julho 12, 2016

No País das Últimas Coisas - Paul Auster

Título original: In the Country of Last Things
Ano da edição original: 1987
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições ASA

"Esta é a história de Anna Blume e da sua jornada em busca do irmão desaparecido numa cidade sem nome. Mas tal como a cidade, a sua tarefa está condenada. A cidade transformou-se num campo de batalha onde imperam a miséria, violência e a selvajaria. Todos procuram algo ou alguém que desapareceu. Todos lutam para suprir a fome: no sentido literal, uma vez que os alimentos são escassos; e fome também no sentido abstracto, pois os últimos resquícios de humanidade impelem os cidadãos a procurar o amor e a partilha de linguagem e significado.
Através da solidão de Anna, Paul Auster conduz-nos a um mundo indeterminado e devastado no qual o eu desaparece entre os horrores a que o lento apagar da moral humana conduz. Não se trata apenas de um mundo imaginário e futurista - mas de um mundo que reflecte o nosso e, ao fazê-lo, lida com algumas das nossas mais sombrias heranças. Nesta visão apocalíptica de uma cidade despojada da sua humanidade, pulsa um inesquecível romance sobre a condição humana"

A história de No País das Últimas Coisas, passa-se num país deste mundo, do nosso mundo. Nesse país sem nome, numa capital desconhecida, a grande maioria das coisas que conhecemos deixou de existir. É um país colapsado, onde não se produz nada e a grande maioria das pessoas que nele vivem têm como objectivo morrer, das mais diversas formas. Uns desejam morrer a correr até à exaustão, são os Corredores, outros, os Saltadores escolhem saltar de edifícios. Existem Clínicas de Eutanásia, para alguns privilegiados, que têm à disposição do cliente vários pacotes, sendo que o mais caro consiste num cruzeiro de semanas onde o suicida terá direito a todos os luxos terrenos outrora existentes, e no fim uma injecção letal que lhe põe fim ao sofrimento. :s
Existem muito poucas formas de subsistência, sendo uma delas a recolha de lixo, ou aquilo que nas nossas sociedades consideramos como lixo. Electrodomésticos que não funcionam mas cujas peças podem ter ainda alguma utilidade, chávenas partidas, pequenos pedaços de cordel, tampas de plástico, tábuas de madeira intactas, etc, podem ser pequenos tesouros que permitem a quem os encontrar viver mais uns dias.
Este país produz energia através da queima dos seus mortos e dejectos. Os mortos são tão valiosos que, se não entregarmos os nossos mortos para incineração o mais certo e sermos condenados a trabalhos forçados num sítio ainda mais desolador do que aquele onde vivemos.

Anna Blume parte para este país, em busca do irmão. O que encontra é algo para o qual ninguém poderia estar preparado. A luta pela sobrevivência (se fizerem parte do grupo de pessoas que não querem morrer) é de tal forma uma constante que Anna acaba por ser sugada para uma espécie de buraco negro, onde não lhe resta tempo para procurar saber o que aconteceu a irmão desaparecido.
A violência é constante e as pessoas pensam apenas em si. Ninguém parece questionar o que aconteceu, como é que se chegou aquele estado, ou o que se pode fazer para melhorar o mundo onde vivem. O porquê de ninguém sair do país e abandonar um lugar que não tem mais nada para oferecer não é claro. Falasse da construção de muros, e sub-entende-se que o governo vigente, o que quer que isso queira dizer num sítio daqueles, controla o fluxo de pessoas. O porquê do resto do mundo não ter, aparentemente, nada a dizer sobre O País das Últimas Coisas, também é um mistério. Ou talvez não. Não vivemos nós, o resto do mundo, de forma um pouco autista, às vezes até esquizofrénica, com países comparáveis ao País das Últimas Coisas? Creio que sim.

