançamento da bomba atómica em Nagasáqui, na 2° guerra mundial. O livro acabou por ser uma óptima surpresa e Kamila Shamsie uma escritora a manter debaixo de olho. 

Hiroko Tanaka é a personagem que nos acompanha em todo o livro, testemunha de acontecimentos que mudarem o mundo e a forma como o vemos, hoje em dia. Viveu o lançamento da bomba atómica em Nagasáqui, durante a 2ª guerra mundial. Assistiu da janela do seu quarto ao clarão branco que eclipsou da face da terra tudo aquilo e todos aqueles que conhecia, a cidade, o pai, e Konrad Weiss, o noivo.
Depois de recuperar fisicamente, e sem nada nem ninguém que a prenda a Nagasáqui e ao Japão, Hiroko decide partir. Konrad, filho de pais alemães, tinha uma irmã a viver na Índia, ainda pertença da coroa britânica. É para lá que Hiroko decide partir, numa tentativa de encontrar em Elizabeth, uma réstia de Konrad. Encontra pouco de Konrad na meia-irmã, mas reencontra o amor e cria com Elizabeth uma amizade que durará uma vida.
Hiroko chega a Deli, uns meses antes da saída da Grã-Bretanha da Índia (1947) e da divisão do território até então ocupado pelos britânicos, com o vizinho Paquistão. Espera-se que a saída dos britânicos seja pacífica, no entanto, as relações entre o Paquistão e a Índia estão longe de ser amigáveis. Hiroko vê-se mais uma vez envolvida num conflito, obrigada a fugir, e a viver novamente sob a ameaça do lançamento da bomba atómica.

Hiroko, vai viver para o Paquistão, casada e com um filho, ela assiste, ao longo das décadas que ali viveu,  à crescente intolerância religiosa, com a radicalização dos muçulmanos no país e a crescente importância dos campos dos talibans no Afeganistão. Numa sequência desastrosa de acontecimentos e de mal-entendidos, Hiroko acaba por ir parar a Nova Iorque. Lá assiste, em 2001, à queda das Torres Gémeas, no ataque perpetrado pela Al-Qaeda.

Numa teia bem construída de acontecimentos que ligam as personagens e factos históricos, a ideia que permanece ao longo de todo o livro é a da 3ª Lei de Newton, não existem acções sem reacções. Aparentemente nada do que fazemos na nossa vidinha é inconsequente. A reacção até pode não ser imediata, mas que as nossas acções têm um impacto no mundo que nos rodeia é inegável.

Gostei muito deste livro. Não tinha grandes expectativas, não conhecia a escritora e acabou por ser uma boa surpresa. Lê-se muito bem, a escrita é fluída e envolvente, o tema e a forma como Kamila Shamsie o aborda é muito interessante.

Parece-me óbvio que só posso recomendar.

Boas leituras!

Excerto (pág. 36):
"Hiroko sai para a varanda. O seu corpo, do pescoço para baixo, uma coluna de seda branca, com três grous pretos a precipitarem-se  sobre as suas costas. Ela olha na direcção das montanhas, e tudo está mais belo para ela do que estava de manhã cedo. Nagasáqui está mais bela do que nunca. Volta a cabeça e vê as flechas da Catedral de Urakami, para as quais Konrad está a olhar quando repara numa frecha entre as nuvens. A luz do Sol jorra através dela, empurrando as nuvens ainda mais longe.
Hiroko.
E depois o mundo fica branco. (...)
A luz é física. Ela atira Hiroko para a frente, estendendo-se ao comprido. Entra-lhe poeira na boca, no nariz, na altura em que bate no chão, e queima. A sua primeira reacção é de medo que a queda tenha rasgado o quimono de seda da mãe. Ela levanta-se do chão, olha para baixo. Há sujidade no quimono, mas não rasgões. Todavia algo está errado. Está de pé. O ar está subitamente quente e sente-o na pele. Sente-o nas costas. Desliza a mão por cima do ombro, toca carne onde deveria  haver seda. Move a mão mais para baixo das costas, toca no que não é carne nem seda mas ambas."

junho 10, 2015

O Diabo e Outros Contos - Lev Tolstói

Título original: O Diabo e Outros Contos
Ano da edição:2008
Autor: Lev Tolstói
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Relógio d'Água

"Reúnem-se aqui seis dos melhores contos de Tolstoi. Os dois primeiros são sombrias parábolas sobre as tentações carnais. Em O Diabo (1889-90), um jovem não consegue resistir a uma bela camponesa com quem tivera um caso antes de se casar. Por sua vez, O Padre Sérgui retrata a vida de um soldado que, para resistir às tentações, se torna monge e, mais tarde, pedinte.
Dos restantes contos, destaca-se Depois do Baile que é, nas palavras de George Steine, um cinto formidável, um exemplo em que a técnica e a metafísica ser tornaram inseparáveis, pois no vocabulário de Tolstoi, tem ressonâncias ambíguas, é ao mesmo tempo uma ocasião de graça e elegância e um símbolo de consumada artificialidade."

