dezembro 28, 2010

Encontro de Amor Num País em Guerra - Luis Sepúlveda

"A aventura e a política, o amor e a guerra, a viagem e a utopia, a ironia e o mistério: todo o mundo do autor, com as suas paixões e os seus temas (alguns, como o tema amoroso, presentes pela primeira vez com tanta intensidade), comparece neste notável livro de relatos, que vem confirmar a mestria do grande escritor chileno e a sua incontornável presença na primeira fila dos grandes contadores de histórias nossos contemporâneos"

Um livro de pequenos textos de um autor que muito prezo. Neste Encontro de Amor Num País em Guerra, Luís Sepúlveda reúne uns quantos textos deliciosos, sobre a política, a guerra e o amor, tema que não é muito comum nos livros do escritor. Uma das coisas que me surpreendeu no livro foi mesmo a forma como ele fala do amor, isto porque Luís Sepúlveda é um escritor assumidamente de esquerda e cujos livros, na sua maioria, expressam os seus ideais políticos. A verdade é que o amor não é um tema que costume abordar, pelo menos não da forma como o faz nestes textos e a verdade é que o faz muito bem. :) Embora os textos tenham, quase todos, como pano de fundo a guerra, não são textos ou artigos de opinião, são antes pequenos contos sobre as pessoas que convivem com a guerra, tanto as que a fazem como as que apenas vivem com ela.

Leiam! Eu que sou uma céptica confessa no que diz respeito a livros de contos, fiquei agradavelmente surpreendida com este livro. Faço aqui um Mea Culpa por ter duvidado das qualidades literárias de um escritor que raramente desilude! ;)

Boas leituras!

dezembro 24, 2010

Festas Felizes

Desejo-vos a todos um Feliz Natal, daqueles que nos aquecem o coração e nos deixam de sorriso nos lábios.

Desejo-vos muitas rabanadas, muito Bolo Rei e uma mesa farta de aconchego!

Desejo-vos um ano de 2011 cheio de alegria, gargalhadas e sorrisos.
Desejo que este sorrisos e gargalhadas sejam provocados pelos livros, mas gostaria que 90% deles venham das amizades e do sucesso que desejo para todos vós em 2011!

Boas leituras!

dezembro 21, 2010

Prenda do Tons de Azul

Parece que este ano estou com alguma sorte no que toca a receber livros. Sem ter feito nada por isso, chegou-me a casa uma prenda do blogue tonsdeazul, por ter sido a quinta pessoa a dar os Parabéns ao blogue pelos seus 5 anos. Como prenda foi-me enviado o Livro do José Luís Peixoto que já andava a namorar há algum tempo. Ainda bem que das vezes que o tive nas mãos acabei por não o trazer comigo... :)
Com ele veio ainda um marcador giríssimo. Gosto imenso de marcadores e este vai de certeza acompanhar-me ao longo da minha leitura do Livro.

Obrigada tonsdeazul pelas prendas e pelo postal também.
Aproveito e dou-te novamente os Parabéns pelo blogue que em todas as visitas que lhe faço me dá a conhecer coisas novas. Parabéns!

Boas leituras!

dezembro 20, 2010

O Símbolo Perdido - Dan Brown

"Washington D.C. : Robert Langdon, simbologista de Harvard, é convidado à última hora para dar uma palestra no Capitólio. Contudo, pouco depois da sua chegada, é descoberto no centro da Rotunda um estranho objecto com cinco símbolos bizarros. Robert Langdon reconhece-o: trata-se de um convite ancestral para um mundo perdido de saberes esotéricos e ocultos. Quando Peter Solomon, eminente maçon e filantropo, é brutalmente raptado, Langdon compreende que só poderá salvar o seu mentor se aceitar o misterioso apelo. Langdon vê-se rapidamente arrastado para aquilo que se encontra por detrás das fachadas da cidade mais poderosa da América: câmaras ocultas, templos e túneis. Tudo o que lhe era familiar se transforma num mundo sombrio e clandestino, habilmente escondido, onde segredos e revelações da Maçonaria o conduzem a uma única verdade, impossível e inconcebível. Trama de histórias veladas, símbolos secretos e códigos enigmáticos, tecida com brilhantismo, O Símbolo Perdido é um thriller inesperado e arrebatador que nos surpreende a cada página."

Depois de ter lido o Anjos&Demónios de Dan Brown, tomei a decisão de não voltar a ler Dan Brown por uns bons e largos anos. A verdade é que, sem que eu consiga explicar porquê, O Símbolo Perdido tem andado a rondar os meus pensamentos, ultimamente de forma mais insistente, pelo que viu chegada a sua hora de ser lido pela "Je". :) Depois de o ter lido, reforço a decisão de não voltar a ler Dan Brown por largos anos (e acredito que desta vez vão mesmo ser largos anos). O livro embora não sendo mau, não tem aquilo que faz dos livros de Dan Brown o sucesso que são: falta-lhe acção, a história não era das mais interessantes, a intriga idem idem aspas aspas e o Robert Langdon é, neste livro irritante, menos carismático que nos anteriores, quase uma personagem secundária. As primeiras 200 páginas foram mesmo um teste à minha vontade e persistência. Salvou-o a minha grande vontade de ler um best-seller (há vontades assim, não posso fazer nada), daqueles que se lêem de um fôlego, que não nos ensinam nada de novo, mas que nos mantêm entretidos. Não fosse esta vontade de ler algo mais leve e acho que teria pousado o livro para não mais voltar a pegar nele. Bem, avante que isto de bater no ceguinho em época natalícia é coisa que não me fica nada bem. ;) Passemos à história.

Robert Langdon vê-se, desta vez envolvido numa corrida contra o tempo para salvar o mundo de mais uma ameaça inconcebível (que no fim não era assim tão monstruosa, era até bem fraquinha), de consequências imprevisíveis. Um louco rapta Peter Solomon, uma das mais altas figuras da Maçonaria americana e um dos mentores de Robert. O raptor procura descodificar o segredo mais bem guardado da ordem maçonica: o local onde estão enterrados os mistérios antigos, os conhecimentos esquecidos pela humanidade, conhecimentos de tal forma poderosos que o mundo nunca mais seria o mesmo com a sua descoberta. Segundo a lenda os mistérios antigos estão enterrados algures em Washington D.C., o berço da nação mais evoluída do mundo, a nação do conhecimento... :/ As pistas para a sua localização estão numa lendária pirâmide, cheia de segredos e dos símbolos tão queridos a Robert Langdon. É esta a tarefa de Langdon, descodificar a pirâmide e com ela salvar o amigo e o país, pois segundo a CIA o louco que raptou Peter Solomon é possuidor de um poder tal que o assunto se tornou uma questão de segurança nacional.

Ao longo das mais de 500 páginas levamos uma "lambidela" sobre a Maçonaria, claramente defendida no livro por Dan Brown, levamos ainda uma "lambidela" sobre uma tal de ciência noética, que no livro aparentemente prova, entre outras coisas, e de forma inequívoca e irrefutável que a alma humana existe e é mensurável. Esta parte da história poderia ter sido interessante, pois a ciência noética é algo que suscita alguma curiosidade pelo que tenta fazer e pelo que implica, mas foi a que mais me fez franzir o sobrolho. Não por ser céptica, mas porque a base científica é questionável e as conclusões levianas. Eu sei que se trata de um romance, mas tendo em conta que o autor até gosta de dar a ideia de que os seus livros estão todos muito próximos da verdade e, que são fruto de uma investigação exaustiva, pareceu-me tudo muito "colado a cuspo".
A maçonaria é sempre um tema interessante, por causa de todo mistério que envolve a organização, pela antiguidade e pela história que carrega, no entanto a forma tendenciosa como Dan Brown a descreve torna-se por vezes desconfortável, bem como todo o patriotismo patente com aquela conversa irritante de que o EUA são os melhores e que sem eles o mundo colapsaria... É irritante, pronto! :)
Outra coisa desconcertante é a quantidade massiva de publicidade que o escritor faz a grandes empresas e marcas americanas. É demais e nada subtil. :)

Resumindo: Eu que gostei do O Código da Vinci e que gostei do Anjos&Demónios (excepto do final), estava à espera de algo que me prendesse mais à leitura. O estilo é o mesmo, frase curtas, capítulos minúsculos que se leêm rápido, quando damos por ela acabámos de ler 100 páginas de seguida, e com uma escrita simples e eficaz, tudo isto faz parte da receita Dan Brown. A verdade é que neste livro a leitura não foi compulsiva, achei a história com pouca consistência, achei o Langdon muito apagado e as restantes personagens demasiado estereotipadas. Faltou acção, talvez se se retirassem as primeiras 100, 200 páginas o livro tivesse mais ritmo. Chegou a tornar-se aborrecido, o que nos livros do Dan Brown não é muito comum. Enfim, está lido, não me vai ficar na memória por muito tempo e acredito que não voltarei a pegar num livro de Dan Brown nos tempos mais próximos. :)

Recomendo? Quem é fã já o leu de certeza, ao outros recomendo que pensem duas vezes. Não recomendo a compra, mas se o tiverem à mão (que foi o meu caso) podem sempre lê-lo... Se conseguirem passar das primeiras páginas talvez até venham a gostar. Quem sabe? Felizmente os gostos são variados o suficiente para que todos os livros e autores tenham o seu espaço na estante de alguém. ;)

Boas leituras!

dezembro 12, 2010

O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

"Em O Retrato de Dorian Gray revela-se-nos e esteticismo de Oscar Wilde: a procura de sensações, a superação do verdadeiro artista sobre as regras da sociedade ou da moral. Nesta obra, a personalidade dividida de Dorian Gray é representada por uma inversão misteriosa da ordem natural, através da qual a sua verdadeira face conserva a juventude inviolada enquanto o retrato é macerado pelo passar dos anos, até ao dia em que a faca cravada na tela reconduz à arte a sua serenidade impassível e ao ser vivo a sua transição para a morte."