No País das Últimas Coisas é um livro estranho, num mundo estranho. Paul Auster traz-nos mais uma vez uma história de desespero, de perda, com personagens sofridas e sem esperança. Sobreviventes, num cenário pós-apocalíptico, vivem um dia de cada vez. No entanto, não poderia ser Paul Auster se não terminasse com uma ténue esperança de dias melhores. :)

É um livro de dimensão pequena, mas cheio de muitas coisas que nos fazem pensar. Recomendo, não só por ser Paul Auster. Recomendo porque é bom e é uma leitura que não vos vai deixar indiferentes. Para além disso, e mais uma vez, tem um título muito bom.:)


Excerto (pág. 9):
"Não estou à espera que compreendas. Tu não viste nada disto, e, mesmo que tentasses, não serias capaz de o imaginar. Estas são as últimas coisas. Uma casa está aqui um dia, e, no dia seguinte, desapareceu. Uma rua por onde caminhámos ontem já não existe hoje. Mesmo o tempo varia constantemente. A um dia de sol segue-se um dia de chuva, a um dia de neve segue-se um dia de nevoeiro, um suave calor dá lugar ao fresco, o vento a um ar parado, a um período de um frio cortante sucede, no meio do Inverno, uma tarde como a de hoje, uma tarde de uma luz fragrante, tão cálida que não precisamos de vestir mais do que uma simples camisola. Quando vivemos na cidade, aprendemos a não contar com coisa nenhuma. Fechamos os olhos por um momento, viramo-nos para olhar para outra coisa qualquer, e, de súbito, aquilo que tínhamos à nossa frente desapareceu. Nada dura, compreendes, nada, nem mesmo os pensamentos dentro da nossa cabeça. E não vale a pena perdermos o nosso tempo à procura seja do que for. Quando uma coisa desaparece, é o seu fim."

Deixem Falar as Pedras - David Machado

Título original: Deixem Falar as Pedras
Ano da edição original: 2011
Autor: David Machado
Editora: Publicações Dom Quixote

"No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato de casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino - e agora, meio século volvido, está velho demais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas.
De tanto ouvir ao avô a sua história rocambolesca, Valdemar - um rapaz violento e obeso apaixonado pela vizinha anoréctica - não desistiu, mesmo assim, de fazer justiça por ele. E, ao encontrar casualmente a notícia da morte do alfaiate, sabe que chegou a hora de ir falar com a viúva: até porque essa será a única forma de resgatar Nicolau Manuel da modorra em que se deixou afundar.
Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel - que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças - com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo -, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes a acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos."

As minhas últimas leituras têm sido agradáveis descobertas de escritores nunca antes lidos. David Machado andava debaixo de olho há algum tempo, e nesta Feira do Livro de Lisboa veio comigo para casa.

Deixem Falar as Pedras é um livro sobre as memórias e a transmissão das mesmas, neste caso de um avô ao seu neto. Valdemar cresceu a ouvir as histórias do seu avô excêntrico. O avô viveu uma vida impossível e absurda. De tanto ouvir as histórias de Nicolau e ao ver o estado debilitado em que o avô se encontra, Valdemar chama a si a responsabilidade de vingar as injustiças sofridas por ele e de contar a verdade do avô à única mulher que este amou em toda a vida, Graça dos Penedo, e com quem esteve mais de 50 anos sem conseguir falar.

O livro divide-se entre as histórias que Nicolau Manuel contou ao neto e as angústias e preocupações de um adolescente.
Valdemar registou religiosamente num caderno as histórias que foi ouvido do avô, para que na transmissão da verdade do avô, não fossem introduzidas alterações devido a falhas de memória ou falsas memórias que ele pudesse ter das histórias que ouviu, vezes sem conta.
Curiosamente é no registo do que lhe acontece que Valdemar vai exercendo alguma censura, com algumas partes da narrativa rasuradas. As histórias do avô são incontestáveis.


