dezembro 26, 2016

Uma Questão de Classe - Joanne Harris

Título original: Different Class
Ano da edição original: 2016
Autor: Joanne Harris
Tradução do Inglês: Elsa T. S. Vieira
Editora: Edições Asa

"A vaga de modernidade parece imparável e inclui a admissão de raparigas, novas tecnologias, uma possível "fusão" com um colégio feminino, e até um novo diretor. É por esse motivo que Roy Straitley, o excêntrico professor de Latim, decide adiar a sua reforma. Há mais de trinta anos que Straitley dá aulas em St. Oswald, onde ele próprio estudou. Para ele, a escola é o seu lar e a sua vida. Enquanto faz os possíveis para manter a tradição, o professor descobre que o novo diretor é nada mais nada menos que um ex-aluno seu, um rapaz cuja memória nunca deixou de o atormentar. E que representa agora uma ameaça que apenas Straitley consegue antever. Pois o novo diretor é admirado por todos. Mas por entre o pó de giz que cintila sob o sol de Outono e o ranger das tábuas do soalho ancestral, há sombras que se agitam...  e alguém que aguarda o momento certo para ajustar contas com o passado."

Em Uma Questão de Classe, voltamos a St. Oswald uns meses depois dos acontecimentos de Xeque ao Rei. Roy Straitley, o professor de latim, prepara-se para mais um ano lectivo e está motivado para ajudar o colégio a ultrapassar mais um escândalo.

No entanto, este ano lectivo parece ter preparado para ele um regresso ao passado, com a notícia de que um ex-aluno de St. Oswald é o novo diretor do centenário colégio. Straitley lembra-se bem demais deste ex-aluno e as memórias que tem do tempo em que, o agora diretor, frequentou o colégio são-lhe dolorosas e difíceis de reviver. Para além disso, esta mudança parece trazer mais mudanças à vida do colégio. O progresso parece querer tomar de assalto as tradições de St. Oswald e o velho professor de latim não parece estar disposto a ser ultrapassado sem dar luta e defender aquilo que acha ser o melhor para a instituição que foi, é e sempre será a sua casa.

Uma Questão de Classe fala de homossexualidade, de pedofilia, de fanatismo religioso e de mentes distorcidas e doentias. Mistura explosiva? Com certeza que sim.
Também fala de tradição e progresso e do preço de cada uma delas. Fala de adolescência e do difícil que pode ser ser-se diferente num mundo pouco tolerante à diferença.

E basicamente é isto.

Xeque ao Rei é um dos livros, de Joanne Harris, de que gosto muito. É natural que as minhas expectativas para este regresso a St. Oswald fossem elevadas. E não foram defraudadas. É um livro ao estilo Joanne Harris, que segue a receita de Xeque ao Rei, com um twist mais para o fim. :)
Pessoalmente, talvez tenha sentido falta de uma personagem feminina forte que a escritora tão bem sabe criar.

Embora continue a gostar muito de Joanne Harris, este últimos livros dela têm sido menos envolventes. Só não sei se foi ela que mudou como escritora ou se fui eu que mudei como leitora. O que quer que tenha mudado nesta nossa relação de tanto anos, uma coisa é certa, haveremos de nos alinhar novamente. :)

Recomendo, como não poderia deixar de ser.

Boas leituras!

Excerto (pág. 158):
"Ele parecia inseguro.
 - Oiçam, está na Bíblia - disse-lhes. - O salário do pecado é a morte. Certo?
O Goldie assentiu com a cabeça. O Caniche também.
 - E ser maricas é pecado, certo?
O Caniche soltou um som estrangulado.
 - É por isso que precisamos de um sacrifício. Para limpar o pecado - expliquei. - Está tudo na Bíblia. O sangue do cordeiro. Ele deu a sua vida para que nós possamos viver.
Acabei por ser eu a fazer a maior parte do trabalho. O Goldie, contudo, disse as palavras; não ia deixá-lo escapar-se sem ter pelo menos um pequeno papel. O Caniche chorou um bocadinho quando o fiz pôr a mão na ratoeira mas, como expliquei, precisávamos que ele estabelecesse contacto. E o Goldie sempre foi um tagarela, tal como o seu pai pregador, na verdade. Assim que lhe expliquei o que era preciso, conseguiu cumprir a sua parte.
 - Este homem foi infectado com o demónio da homossexualidade. Sai dele, demónio imundo; entra na alma desta ratazana e liberta o teu humilde servo.
Nesta altura, o Caniche estava a chorar a bom chorar. Suponho que eram os demónios. Ou talvez fosse apenas alívio; o alívio de partilhar o fardo, de alguém o estar a livrar dele. Sei como isso é, Ratinho. Tu também sabes, não sabes? É bom confessar a alguém, mesmo que a pessoa já esteja morta. Especialmente se já estiver morta - assim, ninguém dá com a língua nos dentes.
Depois afoguei a ratazana, ainda dentro da ratoeira.
Bem, resultou com os gadarenos."

