dezembro 15, 2019

[Kindle] Lugar Caído no Crepúsculo - João de Melo

Título original: Lugar Caído no Crepúsculo
Ano de edição: 2014
Autor: João de Melo
Editora: Dom Quixote

"Uma viagem pela vida e pelo Além num romance surpreendente e muito aguardado. O que nos acontece depois da morte? Esta é a pergunta implícita ao longo das páginas deste romance. Um livro que impõe a vida, em protesto contra a tragédia da morte humana, recusando-se a aceitar o silêncio e a escuridão do desconhecido e do sagrado – os mistérios acreditados pela fé de muitos, mas não pela angústia dos que questionam o Além. É com elegância e com a qualidade literária a que João de Melo nos habitou que somos guiados numa viagem pelo outro lado, cruzando o Limbo, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. Com uma abordagem distinta dos conceitos tradicionais e numa escrita marcada pelo realismo fantástico, o autor humaniza a imagética cristã, conferindo-lhe uma realidade mais próxima do mundo e da vida. O Limbo, recentemente extinto por decreto papal, solta os espíritos esquecidos que lá moravam e abre-lhes caminho para a glória eterna. O Purgatório, sem o fogo ardente das almas, converte-se num estado depressivo cuja dor parece cingir-se à dimensão do sentimento e do espírito. O Paraíso, mesmo como reino da liberdade, mantém oculto o mistério de Deus. E o Inferno traz consigo uma paisagem gelada, surpreendentemente erguida a sul do Tejo (o rio que as almas condenadas têm de atravessar na velha barca do Sr.Vicente)."

João de Melo é um dos meus favoritos. A forma como escreve é tão próxima que será um daqueles escritores que até com uma lista de compras de supermercado impressiona.

Quando percebi o tema de Lugar Caído no Crepúsculo fiquei um pouco apreensiva. O Limbo, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. E não é uma história típica, romanceada, com desenvolvimento de personagens, com um enredo. É uma espécie de ensaio, talvez...
Confesso que a probabilidade de eu não gostar, por causa do tema, era elevada, mas como foi escrito por João de Melo, gostei. Gostei e muito.

Descobri com este livro o prazer de ler de manhã, enquanto o pão está a torrar e a água para o chá ferve. :) 

A melhor forma de passar o que é este livro é recorrer a excertos de alguns dos cadernos que constituem o livro:

Assim na Terra como no Céu:

"Passa-se de cá para lá, perde-se de vista o anil e o amarelo e a cal do dia. Vem até nós a noite vazia e misteriosa da eternidade. Eis que a alma entra nela, no mistério dessa noite eterna. Abre os olhos no escuro, tenta em vão compreender o que acaba de ocorrer com a sua pessoa, e nada. Só o escuro continua a mover-se, a expandir-se sobre o mar de um rio chamado infinito. Nessa altura, já nada se pode ver somente com o olhar, e menos ainda medir o tempo e os lugares recorrendo apenas aos restantes sentidos. Talvez que todos eles, de novo unidos num único, não sejam mais do que uma espada de sombra a trespassar a última batida surda do coração: não este que sustenta a vida, mas o das trevas mais profundas, ou o da luz perpétua que nos guia para o além de um lugar caído no crepúsculo."

O Limbo:

"Eu vim aqui parar logo após o acidente. Cheguei em estado de graça. E agora vejo formas, vagas, difusas formas de gente que parece adormecida ou num estado que pode comparar-se ao da hibernação. Não propriamente pessoas, tal e qual nós as conhecemos no nosso mundo; mas figuras, espectros que a toda a hora entram e saem do interior de uma espécie de nuvens esparsas que se sobrepõem umas às outras, por ali acima, como se mais não fossem do que castelos aéreos, navios voadores, montanhas suspensas do ar. Por onde quer que se ande no Limbo, as almas ao cruzarem-se connosco, largam um discreto, adocicado odor a incenso. Esse alegre cheiro a festa e a especiaria fica depois a perdurar nos ares até nos transmitir a sua alegria. (...) Ei-las por aí, as almas: sobrepondo-se, entrecruzando-se, passando de um lado para o outro no espaço sem fim dos céus toldados pelas ondas de incenso. Mas nada disso passa de ilusão óptica, porquanto elas permanecem imóveis; só as nuvens, vindo de um lado para o outro, sugerem a ideia de um movimento universal, embora sem peso nem espessura. (...)
Não serão, só por si, a prova da existência de Deus; mas atestam a substância divina a que pertencem como seres criados por Ele, merecedores de entrar nesta antecâmara do Paraíso.
À qual a santíssima Igreja Católica resolveu pôr o nome de Limbo."