Nicolau Manuel concentra a sua sede de justiça pelo que lhe aconteceu numa única pessoa, o alfaiate que fez o seu fato de casamento e que, veio a casar com a sua noiva Graça dos Penedo. Culpa o alfaiate de todos os males que lhe aconteceram, de toda a tortura que sofreu às mãos da PIDE. Culpa-o porque lhe é impossível acreditar que a perseguição possa ter sido fruto do azar? Culpa-o porque lhe parece impensável que toda a sua vida tenha sido condicionada sem que a polícia política tivesse razões efectivas para tal, sem que tenha havido lugar a denúncias? Culpa-o porque é menos assustador acreditar na crueldade e no ciúme de um único homem, do que acreditar que um grupo de homens possa torturar e perseguir um homem anos a fio, apenas e só porque um dia foi apanhado nos seus radares e estava no sítio errado à hora errada, apenas e só porque sim? 

Até  que ponto as memórias que todos temos reflectem a realidade do que se passou? Até que ponto deturpamos a realidade, de forma consciente ou não, quando contamos uma história?
Eu, por exemplo, apercebi-me há bem pouco tempo de que uma das minhas memórias de infância não podia ser real... terei sonhado? Provavelmente. Porque é que tive esta memória como certa até tão tarde? Não sei, talvez porque era uma boa memória, porque desejei como só as crianças sabem desejar que fosse real. :)

Isto leva-nos a questionar a veracidade daquilo que nos dizem ter acontecido. No mínimo a não dar como certo tudo o que nos dizem. Se nem nas nossas memórias podemos confiar, porque haveremos de acreditar cegamente nas dos outros?

Gostei bastante deste livro. A escrita é fluida, as personagens bem construídas e a história original. David Machado é um escritor a manter debaixo de olho. Além disso tem um título fabuloso! :)

Recomendo.

Boas leituras!

Nota: Recomendo também o livro de Carlos Machado, Um Amor sem tempo, pai de David Machado. A minha opinião aqui:

Excerto (pág. 328):
"O meu pai começou a contar uma história sobre o meu avô, uma história que eu não conhecia, que o meu avô nunca me tinha contado, uma história onde o meu avô não era perseguido, nem torturado, nem atraiçoado, uma história sobre um dia qualquer há mais de trinta anos, quando o meu avô ensinou o meu pai a nadar, só eles os dois, sozinhos, a falar e a rir, a tarde a na outra margem da barragem e eles a chapinharem na água... Eu não quero pensar muito sobre a história (que nem sequer é exactamente uma história). Tenho medo de serpentear demasiado pelas palavras do meu pai e perceber que se calhar algumas são falsas, que a possibilidade de alguma coisa ser mentira existe. Acredito na história. Um dia peço ao meu pai que a conte outra vez. Porque é uma das melhores histórias sobre o meu avô que já ouvi alguém contar."

junho 26, 2016

Feira do Livro de Lisboa - 2016


Na única ida à Feira do Livro de Lisboa deste ano, estes foram os escolhidos para virem morar cá em casa:

 - A Confissão da Leoa - Mia Couto

Um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique - é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas.
A Confissão da Leoa é bem um romance à altura de Terra Sonâmbula e Jesusalém, já conhecidos do leitor português.


Esta é a história de Anna Blume e da sua jornada em busca do irmão desaparecido numa cidade sem nome. Mas tal como a cidade, a sua tarefa está condenada. A cidade transformou-se num campo de batalha onde imperam a miséria, violência e a selvajaria. Todos procuram algo ou alguém que desapareceu. Todos lutam para suprir a fome: no sentido literal, uma vez que os alimentos são escassos; e fome também no sentido abstracto, pois os últimos resquícios de humanidade impelem os cidadãos a procurar o amor e a partilha de linguagem e significado.