O único romance do poeta e contista Oscar Wilde é um livro que gerou em mim sentimentos ambíguos de impaciência e fascinação. Não poderei dizer que não gostei mas, tenho igual dificuldade em afirmar que gostei... Livros assim marcam e acredito que Dorian Gray e o seu retrato vão ficar na minha memória por muito tempo. E não é isso, também, que procuramos num livro? Que nos marque, que nos mude um pouco a forma de pensar e de ler? Que nos prepare para outro tipo de obras e nos faça ultrapassar barreiras literárias? Acho que O Retrato de Dorian Gray de certa forma fez isso comigo.

Escrito de uma forma poética, Oscar Wilde relata-nos a história da degradação moral de Dorian Gray um jovem detentor de uma beleza fora do comum, com um rosto que emanava pureza e inocência. Basílio Hallward, pintor, fica fascinado por ele e pede-lhe que o deixe pintar. A imortalização da beleza de Dorian Gray na tela torna-se a obra-prima de Basílio. Nunca mais ele pintou nada tão belo e um pouco de si ficou naquele retrato.
Quando Dorian vê o retrato terminado, toma consciência da sua beleza, mas também da efemeridade da mesma e deseja nunca envelhecer, deseja que seja o quadro a sofrer "na pele" as marcas que os anos deixam no nosso físico. A realidade é que no dia em que Dorian trata de forma cruel a sua namorada, levando-a ao suícidio, é no retrato que surge a expressão de crueldade e maldade. A imagem reflectida no espelho continua a mesma: um rosto belo e sereno. Depois do susto de ver o seu desejo tornado realidade, vamos assistindo às mudanças de personalidade que Dorian vai sofrendo. Serão mesmo mudanças ou apenas características da sua personalidade que encontraram espaço e liberdade para se expandirem? Dorian, um jovem inocente e pueril começa a viver uma vida dedicada ao prazer e às coisas belas. Nada é mais importante para ele do que viver a vida de forma despreocupada, aproveitando todos os prazeres que esta lhe possa proporcionar, incluíndo aqueles que provocam sofrimento nos outros. Dorian torna-se egoísta e egocêntrico, frio e calculista. O seu único medo é que o quadro seja descoberto e com ele a verdade sobre ele próprio, que a sua alma podre seja exposta. Para evitar isso, Dorian é capaz de tudo.
Ao fim de alguns anos de uma vida desregrada e degradante o quadro retrata um Dorian envelhecido e abjecto, o espelho de uma alma doentia. Dorian torna-se paranóico e vive cheio de medo. Será tarde demais para Dorian recuperar a beleza interior que perdeu com acções imorais e egoístas? Será possível redimir anos e anos de más acções e devolver à alma a sua pureza inicial? Voltará o quadro a reflectir um rosto belo? Acham o ser humano capaz de mudar, de forma honesta? Pessoalmente não acredito nisso. Se Dorian tem um fim feliz? Bem, depende do ponto de vista. :)

A minha dúvida em afirmar se gostei ou não deste livro prende-se com algumas partes mais enfadonhas da escrita, com muitos floreados e algumas dissertações que me aborreceram e que confesso ter saltado. Não ando com muita paciência... :)
Gostei de tudo o resto, da história, da forma como está contada e das personagens. Surpreendeu-me que Oscar Wilde tenha dado a este romance uma certa atmosfera de terror e um tom divertido sem no entanto deixar de o fazer com uma escrita poética e clássica. Estava à espera de uma coisa mais linear e encontrei algo bem mais interessante.
O tema é muito pertinente numa época como a nossa, onde a aparência é tantas vezes mais importante que tudo o resto e onde as pessoas vivem de forma superficial, sem se envolverem e sem se interessarem por mais ninguém a não por elas próprias. Por isto, mas não só é que sinto que Dorian Gray me vai ficar na memória por muito tempo. E é por isto, mas não só que a leitura deste livro só pode ser recomendada!

Boas leituras! :)

dezembro 08, 2010

Os Anagramas de Varsóvia - Richard Zimler

"Um romance policial arrepiante e soberbamente escrito passado no gueto judaico de Varsóvia. Narrado por um homem que por todas as razões devia estar morto e que pode estar a mentir sobre a sua identidade...
No Outono de 1940, os nazis encerraram quatrocentos mil judeus numa pequena área da capital da Polónia, criando uma ilha urbana cortada do mundo exterior. Erik Cohen, um velho psiquiatra, é forçado a mudar-se para um minúsculo apartamento com a sobrinha e o seu adorado sobrinho-neto de nove anos, Adam. Num dia de frio cortante, Adam desaparece. Na manhã seguinte, o seu corpo é descoberto na vedação de arame farpado que rodeia o gueto. Uma das pernas do rapaz foi cortada e um pequeno pedaço de cordel deixado na sua boca. Porque razão terá o cadáver sido profanado? Erik luta contra a sua raiva avassaladora e o seu desespero jurando descobrir o assassino do sobrinho para vingar a sua morte. Um amigo de infância , Izzy, cuja coragem e sentido de humor impedem Erik de perder a confiança, junta-se-lhe nessa busca perigosa e desesperada. Em breve outro cadáver aparece - desta vez o de uma rapariga, a quem foi cortada uma das mãos. As provas começam a apontar para um traidor judeu que atrai crianças para a morte.
Neste thriller histórico profundamente comovente e sombrio, Erik e Izzy levam o leitor até aos lugares mais proibidos de Varsóvia e aos mais heróicos recantos do coração humano."

Erik, um psicólogo judeu, é forçado a mudar-se para o gueto de Varsóvia e a partilhar o apartamento com a sobrinha Stefa e o filho desta Adam, um miúdo de 9 anos. Esta situação não lhe agrada, não porque não goste de Stefa e Adam, porque gosta, mas sim porque na idade dele a mudança, ainda por cima quando imposta transtorna-o. Aos poucos a sobrinha e o filho começam a entrar no seu coração empedernido e rabugento e quando Adam morre de forma violenta e inesperada Erik quase morre de desgosto e as saudades de adormecer com o miúdo colado a si quase que o enlouquecem. A necessidade de ajudar a sobrinha a ultrapassar a perda do filho e de encontrar o responsável pela morte do sobrinho-neto mantêm-no vivo. E é esta procura que Richard Zimler nos conta ao longo das páginas deste livro. E que bem que conta esta história, triste, sem ser deprimente e angustiante, porque o humor presente ao longo de todo o livro atenua os horrores narrados e pressentidos nas entrelinhas.

Gostei bastante deste livro, o primeiro que leio deste escritor. Gostei porque está narrado de uma forma muito original, porque as personagens estão muito bem construídas e porque a história consegue relembrar o Holocausto e homenagear todas as suas vítimas, sem entrar nos habituais clichés que por estes tempos já nos deixam um pouco insensíveis à questão. É triste que assim seja mas é a realidade, pelo menos é-o no meu caso. O facto de ele pegar no caso particular de um judeu, Erik, que se muda para o gueto de Varsóvia e que por causa do seu drama particular nos vai dando a conhecer a dinâmica vivida na "ilha", faz com que nos identifiquemos melhor com história, sem no entanto perder a perspectiva global da tragédia que ocorreu. A miséria vivida no gueto está lá, a precariedade e falta de condições estão lá, os oportunistas estão lá, as boas pessoas também, a coragem e esperança no futuro estão lá, o medo e a incerteza também, a amizade está lá e a solidariedade também. Estão lá os campos forçados, os fornos e os comboios da morte, estão lá as execuções em massa e o comportamento primitivo e até hoje completamente incompreensível de todos os que ajudaram (incluindo os que olharam para o lado) os nazis nesta guerra infeliz. Está tudo lá, mas tudo é visto pelos olhos de um homem que fez da sua razão de viver a procura do assassino do seu sobrinho-neto. Sobrinho-neto que representava para ele o futuro, a possibilidade de sobreviver aos tempos difíceis e violentos em que viviam. Se conseguisse proteger Adam então o futuro da humanidade e dos judeus em particular poderia ser uma realidade. Erik falhou na missão de proteger Adam e, encontrar o seu assassino parece ser o único caminho que conhece para devolver algum equilíbrio ao seu mundo, ao do gueto mas, também à humanidade.

O mistério da morte de Adam e de outras crianças no gueto é interessante o suficiente para nos ir fazendo virar página atrás de página mas, o que na realidade nos faz gostar deste livro é o Erik. É simplesmente enternecedora a forma como ele veste a pele de detective e arrasta consigo o genial Izzy, seu amigo de sempre, numa espécie de brigada de terceira idade, cómica q.b., sem menosprezar o que é narrado e a gravidade dos acontecimentos. Nesta jornada, Erik e Izzy descobrem-se a si mesmos e descobrem-se capazes de fazer o inimaginável numa época de inimagináveis atrocidades. São capazes de matar e de continuar a viver depois disso. A diferença entre eles e os nazis é que estes nunca perceberam porque é que o que faziam era condenável.

Gostei muitas destes dois velhotes, gostei muito deste livro e recomendo-o sem qualquer reserva!

Boas leituras! :)

novembro 28, 2010

Os Irmãos Tanner - Robert Walser

"Tal como em O Ajudante e Jakob von Gunten, este romance de Robert Walser exprime a vocação errante do autor, a sua disponibilidade para deambular, nada produzindo além do prazer do seu leitor. Robert Walser é um dos escritores que maior influência exerceu sobre Kafka, Hesse ou Musil e tem conquistado um crescente número de leitores em vários países."