" - Mas isto assim não é vida nem morte! Nada aqui anda nem desanda, porquê? Há que fazer alguma coisa por nós! Quem poderá suportar tamanha sensaboria? 
A ideia soltara-se-me de dentro, sem querer nem eu a ter premeditado. Foi como o tal relâmpago que atingirá o nosso avião em cheio e em pleno voo. Acto contínuo, também ela faiscou e fez remoinho no meio das almas que se acomodavam por ali, à minha volta. Foi logo tomando as mentes e as vontades, de patamar em patamar, indo de baixo para cima, até se perder de vez o alcance do seu raio de ação. (...) De repente, todo o imenso oceano dos espíritos entregues ao Limbo deu ouvidos à minha ideia. Pôs-se a pensar nela, a inquietar-se, a estremecer com receio da proposta seguinte e a fremir como um enxame de abelhas dentro da colmeia. As almas, que até então pareciam morcegos pendurados de cabeça para baixo do tecto de uma gruta, deram não só sinais de acordar do sono perpétuo da ausência como de ter entendido que era necessário abrir os olhos contra o peso da luz."

O Purgatório:

"As almas do Purgatório não falam, não se apoiam nem amparam umas nas outras. Nem se confortam entre si. Parecem toupeiras cegas, surdas e mudas, pelo menos na aparência. Poderia tratar-se de um exército exaurido nas suas forças, pela dureza da batalha, ali acampado no intervalo de uma manobra de guerra, a recuperar energia e vontade para enfrentar o combate seguinte. Ou tratar-se de uma cidade semimorta, saqueada pelos bandidos vencedores, e da qual já só restassem velhos, doentes, desventurados que já nem podem erguer-se do chão para se porem de novo a caminhar, à cata do horizonte. Uma cidade paralela a outra, a dos novos-ricos que só não roubaram a outrem o pão que levavam à boca. Um campo tão imenso, tão cheio de infelizes refugiados, que não se consegue medir com o olhar nem com o alcance da alma."

"Essas pessoas só voltam a chegar-se aos humanos quando eles envelhecem, coxeiam e ficam a pontos de morrer. Preferem velhinhos um tanto ou quanto taralhoucos; capazes de as divertirem com as suas confusões, os seus ditos sem sentido, as suas histórias repetidas vezes sem conta. 
Pessoas aparentemente bondosas, diria eu, tidas na conta da chamada boa vizinhança - mas vivem afinal com a maldade empedernida nos olhos, nos dentes, no estômago, no coração, na hipocrisia dos voluntariado e da bondade social."

O Paraíso:

"Ao fim de muito voar através do vazio sideral, lá chegámos à morada do senhor Deus Dei. (...) Logo um meio braço, trajado com hábito de frade, nos convidou, num gesto simples, a entrar no Navio da Glória e a juntarmo-nos aos outros - esses inúmeros outros que lá dentro se moviam e removiam por entre arcos e espadas refulgentes de luz, feixes de cores luminosas como as dos relâmpagos à chuva e uns suaves acordes de harpa.
Quais sonâmbulos ou sonhadores, os possessos divinos moviam-se ao ritmo de um deixa-andar preguiçoso, visivelmente repousado, numa sonolência que mais parecia o movimento das imagens em câmara lenta do que seres embalados pela divina graça do Senhor. (...) Tratava-se - sobre isso não existia dúvida nenhuma no meu coração - dos Justos chamados à eternidade do senhor Deus Dei. Só poderiam ser assim, tal e qual se me afiguraram: gordos, ternos, tranquilos, de uma cor rosada que atestava a saúde feliz e a boa coloração da santidade. Figuras bojudas, como as que adornam os altares e jazem nos quadros religiosos dos templos de todo o mundo, irradiavam à minha volta uma serenidade deslumbrada, adormecida.
Todas essas figuras pareciam dormir. sonhar, reviver em êxtase. O sono dos Justos aparentava o mais despojado de todos os gozos espirituais: um prazer deliciado e adormecido, remanso próprio dos eleitos, a paz eterna do Céu, tão imponderável como se consistisse numa levitação."

"Pelo contrário: Deus, omnipresente e omnipotente, viu morrer e matar, assistiu aos fuzilamentos, à abertura de valas comuns e ao pesadelo dos fornos crematórios nos horrores do Holocausto nazi, é nunca por nunca moveu um dedo pelas vítimas inocentes, nem se dignou travar a tempo a loucura dos vencedores sobre os vencidos nos campos de batalha, no saque das cidades e das casas e no estupro das mulheres. Ninguém sabe em nome de quê nem de quem Ele se absteve de intervir, que até permitiu crimes e genocídios à mão de indivíduos e exércitos, bem como os ignominiosos autos-de-fé da Inquisição em nome da Santa Madre Igreja Católica. E tantos, tantos cruzados guerreiros e outros ditos infiéis miseravelmente mortos por nada e para nada. Deus fora sempre o silêncio mais atroz de toda a catástrofe humana."

