setembro 01, 2017

[Kindle] A Cidade do Medo (Não Matarás vol.I) - Pedro Garcia Rosado


Título original: A Cidade do Medo - Não Matarás vol.I
Ano da edição original: 2010
Autor: Pedro Garcia Rosado
Editora:Edições ASA

"Para a Polícia, a morte violenta de um sem-abrigo cuja identidade é quase impossível de determinar não é uma ocorrência a que se possa dedicar muito tempo. Mas a situação altera-se na manhã seguinte: aparecem mortos, da mesma maneira, mais dois sem-abrigo na Baixa de Lisboa. E, dois dias depois, são três os sem-abrigo atacados. O serial killer começa, porém, a deixar pistas - e estas apontam para um culto satânico, mas também para a maçonaria. Com o medo a instalar-se em Lisboa, onde o assassino vai multiplicando os seus actos de violência, e enquanto Joel Franco começa a descobrir as origens desta vaga de crimes, o presidente da Câmara de Lisboa e um seu discreto aliado na própria PJ percebem quem é o autor das mortes: o homem que quiseram transformar em bode expiatório quando começou a correr mal o comércio ilícito de terrenos na zona do projectado aeroporto da Ota. No qual pontificara o presidente da Câmara quando ainda era ministro do Ambiente… E em breve vão estar frente a frente dois homens que, à sua maneira, procuram justiça: o assassino propriamente dito e Joel Franco, que tenta vingar a morte de um amigo de infância em cada homicida que persegue. É bem provável que ambos desafiem a antiquíssima norma que regula a sociedade humana: «Não matarás.»

«Não Matarás» é uma série de thrillers ambientados em Portugal e com personagens portuguesas. O seu protagonista é Joel Franco, inspector na Secção de Homicídios da Polícia Judiciária que, em todos os crimes que resolve, sabe estar a vingar uma morte a que assistiu na infância."

Depois de muito resistir eis que um ereader me entra pela porta a dentro... :) A resistência tinha muito a ver com o preço dos aparelhos, o preço incompreensível dos ebooks e a pouca variedade de livros em português. Acabei sempre por ir adiando a compra.
O dia acabou por chegar e, para estrear o meu Kindle, um autor português de quem tenho lido boas críticas e que tinha esta série Não Matarás a preços convidativos.
Depois de ultrapassadas as exasperantes dificuldades em tornar o epub compatível com o Kindle, preparei-me para estranhar a leitura. E afinal, não estranhei... assim tanto. Não acho que seja para todo o tipo de livros, mas a verdade é que a leitura é muito cómoda, consegue-se ler em qualquer lado e o dispositivo é leve e de fácil utilização. Do que é que senti falta? Da parte mais emocional que associo ao acto de ler, do toque do papel, do cheiro dos livros e de fechar e ter uma capa pela qual podemos passar a mão. Essas pequenas grandes coisas que facilitam uma espécie de ligação emocional com o livro, com a história e com as personagens. No entanto, gostei da experiência e não estou desiludida com a aquisição. Acho que vou usá-lo muito, mesmo tendo em conta as limitações que ainda existem ao nível do mercado de livros eletrónicos.
Mas falemos do livro porque estamos no Quero um Livro e não no Comprei um Kindle. E agora?!. :)

Já não sei muito bem como é que os livros de Pedro Garcia Rosado entraram no meu radar, mas ainda bem que entraram.
A Cidade do Medo inicia a trilogia Não Matarás, que inclui ainda Vermelho da Cor do Sangue e Triângulo.
A Cidade do Medo é um policial em português passado em Portugal e é bastante bom! E porque é que estou surpreendida? Bem de acordo com recente formação, todos nós somos enviesados e este era definitivamente um caso de enviesamento. Posso estar enganada, uma vez que o género não abunda nas minhas estantes, mas a verdade é que não abundam escritores portugueses de policiais. Não me recordo de alguma vez ter lido um livro do género de um escritor português.