Os Irmãos Tanner é um livro sobre a liberdade, a liberdade de vivermos a nossa vida como bem entendermos, a liberdade para fazermos as escolhas, certas ou erradas, sem sermos criticados pelos que vivem segundo as regras instituídas e para quem a diferença pode ser ofensiva.
Simon, o irmão Tanner protagonista desta história, representa essa liberdade. Simon é um jovem que não pretende fazer carreira, não quer vincular-se a um só trabalho, aprender um só ofício, não quer ser escravo da profissão. O que ele quer é viver a vida como bem lhe aprouver, trabalhar quando precisar de dinheiro e apreciar a natureza, ler livros e conhecer pessoas novas. Simon é um orador eloquente, tolerante e curioso, é um pensador. Embora não queira fazer carreira, não vive às custas de ninguém, quando precisa trabalha, algo que até lhe dá algum prazer, até que deixa de dar e, então parte em busca de uma nova experiência.
Simon é o mais novo de 5 irmãos. Kaspar, é o artista da família, pinta paisagens e sonha poder viver da sua arte. Emil tinha tudo para ser um sucesso, encantador, atlético e inteligente, perde o norte e acaba num manicómio com uma espécie de esgotamento. Hedwig a única mulher da família é uma professora primária, a única carreira digna de uma mulher. Curiosamente, Hedwing ressente-se com os pais por a terem incentivado a ter uma profissão pois o que desejava mesmo era casar, ter filhos e viver para a família. O mais velho é Klaus, um académico bem sucedido que vive aflito com a falta de preocupação que os irmãos mais novos demonstram ter com o futuro. Ama os irmãos e a sua preocupação é genuína pois não concebe que se possa viver de outra forma que não trabalhando e progredindo profissionalmente. É o típico homem de carreira, sempre cheio de preocupações e deveres. Estes são os irmãos Tanner, tão diferentes uns dos outros e que acabam por representar cada um de nós, cada espartilho que nos é imposto pela sociedade que criámos e na qual temos de viver. Quem de nós não gostava de viver como Simon? Duvido que haja muitos nãos como resposta, porque quem de nós não se sentiu pelo menos uma vez, aprisionado pelos deveres, pelas obrigações, por termos de trabalhar para sobreviver, da forma que o fazemos nos dias de hoje, é um sortudo. A verdade, no entanto é que, para que os Simons desta vida possam viver como querem, os Klaus e as Hedwing do mundo têm de fazer o seu papel da melhor forma que sabem. É assim o mundo em que vivemos. :)

Gostei bastante do livro, ainda mais porque me apanhou numa fase da vida em que me identifico com o que lá vem escrito e em que desejava muito ser como o Simon, livre e despreocupada! :) Além disso está escrito de uma forma poética e envolvente. É um livro que chega a ser angustiante por ir apontando tantas regras castradoras que o ser humano impõe a si próprio e que o aprisiona e torna cada vez mais infeliz e frustrado. É um bom livro! :)

Gostei e recomendo! :)

novembro 20, 2010

Quero Um Livro de cara lavada (Parte 2)


Agora sim, dou por terminada a minha tarefa de lavar a cara ao blogue. Já estava um pouco cansada do aspecto anterior e a minha intenção era mudá-lo em Outubro, quando o blogue fez um ano (já um ano!) mas não tive nem tempo nem paciência para isso. De há uns tempos para cá, sempre que entrava nele sentia que já não tinha muito a ver comigo e, por isso, a mudança impunha-se. Et voilá! Aqui está o Quero Um Livro de cara lavada!

Espero que torne a vossa visita ao meu espaço mais agradável.

Boas leituras!

Quero Um Livro de cara lavada


Hum... Ainda não estou completamente convencida mas, por agora fica assim. :)


Boas leituras!

novembro 17, 2010

Winkingbooks

E não é que isto funciona mesmo!
Recebi hoje este livro que pedi através do site da Winkingbooks e chegou-me às mãos, a custo zero e novíssimo! Ainda estou à espera que apareça alguma contrapartida, mas aparentemente não há nada na manga. :)
É estranho receber livros assim. Atenção, que estranho não é mau, só estranho. :)

Registem-se e aumentem o número de livros disponíveis. De certeza que têm alguns livros que não gostaram assim tanto de ler e que podiam ser substituídos por outros bem mais interessantes. Até eu, que tenho sérias dificuldades em desfazer-me de livros, consegui arranjar pelo menos 10 que não me importo de dar a quem os possa apreciar melhor.

Iniciativa aprovada e estou desejosa de dar o meu contributo, enviando um dos que tenho aqui em casa. É que enquanto não enviar um dos que tenho na lista vou-me sentir uma parasita! :)

Boas leituras!

novembro 14, 2010

José e Pilar - O Filme

Título Original: José e Pilar
Realização: Miguel Gonçalves Mendes
Elenco: José Saramago, Pilar del Rio e Gael García Bernal
Duração: 125 min
Origem: Portugal

Sinopse: A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río. Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo - ou, pelo menos, em torná-lo melhor. José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado de outra maneira".

Trailer:


Não me tinha apercebido das saudades que tinha de Saramago. Quer se concorde ou não com as suas opiniões e forma de viver, a realidade é que foi um homem especial e, creio que muito se deveu também à convivência com Pilar del Rio. Gosto dos dois como seres humanos, porque sinto que o que viveram foi uma espécie de conto de fadas dos tempos modernos.
Estou muito curiosa para ver o filme.

Não me canso de ver o trailer que, ainda por cima, tem uma música linda! A música chama-se Palco do Tempo e é de Noiserv, um projecto musical de um jovem surpreendentemente talentoso, David Santos. Podem conhecer mais dele aqui:
http://www.noiserv.net/
http://www.myspace.com/noiserv
http://www.noiserv.net/site/Leitor_mp3/noiserv_leitor_mp3.html

A não perder, estreia dia 18 de Novembro.

novembro 11, 2010

A Guerra dos Tronos - George R. R. Martin

"Quando Eddard Stark, lorde do castelo de Winterfell, recebe a visita do velho amigo, o rei Robert Baratheon, está longe de adivinhar que a sua vida, e a da sua família, está prestes a entrar numa espiral de tragédia, conspiração e morte. Durante a estadia, o rei convida Eddard a mudar-se para a corte e a assumir a prestigiada posição de Mão do Rei. Este aceita, mas apenas porque desconfia que o anterior detentor desse título foi envenenado pela própria rainha: uma cruel manipuladora do clã Lannister. Assim, perto do rei, Eddard tem esperança de o proteger da soberana. Mas ter os Lannister como inimigos é fatal: a ambição dessa família não tem limites e o rei corre um perigo muito maior do que Eddard temia! Sozinho na corte, Eddard apercebe-se que também a sua vida nada vale. E até a sua família, longe no norte, pode estar em perigo."

Eis que dou por mim a fechar o primeiro livro da saga escrita por George R. R. Martin, As Crónicas de Gelo e Fogo, e a achar que não é assim tão espectacular como se dizia por aí. Estava à espera de algo mais inovador, mais arrebatador, mais empolgante, enfim, mais tudo. Não desgostei mas também não amei.
Sabendo que é uma saga e que o primeiro volume original corresponde aos dois primeiros volumes editados pela Saída de Emergência, vou dar o desconto e vou querer ler o segundo, porque achei este primeiro demasiado introdutório, sem grandes acontecimentos ou avanços na história. É também por ser um livro que faz parte de uma série deles que não me vou alongar muito nesta minha opinião, uma vez que comentar histórias das quais ainda não conheço o fim me parece inútil.

Tenho alguma dificuldade em falar da história, pois não encontrei nela nada de muito original e por isso tenho a sensação de que estou a relatar o óbvio... Temos um reino, governado por um rei não tão competente quanto isso, manipulado pela rainha, uma mulher ambiciosa e pertencente a uma família poderosa.
Temos uma família quase perfeita, os Stark, que vive em Winterfell, uma região gelada do norte dos Sete Reinos. Eddard Stark é amigo de infância de Robert, o agora Rei. Quando o amigo lhe oferece o prestigiante cargo de ser a Mão do Rei, Eddard sente que não é um pedido do amigo mas sim uma ordem do seu rei. Embora contrariado, Eddard aceita a oferta pois vê nela a oportunidade de investigar a estranha morte do seu antecessor e tem a esperança de que possa ser uma boa influência no reinado de Robert, um homem no qual mal reconhece o amigo de longa data, um homem cujo reinado modificou de forma tão vincada.
Temos intriga, conspirações, traições, personagens dúbias e muita violência. Temos lobos gigantes e uma muralha gigantesca, a Muralha de Gelo, que separa e protege o reino de um bosque sinistro supostamente habitado por criaturas misteriosas e pouco amigáveis.
Temos ameaças de invasão por povos vizinhos, apoiados pelos que estavam no poder antes de Robert, derrubados por este. Temos ódios antigos que não diminuem com o tempo, antes pelo contrário, apuram com o tempo. Temos isso tudo e mais algumas coisas e, pelo menos neste primeiro volume, é o que o livro tem para oferecer.

