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julho 23, 2017

A Sentinela - Richar Zimler

Título original: The Night Watchman
Ano da edição original: 2014
Autor: Richard Zimler
Tradução: José Lima
Editora: Porto Editora

"Até que ponto um único assassinato pode iluminar a crise moral em que se encontra o país?
6 de Julho de 2012. Henrique Monroe, inspector-chefe da Polícia Judiciária, é chamado a um luxuoso palacete de Lisboa para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um abastado construtor civil. Depois de interrogar a filha da vítima, Monroe começa a acreditar que Coutinho foi assassinado ao tentar defender a perturbada adolescente do violento assédio sexual de algum amigo da família. Ao mesmo tempo, uma pen que o inspector descobre escondida na biblioteca da casa contém alguns ficheiros com indícios de que a vítima poderá também ter sido silenciada por um dos políticos implicados na rede de corrupção que o industrial montara para conseguir os seus contratos.
Tendo como pano de fundo o Portugal contemporâneo, um país traído por uma elite política corrupta, que sofre sob o peso dos seus próprios erros históricos, Richard Zimler criou um intrigante policial psicológico, com uma figura central que se debate com os seus demónios pessoais ao mesmo tempo que tenta deslindar um caso que irá abalar para sempre os muros da sua própria identidade."

A escrita de Richard Zimler é muito despretensiosa, como se estivesse a escrever para ele próprio e, nos livros que já li dele, sente-se que existe uma necessidade em contar histórias com significado, que acrescentem, que façam pensar, que chamem a atenção para algo.

A Sentinela é um policial que não se limita à investigação de um crime. É, também a história de Henrique Monroe, um inspector-chefe da PJ que vê alguns dos fantasmas do passado regressarem quando é chamado para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um influente construtor civil, com boas relações nas altas esferas da política. Um crime que aparentemente estaria relacionado com negócios menos claros começa aos poucos a revelar algo bem mais perturbador.
Henrique é uma pessoa especial, a todos os níveis. Veio viver para Portugal, com o irmão mais novo, depois do pai de ambos ter morrido? desaparecido? Nunca nos é dito, ao certo, o que se passou com o pai.
Divide a mente e o corpo, com Gabriel, um homem?, uma entidade? que parece saber tudo, e que de vez em quando toma posse do corpo de Henrique e ajuda-o em fases críticas da sua vida e nas investigações. Gabriel surgiu-lhe, pela primeira vez, quando Henrique era ainda uma criança e nesse dia Henrique acredita que a vida do irmão mais novo foi salva.
Vítimas de violência psicológica e física, os dois irmãos só se tinham um ao outro e a relação que têm um com o outro é muito bonita, à falta de melhor expressão. No decorrer desta investigação Henrique vai ser forçado a enfrentar alguns dos seus demónios pessoais, vai ser forçado a tomar decisões sobre a sua vida e sobre aqueles que mais ama.

E é, mais ou menos sobre isto. Não vou estar aqui a esmiuçar muito a história, porque tratando-se de um policial, qualquer coisa que se diga pode já ser demais.

Gostei da história e da forma como nos vai sendo contada. Gostei das personagens, principalmente de Henrique que me pareceu muito bem pensado e realista, mesmo com todas as particularidades, nunca o achei exagerado e pouco credível. Senti, por parte do autor, uma grande sensibilidade e muito cuidado em torná-lo uma personagem forte e credível, o que foi largamente conseguido e foi essencial para que a história se tornasse cativante e ficasse comigo para além do último ponto final e do fechar do livro.

Embora, em termos de história e de importância histórica, A Sentinela não seja um livro tão grande como Os Anagramas de Varsóvia (opinião aqui), não deixa de ser um livro menos bem escrito por isso. É um livro bem escrito, coeso, envolvente e que toca em temas muito importantes e transversais à sociedade.

Gostei bastante e recomendo sem qualquer hesitação.

Boas leituras!

Excerto (pág. 69):
"Em miúdo imaginava que o Espetro não tinha as emoções das pessoas vivas. E que era por isso que conseguia concentrar-se na busca de Ernie excluindo tudo o resto. Mas hoje sei que ele entra em pânico. Na verdade, acho que conhece melhor o medo do que qualquer pessoa que eu alguma tenha conhecido, incluindo o meu irmão.
Os miúdos não têm experiência suficiente que lhes permita reconhecer o que é excecional ou único, e eu partia do princípio de que todos eram iguais a mim e recebiam mensagens nas mãos ou noutra qualquer parte do corpo. Só quando falei nelas à minha mãe é que percebi que eu tinha mais sorte do que as outras pessoas. Ela disse-me que nunca recebera mensagens dessas e que não conhecia ninguém que as tivesse recebido. Disse-me para nunca falar nisso - especialmente ao meu pai - porque ninguém iria acreditar ou compreender. Seria o nosso segredo.
«O nosso segredo», disse ela em português, com a mão pousada na minha cabeça (...)"

setembro 09, 2011

O Último Cabalista de Lisboa - Richard Zimler

Título original: The Last Kabbalist of Lisbon
Ano da edição original: 1996
Autor: Richard Zimler
Tradução: José Lima
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Em Abril de 1506, durante as celebrações da Páscoa, cerca de dois mil cristãos-novos foram mortos num progrom em Lisboa e os seus corpos queimados no Rossio, O Último Cabalista de Lisboa, best-sellers em onze países, incluindo os Estados Unidos da América, Inglaterra, Itália, Brasil e Portugal, é um extraordinário romance histórico tendo como pano de fundo os eventos verídicos desse mês de Abril de 1506."