Por se tratar de um policial, para os quais convém partir sem grande informação, tenho sempre algum receio de dizer demais e estragar as surpresas do livro, por isso não me vou alongar.  
A Cidade do Medo é uma história de corrupção, de alienamento social, de vingança e é, também um retrato interessante deste nosso país à beira mar plantado.
Não precisam de saber mais do que já é dito na sinopse e acho que basta dizer-vos que o livro está muito bem escrito, a história prende-nos, as personagens são interessantes e a leitura flui com muita naturalidade.

Recomendo sem quaisquer hesitações. E já tenho os outros dois livros que completam a trilogia na minha nova biblioteca digital. :)

Boas leituras!

Excerto:
"O colega mantém-se imóvel. Joel avança na sua direção. Vê-lhe os pés descalços, as calças do pijama de flanela, os braços estendidos e as mãos de dedos flectidos. E, depois, o rosto. Tem uma expressão de dor e os olhos estão abertos. Muito abertos. Cheira a urina. Da casa de banho ou do corpo de Augusto?
Joel sacode-o, mas o amigo não se mexe. Puxa-lhe por uma mão, mas ele não reage. E não respira. Joel empalidece. Até este momento foi poupado a um contacto directo com a morte. O pai morreu na guerra, mas o corpo ficou em África, desfeito. Augusto é o primeiro morto que vê. Joel aproxima-se mais, vence o medo e a repugnância e fixa o olhar nos olhos baços do amigo.
Todos os dias lhe dizem que a morte é uma passagem para um mundo melhor. Mas o rosto de Augusto não tem a expressão dos crentes."

julho 31, 2017

Serpentina - Mário Zambujal

Título original: Serpentina
Ano de edição: 2014
Autor: Mário Zambujal
Editora: Clube do Autor

"Ingénuo e atrevido, sonhador e realista, pontual e transgressões, o mundo de Bruno D. L. Bracelim leva-nos a situações armadilhadas e a um mundo feminino que mostra o perigo encantador de supostos rostos perfeitos. 
A poucos dias de soprar as sete velas, o seu destino sofreu uma entorse. A família partiu para o Canadá e ele, criança enfermiça, ficou a cargo dos desvelos da madrinha Henriqueta. Chegado à idade adulta, solteiro e bom rapaz, passa as noites no terraço de sua casa, saudando a lua e adivinhando ao longe, noutro terraço, os contornos de uma esguia figura de mulher, enquanto persegue uma obsessão: a demanda do rosto feminino insuperável. 
Mas não há bela sem senão. E o destino prega-lhe outra partida. O que lhe parecia ser um mero encontro profissional acaba por se transformar num estranho caso. Uma avaria no seu mini e uma pancada de um jipe conduzido por uma mulher enigmática é o princípio de uma trama que o levará a situações nunca imaginadas. 
E tudo o que parecia previsível, exacto, perfeito, como um relógio suíço, acaba por se transformar num enredo de acasos em que a realidade ultrapassa a ficção a provar que nada é mais imprevisível do que o passado. 
Com o seu estilo inconfundível, Mário Zambujal oferece-nos páginas de supremo divertimento em que a imaginação e o humor se entrelaçam com a reflexão e a emoção. "

Mário Zambujal é uma estreia na minha estante e, uma agradável surpresa. O livro é ideal para um dia de chuva ou um daqueles dias em que queremos ler mas nada de muito denso. 
Serpentina narra a história de Bruno Bracelim, um argumentista, que tenta sobreviver entre trabalhos. 
Bruno valoriza muito a ordem e a previsibilidade na sua vida. Pessoas que se atrasam tiram-no do sério e procura, desde que se lembra, a mulher com o rosto perfeito e que será a mulher da sua vida. Como é natural nem tudo é previsível e a perfeição é um conceito muito subjectivo e, por isso Bruno acaba por se ver envolvido numa série de acontecimentos estranhos e sobre os quais não tem qualquer tipo de controlo. 

Com muito humor à mistura, Serpentina é um livro que se lê num ápice, bem escrito e com aquele gostinho português que só os nossos autores nos conseguem dar. 
Serpentina tem ainda a particularidade de estar livre de todos os estrangeirismos de que se possam lembrar... Mesmo todos. :) Todas as palavras com origem anglo-saxónica são aportuguesadas e, embora seja estranho e não tenha percebido bem o porquê, acaba por ser divertido. 