Através da solidão de Anna, Paul Auster conduz-nos a um mundo indeterminado e devastado no qual o eu desaparece entre os horrores a que o lento apagar da moral humana conduz. Não se trata apenas de um mundo imaginário e futurista - mas de um mundo que reflecte o nosso e, ao fazê-lo, lida com algumas das nossas mais sombrias heranças. Nesta visão apocalíptica de uma cidade despojada da sua humanidade, pulsa um inesquecível romance sobre a condição humana.

- O Jogo de Ripper - Isabel Allende

Indiana e Amanda Jackson sempre se apoiaram uma à outra. No entanto, mãe e filha não poderiam ser mais diferentes. Indiana, uma bela terapeuta holística, valoriza a bondade e a liberdade de espírito. Há muito divorciada do pai de Amanda, resiste a comprometer-se em definitivo com qualquer um dos homens que a deseja: Alan, membro de uma família da elite de São Francisco, e Ryan, um enigmático ex-navy seal marcado pelos horrores da guerra.

Enquanto a mãe vê sempre o melhor nas pessoas, Amanda sente-se fascinada pelo lado obscuro da natureza humana. Brilhante e introvertida, a jovem é uma investigadora nata, viciada em livros policiais e em Ripper, um jogo de mistério online em que ela participa com outros adolescentes espalhados pelo mundo e com o avô, com quem mantém uma relação de estreita cumplicidade.

Quando uma série de crimes ocorre em São Francisco, os membros de Ripper encontram terreno para saírem das investigações virtuais, descobrindo, bem antes da polícia, a existência de uma ligação entre os crimes. No momento em que Indiana desaparece, o caso torna-se pessoal, e Amanda tentará deslindar o mistério antes que seja demasiado tarde. 

- Contracorpo - Patrícia Reis

Uma mulher fica viúva com dois filhos. Alguns anos depois da morte do marido, a vida não se refez e o filho mais velho, agora adolescente, cresce contra a mãe, num silêncio obstinado que só quebra nas histórias que se conta para adormecer e nos desenhos que faz de forma compulsiva. Com o anúncio do chumbo escolar, a mãe decide, sem grandes reflexões, fazer uma viagem com este filho, deixando o pequeno com os avós. Não se trata de uma viagem com destino, mas antes uma procura.

Contracorpo é um livro contra o silêncio e sobre o silêncio. É uma história de procura de identidades distintas - da mulher e do quase homem - e ainda de descobertas. Uma mãe nunca é o que se espera. Um filho é sempre uma surpresa. O encontro dá-se enquanto procuram caminhos, de Lisboa a Roma, num jogo de claro escuro. Como se tudo fosse uma imagem.

- Deixem Falar as Pedras - David Machado

No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato do casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino - e agora, meio século volvido, está velho de mais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas. De tanto ter ouvido ao avô a sua história rocambolesca, Valdemar - um rapaz violento e obeso apaixonado pela vizinha anoréctica - não desistiu, mesmo assim, de fazer justiça por ele. E, ao encontrar casualmente a notícia da morte do alfaiate, sabe que chegou a hora de ir falar com a viúva: até porque essa será a única forma de resgatar Nicolau Manuel da modorra em que se deixou afundar.
Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel - que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças - com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo -, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.

Foi uma única visita, infelizmente o novo local de trabalho afastou-me da Feira do Livro e das visitas quase diárias ao recinto. Embora única, julgo que foi uma visita produtiva! Estou contente com o que trouxe para casa.