O Inferno:

"Começou a entristecer desde que o Inferno se lhe revelou sem o tal fogo higiénico da cremação, que tanto desejara para a sua morte, mas antes branco e frio como os países de clima extremo, com invernos tão longos quanto escuros e tempestuosos, e onde a vida nunca ia além de um dissabor e de um incómodo. A sua tristeza comportava o ódio que desde sempre votara à neve. (...) E agora, por uma cruel e manifesta ironia, um mundo todo de branco, gelado, desértico, esperava-o no Além, onde teria início a perpetuidade da morte. (...)
Não teve mais remédio senão seguir atrás dos outros e em corrente de fila única. (...)
O que viu, mal terminou a travessia dessa garganta, deixou-o em estado de choque. na sua frente, abria-se o abismo de um espaço sem medida possível para cima e para os lados, nem mais luz do que a da Lua Cheia, num firmamento falso e espelhado, sem nuvens. Entre a poalha luminosa do luar e a penumbra desses lugares, tão secretos que até lhes pareciam interditos, os seres convertiam-se em vultos na multidão, numerosos, aconchegados, sempre em fila uns atrás dos outros. (...)
Perdera-se dos outros, da mesma forma que eles se haviam perdido de si. Aquele, agora, era o pórtico de entrada para a mais absoluta solidão da sua morte. Deixava de ser possível interagir com a existência e a humanidade dos outros. (...) Agora olhava, via esquadrões de gente parada, hirta como estátuas na margem de um estradão ermo e gelado, sobre o qual deslizavam contínuas multidões de cegos em busca do seu lugar na perpetuidade da morada do Diabo; (...) Andou assim durante dias e dias, talvez anos, talvez séculos terrenos, no meio da multidão ondulante que com ele vagueava por ali sem um destino."

"A ausência consciente e inexplicável dos outros, colocados ali mesmo ao lado, ao alcance de um simples gesto, de uma mão estendida. Eis o absoluto verdadeiro. Contra ele, nada de nada se podia.
Perdeu o ânimo, perdeu a esperança. Perdeu o fio derradeiro que lhe restava da memória em que ainda acreditava. Perdeu a paz inexistencial da morte. Perdeu, enfim, a ideia da existência do Bem. Como Deus não estava ali, nem em lado nenhum, apenas o Mal o chamava para si, porque só a ele passava a pertencer. Deixou até de saber quem era de novo, onde estava, tanto em concreto como em abstracto; nem o que fazia ele naquele desterro gelado e silencioso. No qual se sentia preso, morto e mal enterrado. Ao mesmo tempo que se despersonalizava, algo de contrário à falência da sua pessoa vinha agora de regresso a si, acendendo uma réstia de luz na sua mente e tornando-a receptiva a um derradeiro assomo de sentimentos humanos. E o que sentiu não foi mais do que a crua desesperança, o desespero absoluto, a escura perda de tudo - menos da sua dor. O sofrimento vinha-lhe dos outros, que estavam mais ou menos à mão e à sua volta, como se os espíritos deles lhe enviassem mensagens e promessas de um novo Pentecostes."


Um livro cheio de ironia e sentido de humor que tenta descrever o que os católicos acreditam ser o que os espera depois da morte. É claramente uma crítica social e à Igreja Católica e, está muito bem escrito, outra coisa não seria de esperar de João de Melo.

Vale muito a pena ler e recomendo sem reservas.

Boas leituras!

novembro 17, 2019

História de um caracol que descobriu a importância da lentidão - Luís Sepúlveda

Título original:Historia de un caracol que descubrió la importancia de la lentitud
Ano da edição original: 2013
Autor: Luís Sepúlveda
Ilustrações: Paulo Galindro
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

"Os caracóis que vivem no prado chamado País do Dente-de-Leão, sob a frondosa planta do calicanto, estão habituados a um estilo de vida pachorrento e silencioso, escondidos do olhar ávido dos outros animais, e a chamar uns aos outros simplesmente «caracol». Um deles, no entanto, acha injusto não ter um nome e fica especialmente interessado em conhecer os motivos da lentidão. Por isso, e apesar da reprovação dos outros caracóis, embarca numa viagem que o vai levar ao encontro de uma coruja melancólica e de uma tartaruga sábia, que o guiam na compreensão do valor da memória e da verdadeira natureza da coragem, e o ajudam a orientar os seus companheiros numa aventura ousada rumo à liberdade."