É inegável que os livros de Richard Zimler são historicamente perfeitos. A forma como ele retrata épocas passadas, os costumes e as pessoas que nela viveram é fascinante. E é fascinante porque ele consegue, através de histórias, regra geral não muito complicadas, enquadrar-nos na época e nas vivências das pessoas comuns, não precisando de recorrer a reis, rainhas e glamours que tais. Pessoas normalíssimas apanhadas em acontecimentos que as ultrapassam completamente e lhes muda a vida para sempre.

O Último Cabalista de Lisboa retrata a Lisboa de 1506, no calendário cristão, e a crescente pressão que os judeus da cidade viviam, com o cerco da Inquisição a apertar cada vez mais devido à pressão vinda do Reino de Castela. Forçados a converter-se ao cristianismo e a renegarem as suas origens, os cristãos-novos de Lisboa são surpreendidos, durante a discreta e secreta celebração da Páscoa, pelos tumultos que levaram à morte de milhares de pessoas suspeitas de serem judias, acusadas de serem responsáveis pela seca, fome e peste que alastrava na capital. Em Abril de 1506, os frades dominicanos incentivaram e participaram na perseguição, tortura e morte de milhares de judeus, queimando-os na praça do Rossio, com o apoio da população e a complacência da corte, exilada em Abrantes, fugida da peste. Um país preso às vontades de Roma, um povo criado segundo a moral do Papa e sem um resquício da tão aclamada piedade cristã, levou a cabo um dos mais vergonhosos acontecimentos da história portuguesa, o Pogrom de Lisboa.

Berequias é o sobrinho do último cabalista de Lisboa, Abraão Zarco, um homem iluminado e sábio, assassinado durante os tumultos, na sua própria casa. Depois da morte do tio a única coisa que move Berequias é descobrir quem matou o seu mestre e vingá-lo. Fica cego de ódio e, obcecado pela procura, coloca a sua vida, e a das pessoas que o rodeiam em perigo, pois os tempos que correm obrigam a que muita gente viva por detrás de uma máscara, e nem todos são aquilo que aparentam.

Um livro historicamente muito bom e que vale sobretudo pela descrição histórica dos acontecimentos, porque pessoalmente achei a história de Berequias e da sua busca incessante por justiça, um pouco cansativa. Não simpatizei com ele, achei-o irritante, infantil e irresponsável, o que me impediu de gostar mais do livro. Não me identificando com a personagem principal, não me interessando especialmente pela luta dele, só me restou o gosto de ler sobre Lisboa, embora os acontecimentos retratados em nada favoreçam a cidade e os lisboetas. Valeu também por ter ficado a conhecer umas quantas coisas que ignorava. :)

Embora tenha gostado bastante mais do outro livro do autor que li, Os Anagramas de Varsóvia (já aqui comentado), não posso deixar de recomendar este O Último Cabalista de Lisboa porque o tema é muito interessante. E, porque embora tenha embirrado um pouco com o Berequias, gostei bastante do seu amigo de infância Farid e, Richard Zimler é um autor que mesmo quando está menos inspirado vale a pena ler. :) Além disso, acho que o meu menor entusiasmo com o livro se deveu também ao facto de ultimamente os livros que leio terem, quase todos, como tema subjacente a religião. Confesso-me um pouco cansada do assunto...

Concluindo: Leiam! Tenho a certeza de que não darão o tempo como perdido. :)

Boas leituras!


Excerto:
"Uma pira. Chamas crepitantes. Gavinhas de fogo laranja e verdes desenrolando-se em direcção ao telhado da igreja. No campanário, um frade dominicano com uma grande papada empunhava uma espada com uma cabeça decepada na ponta e enxortava a populaça com uma voz irosa:
- Morte aos heréticos! Matai esses judeus do demónio! Que a justiça do Senhor caia sobre eles! Fazei-os pagar pelos crimes contra as crianças cristãs! Fazei-os...
O fogo causava um calor infernal, alimentado pela massa dos corpos dos judeus que lhe tinham sido lançados."