dezembro 07, 2016

A Prayer for Owen Meany - John Irving

Título original: A Prayer for Owen Meany
Ano da edição original: 1989
Autor: John Irving 
Editora: Harper

"«I am doomed to remember a boy with a wrecked voice not because of his voice, or because he was the smallest person I ever knew, or even because he was the instrument of my mother's death, but because he is the reason I believe in God; I am a Christian because of Owen Meany.» In the summer of 1953, two eleven-year-old boys - best friends - are playing in a Little League baseball game in Gravesend, New Hampshire. One of the boys hits a foul ball that kills the other boy's mother. The boy who hits de ball doesn't believe in accidents; Owen Meany believes he is God's instrument. What happens to Owen, after that 1953 foul ball, is extraordinary."

John Irving é um dos meus escritores favoritos, não é segredo. Gosto particularmente da forma como nos permite acompanhar a vida das personagens, desde que nascem até ao dia em que morrem. Também gosto do sentido de humor que está presente em todos os livros que já li dele.

Este, A Prayer for Owen Meany, não me encheu as medidas e sinto que estou a cometer, quase uma heresia, porque as opiniões que tenho lido são todas tão boas que sinceramente fico um pouco constrangida. Para mim, neste livro, John Irving alongou-se demais, e sinto que o livro se tornou um pouco repetitivo. Por outro lado, não senti qualquer empatia com Owen Meany. Não sei se estava à espera que ele fosse mais "adorável", o que também não faz muito sentido, conhecendo John Irving, dificilmente Owen seria "adorável". Isto, aliado ao tema da fé e da religião, fez com que este livro, não me tivesse tocado particularmente. Não me identifiquei com o tema, com as personagens e com as sua angustias e julgo que foi, essencialmente por isso, que não me encheu as medidas.

No que à história diz respeito, não há muito a acrescentar ao que já é dito na sinopse.
O narrador desta história fantástica, quase uma versão alternativa da vida de Cristo, é John Wheelwright o melhor amigo de Owen Meany. John é neto da mulher mais rica e respeitada de Gravesend, New Hampshire e Owen é filho do dono de uma pedreira da cidade. John é um miúdo normal, sem nada que o destaque das outras crianças, a não ser o facto de não saber quem é o seu pai. Owen é a pessoa mais pequena que Gravesend conhece, possui uma voz estridente, é inteligente e é a pessoa mais obstinada e tenaz que John alguma vez conheceu ou viria a conhecer na sua vida. A história gira à volta destes dois e da amizade que os une, mesmo depois de Owen ter, acidentalmente, morto a mãe de John num jogo de basebol.
Owen acredita que Deus tem uma missão para ele, missão essa que lhe é revelada num sonho recorrente. Depois de, durante a peça de Natal onde faz de menino Jesus, ter uma visão, onde vê a sua lápide com o dia e ano em que morreu, Owen passa a ter a certeza de que sabe onde, quando e como vai morrer. John não acredita em nada do que o amigo diz e faz tudo para o convencer de que é apenas um sonho.
A verdade é que Owen passa a viver em função daquilo que julga ser certo e imutável. Prepara-se para aquele dia, fazendo tudo para estar onde acha que Deus lhe disse para estar naquele dia. Até que ponto é ele quem provoca a sua morte? Até que ponto poderia ter sido diferente? Não sabemos. Ninguém sabe e ninguém pode saber.
John, quase sem se aperceber é absorvido pela força de Owen. Tudo aquilo que conquista e todas as suas escolhas acabam por ser condicionadas por Owen, que parece saber exactamente por onde John deve seguir e o que é melhor para amigo. Quase que deixa tudo preparado e encaminhado para que John não se perca depois de ele morrer. E John não se perde, mas também não avança muito, preso a uma personagem inesquecível e a uma história difícil de acreditar. É agora crente mas, como São Tomé, precisou de ver para crer.

E, sem entrar em mais pormenores, é isto.