Mais um pequeno grande livro para pequenos e graúdos. 

História de um caracol que descobriu a importância da lentidão fala de aceitação, de nós próprios e dos outros, de tolerância, de persistência e de coragem. Fala de amizade, de viver em comunidade e de respeito, mais uma vez, por nós próprios e pelos outros.

É uma pequena história, mais uma vez com as ilustrações lindas do Paulo Galindro, que nos relembra a importância de respeitar o tempo dos outros, de respeitarmos o espaço dos outros. Relembra-nos que por mais rápido que pareça o mundo à nossa volta, é importante mantermo-nos fieis a nós próprios e não devemos esquecer, que correr pode não ser a melhor forma, às vezes pode nem ser a forma mais rápida, de alcançarmos o que pretendemos.

Recomendo Luís Sepúlveda mesmo quando ele está menos inspirado. Não sendo este um caso de pouca inspiração, só posso recomendar!

Boas leituras!

Excerto (pág.36 e 38):

"Já lá em cima, e instalado atrás da cabeça da tartaruga, perguntou-lhe para onde ia e a tartaruga disse-lhe que aquela não era a questão mais adequada e que, na realidade, devia perguntar-lhe de onde vinha. Assim, enquanto a tartaruga avançava e o caracol sentia que as ervas do prado se sucediam com uma rapidez que ele desconhecia, ela contou-lhe que vinha do esquecimento dos seres humanos."
"A tartaruga procurou, com mais calma do que a habitual, as palavras para responder e contou-lhe que durante a sua permanência entre os seres humanos tinha aprendido muitas coisas. Assim, explicou-lhe que quando um humano fazia muitas perguntas incómodas, do género «é preciso ir tão depressa?» ou «a sério que necessitamos de tudo isso para sermos felizes?», era apelidado de Rebelde."

Leviathan - Paul Auster

Título original: Leviathan
Ano da edição original: 1992
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições ASA

"Há seis dias, um homem foi morto por uma explosão na berma de uma estrada algures no Norte do Wisconsin.
Esse homem é Benjamin Sachs, escritor de talento reconhecido e autor da bomba que o vitimou. O que o levou a tornar-se bombista? Peter Aaron, amigo de longa data, vai tentar responder a esta pergunta numa história escrita em jeito de biografia, de resposta antecipada ao inquérito do FBI e à voracidade dos media. Peter embarca numa incrível viagem ao âmago da existência de Benjamin, e o que resulta é um olhar penetrante sobre a vida de um homem excêntrico, altamente dotado e complexo, e a fascinante história do seu legado. 
Uma narrativa envolvente e intrincada, que serpenteia através de quinze anos de uma relação intensa marcada pela paixão política e pela sedução sexual. Ao tentar reconstituir o caminho de Sachs, Peter também busca um sentido para a sua vida. Mas as surpresas sucedem-se. Tudo pode acontecer. E, invariavelmente, acontece.
Introspectivo e pleno de suspense, Leviathan é um inesquecível estudo sobre as relações humanas e a ruptura provocada pelos inesperados actos de violência da vida quotidiana."

Começo por confessar a minha dificuldade em escrever sobre este livro. Foi a companhia de umas mini-férias em maio. Lido ao som dos passarinhos, com vista para a natureza e como barulho de fundo, uma queda de água. E, embora a história não transmita propriamente calma e tranquilidade, a verdade é que acabou por não estar nada desenquadrada com a envolvência. Paul Auster é sempre boa companhia. :)

Leviathan é, para além de um monstro marinho referido na Bíblia, o título do livro não publicado de Benjamin Sachs, um escritor outrora reconhecido e que foi perdendo relevância ao longo dos anos. Deixado para trás pela velocidade dos tempos modernos.
Leviathan é, também, o nome que Peter Aaron dá ao seu livro sobre Benjamin Sachs, seu amigo de longa data, e cuja história, sente que tem de ser contada.

A vida de Sachs, tal como a de todos nós, foi feita de escolhas. Escolhas que levam a mais escolhas e mais decisões, sobre o que fazer ou que caminho seguir. Muitas vezes nem nos apercebemos de que estamos perante uma situação em que podemos escolher, porque estamos demasiado ocupados para parar e pensar.
O percurso de Sachs vai sendo construído e traçado desta forma, uma vezes, deixa-se vencer pelo medo, noutras procura ser dono do seu próprio destino. Todas a suas escolhas, as conscientes e as não conscientes, levaram-no para a berma daquela estrada, onde foi a única vítima de uma explosão, que ele próprio provocou.