Mário Zambujal é para manter na minha lista de autores que quero continuar a explorar. 

Gostei e recomendo! 

Boas leituras! 

Excerto (pág. 130):
"Escanhoo-me com lâmina em estreia, massajo a cara com afetercheive, o tronco, os braços, e as pernas não ficam sem bodimilque. Quanto ao vestir, hesito entre jines e chortes a condizer com a tichârte, mas concluo que indispensável é o blêiser e acompanhado por peças a que se dá os estranhos nomes de calças e camisa. "

julho 23, 2017

A Sentinela - Richar Zimler

Título original: The Night Watchman
Ano da edição original: 2014
Autor: Richard Zimler
Tradução: José Lima
Editora: Porto Editora

"Até que ponto um único assassinato pode iluminar a crise moral em que se encontra o país?
6 de Julho de 2012. Henrique Monroe, inspector-chefe da Polícia Judiciária, é chamado a um luxuoso palacete de Lisboa para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um abastado construtor civil. Depois de interrogar a filha da vítima, Monroe começa a acreditar que Coutinho foi assassinado ao tentar defender a perturbada adolescente do violento assédio sexual de algum amigo da família. Ao mesmo tempo, uma pen que o inspector descobre escondida na biblioteca da casa contém alguns ficheiros com indícios de que a vítima poderá também ter sido silenciada por um dos políticos implicados na rede de corrupção que o industrial montara para conseguir os seus contratos.
Tendo como pano de fundo o Portugal contemporâneo, um país traído por uma elite política corrupta, que sofre sob o peso dos seus próprios erros históricos, Richard Zimler criou um intrigante policial psicológico, com uma figura central que se debate com os seus demónios pessoais ao mesmo tempo que tenta deslindar um caso que irá abalar para sempre os muros da sua própria identidade."

A escrita de Richard Zimler é muito despretensiosa, como se estivesse a escrever para ele próprio e, nos livros que já li dele, sente-se que existe uma necessidade em contar histórias com significado, que acrescentem, que façam pensar, que chamem a atenção para algo.

A Sentinela é um policial que não se limita à investigação de um crime. É, também a história de Henrique Monroe, um inspector-chefe da PJ que vê alguns dos fantasmas do passado regressarem quando é chamado para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um influente construtor civil, com boas relações nas altas esferas da política. Um crime que aparentemente estaria relacionado com negócios menos claros começa aos poucos a revelar algo bem mais perturbador.
Henrique é uma pessoa especial, a todos os níveis. Veio viver para Portugal, com o irmão mais novo, depois do pai de ambos ter morrido? desaparecido? Nunca nos é dito, ao certo, o que se passou com o pai.
Divide a mente e o corpo, com Gabriel, um homem?, uma entidade? que parece saber tudo, e que de vez em quando toma posse do corpo de Henrique e ajuda-o em fases críticas da sua vida e nas investigações. Gabriel surgiu-lhe, pela primeira vez, quando Henrique era ainda uma criança e nesse dia Henrique acredita que a vida do irmão mais novo foi salva.
Vítimas de violência psicológica e física, os dois irmãos só se tinham um ao outro e a relação que têm um com o outro é muito bonita, à falta de melhor expressão. No decorrer desta investigação Henrique vai ser forçado a enfrentar alguns dos seus demónios pessoais, vai ser forçado a tomar decisões sobre a sua vida e sobre aqueles que mais ama.

E é, mais ou menos sobre isto. Não vou estar aqui a esmiuçar muito a história, porque tratando-se de um policial, qualquer coisa que se diga pode já ser demais.

Gostei da história e da forma como nos vai sendo contada. Gostei das personagens, principalmente de Henrique que me pareceu muito bem pensado e realista, mesmo com todas as particularidades, nunca o achei exagerado e pouco credível. Senti, por parte do autor, uma grande sensibilidade e muito cuidado em torná-lo uma personagem forte e credível, o que foi largamente conseguido e foi essencial para que a história se tornasse cativante e ficasse comigo para além do último ponto final e do fechar do livro.