Embora tenha sido um livro que me pareceu longo demais, lê-se relativamente bem. Tem o cunho de John Irving espalhado pelas páginas, no entanto, para mim não tem John Irving suficiente. Não posso, no entanto, não recomendar a leitura. Acho que, embora não sendo um livro para toda a gente, é um livro que vale a pena ler.

Boas leituras!

Excerto (pág. 79):
"And so that day after Thanksgiving, when Owen Meany met my cousins, provided me two very powerful images of Owen - especially on the night I tried to get to sleep after the foul ball had killed my mother. I lay in bed knowing that Owen would be thinking about my mother, too, and that he would be thinking not only of me but also of Dan Needham - of how much we both would miss her - and if Owen was thinking of Dan, I knew that he would be thinking about the armadillo too."


Este foi uma das histórias de John Irving que serviu de inspiração ao cinema - Simon Birch. Fica aqui o trailer:

outubro 06, 2016

Contracorpo - Patrícia Reis

Título original: Contracorpo
Ano de edição: 2013
Autor: Patrícia Reis
Editora: Publicações Dom Quixote

"Uma mulher fica viúva com dois filhos. Alguns anos depois da morte do marido, a vida não se refez e o filho mais velho, agora adolescente, cresce contra a mãe, num silêncio obstinado que só quebra nas histórias que se conta para adormecer e nos desenhos que faz de forma compulsiva. Com o anúncio do chumbo escolar, a mãe decide, sem grandes reflexões, fazer uma viagem com este filho, deixando o pequeno com os avós. Não se trata de uma viagem com destino, mas antes uma procura.
Contracorpo é um livro contra o silêncio é sobre o silêncio. É uma história de procura de identidades distintas - da mulher e do quase-homem - e ainda de descobertas.
Uma mãe nunca é o que se espera.
Um filho é sempre uma surpresa.
O encontro dá-se enquanto procuram caminhos, de Lisboa a Roma, num jogo de claro-escuro. Como se tudo fosse uma imagem."

Patrícia Reis tem vindo a revelar-se como uma escritora que é impossível não ler. A forma como escreve é... não sei que palavra poderá descrever a escrita dela... talvez natural? Emocional? Não sei. Só sei que gosto porque me parece, como leitora, uma escrita despretensiosa, muito eficiente na forma como nos envolve enquanto leitores e que facilmente nos transporta para dentro da história que conta. Sinto, quando acabo de ler um livro dela que, de certa forma, estou diferente. :)

Inicialmente, Contracorpo parece ser a história de uma mãe e do filho adolescente e da relação difícil que os pais e filhos têm nestas idades. Contracorpo acaba por ser a história de uma mulher, que é muito mais do que a mãe de um adolescente, que embarca numa viagem para se redescobrir e que, nessa viagem, se dá a conhecer ao filho adolescente que nunca pensou na mãe senão como mãe. Como se a vida dela tivesse começado no dia em que ele nasceu.
Nessa viagem, a mãe deixa de lado o papel de mãe e tenta compreender o filho, como a pessoa que é, não olhando para ele apenas como o seu filho, e o filho deixa de julgar a mãe e, conhecendo a mulher acaba por compreender e aceitar a mãe.

É um livro muito interessante de se ler. Os capítulos são curtos, muito ao estilo de Patrícia Reis, alternando entre a narração do filho e a narração da mãe. Embora o livro possa ser, por vezes, angustiante, a energia que emana das páginas é acima de tudo muito positiva.

Gostei muito deste livro e só posso recomendar. Por favor leiam Patrícia Reis, porque vale mesmo a pena.

Boas leituras!

Excerto (pág. 207):
"E, mãe, depois disto tudo, quero dizer-te que já percebi que sei pouco sobre ti.

Como assim?

Uma coisa és tu como mãe, a outra és tu como pessoa. Eu nunca tinha entendido que há uma diferença.

Não sei se há uma diferença, Pedro.

Há uma diferença, quando és mãe tentas cumprir um plano que muitas vezes nõ corre bem porque não sabes prever o que vamos fazer. Como pessoa talvez gostasses de ter feito outras coisas. Percebo isso agora.