Boas leituras!

junho 25, 2016

Instruções Para Salvar o Mundo - Rosa Montero

Título original: Instrucciones para Salvar el Mundo
Ano da edição original: 2000
Autor: Rosa Montero
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

"Num cenário de subúrbio, onde a noite reclama o seu território e os fantasmas reivindicam o seu espaço, um taxista viúvo que não consegue superar a perda da mulher, um médico desiludido, uma cientista anciã e uma belíssima prostituta africana sedenta de vida cruzam os seus caminhos, para nos obsequiarem com uma visita guiada ao mundo vertiginoso e convulso que cada um encerra dentro de si.
Mas esta não é uma história de horrores, é antes uma fábula de sobreviventes, de quatro personagens que reúnem todos os elementos necessários para serem considerados uns desgraçados, que se movem nos mundos limítrofes à máfia, ao tráfico de mulheres brancas, e a universos virtuais como Second Life, mas que conseguem encontrar um apoio que lhes permite a remição e a saída das trevas que os mantinha prisioneiros.
Uma intensa e hipnótica história de esperança que deambula entre o humor e a emoção e nos mergulha na sociedade caótica dos nossos dias. Uma história que pode ser a de qualquer um de nós."

Nunca tinha lido nada desta escritora e nunca tinha sequer ouvido falar nela. Fui atraída pela capa e pelo título. O que encontrei foi um livro muito bem escrito, uma história muito bem contada e personagens difíceis de esquecer.

É um livro que tão depressa nos faz rir como nos provoca desconforto. É fácil criar empatia com as personagens embora sejam tão diferentes umas das outras e de nós próprios. O que os une? Talvez a solidão e a perda. A incapacidade para serem felizes e a resignação. E o que nos leva a sentir empatia com um taxista viúvo, uma prostituta africana, um idosa alcoólica e um médico infeliz viciado em Second Life? Não sei, talvez o facto de serem todos muito humanos e evidentemente tão infelizes, sem que aparentemente o mereçam, leva a que desejemos que a vida lhes reserve coisas boas. A empatia que criamos com personagens tão diferentes de nós, talvez venha da nossa capacidade de nos colocarmos na pele do outro e sentir as suas dores e alegrias. É de facto um livro muito humano, acho eu... :)
 
Não vale a pena aprofundar aqui a história. Julgo que é um livro cuja história é importante, no entanto acho que vive, essencialmente das personagens e da forma como interagem.

Gostei muito e recomendo sem qualquer reserva. Rosa Montero é uma escritora a repetir.

Boas leituras!

junho 04, 2016

Contos de São Petersburgo - Nikolai Gógol

Autor: Nikolai Gógol
Tradução do russo: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Biblioteca Editores Independentes

"Estão aqui reunidas as cinco «Histórias de Petersburgo» - Avenida Névski (1834), Diário de um Louco (1834), O Nariz (1836), O Retrato (1841) e O Capote (1841). Acrescentou-se A Caleche (1836), pequeno conto que alguns autores integram neste ciclo. Trata-se do chamado «segundo período» da obra do autor, que se seguiu ao período das histórias ucranianas - Noites na Granja ao pé de Dikanka e Mírgorod. Estes contos do fantástico-real (ou real-fantástico?), integrando o humor e a sátira inconfundíveis de Gógol, tiveram grande influência no ulterior desenvolvimento da prosa literária russa e, também, no de todas as literaturas ocidentais. A modernidade das propostas de Gógol continua mais viva do que nunca nestas histórias em que a personagem principal é a cidade de Petersburgo: mesquinha, sufocante, ridícula, irrisória e ilusória."

Nunca tinha lido nada de Nikolai Gógol e estes contos parecem ter sido uma boa iniciação à obra deste escritor ucraniano e russo.
 
Não sabia o que iria encontrar nestas pequenas histórias de Gógol, mas não estava a contar com histórias divertidas, absurdas até, escritas de uma forma descontraída e de certa forma moderna, se é que podemos falar de modernidade no que à literatura diz respeito.

Inconscientemente julgo que estava à espera de algo sério, pesado e profundo. Não sei de onde me terá ficado essa ideia. Se calhar por isso demorei algum tempo a deixar de estranhar as histórias. Dou por mim a pensar, que raio este homem não é bom da cabeça, que absurdo... porquê escrever sobre um homem que perde o nariz e sobre o mesmo do nariz que se passeia por São Petersburgo? Mas a verdade é que o conto é mesmo para ser absurdo e ridículo, como aparentemente era São Petersburgo naquela época. :) Deixados os preconceitos de lado, este é um livro cheio de humor inteligente, de passagens divertidas, de crítica social acutilante e, ao mesmo tempo cheio de fantasia e imaginação.