Embora, em termos de história e de importância histórica, A Sentinela não seja um livro tão grande como Os Anagramas de Varsóvia (opinião aqui), não deixa de ser um livro menos bem escrito por isso. É um livro bem escrito, coeso, envolvente e que toca em temas muito importantes e transversais à sociedade.

Gostei bastante e recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras!

Excerto (pág. 69):
"Em miúdo imaginava que o Espetro não tinha as emoções das pessoas vivas. E que era por isso que conseguia concentrar-se na busca de Ernie excluindo tudo o resto. Mas hoje sei que ele entra em pânico. Na verdade, acho que conhece melhor o medo do que qualquer pessoa que eu alguma tenha conhecido, incluindo o meu irmão.
Os miúdos não têm experiência suficiente que lhes permita reconhecer o que é excecional ou único, e eu partia do princípio de que todos eram iguais a mim e recebiam mensagens nas mãos ou noutra qualquer parte do corpo. Só quando falei nelas à minha mãe é que percebi que eu tinha mais sorte do que as outras pessoas. Ela disse-me que nunca recebera mensagens dessas e que não conhecia ninguém que as tivesse recebido. Disse-me para nunca falar nisso - especialmente ao meu pai - porque ninguém iria acreditar ou compreender. Seria o nosso segredo.
«O nosso segredo», disse ela em português, com a mão pousada na minha cabeça (...)"

julho 08, 2017

A Desumanização - valter hugo mãe

Título original: A Desumanização
Ano da edição original: 2013
Autor: valter hugo mãe
Editora:Porto Editora

"«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»
Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza."

valter hugo mãe é, parece-me, um daqueles escritores que, ou se ama ou se odeia. Eu comecei por amar, com a máquina de fazer espanhóis (comentário aqui). Neste momento estou longe, muito longe de odiar, mas também já não estou propriamente a amar. Os últimos livros que tenho lido dele têm sido, menos cativantes, não sinto a espontaneidade dos primeiros que li. E tendo a achar as histórias propositadamente chocantes. Não sei. Confesso que tenho ganho alguns anti-corpos ao valter hugo mãe. :/

A história de A Desumanização passa-se na Islândia, numa vila pequena e isolada. Dá ideia até de se passar num tempo diferente do nosso, talvez num tempo que nunca existiu.
É a história de duas irmãs, Halla e Sigridur, irmãs gémeas, inseparáveis, as melhores amigas uma da outra. Sigridur mais espontânea, mais extrovertida e criativa, Halla mais contida, menos participativa a viver mais na sombra da irmã. Um dia Sigridur morre. Num dia estava tudo bem, no outro começa a ficar doente e passado pouco tempo acaba por morrer. 
Halla vê-se sozinha pela primeira vez, sem conseguir libertar-se da presença da irmã, que imagina viva debaixo da terra onde foi enterrada. Sem a orientação da irmã e atormentada pela mãe que enlouqueceu um bocadinho com a morte da filha. A mãe culpa Halla por não ter morrido com a irmã. Que sentido faz, sendo gémeas, que uma tenha morrido e a outra tenha o descaramento de não morrer a seguir? Halla quase concorda com a mãe.

Para além das gémeas, dos pais destas, temos Einar, um homem com a mente de uma criança, num corpo de adulto. Vive com o pároco da vila e é obcecado pelas irmãs, diz que vai casar com elas. As miúdas não devem ter mais de 10 anos e Einar tem um atraso mental, embora tenha sido uma criança normal. Diz-me na vila que um trauma de infância o deixou assim. As duas sempre resistiram às investidas de Einar. Halla sozinha acaba por encontrar em Einar um bocadinho da irmã, alguém que a compreende e que demonstra uma sensibilidade e sensatez que a surpreendem.

Não vou avançar com mais pormenores da história porque acabaria por contá-la toda.