Reserva-se. Não sabe o que dizer. Pedro tem razão, claro, uma coisa é o plano, a ideia de cumprir com qualquer tarefa que a faça a melhor mãe do mundo numa competição em que não se lembra de se ter inscrito. Outra coisa, como tantas vezes lhe disse a psiquiatra, é a Maria fora da equação da maternidade. O que era ela? Para onde vai? (...) Revê-se no filho, na sua insegurança, na procura de um lugar. Tem mais de quarenta anos e saberá ela onde pertence? Onde é que encaixa? De repente, o filho parece-lhe mais seguro, mais adulto que ela própria. Na esperança de ser outra coisa, a viagem era para os obrigar a ter uma relação. O que sucedera resumia-se a formas de olhar distintas. Pedro descobriu outra mãe em Maria e ela percebeu mais coisas no filho. Já não são o contracorpo um do outro, são dois corpos em frente um ao outro, a verem-se, a analisarem-se, a medirem-se."

setembro 12, 2016

O Jogo de Ripper - Isabel Allende

Título original: El Juego de Ripper
Ano da edição original: 2014
Autor: Isabel Allende
Tradução: Ângela Barroqueiro
Editora: Porto Editora

"Indiana e Amanda Jackson sempre se apoiaram uma à outra. No entanto, mãe e filha não poderiam ser mais diferentes. Indiana, uma bela terapeuta holística, valoriza a bondade e a liberdade de espírito. Há muito divorciada do pai de Amanda, resiste a comprometer-se em definitivo com qualquer um dos homens que a deseja: Alan, membro de uma família da elite de São Francisco, e Ryan, um enigmático ex-navy seal marcado pelos horrores da guerra.
Enquanto a mãe vê sempre o melhor nas pessoas, Amanda sente-se fascinada pelo lado obscuro da natureza humano. Brilhante e introvertida, a jovem é uma investigadora nata, viciada em livros policiais e em Ripper, um jogo de mistério online em que ela participa com outros adolescentes espalhados pelo mundo e com o avô, com quem mantém uma relação de estreita cumplicidade.
Quando uma série de homicídios ocorre em São Francisco, os membros de Ripper encontram terreno para saírem das investigações virtuais, descobrindo, bem antes da polícia, a existência de uma ligação entre os crimes. No momento em que Indiana desaparece, o caso torna-se pessoal, e Amanda tudo fará para deslindar o mistério antes que seja tarde demais."

Não é novidade que gosto de Isabel Allende, mas também não é novidade que nem tudo o que escreve me convence. Este O Jogo de Ripper, uma espécie de policial, é dos que não me convencem. Encaixo este na mesma caixinha onde coloquei as obras que ela foi escrevendo para os netos, como a trilogia As Aventuras da Águia e do Jaguar - composta por A Cidade dos Deuses Selvagens, O Reino do Dragão de Ouro e O Bosque dos Pigmeus, onde ela utiliza uma linguagem mais juvenil que, na minha opinião, resulta em livros menos bem conseguidos em termos de história, com personagens menos desenvolvidas e muito menos interessantes.

Relativamente ao Jogo de Ripper, não há muito a acrescentar à sinopse que vem no livro.
Amanda Jackson é uma miúda de 17 anos (que a mim me pareceu sempre mais nova, menos matura) extremamente inteligente mas muito pouco sociável. Encontra num jogo online, o Jogo de Ripper, que ela própria gere, um grupo de miúdos, que como ela e pelos mais diversos motivos, também não se sentem muito confortáveis com o que o mundo lá fora parece exigir deles. O Jogo de Ripper acaba por ser uma comunidade muito restrita de miúdos unidos pelo gosto em investigar e resolver mistérios.
Quando em São Francisco se inicia uma série de homicídios estranhos, o grupo passa a dedicar-se em exclusivo em descobrir o assassino.
O livro explora a relação desta adolescente meio disfuncional com uma família pouco normal. A mãe, Indiana, é uma mulher que olha o mundo e a vida de forma positiva, que se esforça para ver apenas o lado bom das pessoas. O pai Bob Martín, inspector-chefe, está encarregue da investigação dos crimes que assolam a comunidade. É um homem algo rude, típico macho latino, que tem pela filha um amor genuíno. Divorciado de Indiana, a namorada do tempo do liceu que engravidou e com quem casou, mas que nunca amou realmente. Mantém com a ex-mulher uma relação próxima, protector e fraternal. Amanda vive com o avô, Blake Jackson, que tenta manter alguma sanidade na vida da neta e acaba por ser porto de abrigo para ela. Acompanha-a em tudo, inclusive no Jogo de Ripper, ajudado-a com as investigações.

Infelizmente não gostei muito de O Jogo de Ripper. A história arrasta-se muito e torna-se cansativa e pouco apelativa. As personagens não se destacam em particular e, confesso que prefiro quando a escritora consegue manter as suas crenças religiosas e a espiritualidade fora das suas histórias.