Concluindo, gostei muito desta introdução às obras de Gógol. 

Recomendo sem quaisquer reservas.

Boas leituras!

Excerto (pág.221):
"O próprio funcionário parace ter ficado comovido com a situação difícil de Kovaliov. Para lhe atenuar um pouco a amargura, achou conveniente exprimir a sua compaixão com algumas palavras simpáticas:
 - Acredite que lamento muito o ter-lhe sucedido um episódio destes. É servido de uma pitada? É bom para as dores de cabeça e a melancolia; até ajuda em caso de hemorróidas.
Dizendo isto, o funcionário ofereceu a Kovaliov da sua caixa de rapé, cuja tampa, ornada por um retrato de uma senhora com chapéu, abriu com bastante preciosismo.
Este procedimento nada premeditado esgotou a paciência de Kovaliov.
 - Não compreendo como é possível o senhor brincar com isto - disse indignado -, então não vê que me falta precisamente aquilo com que se toma a pitada? Que o leve o diabo, ao seu rapé! Nem o posso ver à frente, e não só o seu tabaco nojento, mas o melhor dos râpés!"

maio 28, 2016

1Q84 - Haruki Murakami (vol.1, 2 e 3)


Título original: 1Q84
Ano da edição original: 2009-2010
Autor: Haruki Murakami
Tradução: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras

"Um mundo aparentemente normal, duas personagens - Aomame, uma mulher independente, professora de artes marciais, e Tengo, professor de matemática - que não são o que aparentam e ambos se dão conta de ligeiros desajustamentos à sua volta, que os conduzirão fatalmente a um destino comum. Um universo romanesco dissecado com precisão orwelliana, em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes.
Em 1Q84, Haruki Murakami constrói um universo romanesco em que se cruzam histórias inesquecíveis e personagens cativantes. Onde acaba o Japão e começa o admirável mundo novo em que vivemos? Uma ficção que ilumina de forma transversal a aldeia global em que vivemos."

"O Livro 1 revelou a existência do mundo de 1Q84. Algumas perguntas encontraram resposta. Outras permanecem em aberto: Quem é o Povo Pequeno? Como farão esses seres para abrir caminho até ao mundo real? Existirão mesmo?, como sugere Fuka-Eri. Chegarão Aomame e Tengo a reencontrar-se? «Há coisas neste mundo que é melhor nem saber», como diz o sinistro Ushikawa. Em todo o caso, o destino dos heróis de 1Q84 está em marcha. No céu, distinguem-se nitidamente duas luas. Não é uma ilusão. Murakami descreve aqui um universo singular, que absorve, que imita a realidade, e a faz sua. A narrativa decorre em dois mundos que se cruzam, qual deles o mais real e o mais fascinante - o de 1984 e o de 1Q84.
A perturbante história de um amor adiado, recortada num cenário marcado pelo desencanto e pela violência. Uma fábula sobre os dilemas do mundo contemporâneo. Murakami retrata o mal-estar da sociedade japonesa que se esconde por debaixo de uma aparente quietude."