dezembro 08, 2010

Os Anagramas de Varsóvia - Richard Zimler

"Um romance policial arrepiante e soberbamente escrito passado no gueto judaico de Varsóvia. Narrado por um homem que por todas as razões devia estar morto e que pode estar a mentir sobre a sua identidade...
No Outono de 1940, os nazis encerraram quatrocentos mil judeus numa pequena área da capital da Polónia, criando uma ilha urbana cortada do mundo exterior. Erik Cohen, um velho psiquiatra, é forçado a mudar-se para um minúsculo apartamento com a sobrinha e o seu adorado sobrinho-neto de nove anos, Adam. Num dia de frio cortante, Adam desaparece. Na manhã seguinte, o seu corpo é descoberto na vedação de arame farpado que rodeia o gueto. Uma das pernas do rapaz foi cortada e um pequeno pedaço de cordel deixado na sua boca. Porque razão terá o cadáver sido profanado? Erik luta contra a sua raiva avassaladora e o seu desespero jurando descobrir o assassino do sobrinho para vingar a sua morte. Um amigo de infância , Izzy, cuja coragem e sentido de humor impedem Erik de perder a confiança, junta-se-lhe nessa busca perigosa e desesperada. Em breve outro cadáver aparece - desta vez o de uma rapariga, a quem foi cortada uma das mãos. As provas começam a apontar para um traidor judeu que atrai crianças para a morte.
Neste thriller histórico profundamente comovente e sombrio, Erik e Izzy levam o leitor até aos lugares mais proibidos de Varsóvia e aos mais heróicos recantos do coração humano."

Erik, um psicólogo judeu, é forçado a mudar-se para o gueto de Varsóvia e a partilhar o apartamento com a sobrinha Stefa e o filho desta Adam, um miúdo de 9 anos. Esta situação não lhe agrada, não porque não goste de Stefa e Adam, porque gosta, mas sim porque na idade dele a mudança, ainda por cima quando imposta transtorna-o. Aos poucos a sobrinha e o filho começam a entrar no seu coração empedernido e rabugento e quando Adam morre de forma violenta e inesperada Erik quase morre de desgosto e as saudades de adormecer com o miúdo colado a si quase que o enlouquecem. A necessidade de ajudar a sobrinha a ultrapassar a perda do filho e de encontrar o responsável pela morte do sobrinho-neto mantêm-no vivo. E é esta procura que Richard Zimler nos conta ao longo das páginas deste livro. E que bem que conta esta história, triste, sem ser deprimente e angustiante, porque o humor presente ao longo de todo o livro atenua os horrores narrados e pressentidos nas entrelinhas.

Gostei bastante deste livro, o primeiro que leio deste escritor. Gostei porque está narrado de uma forma muito original, porque as personagens estão muito bem construídas e porque a história consegue relembrar o Holocausto e homenagear todas as suas vítimas, sem entrar nos habituais clichés que por estes tempos já nos deixam um pouco insensíveis à questão. É triste que assim seja mas é a realidade, pelo menos é-o no meu caso. O facto de ele pegar no caso particular de um judeu, Erik, que se muda para o gueto de Varsóvia e que por causa do seu drama particular nos vai dando a conhecer a dinâmica vivida na "ilha", faz com que nos identifiquemos melhor com história, sem no entanto perder a perspectiva global da tragédia que ocorreu. A miséria vivida no gueto está lá, a precariedade e falta de condições estão lá, os oportunistas estão lá, as boas pessoas também, a coragem e esperança no futuro estão lá, o medo e a incerteza também, a amizade está lá e a solidariedade também. Estão lá os campos forçados, os fornos e os comboios da morte, estão lá as execuções em massa e o comportamento primitivo e até hoje completamente incompreensível de todos os que ajudaram (incluindo os que olharam para o lado) os nazis nesta guerra infeliz. Está tudo lá, mas tudo é visto pelos olhos de um homem que fez da sua razão de viver a procura do assassino do seu sobrinho-neto. Sobrinho-neto que representava para ele o futuro, a possibilidade de sobreviver aos tempos difíceis e violentos em que viviam. Se conseguisse proteger Adam então o futuro da humanidade e dos judeus em particular poderia ser uma realidade. Erik falhou na missão de proteger Adam e, encontrar o seu assassino parece ser o único caminho que conhece para devolver algum equilíbrio ao seu mundo, ao do gueto mas, também à humanidade.

O mistério da morte de Adam e de outras crianças no gueto é interessante o suficiente para nos ir fazendo virar página atrás de página mas, o que na realidade nos faz gostar deste livro é o Erik. É simplesmente enternecedora a forma como ele veste a pele de detective e arrasta consigo o genial Izzy, seu amigo de sempre, numa espécie de brigada de terceira idade, cómica q.b., sem menosprezar o que é narrado e a gravidade dos acontecimentos. Nesta jornada, Erik e Izzy descobrem-se a si mesmos e descobrem-se capazes de fazer o inimaginável numa época de inimagináveis atrocidades. São capazes de matar e de continuar a viver depois disso. A diferença entre eles e os nazis é que estes nunca perceberam porque é que o que faziam era condenável.

Gostei muitas destes dois velhotes, gostei muito deste livro e recomendo-o sem qualquer reserva!

Boas leituras! :)