Embora não tenha gostado particularmente deste livro de Isabel Allende, não me parece que haja razões para não o recomendar. Acredito até que existem muitos leitores para ele e que o saberão apreciar. No entanto este não é um livro que espelhe a escritora que Isabel Allende é. Não o recomendo como introdução à obra de Isabel Allende.

Boas leituras!

Excerto (pág. 30):
"Blake Jackson enfiou o nariz na trunfa de cabelo crespo da neta, inspirando o cheiro a salada - tinha-lhe dado para lavar o cabelo com vinagre - e pensou que dentro de poucos meses ela partiria para a universidade e ele não estaria por perto para a proteger; ainda não se tinha ido embora e já tinha saudades dela. Recordou numa sucessão vertiginosa de acontecimentos as etapas daquela curta vida, a rapariguinha arisca e desconfiada, metida durante horas debaixo de uma tenda improvisada feita com lençóis, onde apenas entravam o amigo invisível que a acompanhou durante vários anos, chamado Salve-o-Atum, a sua gata Gina e ele, quando tinha a sorte de ser convidado para tomar chá a brincar em minúsculas chavenazinhas de plástico. «A quem teria saído aquela pirralha?», tinha perguntado Blake Jackson quando Amanda o venceu ao xadrez aos seis anos. Não podia ser a Indiana, que flutuava na estratosfera pregando paz e amor meio século depois dos hippies, e menos ainda a Bob Martín, que por essa altura ainda não tinha lido um livro até ao fim. «Não te preocupes, homem, muitas crianças são geniais na sua infância e depois entram na idade da parvalheira. A tua neta descerá ao nível de idiotice geral, quando lhe despertarem as hormonas», aconselhou Celeste Rolo. "

agosto 31, 2016

A Dança dos Dragões - George R. R. Martin

Título original: A Dance With Dragons (part 2)
Ano da edição original: 2011
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Editora: Saída de Emergência

"O Norte jaz devastado e num completo vazio de poder. A Patrulha da Noite, abalada pelas perdas sofridas para lá da Muralha e com uma grande falta de homens, está nas mãos de Jon Snow, que tenta afirmar-se no comando tomando decisões difíceis respeitantes ao autoritário Rei Stannis, aos selvagens e aos próprios homens  que comanda.
Para lá da Muralha, a viagem de Bran prossegue. Mas outras viagens convergem para a Baía dos Escravos, onde as cidades dos esclavagistas sangram e Daenerys Targaryen descobre que é bastante mais fácil conquistar uma cidade do que substituir de um dia para o outro todo um sistema político e económico. Conseguirá ela enfrentar as intrigas e ódios que se avolumam enquanto os seus dragões crescem para se tornarem nas criaturas temíveis que um dia conquistarão os Sete Reinos?"

Para as raras pessoas que ainda não terminaram de ler a saga e/ou não acompanham a série na televisão, esta opinião contêm spoilers. :)
Terminei a minha dose anual de Crónicas de Gelo e Fogo. :)  Este 5º volume (9º editado pela Saída de Emergência) - A Dança dos Dragões, é um livro que não avança muito na história dos Sete Reinos. O autor faz questão de, no início, frisar que o que acontece neste volume ocorre no mesmo espaço temporal que o volume anterior. Serve para recuperar algumas personagens não mencionadas no volume anterior, como Tyrion, Jon Snow,  Daenerys e Bran Stark.

Talvez por estar a acompanhar a série na televisão tive alguma dificuldade em manter-me interessada no livro. Talvez seja por isso,  mas também por achar que, às vezes, George R. R. Martin perde algum tempo com acontecimentos que parecem não levar a nada.  Continua a introduzir personagens que aparentemente  não acrescentam nada à história que se pretende contar. Nesta fase gostaria de sentir o autor um bocadinho mais focado. :p

Neste volume reencontramos Tyrion depois deste ter fugido de Porto Real. Encontra-se num barco a caminho da Baía dos Escravos, ao encontro de Daenerys. A Aranha tem um plano que começa a ser desvendado. É  uma viagem longa e atribulada onde Tyrion tenta, com o seu sarcasmo característico sobreviver ao ódio dos outros e ao ódio que, de certa forma, sente por si próprio. Continua a ser a minha personagem preferida,  a par de Arya, que neste volume não é referida. Tyrion está a cada volume mais amargurado com a sua sorte. Deprimido com o que a vida lhe reservou. A verdade é que nunca pensou ser um parricida.