Leviathan põe-nos a pensar em algumas coisas. O que leva alguém a mudar toda a sua vida para perseguir um ideal? Quando é que a mensagem que se quer passar se torna mais importante que a própria vida? É algo puramente altruísta? É pelo bem comum e pelo bem maior? Ou, por outro lado, trata-se de uma necessidade quase patológica de se ser admirado pelos outros? Até que ponto conhecemos alguém, as suas inseguranças, o que pensam, o que os atormenta?
O livro não dá as respostas, nem poderia dar, mas põe-nos a pensar sobre esta coisa das relações humanas e de quão difícil continua a ser, convivermos uns com os outros, sem ansiedade e sem medo de nos magoarmos.

Leviathan é muitas coisas, ou não fosse um livro de Paul Auster. Para além de tudo o que é, para mim foi o livro que me trouxe de volta ao verdadeiro prazer da leitura. Houve qualquer coisa neste livro que fez ressonância em mim. :)
A verdade é que andava um pouco desligada, não só dos livros, mas também das pessoas. Focada em coisas que, não são de todo, as mais importantes. Leviathan foi o início de um caminho que tenho vindo a percorrer e que me trouxe de volta, entre outras coisas, o prazer de ler em qualquer lado, sozinha ou acompanhada. Ler voltou a ser algo que me deixa mais tranquila e que me faz sentir mais equilibrada.

Por estes motivos e mais alguns, recomendo este livro sem qualquer reserva.

Boas leituras!

Excerto (pág. 9)
"Há seis dias , um homem foi morto por uma explosão na berma de uma estrada algures no norte do Wisconsin. Não houve testemunhas, mas tudo indica que estava sentado no chão, junto ao seu carro, quando a bomba que estava a montar explodiu acidentalmente. Segundo o relatório médico-legal que acaba de ser divulgado, o homem teve morte instantânea. O corpo voou em dezenas de pedaços, de tal modo que foram encontrados bocados do cadáver a quinze metros do local da explosão. Até hoje (4 de Julho de 1990), ninguém parece ter a menor ideia de quem era o morto. (...) Quanto a mim, quanto mais tempo demorarem, melhor, A história que me sinto obrigado a contar é particularmente complicada, e, se não chegar ao fim antes de eles apresentarem a sua solução para este mistério, as palavras que vou escrever não terão o menor significado."

setembro 22, 2019

Bem-Vindos a Joyland - Stephen King

Título original: Joyland
Ano da edição original: 2012
Autor: Stephen King
Tradução: Ana Lourenço
Editora: 11x17

"Carolina do Norte, 1973. Na esperança de conseguir esquecer a namorada que lhe despedaçou o coração, Devin Jones, um estudante universitário, vai trabalhar na Joyland, um parque de diversões. Contudo, acaba por se ver confrontado com algo muito mais terrível: uma rapariga, Linda Gray, vítima de um perverso homicídio, cujo espírito assombra o comboio-fantasma. O assassino ainda está à solta e Devin decide encontrá-lo.
Com todo o impacto emocional das grandes obras de Stephen King, Bem-Vindos a Joyland é ao mesmo tempo um policial, uma história de terror e um romance agridoce que nos agarra até ao fim. "

Já não é novidade que gosto muito de Stephen King. Sabendo que é praticamente impossível estar a par de tudo o que ele vai escrevendo, de vez em quando vou vendo o que de novo está a ser editado por cá. Com a saída dos filmes IT e IT Chapter Two (se ainda não viram, não deixem de o fazer) desta vez dei por mim com algumas opções, recentemente editadas em Portugal. Aproveitando a Feira do Livro de Lisboa, este foi o escolhido para satisfazer e minha ocasional necessidade de voltar a Stephen King. :)

Devin Jones, um jovem universitário a precisar de trabalhar, decide passar as férias em Joyland, um parque de diversões numa pequena localidade. Em Joyland é surpreendido pelas pessoas que vivem e trabalham no parque, pela forma como o acolhem e pela forma como o parque acaba por ser algo tão importante para a comunidade.
Nesse Verão, Devin, no caminho que faz todos os dias entre a pensão e o parque, trava amizade com Mike, um rapaz, com vários problemas de saúde, e com a sua jovem mãe Annie, que toma conta dele. Os dois vivem num casarão velho, sozinhos e Devin sente uma enorme curiosidade pelos dois, até que surge a oportunidade de os conhecer. Nessa altura, o destino de Devin parece começar a cumprir-se e o que quer que o tenha levado a Joyland e a ter permanecido para além do inicialmente previsto começa a revelar-se.