É sempre bom regressar aos clássicos e ao formato conto que gosto especialmente nos escritores russos. Este O Diabo e Outros Contos lê-se muito bem e os contos são dos bons. Vou apenas destacar os três de que mais gostei.

O Diabo:
É como a sinopse descreve, uma sombria parábola sobre tentações carnais. Um jovem, de boa educação, após morte do pai que os deixou, a ele e à mãe, cheios de dívidas, decide mudar-se para a propriedade da família na aldeia, onde pretende resgatar a economia familiar da falência.
É um homem correcto, bem amado por todos os que com ele se cruzam. No seu afastamento da vida da cidade, a única coisa de que sente falta, e porque ainda não encontrou a mulher com quem quer casar, é do sexo casual, sem compromisso. Entende isto como uma necessidade física e é por isso que o que mais o atormenta é não haver na aldeia, por ser um sítio pequeno, forma de o fazer sem que todos o saibam e o julguem como mais um senhor que se aproveita dos mais pobres. Acaba por encontrar em Stepanida, uma mulher da aldeia cujo marido trabalha na capital, aquilo que procura, e com a discrição possível, arruma o assunto e vive verdadeiramente feliz na aldeia. 
Mais tarde conhece Lisa e apaixona-se. Casa com ela e nunca mais pensa em Stepanida, porque havia de o fazer, se agora tem em Lisa tudo aquilo com que sonhou? Um dia cruza-se com Stepanida... e todas as suas certezas deixam de as ser. :)

Gostei muito desta pequena história.

O Patrão e o Moço da Estrebaria:
O patrão, Vassilí Andreitch, é um homem ambicioso, egocêntrico e explorador. Homem de família, sai de casa numa noite fria e de tempestade, com uma quantia de dinheiro considerável, para fechar um negócio da compra de um terreno. Com ele leva um empregado, Nikita, o homem que lhe trata dos cavalos, o moço de estrebaria, que com cinquenta anos, de moço já nada tinha. Sóbrio há anos é um pobre diabo, que encontra em Vassilí um patrão menos mau, que ao menos não deixa que ele e a família passem fome.
Partem os dois, o patrão bem agasalhado, Nikita nem tanto. Com o tempo a ficar cada vez mais agreste, os dois perdem-se e desviam-se do caminho que levavam. Chegam a uma aldeia vizinha, onde conhecidos os acolhem e orientam para o caminho certo, não sem antes insistirem para que passem a noite resguardados e que partam de manhã, quando a tempestade tiver passado. Vassilí insiste em partir e na urgência de fechar o negócio dos terrenos antes que outro lhe passe à frente e faça subir o preço. Partem os dois novamente, e novamente se desorientam na noite cerrada e na estrada cheia de neve. Quando achamos que nesta história todas as persoangens são aquilo que esperamos delas, somos supreendidos. :)

Temos tendência, como seres humanos a catalogar as pessoas que se cruazm connosco. Nem sempre, aquilo que aparentam ser é o que acabam por ser nas alturas mais importantes.  Gostei muito deste conto.

Albert:
Albert é um músico talentoso, alcoólico e de rosto celestial. Quando toca todos se rendem ao seu talento, e a forma como o faz deixa todos à sua volta estarrecidos e sensibilizados. 
Num dos bailes dados por Anna Ivánovna, e onde Albert costuma aparecer para tocar, Deléssov depois de o ouvir decide ajudá-lo. Tem de o fazer, um talento daqueles não pode continuar a ser desperdiçado em salões de baile. Deléssov quer tirá-lo da vida desgraçada que leva, da rua, quer potenciar o seu talento, torná-lo num homem diferente e leva-o para sua casa. O que acontece nesta tentativa de reabilitar Albert terão de ser vocês a descobrir.


Estes são apenas três dos contos incluídos nesta colectânea de textos de Tolstói. Vale a pena lê-los a todos e à qualidade intemporal de Lev Tolstói.

Boas leituras!