Acho que A Desumanização é sobre a desumanização de todos. A desumanização dos pais de Halla e Sigridur e a desumanização de toda uma comunidade. Existe, pelo contrário, uma espécie de humanização de Einar e da relação deste com Halla.O isolamento e a solidão que parecem esbater as fronteiras do que é certo ou errado. Crianças que não parecem crianças e que pensam e sentem como adultos. Adultos que se comportam com a imaturidade de uma criança, na forma de sentir e de agir.

É um livro triste, que não é fácil de ler. Não me consegui abstrair da pouca idade de Halla o que tornou algumas partes da história difíceis de ler e acabei por não perceber o propósito de alguns dos acontecimentos. Fiquei com a sensação de que se trata de uma espécie de fábula, no entanto não tive capacidade para me abstrair da realidade que saltava das páginas e isso acabou por tornar o livro, para mim, de certa forma penoso.

É certo que continuo a gostar muito da escrita de valter hugo mãe, continuo a achar impressionante o à vontade que demonstra com personagens femininas, de todas as idades. No entanto parece-me que as histórias deixaram de me impressionar. Não sei se deixaram de se credíveis, não sei se fui eu que deixei de me identificar, não sei. Só sei que não têm sido aquilo de que tanto gostei na máquina de fazer espanhóis.

Estou dividida. Não sei se recomendo ou não este livro. Acho que vale a pena ler valter hugo mãe, que não é um escritor para as massas e tem uma escrita e uma forma de contar histórias que pode ser muito envolvente e realista. A Desumanização não é um livro para todos e não é um livro que se possa recomendar sem reservas.
Reservas feitas, acho que o recomendo. Vai valer a pena, se não for pela história, é por se passar na Islândia. Morro de curiosidade de conhecer o país desde que li O Sino da Islândia de Halldór Laxness (meu comentário aqui).

Boas leituras!

Excerto (pág. 11):
"Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte. 
Ao deitar-me, naquela noite, lentamente senti o formigueiro da terra na pele e o molhado alagando tudo. Comecei a ouvir o ruído em surdina dos passos das ovelhas. Assim o expliquei, assustada. Disseram-me que talvez a criança morta tivesse prosseguido no meu corpo. Prosseguia viva por qualquer forma. E eu acreditei candidamente que, de verdade, a plantaram para que germinasse de novo. Podia ser que brotasse dali uma rara árvore para o nosso canto abandonado nos fiordes. Poderia ser que desse flor. Que desse fruto. A minha mãe, combalida e sempre enferma, tocou-me na mão e disse: tens duas almas para salvar ao céu. Assustei-me tanto que lhe tive ternura. A minha mãe não me perdoaria qualquer falha."

junho 26, 2017

Palácio da Lua - Paul Auster

Título original: Moon Palace
Ano da edição original: 1989
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições ASA

"Foi no Verão em que o Homem caminhou pela primeira vez na Lua. Eu era muito jovem nessa altura, mas não acreditava que viesse a haver um futuro. Queria viver perigosamente, pegar em mim e levar-me tão longe quanto possível e, depois, quando lá chegasse, logo veria o que me aconteceria.
Assim começa a inesquecível narrativa de Marco Stanley Fogg - órfão e aventureiro por natureza. Palácio da Lua é a sua história - um romance que atravessa três gerações, desde o início do século XX à chegada à Lua, e serpenteia entre os desfiladeiros de betão de Manhattan e a beleza cruel do Oeste Americano.
Como Marco Polo rumo ao Extremo Oriente e Phileas Fogg nos seus 80 dias à descoberta do mundo, Marco enceta uma viagem de etapas essenciais marcada pela exultação e pela tragédia, por estranhas coincidências e maravilhosos rasgos de lirismo e erudição."

Estou com alguma dificuldade em dar a minha opinião sobre este livro de Paul Auster. Não tem a ver com o ter gostado ou não, porque gostei, tem mais a ver com a dificuldade em passar para aqui, aquilo que o livro é, sem deturpar e deixar aqui, uma imagem daquilo que o livro não é.