No início tive dificuldade em entrar na história. São muitos nomes, muitas personagens e muitos conceitos novos. Mas isso é natural em histórias do género e por isso não conta sequer como ponto negativo. Para mim o único ponto negativo foi mesmo a falta de originalidade porque se o tivesse lido antes de ter lido As Brumas de Avalon e O Senhor dos Anéis, talvez o tivesse achado diferente. Comparando, mal comparado, com a outra saga que anda pelas prateleiras de meio mundo, gostei mais da história do Fitz contada pela Robin Hobb em A Saga do Assassino, do que da história dos Sete Reinos contada por George R. R. Martin. Mas, como já disse, só depois de ler todos os livros poderei ter uma opinião formada e fundamentada.
Passando aos aspectos positivos do livro, que felizmente não são poucos, a história está bem contada, prende o suficiente para que se vá lendo "só mais um capítulo" e gostei da escrita limpa do autor. É uma escrita muito fluída e agradável de se ler. Tem personagens muito fortes e que tornam a história sólida e interessante. Gostei especialmente do núcleo da família Stark, de Eddard, um homem honesto e tolerante e adorei a relação que ele mantinha com os filhos. Gostei muito da Arya, uma pirralha rebelde, mais esperta que qualquer adulto naquela terra e gostei do Jon Snow, o bastardo, tão equilibrado e sereno. Achei enternecedora a forma como o autor descreve a relação entre os irmãos Stark.
Depois achei muito bem conseguida a personagem do anão Lannister, intrigante e tão dúbio que chega a irritar. :) Para além disso é divertido e traz um outro colorido à história.

Fiquei curiosa para ler o segundo volume, mais que não seja porque este acaba numa fase em que parece que acção vai começar a sério e fica-se assim a modos com um sabor amargo na boca. Parece quase como sentarmo-nos na sala de cinema, vermos os primeiros 20 minutos e obrigarem-nos a voltar daqui a uns meses para ver o resto do filme. Porque este primeiro livro é o equivalente a 20 minutos de um filme, é demasiado introdutório, basicamente de apresentação de personagens e do próprio mundo criado pelo autor.

Gostei e recomendo se gostarem de histórias de fantasia, com castelos, reis, rainhas e afins. Aconselho, no entanto que tenham o segundo volume à mão para quando terminarem o primeiro.

Boas leituras! :)

Nota: Segundo a minha contagem do Goodreads, este foi o 50º livro de 2010. Confetis e mais confetis. :p Não faço ideia se li mais este ano do que nos outros porque não sou de prestar atenção a essas coisas mas, gosto do número 50 e por isso aqui fica a nota. :)

outubro 30, 2010

Livros por ler na estante

Os livros, intocados que andam aqui pelas estantes:


O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
"Em o O Retrato de Dorian Gray revela-se-nos o esteticismo de Oscar Wilde: a procura de sensações, a superação do verdadeiro artista sobre as regras da sociedade ou da moral. Nesta obra, a personalidade dividida de Dorian Gray é representada por uma inversão misteriosa da ordem natural, através da qual a sua verdadeira face conserva a juventude inviolada enquanto o retrato é macerado pelo passar dos anos, até ao dia em que a faca cravada na tela reconduz à arte a sua serenidade impassível e ao ser vivo a sua transição para a morte."

Comprado num alfarrabista, juntamente com o Um Certo Capitão Rodrigo, do Erico Veríssimo, já comentado aqui. Este do Oscar Wilde tem um cheiro delicioso, uma mistura de livro velho, de páginas amareladas com um inexplicável cheiro a chocolate. Juro, este livro cheira-me a chocolate. Sabe-se lá por onde já andou. :)

Os Irmãos Tanner - Robert Walser
"Tal como em O Ajudante e Jakob von Gunten, este romance de Robert Walser exprime a vocação errante do autor, a sua disponibilidade para deambular, nada produzindo além do prazer do seu leitor. Robert Walser é um dos escritores que maior influência exerceu sobre Kafka, Hesse ou Musil e tem conquistado um crescente número de leitores em vários países."

Livro adquirido na Festa do Livro no Avante deste ano. Embora numa altura de vacas magras (mais a dar para o cadavéricas) comprei-o porque ir à Festa do Avante e não trazer um livro seria deprimente e, porque me lembrei de ter lido uma boa crítica no blogue tonsdeazul. Com ele veio o Um Estranho em Goa do José Eduardo Agualusa (opinião aqui), oferta do meu mais que tudo. :)

A Fórmula de Deus - José Rodrigues dos Santos
"Nas escadarias do Museu Egípcio em pleno Cairo, Tomás Noronha é abordado por uma desconhecida. Chama-se Ariana Pakravan, é iraniana e traz consigo a cópia de um documento inédito, um velho manuscrito com um estranho título e um poema enigmático. O inesperado encontro lança Tomás numa empolgante aventura, colocando-o na rota da crise nuclear com o Irão e da mais importante descoberta jamais efectuada por Albert Einstein, um achado que o conduz ao maior de todos os mistérios: a prova científica da existência de Deus. Uma história de amor, uma intriga de traição, uma perseguição implacável, uma busca espiritual que nos leva à mais espantosa revelação mística de todos os tempos. Baseada nas últimas e mais avançadas descobertas científicas nos campos da física, da cosmologia e da matemática, A Fórmula de Deus transporta-nos numa surpreendente viagem até às origens do tempo, à essência do universo e o sentido da vida"

Este é da Feira do Livro do ano passado. Mal parou nas minhas mãos e foi logo emprestado. Só há pouco tempo regressou à casa mãe. Entretanto o facto de ser um livro com o Tomás de Noronha tem feito com que o tenha colocado no fundo da pilha. :/ Ainda não me esqueci do A Fúria Divina... Infelizmente... :(

Danças & Contradanças - Joanne Harris
"As sarcásticas histórias de Danças & Contradanças podem ser resumidas em duas palavras: malévolas e maliciosas. Como em muitos dos seus romances, Joanne Harris consegue combinar de uma forma única situações e personagens comuns - e até banais - com o extraordinário e o inesperado. Mais do que nunca, a autora dá largas à sua imaginação e apresenta-nos uma exuberante e prodigiosa caixa de Pandora que contém tudo quanto é extravagante, estranho misterioso e perverso. De bruxas suburbanas a velhinhas provocadoras, monstros envelhecidos, vencedores da lotaria suicidas, lobisomens, mulheres-golfinho e fabricantes de adereços eróticos, estas são vinte e duas histórias onde o fantástico anda de mãos dadas com o mundano, o amargo com o doce, e onde o belo, o grotesco, o sedutor e o perturbador estão sempre a um passo de distância. Escolham o vosso par, por favor. Danças & Contradanças é o primeiro livro de contos de Joanne Harris, que, com a mestria a que já nos habituou, consegue deliciar, surpreender, entreter e horrorizar em igual medida. Suficientemente longas para aguçar o apetite, e breves a ponto de serem lidas num piscar de olhos, estas são histórias maliciosas, divertidas, por vezes provocadoras, mas sempre pessoais e capazes de revelar uma faceta de Joanne Harris até agora desconhecida dos seus leitores."

Este veio como oferta, do site da Fnac, na compra do O Rapaz de Olhos Azuis.


A Guerra dos Tronos - George R. R. Martin
"Quando Eddard Stark, lorde do castelo de Winterfell, recebe a visita do velho amigo, o rei Robert Baratheon, está longe de adivinhar que a sua vida, e a da sua família, está prestes a entrar numa espiral de tragédia, conspiração e morte. Durante a estadia, o rei convida Eddard a mudar-se para a corte e a assumir a prestigiada posição de Mão do Rei. Este aceita, mas apenas porque desconfia que o anterior detentor desse título foi envenenado pela própria rainha: uma cruel manipuladora do clã Lannister. Assim, perto do rei, Eddard tem esperança de o proteger da rainha. Mas ter os Lannister como inimigos é fatal: a ambição dessa família não tem limites e o rei corre um perigo muito maior do que Eddard temia! Sozinho na corte, Eddard também se apercebe que a sua vida nada vale. E até a sua família, longe no norte, pode estar em perigo."

Este está na estante há não sei quanto tempo. É um daqueles que veio como oferta na campanha 2+3 da Saída de Emergência. Não o li ainda porque andava demasiado zunzum à volta da saga. Agora que parece ter acalmado um pouco, vou começar a lê-lo. Espero gostar... :)


O Último Cabalista de Lisboa - Richard Zimler
"Em Abril de 1506, durante as celebrações da Páscoa, cerca de 2000 cristãos-novos foram mortos num pogrom em Lisboa e os seus corpos queimados no Rossio. Reinava então D. Manuel I, o Venturoso, e os frades incitavam o povo à matança, acusando os cristãos-novos de serem a causa da fome e da peste que flagelavam a cidade. Os Zarco, uma família de cristãos-novos residentes em Alfama, tinham como patriarca Abraão Zarco, iluminador e membro respeitado da célebre escola cabalística de Lisboa. Depois do pogrom, Berequias Zarco, sobrinho e discípulo de Abraão, vai encontrar o tio e uma jovem desconhecida mortos numa cave que servia de templo secreto desde que a sinagoga fora encerrada pelos cristãos-velhos. Um e outro estão nus e banhados em sangue. Estranhamente, a porta está fechada por dentro. Um manuscrito iluminado, recentemente terminado por Abraão Zarco, em que os rostos dos seus vizinhos e amigos representam personagens bíblicas, desapareceu do seu esconderijo secreto. O assassino teria sido um cristão ou, como os indícios fazem crer, outro judeu? Quem seria a rapariga morta? Estaria o rosto do assassino representado no manuscrito roubado? O Último Cabalista de Lisboa é um extraordinário romance histórico tendo como pano de fundo os eventos verídicos desse mês de Abril de 1506 e pode ser lido a vários níveis, na tradição de um verdadeiro livro cabalístico."