Excerto (pág. 145):
"Acham então os senhores que, depois daquilo, eu concluí que a cena era um acto mau? Nada disso. «Se aquilo era feito com tanta convicção e reconhecido por todos como necessário, significa que eles sabiam alguma coisa que eu não sei», pensava eu, tentanto compreender. Pois bem, por mais que tentasse, não consegui compreender, nem sequer mais tarde, até hoje. E como não compreendi, fui incapaz de entrar para o serviço militar, como desejava antes dessa cena, e mais: não prestei serviço militar nem prestei serviço nenhum. Mas, como é evidente, eu também não prestava para nada."

maio 29, 2015

[ebook] O Mistério da Estrada de Sintra - Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Título original: O Mistério da Estrada de Sintra
Ano da edição original: 1884
Autores: Eça de Queirós e Ramalho Ortigão
Revisão: Bernardo de Brito e Cunha (Projeto Adamastor)

"Naquele que é justamente considerado o primeiro romance policial português, conta-se a história de um médico que regressa de Sintra acompanhado por um amigo. A meio do caminho, ambos são raptados por um grupo de mascarados, que os levam para um prédio isolado onde aparecera um homem morto. A partir daí, os acontecimentos sucedem-se em catadupa. Quem é o morto e quem o matou? E porquê? Quem era a mulher com quem ele se encontrava, e quem são os mascarados que pretendem proteger a sua honra? A história foi publicada no Diário de Notícias entre Julho e Setembro de 1870 sob a forma de cartas anónimas, e foram muitos os que se assustaram com os acontecimentos narrados. Só no final é que Eça de Queirós e Ramalho Ortigão admitiram tratar-se de uma brincadeira e que eram eles os autores das cartas. O Mistério da Estrada de Sintra foi publicado em forma de livro nesse mesmo ano. Em 1885, houve uma segunda edição revista por Eça de Queirós, que é a utilizada na presente edição."

Um regresso aos clássicos portugueses, com este O Mistério da Estrada de Sintra, escrito a duas mãos por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Este tem sido, ao longo dos anos, um daqueles livros que de vez em quando me vinha à cabeça como que a relembrar-me de que gostaria de o ler. Foi desta que me veio parar às mãos.

O Mistério da Estrada de Sintra é uma história típica da época, embora esteja longe de ser apenas uma história típica e previsível. É típica por ser uma historia de amores impossíveis, dramáticos e fatais e não é apenas uma história típica porque está envolta em mistério, com personagens menos óbvias e cenários inesperados.
O livro começa com a intercepção de dois amigos (muito parecidos com Eça e Ramalho), no caminho de Sintra para Lisboa, por um grupo de homens mascarados que não se identificam e que lhes pedem que os acompanhem. Onde?, não dizem. Os dois são vendados e elevados até uma casa isolada, que não conhecem e onde vão encontrar um homem morto... :) E mais não digo, porque o que mais me prendeu à leitura foi não saber nada sobre a história e todo o ambiente misterioso que os escritores conseguiram criar.
O que se passa com eles naquela casa leva a que um deles, quando sai, sem que tenha conseguido esclarecer o que lhe aconteceu e o porquê, decida escrever para um editor de jornal uma carta onde relata o que lhes aconteceu. A carta é publicada e alguns dos intervenientes na história manifestam-se, também por cartas, que vão sendo publicadas no jornal. É desta forma que vai sendo desvendado o mistério que levou aqueles homens àquela casa e o que os levou à estrada de Sintra para "raptarem" os dois amigos.

Até mais ou menos metade do livro, não fazia ideia do que estava por detrás do acontecimento misterioso que apanhou desprevenidos os nossos escritores na Estrada de Sintra. Gostei muito dessa vertente do livro e achei a história original e as personagens muito bem construídas e interessantes.

Recomendo como é natural!

Boas leituras!

Excerto:
"Demos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos à direita e entrámos na escada. Era de madeira, íngreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superfície e esbatidos e arredondados nas saliências primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar húmido, impregnado de exalações interiores dos prédios desabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos à esquerda num patamar, subimos ainda outros degraus e parámos num primeiro andar.
Ninguém tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lúgubre neste silêncio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.
Ouvi então a nossa carruagem que se afastava, e senti uma opressão, uma espécie de sobressalto pueril.
Em seguida rangeu uma fechadura e transpusemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada à chave depois de havermos entrado.
 - Podem tirar os lenços - disse-nos um dos nossos companheiros.
Descobri os olhos. Era noite."