Marco Fogg é um jovem adulto que toda a vida viveu com a perda, o abandono do pai ou a inexistência de um pai, a morte prematura da mãe, a separação do tio, o homem que o acabou de criar quando a mãe morreu, e a recente morte do mesmo, sem qualquer aviso.
Marco Fogg parece sentir que não merece nada de bom, tem um instinto auto-destrutivo que não conseguimos perceber. Quando o tio morre, algo se quebra nele. Passa a vaguear pela vida, não a vive. Afasta todos, inclusive os poucos que lhe são próximos. Vive anestesiado e sem saber como fazer diferente. Deixa de comer, para poupar dinheiro, mas não lhe passa pela cabeça arranjar um trabalho que lhe permita pagar a renda, as contas e alimentar-se. Para sobreviver vai vendendo a única herança que o tio lhe deixou, os livros, centenas de livros.
Um dia bate no fundo do poço, sem casa, sem comer há dias, é salvo pelo único amigo, que o encontra meio morto em Central Park e o leva para casa.

Aos poucos Fogg recupera e começa a vislumbrar alguma esperança na sua vida. Apaixona-se e começa a trabalhar para o misterioso Effing. Effing é uma personagem estranha e misteriosa. É um senhor idoso e paraplégico, cego e com muito dinheiro, que contrata Fogg, quando o seu criado de muitos anos morre. Precisa de alguém que lhe faça companhia, que o leve a passear e lhe leia. Precisa também de alguém que lhe escreva a história que tem para contar, antes de morrer.

O livro acaba por estar dividido em duas partes, a vida de Fogg antes de Effing entrar na sua vida e a vida de Effing antes de se tornar a pessoa misteriosa que Fogg conhece. E que história de vida Effing tem para contar e que pequeno é o mundo, uma autêntica ervilha. E mais não digo.

Gostei muito deste livro. Como é habitual em Auster, a escrita é natural, sem grandes floreados e subterfúgios. É também um livro que tem uma angústia crescente, em que temos dificuldade em compreender Fogg e a sua forma de pensar. Tememos por ele, por sentirmos que está doente, ao mesmo tempo que o queremos abanar para que desperte do sono pesado onde se encontra.
À medida que a história vai decorrendo, o ambiente pesado vai-se dissipando e, fazemos figas para que tenha um fim à Paul Auster, cheio de esperança de que dias melhores virão!

Recomendo!

Boas leituras! :)

Excerto (pág. 75):
"Com o passar do tempo, comecei a reparar que as coisas boas só me aconteciam quando eu deixava de as desejar. Se isso era verdade, então o inverso teria também de o ser: desejar demasiado determinada coisa impedi-la-ia de acontecer. Essa era a consequência lógica da minha teoria, pois se eu provava a mim mesmo que era capaz de atrair o mundo, então teria forçosamente de concluir que também poderia repeli-lo. Por outras palavras: uma pessoa só alcançava aquilo que desejava não o desejando. Não fazia sentido nenhum, mas o que me agradava nesta ideia era precisamente a sua total incompreensibilidade. Se as minhas necessidades só podiam ser satisfeitas se eu não pensasse nelas, então todos os pensamentos acerca da minha situação eram necessariamente contraproducentes."

maio 16, 2017

No Silêncio de Deus - Patrícia Reis

Título original: No Silêncio de Deus
Ano de edição: 2008
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"Um escritor descobre que está a morrer.
Uma jornalista tenta desvendá-lo.
Ambos procuram redenção.
Encenam uma fuga à realidade.
Três cidades: Lisboa, Jerusalém, Amesterdão.
E ainda uma prostituta, um barman, um médico homeopata.
A possibilidade da salvação e a procura da humanidade.
As falhas de cada um. O passado como identidade. Um fado.
Vários livros. Dor e consternação.
No fim, sem medo, uma ideia melhor."