Última aquisição. Aquisição feita num dia menos bom. Há quem coma chocolates, chore, compre roupa... Eu comprei este livro. ;) Já ando para ler alguma coisa deste autor há imenso tempo e estou curiosíssima para ver se realmente é bom! :)


Por último, mandei vir da Amazon, aproveitando a encomenda da prenda para o namorado, estes dois livros:

The Pillars Of The Earth - Ken Follett
"In 12th-century England, the building of a mighty Gothic cathedral signals the dawn of a new age. This majestic creation will bond clergy and kings, knights and peasants together in a story of toil, faith, ambition and rivalry. A sweeping tale of the turbulent middle ages, The Pillars of the Earth is a masterpiece from one of the world's most popular authors."









The Cider House Rules - John Irving
"The reason Homer Wells kept his name was that he came back to St Cloud’s so many times, after so many failed foster homes, that the orphanage was forced to acknowledge Homer’s intention to make St Cloud’s his home.’ Homer Wells’ odyssey begins among the apple orchards of rural Maine. As the oldest unadopted child at St Cloud's orphanage, he strikes up a profound and unusual friendship with Wilbur Larch, the orphanage’s founder - a man of rare compassion and an addiction to ether. What he learns from Wilbur takes him from his early apprenticeship in the orphanage surgery, to an adult life running a cider-making factory and a strange relationship with the wife of his closest friend…"





Não sou de comprar muitos livros, mas gosto de ter opções em casa. É um pouco como levar imensa roupa só para um fim-de-semana fora; sei lá o que me vai apetecer vestir! :p

Boas leituras!

Um Amor Sem Tempo - Carlos Machado

"Após seis anos de ausência, Eduardo regressa à ladeia onde nasceu para vender a propriedade da família, votada ao abandono desde a morte do avô. Estava uma tarde quente, modorrenta, que lhe despertou as memórias das longas tardes douradas da infância e adolescência. «Ia ficar pouco tempo», pensava encostado a uma árvore do carvalhal que bordejava a aldeia. Mas, subitamente, uma sucessão seca de tiros fez reverberar o ar sólido do estio e acabou com a paz daquele dia. Os famosos pombos-correios de Severino Sarmento, o homem mais poderoso da terra, tinham sido traiçoeiramente abatidos. E é, então, que numa atmosfera espessa e perturbada se dá o reencontro de Eduardo com o seu passado e como todos aqueles que o marcaram de forma indelével. Sobretudo Mariana, a bela filha de Severino e o seu grande amor. Partindo deste facto aparentemente inócuo, Carlos Machado, num romance apaixonante, conduz-nos através de uma trama que tem lugar nos tempos agitados do pós-25 de Abril e que nos coloca, sem moralismos, perante fraquezas e grandezas da natureza humana."

Nunca tinha lido nada do Carlos Machado e o que encontrei foi um Engenheiro Electrotécnico que escreve sobre o amor de uma forma que me surpreendeu. Surpreendeu-me ainda mais a riqueza do vocabulário, onde é notória a preocupação de tornar o texto o mais rico possível aproveitando a diversidade da língua portuguesa. Posso ter achado esse esforço às vezes um pouco deslocado mas, fiquei rendida quando ele conseguiu colocar a expressão "eixos da cristalografia" num romance pós-25 de Abril, de uma forma tão natural. ;)

A história em si, não traz nada de muito novo. É sobre um amor que não conhece o significado da palavra tempo, um amor que dura uma vida toda e que resiste às adversidades saindo delas amadurecido e fortalecido. Assim é o amor de Eduardo e Mariana, um amor sem tempo.
Eduardo passava todos os Verões na aldeia, em casa dos avós. Mariana é a filha do homem mais poderoso da aldeia, Severino Sarmento, homem ambicioso e implacável. Mariana cheira a pêssego e frutos silvestres, cheira a Verão e para Eduardo é a sua paixão de Verão ano após ano. Namoram, de forma inocente durante o Verão e separam-se todos os anos com o regresso de Eduardo a Lisboa, onde vive com os pais. Num Verão, Eduardo não regressa, pois com a morte do avô deixou de fazer sentido o regresso à aldeia, como se mais nada o prendesse ao local. Quando seis anos depois, Eduardo volta e reencontra Mariana, encontra uma jovem amargurada e desiludida com a vida. Para Eduardo, mortificado pela culpa de nunca mais ter dado notícias, ela continua a cheirar a Verão e embora tenha medo de o admitir, continua a amá-la da mesma forma. O Eduardo que regressa é um jovem de esquerda, cheio de sonhos e certezas quanto ao futuro do país. No entanto, não se sente preparado para viver com Mariana o amor que sentem um pelo outro e parte novamente, não se permitindo descobrir como cheira Mariana no Outono, no Inverno ou mesmo na Primavera. Resistirá este amor a mais uma separação? É o que poderão descobrir se lerem o livro. Para além disso, vão ainda descobrir, com Eduardo, uma aldeia que pouco mudou desde que ele partiu, uma aldeia por onde a Revolução dos Cravos parece não ter passado pois, quem tinha poder continua a tê-lo e quem obedecia continua a fazê-lo, de forma resignada. Encontrarão também muitas referências históricas, do 25 de Abril e não só, encontrarão algum mistério e intriga, aventura e livros. Sim, porque um Engenheiro que escreve da forma que Carlos Machado escreve só pode gostar muito de livros e de os ler. :)

É um livro interessante, especialmente pela forma como está escrito, onde existe um cuidado na escolha das palavras e na descrição quase poética dos cenários exteriores, bem como na descrição das sensações e lembranças que o protagonista vai vivendo. Gostei da personagem do Eduardo e da sua evolução, sincero e ingénuo no seu regresso à aldeia e, mais terra a terra no final do livro. Gostei do retrato que o autor faz da vida pós-25 de Abril numa aldeia afastada dos grandes centros urbanos, onde se concentrava quase toda a acção política. Gostei também das boas lembranças que me trouxe, porque facilmente a aldeia do livro é a aldeia dos nossos avós onde passamos, em crianças, dos melhores momentos das nossas vidas. E por isso, também foi muito penoso identificar-me com o afastamento que, de forma quase inevitável, acontece quando crescemos. Esta familiaridade que o autor consegue criar tornou a leitura próxima e portadora de um certo aconchego gostoso. :) Esta é uma característica que dificilmente encontro em autores estrangeiros e, é por isso que ler escritores portugueses e histórias portuguesas como esta é por vezes uma necessidade física, porque tudo nos é familiar, coisas que fazem parte da nossa memória colectiva e que provocam um sentimento de pertença que dificilmente vivenciamos com autores estrangeiros.
Por isso, o facto de a história não ser muito original e de por vezes o palavreado ser exagerado e onde facilmente se identificava a formação técnica do autor, não é muito relevante para o sentimento final que fica depois de lermos a última página, que é de que acabei de ler um bom livro escrito de uma forma que me surpreendeu.

Recomendo. ;)

Nota: Obrigada, mais uma vez, ao blogue ...Viajar Pela Leitura..., pela oferta do livro e à Editorial Presença pela disponibilização do livro para oferta e pela rapidez no envio. :)

outubro 20, 2010

Um Estranho em Goa - José Eduardo Agualusa

" Um Estranho em Goa é uma pequena maravilha. Assim entrei em Goa. Este livro mistura a literatura de viagens com uma aventura exótica, uma espécie de mistério que o autor não deslinda mas que lhe serve de ponto de apoio para mover as personagens que enlaçam a Índia e a África com Portugal e o Brasil. Goa, Luanda, Lisboa e o Rio de Janeiro. A Goa de Agualusa, tão bem vista e descrita, tão bonita, e o Brasil dele, ou a melancolia angolana, enlaçam emoções e estabelecem uma pátria espiritual onde todos nós, portugueses da língua, nos reconhecemos. Sem carregar a prosa com pretensa literacite, comovendo sem ornamento, fazendo poesia ao de leve, abraçando a delicadeza e a estranheza do mundo, Agualusa fez-me viajar com palavras. Estou agradecida ao escritor."

Clara Ferreira Alves, Expresso

"Uma das obras mais aclamadas e que serviu de redescoberta literária de Goa a milhares de leitores. Nela o autor angolano José Eduardo Agualusa desvenda, de forma misteriosa e singular, a identidade pós-colonial de Goa. Um livro-chave para compreender a Goa de hoje."

Constantino Hermanns Xavier, SuperGoa


Gosto de José Eduardo Agualusa, embora dele tenha lido muito pouco, dois, três livros com este Um Estranho em Goa. A verdade é que, mesmo tendo lido tão pouco de um autor que já tem uma quantidade considerável de obras publicadas, ele é daqueles que incluo na minha lista de autores favoritos. Parece-me ser muito versátil nos temas que aborda, na maneira como escreve e acima de tudo é um escritor africano que também escreve como um escritor não africano. Foge um pouco ao estereótipo dos escritores africanos. Não sei se me fiz entender, mas sinto que José Eduardo Agualusa escreve como um lusófono e não como africano, português ou brasileiro. Este livro é um bom exemplo dessa multiculturiedade do escritor, que transporta para a exótica Goa o resultado de todas as suas vivências em Portugal, Angola e Brasil.

Em Um Estranho em Goa, Agualusa, como num livro de viagens relata-nos a sua (do narrador) estadia em Goa, onde foi com o objectivo de encontrar Plácido Domingo, ex-comandante do MPLA, ex-agente da PIDE e refugiado em Goa. A busca de Plácido Domingo serve de pretexto para conhecermos a Goa indiana, mas sobretudo a Goa marcada pela presença dos portugueses. A Goa católica, hindu e muçulmana, numa convivência nem sempre pacífica. A Goa multicultural onde o taxista, que acompanha o narrador durante as sua estadia, se chama Sal, diminutivo de Salazar, um grande homem, nas palavras do homónimo taxista. O mesmo taxista que tem uma Nossa Senhora no táxi, católico convicto, descendente de católicos convertidos, e que acha todos os hindus criaturas malignas com as suas divindades meio animais meio humanas e cheias de braços extra. :) A Goa que nunca desejou ser independente e cuja sociedade sempre esteve dividida entre os que desejavam a anexação por parte da Índia e os que preferiam permanecer com Portugal. A Goa turística e hospitaleira com as suas muitas igrejas, templos, feiras de rua, festividades e superstições. A Goa, estado mais pequeno e o mais rico da Índia, da diversidade e das desigualdades. Por fim, a Goa barulhenta, que parece em permanente festa ou permanente protesto, dependendo do ponto de vista, com o seu calor húmido e ar irrespirável onde o narrador sempre se sentiu um estranho, deslocado, como numa espécie de estado hipnótico.