Daenerys começa a sentir dificuldades em manter todas as cidades que conquistou e libertou da escravidão em paz. Para ajudar, os seus Dragões começam a ser um problema. Estão a crescer e a demonstrar toda a sua capacidade destrutiva que ela nem sempre consegue controlar. No entanto as suas conquistas não têm passado desapercebidas e o seu percurso começa a gerar algum interesse junto de alguns habitantes do Sete Reinos.

Bran continua a sua viagem para lá da Muralha, com Hodor, Jojen e Meera Reed e, claro Verão, o lobo gigante. Percebemos cada vez mais o que está guardado para Bran e a importância que poderá ter no Inverno que se aproxima a grande velocidade.

Jon Snow enfrenta na Muralha a desconfiança dos seus companheiros. Dividido entre a lealdade ao seus irmãos de negro, não tomando partidos na guerra pelo Trono de Ferro, e a vontade de vingar a família e retomar Winterfell, ajudando Stannis Baratheon na sua luta pelo trono. Pode confiar nele e na misteriosa mulher de vermelho?

Basicamente é isto.
Fica a faltar o 6º volume (10º da Saída de Emergência) e os que ainda não estão escritos para saber até onde vai a luta pelo Trono de Ferro, o que vai acontecer quando o Inverno chegar e qual vai ser o destino de toda aquela gente. :)

Boas leituras!

Excerto (pág. 77):
" - A Muralha não é sítio para uma mulher.
- Enganais-vos. Eu sonhei com a vossa Muralha, Jon Snow. Grande foi o saber que a ergueu, e grandes são os feitiços que estão trancados sob o seu gelo. Caminhamos à sombra de uma das charneiras do mundo. - Melisandre ergueu os olhos para ela, com a respiração a transformar-se numa nuvem quente e húmida no ar. - Isto é tanto o meu lugar como o vosso, e muito em breve podereis vir a ter grande necessidade de mim. Não recuseis a minha amizade, Jon. Vi-vos na tempestade, muito pressionado, com inimigos por todos os lados. Tendes tantos inimigos. Quereis que vos diga os seus nomes?
- Eu conheço os seus nomes.
- Não tenhais tanta certeza. - O rubi à garganta de Melinsadre cintilou, rubro. - Não são os adversários vos amaldiçoam na cara que deveis temer, mas aqueles que sorriem quando estais a olhar e afiam as facas quando virais as costas. Faríeis bem em manter o vosso lobo bem junto a vós. Gelo, vejo eu, e punhais no escuro. Sangue congelado, vermelho e duro, e aço nu. Estava muito frio.
- Está sempre frio na Muralha.
- Achais que sim?
- Eu sei que sim, senhora.
-Então não sabes nada, Jon Snow - murmurou a mulher."

A Confissão da Leoa - Mia Couto

Título original: A Confissão da Leoa
Ano de edição: 2012
Autor: Mia Couto
Editora: Editorial Caminho

"Um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do Norte de Moçambique - é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas. Como afirma um dos personagens, «aqui não há polícia, não há governo, e mesmo Deus só há às vezes».
E A Confissão da Leoa, através da versão de Mariamar, habitante da aldeia de Kulumani, e do diário de Arcanjo Baleiro, o caçador contratado para matar os leões - os dois narradores desta história - vai expondo diante dos nossos olhos como a guerra, a fome, a superstição, podem transformar os homens em animais selvagens: «foi a vida que a desumanizou. Tanto a trataram como um bicho que você se pensou um animal». Sobre e contra este pano de fundo ergue-se uma extraordinária figura de mulher - Mariamar.
A Confissão de Leoa é bem um romance à altura de Terra Sonâmbula e Jesusalém, já conhecidos do leitor português."

Em A Confissão da Leoa, Mia Couto, à semelhança do que tem acontecido com os seus livros mais recentes, inventa menos palavras. Acaba por ser um livro menos fantasioso, menos mágico na forma como nos envolve na leitura, no entanto, a história não parece perder com esta escrita mais séria de Mia Couto. Se calhar por ser um livro que fala de um tema sério, os espaço para interpretações não deva ser tanto.