Basicamente é isto. É um livro com um ritmo muito próprio, sem grandes acontecimentos. Temos tempo para conhecer as personagens, criar empatia com elas e temos vontade de os acompanhar, da mesma forma que gostamos de saber que alguém com quem já não falamos há anos, está bem e é feliz. É o tipo de ligação que criei com Devin e todas as pessoas que  conheceu naquelas férias em Joyland.

Confesso que estava à espera de uma história mais assustadora e aterradora e, por se passar num parque de diversões, que este lado fosse mais explorado. Acabei por achar que, na verdade, não acontece muita coisa. Não deixou, no entanto, de ser um livro de leitura fácil e divertida. Gostei da história e das personagens.

Recomendo (quase) sempre Stephen King, este não será a exceção. :)

Boas leituras!

Exerto (pág. 9):
"No início de Setembro, a praia de Heaven estava quase deserta, o que combinava com o meu estado de espírito. Aquele foi o Outono mais bonito da minha vida. Posso dizê-lo mesmo quarenta anos depois. É também posso dizer que nunca fui tão infeliz. As pessoas acham que o primeiro amor é doce, e mais ainda quando essa primeira relação acaba. Ouvimos milhares e canções pop e country que provam isso; um tolo ficou com o coração destroçado. No entanto, esse primeiro coração destroçado é sempre o mais doloroso, o mais lento a sarar, é o que deixa cicatrizes mais visíveis. O que há de tão doce nisso?"

setembro 21, 2019

[Ebook] As Viúvas de Dom Rufia - Carlos Campaniço

Título original: As Viúvas de Dom Rufia
Ano da edição original: 2016
Autor: Carlos Campaniço
Editora: Casa das Letras

"Conhecido por Dom Rufia desde moço, Firmino António Pote, criado sem recursos numa vila alentejana, promete a si mesmo tornar-se rico. Negando-se à dureza do trabalho do campo, divide durante anos a sua sobrevivência entre o ócio e alguns negócios frugais. Mas, já nos trinta, munido de assombrosa imaginação, bonito como poucos e gozando de uma enorme capacidade de persuasão, sobretudo entre as mulheres, lobriga várias maneiras de alcançar o seu objectivo, fingindo continuamente ser quem não é. Para isso, porém, é obrigado a viver em vários lugares ao mesmo tempo, dando a Juan de los Fenómenos, um velho chileno em busca de proezas sobre-humanas, a ilusão da ubiquidade.
Quando o corpo sem vida de Dom Rufia é encontrado no meio do campo, a recém-empossada Guarda Republicana não imagina as surpresas que o funeral reserva. O aparecimento de uma estranha carta assinada pelo tio do morto é só o princípio da desconfiança de que ali há mão criminosa.
Depois do muito aplaudido Mal Nascer, finalista do Prémio LeYa em 2013, Carlos Campaniço regressa à ficção com um romance irresistível e cheio de humor, cuja acção decorre no início do século XX, num Alentejo onde pululam personagens fascinantes e inesquecíveis."

Dom Rufia é o protagonista desta história que se vai desenrolando no velório do próprio, onde todas as suas viúvas vão contando a sua história com Firmino, como o conheceram e como é que ele mudou as suas vidas. 
Dom Rufia é, entre muitas outras coisas, um sedutor nato e, aquilo a que se pode chamar de vendedor de banha da cobra. Bem parecido e bem falante, o engano é algo que lhe é natural.
Não se pode dizer que Dom Rufia seja má pessoa, Firmino nasceu pobre, criado pelos tios, e um dia meteu na cabeça que haveria de ser rico. Pareceu-lhe que a forma mais rápida e fácil de isso acontecer seria casar-se com uma mulher rica. Agora, só lhe falta encontrar a sua futura esposa. Tendo apenas esse objetivo em mente, nada do que ele faz é particularmente maldoso ou errado, apenas moralmente duvidoso, mais nada. :)
Nem mesmo as suas muitas Viúvas parecem ter por ele outro sentimento que não, amor, carinho e, após descobrirem a verdade, alguma frustração por não terem conseguido que Dom Rufia lhes fosse dedicado de forma exclusiva. :)

Gosto de conhecer novos autores, principalmente portugueses ou de língua portuguesa. Gosto que as referências me sejam familiares e que façam parte da nossa memória colectiva.
Carlos Campaniço foi uma estreia. Li qualquer coisa sobre este livro, As Viúvas de Dom Rufia, há anos. O que li deixou-me suficientemente curiosa porque o coloquei na minha lista de livros a ler.
É muito difícil iniciarmos um livro sem qualquer expectativa, sem ideias preconcebidas. Eu, sobre este, tinha algumas expectativas.
A verdade é que, embora tenha achado a escrita de Carlos Campaniço cativante, não achei a história particularmente bem conseguida. Achei-a um pouco repetitiva, previsível e, ao contrário de algumas opiniões que li, não dei nenhuma gargalhada.