Mais um livro de Patrícia Reis que se lê num ápice, na já habitual escrita leve e envolvente que tem caracterizado todos os livros que já li dela.
Mais uma vez uma história triste ou, pensando melhor, uma história que tem tudo para nos deixar tristes e, no entanto, não é essa a imagem que fica quando chegamos à última página e Manuel Guerra pede "Esqueçam-se de mim."
Manuel é um escritor de meia idade, muito respeitado, a quem é diagnosticado um cancro. Viúvo e solitário, afastado do único filho que teve com Ana Luísa, a mulher que tinha como certa, até ao dia em que morreu e se apercebeu do quanto gostava dela e do quanto iria sentir a sua falta. Um dia, numa das suas deambulações pelas ruas de Lisboa é atraído para uma agência de viagens. Entra e pede uma viagem para Amesterdão. Porquê Amesterdão? Porque sim, porque lhe soou bem. Parte, no dia seguinte, sem bilhete de regresso. Sozinho e sem avisar ninguém. Quem iria avisar? Apenas o seu editor parece preocupar-se com ele... mais ninguém dará pela sua falta.

Sara é uma jovem jornalista, filha de uma judia neurótica e cada vez mais embrenhada na loucura, e de um português ternurento que a faz rir. Sara mantém uma relação muito distante com a mãe e foi praticamente criada pelo pai, que viu, recentemente, definhar no IPO de Lisboa.

Sara e Manuel conhecem-se em Lisboa, antes de ele partir para Amesterdão, quando Sara lhe faz uma entrevista. Voltam a cruzar-se em Amesterdão quando Manuel já lá está há uns meses e Sara regressa de uma viagem a Israel onde foi à procura das suas raízes.

O livro é feito por estes dois, Sara e Manuel. Ela procura uma forma de viver sem angústias, menos sozinha e ele procura morrer em paz e sozinho, sem dramas. Ambos questionam e têm questionado, ao longo das suas vidas, o estrondoso silêncio de Deus nas suas vidas.

Gostei do livro. Normalmente tendo a gostar mais das personagens femininas, no entanto, neste gostei muito do Manuel e da forma como parece encarar a vida e a morte. Todas as partes que são narradas por ele transmitem uma certeza sobre o seu passado, presente e futuro. Como se a certeza da morte próxima lhe trouxesse uma nova clarividência e uma nova forma de encarar a vida.

Gostei e recomendo, porque a história é boa, a escrita melhor ainda e vale sempre a pena ler Patrícia Reis.

Boas leituras! 

Excerto (pág. 177):
"No carro, já com o motor a fazer barulho, fechei as portas num gesto de protecção que me pareceu feminino e senti as lágrimas a nascerem no estômago. Pena de mim, do mundo que terá de continua sem mim, da solidão de estar sozinho num carro que não me afaga. Na rádio Tony Bennett canta Put on a Happy Face e Deus tem um sentido de humor infame e deve ser esse lado misterioso e cruel que atrai multidões, não é? A certeza de que todas as dores do mundo nada serão comparadas com a ira de Deus. Ele será, sempre, maior e imprevisível. É reconfortante não ter essa crença, não ter essa bóia. Só sou eu e o meu cancro, a minha próstata que já não é do tamanho de uma avelã, em forma de bolo açucarado, americano. Também a próstata é uma invenção dos americanos. Patente registada a confirmar a solenidade da descoberta. (...) Se Ana Luísa fosse viva está coisa que existe em mim teria uma dimensão de morte em nada comparável com o resto, seja o resto o que for. Agora não faz diferença."

março 26, 2017

O Tempo Entre Costuras - María Dueñas

Título original: El Tiempo Entre Costuras
Ano da edição original: 2009
Autor: María Dueñas
Tradução: Carlos Romão
Editora: Porto Editora

"«O Tempo entre Costuras» é a história de Sira Quiroga, uma jovem modista empurrada pelo destino para um arriscado compromisso; sem aviso, os pespontos e alinhavos do seu ofício convertem-se na fachada para missões obscuras que a enleiam num mundo de glamour e paixões, riqueza e miséria mas também de vitórias e derrotas, de conspirações históricas e políticas, de espias.

Um romance de ritmo imparável, costurado de encontros e desencontros, que nos transporta, em descrições fiéis, pelos cenários de uma Madrid pró-Alemanha, dos enclaves de Tânger e Tetuán e de uma Lisboa cosmopolita repleta de oportunistas e refugiados sem rumo."