A história de A Confissão da Leoa é narrada a duas vozes, a de Mariamar, habitante da aldeia de Kulumani, que tem sido assolada por diversos ataques de leões, e Arcanjo Baleiro, o caçador contratado para matar os leões que ameaçam os habitantes da aldeia. Curiosamente todas as vítimas dos leões, até agora, foram mulheres e os leões acabam por ser apenas uma leoa.
Mariamar é uma jovem mulher, que viveu toda a sua vida em Kulumani. Teve uma vida atribulada, marcada pela guerra, pela pobreza, pela violência e pela ignorância. Nunca teve muitos motivos para sorrir, oprimida pela família, uma mãe que sempre a desprezou e um pai que a violentava, e onde apenas o avô a compreendia e protegia. Cresceu no meio da violência que é reservada às mulheres, por homens ignorantes e cobardes, presos a superstições e a tradições desumanizantes, fugindo para dentro de si, como forma de se proteger, de não enlouquecer. No meio de tanta tristeza não deixa de sonhar. Sonha em sair da aldeia, em ter filhos, em ser amada por um homem bom que a proteja. Sonha mesmo sabendo que não são concretizáveis os seus desejos. Sonha porque não lhe resta mais nada.

Arcanjo Baleiro vem de uma família de caçadores. É contratado para se deslocar a Kulumani para matar os leões que andam a atacar as mulheres da aldeia. Traz consigo, para além da espingarda, a alma carregada de tristeza. O coração pesado de dor e revolta. Traz consigo um amor não correspondido pela cunhada, mulher do seu único irmão, que está internado num hospício por ter morto o pai de ambos há muitos anos atrás. Algo que atormenta Arcanjo e o impede de dormir à noite. Assaltado pelos fantasmas desse dia em que acorda com o disparo da espingarda e encontra o pai banhado em sangue e a espingarda na mão do irmão, pouco mais do que um adolescente. Um acidente? É a versão com que vive durante os anos que se seguem, sem nunca perdoar totalmente o irmão pelo que fez. Sem nunca perceber na totalidade o que se passou naquele dia.

A Confissão da Leoa retrata a mulher, a mulher africana, vítima de violência, vítima de superstições e tradições que continuam enraizadas na cultura, nos sítios mais recônditos, onde a autoridade vigente é a dos deuses, aquela que sempre guiou a vida das pessoas. Sítios onde o conceito de governo central é algo abstracto, algo que lhes bate à porta em época de eleições e em tempos de guerra. A Confissão da Leoa é um grito de revolta e um elogio à força e à importância da mulher na comunidade e no mundo.

É sempre bom regressar a Mia Couto. A Confissão da Leoa é um livro triste, essencialmente triste mas que se lê muito bem. Recomendo como não podia deixar de ser.

Boas leituras!

Excerto (pág. 15):
"Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito céu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção do céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar."

Alguns dos provérbios no inicio dos capítulos:

"O verdadeiro nome da mulher é «Sim». Alguém manda: «não vais». E ela diz: «eu fico». Alguém ordena: «não fales». E ela permanecerá calada. Alguém comanda: «não faças». E ela responde: «eu renuncio»."
                                                                                                                              Provérbio do Senegal

"Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem de correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá à fome. Não importa se és leão ou uma gazela: quando o sol desponta o melhor é começares a correr."
                                                                                                                              Provérbio africano

"Um exército de ovelhas liderado por um leão é capaz de derrotar um exército de leões liderado por uma ovelha."
                                                                                                                              Provérbio africano

julho 12, 2016

No País das Últimas Coisas - Paul Auster

Título original: In the Country of Last Things
Ano da edição original: 1987
Autor: Paul Auster
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Edições ASA

"Esta é a história de Anna Blume e da sua jornada em busca do irmão desaparecido numa cidade sem nome. Mas tal como a cidade, a sua tarefa está condenada. A cidade transformou-se num campo de batalha onde imperam a miséria, violência e a selvajaria. Todos procuram algo ou alguém que desapareceu. Todos lutam para suprir a fome: no sentido literal, uma vez que os alimentos são escassos; e fome também no sentido abstracto, pois os últimos resquícios de humanidade impelem os cidadãos a procurar o amor e a partilha de linguagem e significado.
Através da solidão de Anna, Paul Auster conduz-nos a um mundo indeterminado e devastado no qual o eu desaparece entre os horrores a que o lento apagar da moral humana conduz. Não se trata apenas de um mundo imaginário e futurista - mas de um mundo que reflecte o nosso e, ao fazê-lo, lida com algumas das nossas mais sombrias heranças. Nesta visão apocalíptica de uma cidade despojada da sua humanidade, pulsa um inesquecível romance sobre a condição humana"