É um livro que vale a pena ler e que me permitiu conhecer um pouco mais de Goa, uma das ex-colónias menos falada mas que, a julgar pelo livro, tem ainda muito de Portugal e onde, aparentemente o ex-coloniador continua a ser recordado com carinho, se bem que nem sempre pelas melhores razões, lembrem-se do taxista Sal. Uma ex-colónia atípica, portanto. :)

Leiam que vale a pena!

outubro 14, 2010

O Rapaz de Olhos Azuis - Joanne Harris

"Ela conhece-o há uma eternidade e, contudo, ela nunca o viu. É como se fosse invisível para a mulher que ama. Mas ele vê-a a ela: o cabelo; a boca; o rosto pequeno e pálido; o casaco vermelho-vivo na neblina matinal, como algo saído de um conto de fadas.
Até agora, ele nunca se apaixonou. Assusta-o um pouco: a intensidade dessa emoção, a maneira como os seus dedos traçam o nome dela, a maneira como tudo, de algum modo, conspira para que ela nunca lhe saia da cabeça...
Ela não sabe de nada, claro. Tem um ar muito inocente, com o seu casaco vermelho e o seu cesto. Mas por vezes os maus não se vestem de preto e por vezes uma menina perdida na floresta é bem capaz de fazer frente ao lobo mau..."

Nem sei bem por onde começar com o mais recente romance da Joanne Harris. Achei o livro, à falta de melhor expressão, estranho. Não é da obras mais bem conseguidas da escritora, e é com pena que o digo, pois acho que a história tinha potencial para ser maior. Na verdade achei este livro um pouco sem sal o que, lendo a sinopse, pode parecer esquisito mas, infelizmente nem sempre a sinopse espelha o livro, isto para o bem e para o mal. Foi o que aconteceu com O Rapaz de Olhos Azuis porque, quando li a sinopse e, conhecendo a escritora como conheço, fiquei a salivar por algo que depois não foi propriamente concretizado. Não vou dizer que não gostei, porque o livro tem alguns pontos muito positivos, mas que estava à espera de mais, isso estava. :)

Este é um daqueles livros em que o mais pequeno deslize da minha parte pode arruinar a história para quem ainda não o leu ou está a lê-lo, por isso, sobre a história não me vou alongar muito.
O Rapaz de Olhos Azuis está escrito ao estilo de um blogue, o webjournal, onde a personagem principal, o blueeyedboy criou um grupo denominado badguysrocks, onde publica as suas histórias. Uns são posts públicos, outros são restritos, uma espécie de diário online. Blueeydeboy descreve-se a si próprio como um homem de 42 anos que vive com a mãe, uma mulher possessiva, violenta e manipulativa. Vive na Internet, mais precisamente no webjournal onde descreve os homicídios (ficcionados ou reais?) que já cometeu, todos eles de pessoas que fizeram, de uma forma ou de outra, parte do seu passado e do da sua família, os dois irmãos e a estranha mãe.
A história que blueeyedboy nos conta está repleta de cor, sabores e cheiros, que raramente são agradáveis. Isto porque blueeyedboy é aquilo a que se chama um sinestésico, as palavras para ele têm uma cor, cheiro e por vezes sabor. Vê e vive o mundo de maneira diferente, o que lhe dificultou a vida na infância e contribuiu para que se tornasse num adulto, socialmente inadaptado, sem amigos e com uma relação com a mãe que tenho alguma dificuldade em classificar. É uma relação de ódio, de dependência e de medo. Percebemos desde o início que quer matá-la e desconfiamos que tudo o que vai fazendo ao longo do livro faz parte do plano que traçou para que finalmente se possa ver livre da mãe. Irá consegui-lo? Veremos se tudo é como parece à primeira vista. Ou se, como na Internet, as coisas nem sempre são o que aparentam.
Existem obviamente outras personagens, como a rapariga que é referida na sinopse, mas falar delas é perigoso porque pode revelar pormenores e dar dicas involuntárias que revelem demais.
Quanto à história propriamente dita fico-me por aqui.

Pontos positivos do livro:
- É um livro da Joanne Harris menos inspirado mas, não deixa de ser um livro diferente, com personagens atípicas e imperfeitas, com histórias de vida bizarras.
- Mais uma vez temos um livro que apela aos nossos sentidos. Está cheio de cor e de cheiros.
- É um livro que prende e que surpreende. A Joanne Harris aguça-nos a curiosidade e quando as peças vão encaixando nos seus devidos lugares vamos tendo aquela sensação de "aaahhhh! Então era por isso que....". E as peças encaixam muito bem umas nas outras. Nisso o livro é muito bom, as pistas estão lá, mas de uma forma tão natural que só quando as revelações são feitas é que nos lembramos daquela passagem, alguns capítulos atrás.
- O livro passou-me uma sensação de irrealidade que, julgo ter sido propositada, uma vez que fala daquela faceta da Internet em que todos nós podemos ser e dizer o que quisermos, sem grandes consequências. Essa irrealidade e liberdade que a Internet permite está impregnada no livro, sentimo-la como se estivéssemos nós próprios num mundo virtual onde as leis da física fossem diferentes. Mérito da escritora, mais uma vez.

No entanto, com este livro houve coisas que, para mim, não correram tão bem assim:
- Começo por dizer que a estrutura, em género de blogue, para mim não funcionou. Não me consegui habituar à forma como a escritora nos vai contando a história, achei que tornou tudo um pouco confuso e mais impessoal. Não sei se foi intencional mas, intencional ou não, não gostei, principalmente dos comentários dos seguidores do blueeyedboy. Irritavam-me... não há grande coisa que possa fazer quanto a isso... :)
- Ao contrário do que costuma acontecer com os outros livros da Joanne Harris, as personagens deste livro não me cativaram, não criei qualquer empatia com elas. Não sei se foi por a história ser tão estranha e irreal ou porque está contada da maneira que está mas, a verdade é que nem por um momento eu deixei de ter a noção de que estava a ler um livro. Ou seja, não houve aquele transportar para dentro do livro e que nos permite viver a história quase como se fosse nossa. Não achei, nem a história nem as personagens credíveis.
- As descrições dos supostos homicídios são pouco empolgantes e, de certa forma, pueris. A escritora é capaz de muito melhor, que eu sei. :)

Resumindo e baralhando, de uma forma geral, gostei do livro mas estava à espera de mais. Se calhar o mais correcto será dizer que estava à espera de outra coisa, porque tanto a sinopse como o primeiro capitulo pareciam apontar noutra direcção.

Com este não aconselho ou deixo de aconselhar, porque Joanne Harris não é unânime e tenho a certeza de que há pessoas que gostaram imenso do livro. Experimentem e logo verão. :)

Boas leituras!

Prenda do ...Viajar Pela Leitura...

Já chegou o livro que me calhou em sorte no sorteio que a Paula do ...Viajar Pela Leitura... fez aquando do 2º aniversário do blogue. Receber livros é sempre bom. Recebe-los quando não estamos à espera, porque nada fizemos para os ganhar, é ainda melhor. :)

O livro é Um Amor Sem Tempo do Carlos Machado. Não conheço este escritor, mas a história parece-me bastante apelativa e é uma excelente oportunidade para conhecer um autor português de quem nunca ouvi falar.

Assim que ler o livro publicarei aqui a minha opinião sobre ele.

Mais uma vez agradeço ao ...Viajar Pela Leitura... pelo presente e aproveito para, publicamente, dar os Parabéns à Paula pelo excelente trabalho que faz no Viajar. É uma referência incontornável no mundo dos blogues literários. :)

Boas leituras!

outubro 02, 2010

Lançamento: "A Última Noite em Twisted River" de John Irving

E eis que vai ser lançado, pela Civilização em Outubro, o mais recente livro do John Irving, A Última Noite em Twisted River.

Não é segredo que gosto muito do John Irving, considero-o um dos meus favoritos e ver o último livro dele editado e traduzido é algo que me deixa muito contente. Estou em pulgas para poder comprá-lo e lê-lo. Os livros dele são sempre uma lufada de ar fresco. Adoro!!!! ;)

Boas leituras.

setembro 24, 2010

O Físico - Noah Gordon

"No século XI, Rob Cole abandona com apenas onze anos a pobre e doente cidade de Londres para vaguear pela Inglaterra. Durante as suas deambulações, fazendo malabarismos e vendendo curas para os doentes, vai descobrindo a dimensão mística da sanação. E é através dessa peregrinação que descobre o seu verdadeiro dom, que o levará a converter-se em médico num mundo violento, cheio de superstições e preconceitos. Tão forte é o seu sonho que decide empreender uma insólita e perigosa viagem à Pérsia, onde estudará na prestigiada escola de Avicena. Aí dar-se-à uma transformação que modificará para sempre a sua vida e o seu destino..."