"O Livro 3 revela o estilo forte e truculento de uma personagem única, Ushikawa de seu nome. A par de Tengo e Aomame, a voz da Ushikawa ecoa nas páginas do terceiro volume de 1Q84 e provoca as reações mais intensas. Amem-no ou detestem-no, mas deixem-no entregue à sua sorte. Tengo e Aomame continuam sem saber, mas aquele é o único lugar perfeito no mundo. Um lugar perfeitamente isolado e, ao mesmo tempo, o único que escapa às malhas da solidão.
Este mundo também deverá ter as suas ameaças, os seus perigos, claro, e estar cheio dos seus próprios enigmas e de contradições. Mas não faz mal. A páginas tantas, é preciso acreditar. Sob as duas luas de 1Q84, Aomame e Tengo deixam de estar sozinhos... Inspirado em parte no romance 1984, de George Orwell, 1Q84 é uma surpreendente obra de ficção, escrita de forma poderosa e imaginativa - a um tempo um thriller e uma tocante história de amor.
Murakami continua a provocar o espanto e a emoção, comunicando com milhões de pessoas de todas as idades, espalhadas pelo mundo inteiro. Ao pousar este livro, quantos leitores não se sentirão desafiados a ver o mundo com outros olhos?"

Haruki Murakami é um extraordinário contador de histórias e é muito bom a criar mundos estranhos, personagens caricatas e vidas impossíveis. 1Q84 é mais uma prova desta habilidade do escritor japonês.

Aomame é uma jovem solitária, com um talento especial e Tengo que, em criança, era um prodígio da matemática, em adulto deseja ser escritor. 
Aomame e Tengo conhecem-se na escola, ela uma menina esquisita, filha de pais religiosos, com uma educação muito rígida. Ele, um menino inteligente, fisicamente imponente, filho de um cobrador da NHK, a televisão pública lá do sítio. Ambos são miúdos diferentes dos outros. Ela é obrigada a andar com a mãe, aos fins-de-semana a pregar a palavra de Deus, todos os dias tem de rezar em voz alta em frente aos colegas na escola e é, naturalmente gozada por toda a gente. Ele é arrastado pelo pai todos os domingos para irem de porta em porta cobrar a taxa da NHK, devida por todos os cidadãos que tenham televisão. Goza de alguma popularidade na escola mas não se pode dizer que tenha amigos. Um dia Aomame, que nunca dirigia a palavra a ninguém, agarra a mão de Tengo e sem pronunciar uma única palavra entrega o seu coração a Tengo e leva consigo o do menino.
Nunca dirigiram a palavra um ao outro, nunca mais voltam a olhar um para o outro e um dia ela muda de escola e nunca mais se veem. No entanto nem um nem outro se esquecem do dia em que Aomame segurou a mão de Tengo.

Passam-se anos e os dois meninos cresceram. Ela é instrutora num ginásio, ele professor de matemática e aspirante a escritor. Passados tantos anos, e sem nunca se terem voltado a ver, amam-se. Aomame tem a certeza de que um dia voltará a encontrar Tengo, no entanto sente que não deve forçar esse encontro, não deve procurá-lo. O reencontro deles deve ser o mais inesperado e espontâneo possível. Aomame sabe desde sempre que o ama e que nunca deixará de o amar. Sente-se de certa forma sortuda por sentir o que sente por Tengo, por ser capaz de amar, por ter alguém no mundo por quem era capaz de tudo. 
O amor de Tengo por Aomame não é algo tão consciente. Tengo é mais passivo com relação a tudo o que diga respeito à sua vida, embora nunca tenha esquecido a menina e pense nela muitas vezes, nunca pensou em procurá-la, nunca achou que poderia fazê-lo. Só quando ela, de forma inesperada volta a entrar na vida dele é que se apercebe que a ama, que a ama desde o dia em que ela lhe deu a mão e o olhou. Percebe que nunca mais a quer perder de vista.
Um dia Aomame desce umas escadas, numa autoestrada, e entra num mundo que, embora se pareça muito com o que ela conhece não é bem igual. Ela chama-lhe 1Q84. Em 1Q84 existem duas luas no céu, criaturas misteriosas designadas por Povo Pequeno e que criam crisálidas de ar, de onde com a ajuda da mã se cria uma nina, uma espécie de alter-ego da menina que é visitada pelo Povo Pequeno e que com eles constrói as crisálidas de ar. Confuso? Não, é Murakami. :)
Tengo também acaba por ir parar a 1Q84, sem saber muito bem como. Terá sido quando reescreveu a história de Fuka-Eri? Será que ao reescrever a história 1Q84 passou a ser uma realidade paralela, que o vai permitir encontrar Aomame?