A história de No País das Últimas Coisas, passa-se num país deste mundo, do nosso mundo. Nesse país sem nome, numa capital desconhecida, a grande maioria das coisas que conhecemos deixou de existir. É um país colapsado, onde não se produz nada e a grande maioria das pessoas que nele vivem têm como objectivo morrer, das mais diversas formas. Uns desejam morrer a correr até à exaustão, são os Corredores, outros, os Saltadores escolhem saltar de edifícios. Existem Clínicas de Eutanásia, para alguns privilegiados, que têm à disposição do cliente vários pacotes, sendo que o mais caro consiste num cruzeiro de semanas onde o suicida terá direito a todos os luxos terrenos outrora existentes, e no fim uma injecção letal que lhe põe fim ao sofrimento. :s
Existem muito poucas formas de subsistência, sendo uma delas a recolha de lixo, ou aquilo que nas nossas sociedades consideramos como lixo. Electrodomésticos que não funcionam mas cujas peças podem ter ainda alguma utilidade, chávenas partidas, pequenos pedaços de cordel, tampas de plástico, tábuas de madeira intactas, etc, podem ser pequenos tesouros que permitem a quem os encontrar viver mais uns dias.
Este país produz energia através da queima dos seus mortos e dejectos. Os mortos são tão valiosos que, se não entregarmos os nossos mortos para incineração o mais certo e sermos condenados a trabalhos forçados num sítio ainda mais desolador do que aquele onde vivemos.

Anna Blume parte para este país, em busca do irmão. O que encontra é algo para o qual ninguém poderia estar preparado. A luta pela sobrevivência (se fizerem parte do grupo de pessoas que não querem morrer) é de tal forma uma constante que Anna acaba por ser sugada para uma espécie de buraco negro, onde não lhe resta tempo para procurar saber o que aconteceu a irmão desaparecido.
A violência é constante e as pessoas pensam apenas em si. Ninguém parece questionar o que aconteceu, como é que se chegou aquele estado, ou o que se pode fazer para melhorar o mundo onde vivem. O porquê de ninguém sair do país e abandonar um lugar que não tem mais nada para oferecer não é claro. Falasse da construção de muros, e sub-entende-se que o governo vigente, o que quer que isso queira dizer num sítio daqueles, controla o fluxo de pessoas. O porquê do resto do mundo não ter, aparentemente, nada a dizer sobre O País das Últimas Coisas, também é um mistério. Ou talvez não. Não vivemos nós, o resto do mundo, de forma um pouco autista, às vezes até esquizofrénica, com países comparáveis ao País das Últimas Coisas? Creio que sim.

No País das Últimas Coisas é um livro estranho, num mundo estranho. Paul Auster traz-nos mais uma vez uma história de desespero, de perda, com personagens sofridas e sem esperança. Sobreviventes, num cenário pós-apocalíptico, vivem um dia de cada vez. No entanto, não poderia ser Paul Auster se não terminasse com uma ténue esperança de dias melhores. :)

É um livro de dimensão pequena, mas cheio de muitas coisas que nos fazem pensar. Recomendo, não só por ser Paul Auster. Recomendo porque é bom e é uma leitura que não vos vai deixar indiferentes. Para além disso, e mais uma vez, tem um título muito bom.:)


Excerto (pág. 9):
"Não estou à espera que compreendas. Tu não viste nada disto, e, mesmo que tentasses, não serias capaz de o imaginar. Estas são as últimas coisas. Uma casa está aqui um dia, e, no dia seguinte, desapareceu. Uma rua por onde caminhámos ontem já não existe hoje. Mesmo o tempo varia constantemente. A um dia de sol segue-se um dia de chuva, a um dia de neve segue-se um dia de nevoeiro, um suave calor dá lugar ao fresco, o vento a um ar parado, a um período de um frio cortante sucede, no meio do Inverno, uma tarde como a de hoje, uma tarde de uma luz fragrante, tão cálida que não precisamos de vestir mais do que uma simples camisola. Quando vivemos na cidade, aprendemos a não contar com coisa nenhuma. Fechamos os olhos por um momento, viramo-nos para olhar para outra coisa qualquer, e, de súbito, aquilo que tínhamos à nossa frente desapareceu. Nada dura, compreendes, nada, nem mesmo os pensamentos dentro da nossa cabeça. E não vale a pena perdermos o nosso tempo à procura seja do que for. Quando uma coisa desaparece, é o seu fim."