Andava a adiar a leitura deste livro porque precisava de baixar as expectativas. Afinal de contas as opiniões que circulam consideram-no uma obra-prima. :) Agora que o li, acho que o li na altura certa, com calma e sem as expectativas demasiado elevadas. Gostei bastante, não o considero uma obra-prima, mas é uma leitura que se faz de forma fluída, com uma história muito bem delineada e bem contada e onde aprendi umas quantas coisas. Gostei! :)

O Físico relata a história de Rob Cole, desde o momento em que fica orfão, com 9 anos , na Londres medieval do séc. XI. Rob e os seus irmãos mais novos são distribuídos, como mercadorias, por diversas pessoas. Rob parte com Henry Croft, um barbeiro-cirurgião que o contratou como aprendiz. O Barbeiro, homem rude mas honesto, afeiçoa-se a Rob e, como a um filho, ensina-lhe tudo o que sabe sobre a arte de fazer espectáculos de aldeia em aldeia com o objectivo de vender o Específico Universal, a solução para todos os males possíveis e imagináveis do corpo humano. Mas acima de tudo, o que o Barbeiro transmite a Rob é o amor pela medicina, o prazer de ajudar quem necessita e a responsabilidade que esse dom acarreta. Rob fica fascinado e ao mesmo tempo frustrado pela limitação dos seus conhecimentos, por haver tanta gente por quem ele não pode fazer nada. Quando o Barbeiro morre, Rob decide partir para a Pérsia onde há uma escola de físicos, o Maristan, dirigida pelo lendário e conceituado físico, Ibn Sina. Convencido de que para conseguir ser aceite no maristan tem de ser judeu (todos os bons físicos que encontrou em Inglaterra eram judeus) Rob assume a identidade de Jesse ben Benjamin, um judeu inglês, e parte numa viagem que lhe vai mudar a vida. Atravessa meio mundo, passando por dificuldades mas também conhecendo pessoas honestas e solidárias. Apaixona-se, toma decisões difíceis e chega a Ispahan sedento de começar a sua aprendizagem. Lá impressiona todos, com a sua persistência, inteligência e competência. Impressiona o próprio Xá Ala, o Rei dos Reis, um homem violento e caprichoso e, o não menos importante Rei dos Físicos, Ibn Sina, homem dedicado ao conhecimento mas muito condicionado pelas regras e superstições impostas pela religião. Rob, ajuda uma povoação vizinha na luta contra a peste, faz amigos para a vida, torna-se físico, casa-se, perde amigos e sai de Ispahan, com destino a Londres, pela calada da noite, com a mulher e os filhos antes da cidade ser invadida por um exército inimigo. O homem que regressa a casa já não é mesmo que partiu da cidade com 9 anos, receoso do futuro. Aprendeu e cresceu, mas a coragem e determinação que sempre o caracterizou não se perderam. :)

Como disse, gostei bastante deste livro. Gostei muito do Rob, da sua honestidade e, de certa forma, da sua ingenuidade. Gostei, principalmente que Noah Gordon tenha criado Rob com uma personalidade curiosa e inquisitiva, o que me permitiu, como leitora, reflectir e aprender com ele. Torci sempre para que as coisas lhe corressem bem, que encontrasse os irmãos, de quem perdeu o rasto quando os pais morreram, e que a sua falsa identidade não fosse descoberta, pois Rob poderia ser condenado à morte. Torci para que todos os seus desejos fossem realizados porque, era verdadeiramente uma boa pessoa, um espírito livre, sem preconceitos, cujo único interesse era o desenvolvimento da ciência em prol do bem comum. Foram homens como Rob Cole que levaram o conhecimento da humanidade àquilo que hoje temos.
Um dos temas fortes do livro é a religião, pois Rob sendo cristão, fingiu ser judeu para poder tornar-se Hakim (físico). Nos judeus encontrou o rigor dos rituais e o cumprimento escrupuloso das proibições mas, ao mesmo tempo, encontrou um povo afectuoso e solidário, com um forte espírito de inter-ajuda entre eles. Na Pérsia, Rob conviveu com muçulmanos e os seus radicalismos, a sua violência latente e as suas contradições relativamente à maneira como vivem os ensinamentos do profeta. Eram no entanto um povo caloroso e alegre. A parte cristã de Rob, não é muito aprofundada por Noah Gordon, este apenas se refere aos cristãos como intolerantes, principalmente na forma como tratam os judeus. Não sei se Noah Gordon é judeu ou sequer se é religioso, mas tem uma predilecção pela judaísmo, isso é notório.
No entanto, Rob é indiferente às religiões, usa-as para adquirir conhecimentos. O que realmente move Rob não é Deus, mas a sede de conhecer, a curiosidade e a vontade de romper barreiras, características que têm sido transversais a todos os avanços científicos e tecnológicos que a humanidade já experimentou. A ciência e a religião não podem nem devem andar juntas, é isso que Rob percebe quando ignora a proibição, de todas as religiões, de dissecar cadáveres humanos. É transgredindo que Rob se apercebe que o porco não é igual ao Homem e descobre coisas importantes acerca do funcionamento do corpo humano. Mesmo correndo o risco de ser condenado à morte, Rob assume o risco porque lhe parece que a medicina e, consequentemente a humanidade só têm a ganhar com isso. Rob é uma personagem inspiradora. :)
Aliás todas as personagens neste livro estão muito bem conseguidas. É um dos seus pontos fortes. Outro ponto forte é a própria história que nos dá a conhecer um pouco da história da medicina. É fascinante ler sobre os procedimentos arcaicos e sobre as teorias baseadas mais na crença e na religião do que na ciência (afinal estava-se no séc. XI). Não deixa de ser surpreendente que com tantas limitações já tanto se conseguisse fazer. Gostei muito desta vertente do livro. :)
Por ser um livro que atravessa diversos países permite-nos conhecer muitas culturas e costumes, o que só torna o livro ainda mais rico. Noah Gordon descreve-nos um mundo de uma diversidade estonteante.

Pontos menos favoráveis: a minha dificuldade em acreditar que a história se passava no séc. XI. O comportamento das personagens e os próprios acontecimentos eram descritos de uma forma que não me transportava para a época em questão. Provavelmente é defeito meu e não do escritor, mas a verdade é que me fez ler de uma forma menos envolvente por achar algumas passagens, atitudes ou diálogos pouco credíveis. Para além disso achei o desenrolar dos acontecimentos previsível e a narração por vezes era um pouco desapaixonada, um mero relato de acontecimentos (talvez porque Noah Gordon é um jornalista de formação).
Continuo a achar que a escrita de Noah Gordon não é especialmente inspirada mas com uma boa história, que é o caso, isso deixa de ser muito relevante. De salientar ainda o salto qualitativo gigantesco que aconteceu entre o O Rabi, primeiro romance do autor e já comentado aqui, e este o O Físico.

Gostei do livro, vou querer ler os restantes livros da trilogia, Xamã e a A Doutora Cole e recomendo-o sem reservas! :)

Boas leituras! :)

Uma nota positiva para as escolhas de autores e obras que a revista Sábado tem vindo a disponibilizar e, para as excelentes edições que têm constituído a Biblioteca Sábado.

setembro 08, 2010

A Festa do Chibo - Mario Vargas Llosa

"Em A Festa do Chibo, Mario Vargas Llosa recupera uma tradição na literatura latino-americana, a do romance sobre ditadores, e retratando a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, recupera também a força das suas melhores obras. O inegável talento do autor para manejar conflitos, criar tensões, descrever situações, revelar as razões humanas que se ocultam por detrás dos factos históricos, para poder criar personagens que inspiram repugnância e compaixão, resulta num romance magistral e surpreendente."

A Festa do Chibo é uma viagem ao passado violento e repressor vivido pelos dominicanos durante a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo, que decorreu de 1930 a 1961, ano em que o ditador foi assassinado.

Pela voz de Urania Cabral, regressada a Santo Domingo depois de ter estado 35 anos afastada do país, única filha do Agustín Cabral, um dos mais leais seguidores de Trujillo e das suas políticas, é-nos dada a conhecer a influência que Trujillo tinha em todas as famílias dominicanas e a relação doentia que os seus seguidores tinham com ele. Uma relação que passava necessariamente pelo medo, mas também pela veneração cega, de humilhação perante um homem que acreditavam estar muito próximo de Deus. No caso de Agustín Cabral, o apoio dado ao regime não passava por ter acesso facilitado ao poder e, consequentemente a dinheiro, mas por convictamente acreditar que Trujilo era o melhor que alguma vez tinha acontecido à República Dominicana. Quando, sem perceber como caiu em desgraça aos olhos do General viu-se na miséria, capaz de tudo para regressar ao círculo restrito dos colaboradores do regime. Como Agustín Cabral existiriam muitos outros dominicanos, que cometeram atrocidades inimagináveis para provar a sua lealdade para com Trujillo.
Paralelamente, Mario Vargas Llosa conta-nos a história do assassinato de Trujillo no dia 30 de Maio de 1961. Acompanhamos o último dia de vida de Trujillo, na perspectiva do próprio. Conhecemos as suas angústias e os seus medos, bem como a sua forma fria e calculista de governar. A frustração que sente por nem todos os dominicanos aceitarem e valorizarem o esforço que sente ter feito pelo país, transformando-o num país próspero e com importância no mundo, pelo menos enquanto teve o apoio dos EUA e da Igreja. O medo que tem de envelhecer e de que o seu corpo deixe de acompanhar a sua agilidade mental. A forma como Mario Vargas Llosa humaniza Trujillo, sem no entanto deixar de expor a sua personalidade violenta e narcisista, torna esta personagem (real) muito interessante. Conhecemos o que o move e o porquê de determinadas acções. Não olhamos para ele apenas como uma figura histórica.
Para além de Trujillo, Mario Vargas Llosa conta-nos o último dia de vida do ditador na perspectiva dos homens que o mataram: Antonio de la Maza, Salvador Estrella Sadhala, Tenente Amado Garcia Guerreiro e Antonio Imbert Barreras, sentados num carro, à beira da estrada enquanto aguardam pelo Chevrolet Bel Air azul-claro do General, que alguns quilómetros à frente crivam de balas, matando-o.
A história vai alternando entre estes três núcleos: a família Cabral, pela voz de Urania, o último dia de Trujillo, narrado pelo próprio e, os quatro homens no carro, onde o autor nos vai, separadamente, dando a conhecer os motivos pessoais que os levaram a estar ali, à beira da estrada no dia 30 de Maio de 1961.
Depois da morte de Trujillo, temos o relato assombroso da perseguição e represálias que sofreram os heróis do 30 de Maio, bem como as suas famílias e amigos próximos. Temos também a parte em que Balaguer, o presidente fantasma do regime, assume as rédeas do país após a morte de Trujillo e dono de muito jogo de cintura encaminha a República Dominicana para uma democracia, com o apoio dos EUA e sem melindrar em demasia os familiares e seguidores de Trujillo, impedindo o país de cair numa guerra civil e evitando uma invasão por parte dos EUA ou dos vizinhos do Haiti e Cuba, países comunistas. Não é claro, ao longo de todo o livro, se Balaguer era ou não um Trujillista ou se apenas esperava oportunidade de libertar os dominicanos da ditadura que durava há tantos anos. Gostei desta dualidade na personalidade do presidente, um verdadeiro político. :)