O Tempo Entre Costuras narra a história de uma costureira, Sira Quiroga, na Espanha de Franco, que acabou por se ver envolvida na luta contra Franco e Hitler.

Sira parte para Tânger, mesmo antes de rebentar a Guerra Civil Espanhola. Parte para viver um grande amor. Quando esse grande amor se transforma num pesadelo, Sira vê-se sozinha e sem dinheiro. Com a guerra em Espanha, não tem como voltar para junto da mãe e acaba por ficar retida em Tânger. Ferida e doente, Sira abandona Tânger e acaba por encontrar abrigo em Tetuán.
Pouco a pouco e com a ajuda de Candelaria, uma marroquina cujo principal meio de sobrevivência era o contrabando, Sira reergue-se das cinzas e começa a costurar para ganhar algum dinheiro. A costura era o que fazia antes de sair de Madrid. Aprendeu a manejar as agulhas e as linhas com a mãe e era algo a que não dava grande importância. Descobre em Tetuán que é muito boa no que faz e a sua arte é muito valorizada, mais ainda quando, está rodeada de mulheres, da alta sociedade europeia - espanholas, francesas e alemãs que também ficaram retidas em Marrocos por causa da guerra.
Sira começa a criar um nome na alta-costura e no seu atelier em Tetuán, conhece aquela que vai ser a maior responsável pela reviravolta na sua vida, Rosalinda Fox, uma inglesa extrovertida que mantém uma relação com Beigbeder, o alto-comissário de Espanha em Marrocos. É Rosalinda quem mais tarde, consegue tirar a mãe de Sira de Espanha e trazê-la para junto dela, em Tetuán. É também por intermédio de Rosalinda que Sira regressa a Madrid para montar um atelier onde se pretende se fazer muito mais do que vestidos de alta-costura. :)

O Tempo Entre Costuras é um romance histórico? Sim, também é um romance histórico. É um romance cor-de-rosa? Sim, também é um romance cor-de-rosa, mas de um rosa muito levezinho, não é nada lamechas e não é arrebatadoramente romântico. O que O Tempo Entre Costuras é, é um romance bem escrito e com personagens que cativam, bem desenvolvidas. É sobretudo, um romance que sabe conjugar bem a parte histórica com a parte ficcional, e que sabe criar muito bem a envolvência da época e dos diversos sítios por onde Sira passa.

Posto isto, é um livro que se lê bem e que nos mantém interessados no destino das personagens e que nos permite conhecer um pouco mais da história recente da Europa e do Mundo, no entanto, confesso que não fiquei muito impressionada com este livro. Acho que a parte da história que é passada em Marrocos poderia ter sido contada em menos tempo, uma vez que, é quando Sira regressa a Madrid que tudo acontece. O livro ganha outro ritmo e outro interesse e, tudo acaba por acontecer em 250 páginas, num livro que tem mais de 600.

É um livro que recomendo, sem grandes hesitações e sem grandes explicações. Não é de todo tempo perdido.

Boas leituras!

Excerto (pág. 138):
"Desatei a correr. Às cegas, furiosamente. Protegida pelo negrume da noite e arrastando o saco com as armas; surda, insensível, sem saber se me seguiam e sem querer interrogar-me sobre o que teria sido feito do homem de Larache em frente da espingarda do soldado. Perdi uma babucha e uma das últimas pistolas acabou por se desatar do meu corpo, mas não me detive por nenhumas das perdas. Limitei-me a continuar a corrida na escuridão, seguindo o traçado da linha, meio descalça, sem parar, sem pensar. Atravessei um campo plano, hortas, canaviais e pequenas plantações. Tropecei, levantei-me e continuei a correr sem um descanso, sem calcular a distância que as minhas passadas percorriam. Nem um ser vivo saiu ao meu encontro e nada se interpôs no ritmo desengonçado dos meus pés até que, entre as sombras, consegui divisar uma placa cheia de letras. Apeadeiro de Malalien, dizia. Seria aquele o meu destino."