É uma leitura leve, boa para ler na praia, à beira da piscina ou numa esplanada de Lisboa à beira do Tejo.

Boas leituras!

maio 26, 2019

Bairro da Lata - John Steinbeck


Título original: Cannery Row
Ano da edição original: 1945
Autor: John Steinbeck
Tradução: Luiza Maria de Eça Leal
Editora: Livros do Brasil

"Cannery Row, em Monterey, na Califórnia, é um pobre bairro costeiro, de poucos quarteirões, onde se acumulam fábricas de enlatar sardinhas, restaurantes de má qualidade, bordéis e mercearias atravancadas. Os seus habitantes, dependendo da frincha pela qual se espreita, são prostitutas e batoteiros, mártires e homens bons, cujas histórias encerram lições de sobrevivência. É entre eles que se encontra o jovem biólogo marinho que todos tratam por Doutor, que aí conjuga o trabalho de recolha e análise dos animais da baía com o melancólico acompanhamento das almas infelizes - e que inesperadamente acabará por encontrar a verdadeira felicidade. Publicado pela primeira vez em 1945 e inspirado pelos habitantes reais de Monterey, Bairro da Lata é um romance onde John Steinbeck recupera o cenário do seu primeiro grande êxito, O Milagre de São Francisco, escrevendo com um misto de humor e comoção sobre a aceitação da vida como ela é, no seu jogo entre um sentido de comunidade e a solidão da existência, entre a tragédia e a generosidade."

John Steinbeck é de longe um dos meus autores favoritos. Já li quase tudo o que está publicado e traduzido e, acho que todos os que li foram surpreendentes. Naturalmente uns são extraordinários outros são mais banais, mas nenhum deles foi só "mais um livro" e, Bairro da Lata não foi a exceção que confirma a regra.

Num universo muito próximo do que encontramos em O Milagre de São Francisco (a minha opinião aqui), Bairro da Lata é mais um relato comovente, sem deixar de ser de certa forma divertido, da vida num bairro de Cannery Row, uma comunidade pobre da Califórnia, que vive da indústria da conserva.

Cannery Row é habitado por todo o tipo de pessoas, uns são honestos e trabalhadores, outros honestos sem trabalho. Outros são mandriões que vivem de esquemas, mais ou menos bem intencionados. Existe uma casa de prostitutas que é muitas vezes apenas um refúgio e escape à vida real do dia-a-dia. Existe um bazar, cujo proprietário é Lee Chong, um chinês avaro que acaba por vender tudo fiado. E existe o Doutor, um jovem biólogo marinho, a única pessoa com estudos em toda a comunidade e que parece ser o elo que os liga a todos. Todos, sem exceção, o respeitam e acarinham. 
Numa comunidade onde ninguém tem nada e vivem todos os dias sem saber como vai ser o dia seguinte, o doutor acaba por ser uma das poucas constantes do bairro.

A comunidade de Cannery Row, surpreende pela qualidade dos sentimentos, pela forma como lida com as dificuldades, pela  capacidade de união em torno de um objetivo comum, e por conseguir com tão pouco fazer tanto. 

A vida é cheia de surpresas e de desafios. Conseguir tirar algo de bom de uma situação complicada, é tarefa difícil mas não é de todo impossível. E o que Bairro de Lata nos diz, é que devemos olhar mais à nossa volta e para as pessoas que nos rodeiam. E não é uma questão de olhar para a miséria dos outros e sentir-mo-nos melhor com a nossa. É olhar para além da nossa miséria e da dos outros e juntos construirmos algo que seja melhor para todos.
E sem que fosse esse o objetivo, em dia de eleições para o Parlamento Europeu, a mensagem que retirei da minha leitura de Bairro da Lata deveria estar na mente de todos os eleitores.

Recomendo sempre John Steinbeck.

Boas leituras!