A Festa do Chibo foi a minha estreia na escrita de Mario Vargas Llosa e o que posso dizer é que gostei muito. Gostei principalmente da forma como o autor encadeia a acção, alternando entre diferentes narradores à medida que o último dia de Trujillo avança. Gostei da caracterização de todas as personagens, e saber que todas elas, à excepção da família Cabral, foram homens e mulheres reais tornou a narrativa mais emotiva e arrepiante. Entrar na cabeça de Trujillo foi fascinante e assustador, pois é aflitiva a forma como a inteligência humana pode ser usada de forma tão distorcida e doentia. A descrição das torturas e das perseguições, embora desconfortável, é imprescindível para uma verdadeira compreensão do medo e horror vividos na sociedade dominicana.
O único ponto negativo que tenho a apontar foi a minha dificuldade em memorizar tantas personagens, não só porque eram realmente muitas, mas também porque o autor ora os tratava pelo primeiro nome, ora pela alcunha ou então pelo nome completo. Às tantas já não sabia bem de quem se estava a falar... Nada que manche a qualidade inquestionável da obra, a leitura tornou-se foi menos fluída.

Este livro é, com as devidas ressalvas para o facto de ser uma história que ficciona alguns acontecimentos reais, uma autêntica lição de história. O meu conhecimento acerca da República Dominicana e da sua história era praticamente nulo, pelo que gostei mesmo muito de ler este livro. Aprendi imenso e está muitíssimo bem escrito, com uma estrutura narrativa muito eficaz. Fiquei muito curiosa para ler outros livros do Vargas Llosa, num outro registo que não o romance histórico.

Recomendo sem reservas.

Boas leituras! :)

Nota: Trailer do filme La Fiesta del Chibo, realizado por Luis Llosa com Paul Freeman e Isabella Rossellini, entre outros:


setembro 06, 2010

Brevemente...

Achei que devia dar sinal de vida, o Quero Um Livro não morreu nem hibernou. Eu é que ando com menos tempo livre e as leituras começam a ressentir-se.

Estou quase a acabar o "A Festa do Chibo" do Mario Vargas Llosa e brevemente podem contar com a minha humilde opinião sobre o livro. :)

Boas leituras e até breve! ;)

agosto 22, 2010

Kikia Matcho - Filinto de Barros


"Kikia Matcho, o desalento do combantente, sua primeira obra literária, é, nas palavras do autor, um pequeno exercício de ficção. Nem história, nem sociologia, nem etnologia, nem política, tão-somente uma abordagem que se pretende dinâmica e existencial do porcesso de síntese sociocultural de um Povo."

O licenciado António Benaf sabe da morte do tio através da rádio. Benaf regressou há pouco tempo da Europa, onde foi estudar com o incentivo do tio que acabou de morrer e nunca mais falou com ele. 'N Dingui era um dos muitos ex-combatentes que deambula por Bissau, homens que vivem amargurados com o resultado da revolução que encabeçaram, que não compreendem porque estão ainda mais miseráveis e que encontram refúgio na bebida. 'N Dingui era mais um, entre muitos. Convicto dos ideais pelos quais lutou e nos quais nunca deixou de acreditar.
Joana, sobrinha de 'N Dingui e prima de Benaf, é uma enfermeira que veio para Portugal a seguir à independência porque acreditou na propaganda do antigo colonizador de que, quem viesse seria recompensado. Joana veio contra a vontade do tio que considerou o desejo dela como uma traição e falta de respeito pela luta que ele travou juntamente com os seus companheiros. Joana parte mesmo assim porque a miséria que viu na Guiné-Bissau independente assustou-a e acreditou que, como enfermeira, em Portugal teria mais oportunidades.
Papai e 'N Dingui foram companheiros de luta e eram parceiros de bebida na tasca de Mana Tchambú.
No dia em que 'N Dingui morre, encontramos Joana em Lisboa, a "viver" num apartamento sem portas de um prédio abandonado, com um filho resultado da promiscuidade em que todos vivem. Nesse prédio vivem, para além dela, muitos dos retornados das ex-colónias, em condições deploráveis, que apenas sonham com o dia em que o estado português lhes vai atribuir a casa prometida quando desembarcaram em Portugal. Temos Benaf, formado na Europa a viver num pequeno apartamento em Bissau com o desejo de ser grande e cujo lema é: "comer e deixar os outros comerem." Veio ocidentalizado, viver numa sociedade ainda muito ligada aos seus Irãs, cheia de contradições e que ele não percebe. Encontramos Papai triste por já ninguém se lembrar dos que lutaram ao lado de Amílcar Cabral, por os Comandantes não comparecerem no funeral do amigo, angustiado com o país que resultou da independência. No entanto, é um homem que continua convicto daquilo por que lutou e a esperança de que um dia ele e os seus companheiros de luta irão ser reconhecidos pelo que fizeram pelo país continua bem viva. Benaf refere-se a ele como um velho interessante, simpático, mas os temas eram sempre os mesmos, a fazer lembrar o outro lado da consciência, precisamente o lado que ele estava interessado em eliminar.
Kikia Matcho significa Mocho Macho e dá título ao livro porque no dia em que 'N Dingui morre, o sobrinho Benaf vê um kikia matcho na janela, a sobrinha Joana, em Lisboa sonha com um kikia matcho com o rosto do tio e o amigo Papai vê um kikia matcho com o rosto do amigo. Segundo as crenças locais, um kikia e ainda por cima matcho é ave de mau agoiro e ter este animal associado a um defunto não pode significar coisa boa. Aparentemente a alma de 'N Dingui está com problemas em atravessar para o outro lado, está preso num limbo e precisa da ajuda dos companheiros de armas para evitar ser mandado de volta, juntamente com outros que se encontram na mesma situação, para a terra como kassissas (espíritos malignos). Parece que Cabral e todos os que morreram antes da luta terminar estão a impedir os antigos combatentes de passarem e exigem que seja feita uma cerimónia. Mas que cerimónia é essa? Ninguém sabe... O que Papai não vai permitir é que o país que já salvou antes da mãos dos tugas seja agora invadido por kassissas. Não o permitirá, por lealdade a Cabral, mesmo que na tasca de Mana Tchambú todos lhe digam que kassissas já eles são todos, despojos de uma sociedade que os quer esquecer, autênticos mortos vivos.

Gostei deste livro, principalmente porque gostei de ler sobre a Guiné-Bissau. Quando falamos da guerra colonial acabamos sempre por falar de Angola, as pessoas que retornaram com a independência das ex-colónias vinham maioritariamente de Angola e Moçambique e a verdade é que pouco se sabe (falo por mim) do como foram as coisas na Guiné e em Cabo Verde, por exemplo.
A história em si, não chega a ser uma história, é mais, como o autor diz uma "abordagem sociocultural de um povo", onde ele nos vai falando da cultura africana, da absorção e integração nos seus rituais da cultura ocidental, do povo guineense e da relação tensa entre estes e os cabo-verdianos, considerados uma elite por serem mais claros e mais instruídos.
Fala das desilusões, tanto de quem ficou como de quem partiu para Portugal à procura de uma vida melhor. Quem ficou, viu-se ficar ainda mais miserável, vendo muitas das chefias aproveitarem-se do poder recém-adquirido e deixando o povo continuar mal. Os que partiram, como Joana, não ficaram melhor.
Fala da pobreza, não só material mas também de espírito e de como a necessidade pode esbater barreiras e preconceitos. Joana, na Guiné era instruída, tinha um lugar na sociedade guineense, olhava de lado os cabo-verdianos. Em Portugal obrigada pela necessidade a viver com todo o tipo de gente deixou de olhar para cores e origens e passou a ver apenas pessoas que estavam na mesma situação que ela. Em Portugal ela era mais uma entre muitas.
O livro, embora não seja especialmente inspirado, porque a escrita de Filinto de Barros é repetitiva, quase amadora mas, fala de assuntos pertinentes e para quem gosta de ler sobre estes assuntos acho que poderá ser um livro a considerar.

Recomendo, porque no meu caso, me deixou culturalmente mais rica. Aprendi umas quantas coisas que, se já as sabia, não estavam suficientemente cimentadas na minha cabeça para as considerar como sabidas! :)