Julgo que não vale a pena entrar muito mais na história. Três volumes de Murakami dariam para duas teses de mestrado e não é esse âmbito deste cantinho. 1Q84 fala de muita coisa. Fala de violência sobre mulheres e crianças. Fala de religião e da forma como ela pode mudar a vida de uma pessoa, de uma comunidade e até do mundo inteiro. 1Q84 fala de fanatismo e de obsessão. Fala de solidão, de injustiça, de vingança e de dor. 1Q84 fala de amor. Amor entre um homem e uma mulher, amor entre um filho e um pai, amor entre uma mãe e um filho e fala de perdão, de aceitação e de perseverança.

De uma forma geral gostei dos livros, não acho que sejam os melhores que já li dele, no entanto é uma história à Haruki Murakami, com todos os seus defeitos e muitas qualidades e com todos os seus fetiches (qual é que é cena dele com orelhas?) :)
Gostei das personagens e gostei da história e do ambiente criado à volta da história.
Pontos menos positivos, acabei por não perceber qual a relação com o 1984 de Orwell e talvez seja um tudo ou nada extenso demais.

Não posso não recomendar Haruki Murakami, por isso leiam. Um conselho, leiam os três volumes de seguida. Na realidade são uma história apenas e nenhum deles faz muito sentido sem os outros.

Boas leituras!

Excerto (pág. 253 vol.I):
"Então, um belo dia, a menina agarrou a mão de Tengo. Era uma tarde de sol, nos primeiros dias de Dezembro. Do outro lado da janela, o céu estava límpido e via-se uma nuvem branca e plana. Por mera coincidência, depois da limpeza da sala de aulas, ela e Tengo haviam ficado sozinhos. Não havia mais ninguém. Em passo ligeiro, como se estivesse decidida a qualquer coisa, ela atravessou a sala em direcção a Tengo. Sem hesitar, agarrou a mão dele, ergueu os olhos e olhou-o de frente. (Tengo era dez centímetros mais alto.) Ele também olhou para ela, apanhado de surpresa. Os seus olhares encontraram-se. Tengo logrou captar nos olhos dela uma profundidade transparente que nunca vira antes. A rapariga ficou durante muito tempo em silêncio, sempre agarrada à mão dele. Com força, sem deixar por um instante de fazer pressão. Às tantas, soltou-a de repente e saiu da sala de aulas disparada, com a saia a dar, a dar."

abril 30, 2016

[Livro novo] Joanne Harris - Different Class

"After thirty years at St Oswald’s Grammar in North Yorkshire, Latin master Roy Straitley has seen all kinds of boys come and go. Each class has its clowns, its rebels, its underdogs, its ‘Brodie’ boys who, whilst of course he doesn’t have favourites, hold a special place in an old teacher’s heart. But every so often there’s a boy who doesn’t fit the mould. A troublemaker. A boy with hidden shadows inside.

With insolvency and academic failure looming, a new broom has arrived at the venerable school, bringing Powerpoint, sharp suits and even sixth form girls to the dusty corridors. But while Straitley does his sardonic best to resist this march to the future, a shadow from his past is stirring. A boy who even twenty years on haunts his teacher’s dreams. A boy capable of bad things."

Mais um livro novo da Joanne Harris, editado este mês, Different Class. Tenho expectativas elevadas relativamente a ele. A autora assume que é o terceiro livro de uma espécie de trilogia de histórias passadas na cidade de Malbry - Xeque ao Rei e O Rapaz de Olhos Azuis.

Espero que este seja mais ao meu gosto do que os últimos que têm saído dela.

Para quando a edição traduzida?

Boas leituras!