Excerto:

"Cannery Row, em Monterey, na Califórnia, é um poema, um fedor, uma estridência, uma gradação de luz, uma tonalidade, um vício, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é acumulação e desperdício; lata, ferro, ferrugem e gravetos; pavimentos escavacados, terrenos de urtigas e amontoados de cordame; fábricas de enlatar sardinhas de chapa ondulada, cabarés reles, restaurantes, bordéis e pequenas mercearias atravancadas; laboratórios e albergues. Os seus habitantes s
ao, como disse o homem certa vez, «pegas, alcoviteiras, batoteiros e filhos da mãe», com o que pretendia dizer «toda a gente». Tivesse o homem espreitado por outra frincha e talvez dissesse: «Santos e anjos, mártires e homens bons», e significaria a mesma coisa."

março 31, 2019

[Kindle] As Mãos Desaparecidas - Robert Wilson

Título original: The Silent and the Damned
Ano da edição original: 2004
Autor: Robert Wilson
Editora: Publicações Dom Quixote

"Um detective torturado, três perturbadores suicídios, um mundo de terror.
Mario Vega tem sete anos e a sua vida vai mudar para sempre. Numa casa de um subúrbio rico de Sevilha, o pai jaz morto no chão da cozinha e a mãe foi sufocada na sua própria cama. Inicialmente parece ser um suicídio, mas o inspector-chefe Javier Falcón tem as suas dúvidas quando encontra um enigmático bilhete amarrotado na mão do morto.
Sob o calor brutal do Verão, Falcón inicia a investigação à obscura vida de Rafael Vega e começa a receber ameaças da máfia russa que opera na cidade há algum tempo. A sua investigação aos vizinhos de Vega levam-no a um casal americano com um passado devastador e ao tormento de um actor famoso, cujo único filho se encontra na prisão por um crime terrível.
Seguem-se mais dois suicídios - um deles o de um polícia graduado - e um incêndio florestal que alastra pelas colinas de Sevilha. Falcón tem agora de desvendar a verdade, revelando que está tudo ligado e que há mais um segredo na vida sinistra de Rafael Vega."

Li o primeiro livro desta série de Robert Wilson - O Cego de Sevilha, há uns bons anos, em 2010, e deixou-me uma boa impressão. Desde então que fazem parte da minha lista de livros a ler ou de autores a manter debaixo de olho. Por não ser a maior fã de policiais e porque os livros têm estado sempre caros, só agora aproveitei a edição digital, mais em conta, e voltei a encontrar Javier Falcón, em As Mãos Desparecidas, o segundo volume de O Quarteto de Sevilha.

Javier Falcón é chamado para investigar um aparente homicídio seguido de suicídio de Rafael Vega, um empresário de sucesso em Sevilha. Javier tem algumas dúvidas sobre o que aconteceu na casa de Rafael Vega. Entre ameaças da máfia russa, redes de pedofilia e espiões dos tempos modernos, Falcón volta a ser confrontado com o seu passado e com os seus pesadelos. Mais uma vez o passado do pai, Francisco Falcón parece regressar para o atormentar.

Talvez tenham passado demasiados anos desde que li o primeiro, porque tive alguma dificuldade em reentrar na história. Mais ainda porque havia muitas referências ao primeiro livro, do qual já não tenho grandes memórias. Acho que por isso a minha ligação à história foi menos conseguida e a personagem de Javier Falcón pareceu-me menos credível e menos apelativa. Ao reler a minha opinião sobre O Cego de Sevilha (aqui), algumas das coisas que me dificultaram a leitura são comuns aos dois livros. A história começa de forma lenta, existem muitos acontecimentos que parecem desnecessários e que nos afastam da investigação propriamente dita. Só mais para o fim o livro parece ganhar alguma velocidade e as pontas soltas começam a juntar-se e tudo começa a fazer mais sentido.
Desta vez não fiquei muito impressionada com a escrita e com a forma como Robert Wilson conta a história e achei as personagens pouco desenvolvidas. No geral, não fiquei muito impressionada com este segundo livro. Não tenho a certeza se tem a ver com a distância entre o primeiro e o segundo livro ou se com o facto de estar mais velha e de já ter lido muita coisa entretanto. A verdade é que, se este tivesse sido o livro que li em 2010, não tenho a certeza se teria voltado a ler alguma coisa relacionada com Javier Falcón. Não acho que seja mau, só acho que não é o meu tipo de livro.

Por ter lido o primeiro e ter gostado, provavelmente vou ler os restantes da saga, só não sei quando. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Estarei com medo? Não tenho nenhuma razão física para ter medo, aqui deitado na cama, ao pé da Lúcia, com o meu pequeno Mário e os sons do seu sono no quarto ao lado. Mas estou assustado. Os meus sonhos assustaram-me e além disso já não são sonhos. Estão mais vivos do que isso. Os sonhos são de rostos, só de rostos. Não me parece que os conheça, e no entanto há momentos estranhos em que me sinto prestes a reconhecê-los, mas é como se eles não quisessem isso para já. É então que acordo porque… Estou outra vez a ser pouco rigoroso. Não são propriamente rostos. Não são de carne. São mais fantasmagóricos do que reais, mas têm feições. Têm cor, mas não são sólidos. Apenas sentem falta de ser humanos. É isso. Só sentem falta de ser humanos, Será uma pista?"