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junho 05, 2026

[Ebook] Tu Não És Como as Outras Mães - Angelika Schrobsdorff

Título original: Du bist nicht so wie andre Mütter 
Ano da edição original: 2012
Autor: Angelika Schrobsdorff
Tradução: Helena Topa
Editora: Alfaguara

Uma mãe diferente das outras mães. Uma vida maior que a vida. Um livro que não é como os outros livros. Um clássico do nosso tempo que conquistou mais de meio milhão de leitores na Europa. Enquanto jovem mulher, Else, uma menina mimada da burguesia de Berlim, fez duas promessas a si mesma: viver a vida intensamente e ter um filho de todos os homens que amasse. Tu não és como as outras mães é a história real dessa vida intensa, extravagante, inconformista que foi a de Else Kirschner, uma mulher verdadeiramente livre, e uma mãe diferente de todas as outras. Nascida na conservadora burguesia judia de Berlim, Else estava prometida para casar com um bom partido. Mas os encantos de um artista cristão - "o maior amor e pior partido da sua vida" - foram o trampolim que procurava para renunciar ao conforto da casa paterna e ser dona do seu destino num mundo cheio de promessa. Corriam os loucos anos vinte, dias efervescentes numa Berlim que parecia a capital do mundo, um tempo irrepetível de cultura, esplendor e liberdade. Else instalou-se no centro dessa boémia, incapaz de suspeitar que uma ameaça arrepiante cercava inexoravelmente a sua família. Quando as sombras do Nacional Socialismo tingiram a Europa de negro, Else, judia, teve de fugir com a família da cidade que tanto amava. No exílio, na Bulgária, tudo é miserável, tudo é muito pouco quando comparado com a primeira vida. Nessa segunda vida, Else arrepender-se-á de não ter protegido a família da calamidade, que se revela trágica para alguns. Esta é a história de uma vida maior que a vida, um retalho de História extraordinário. Quem nos conta a história é Angelika Schrobsdorff, importante escritora de origem alemã. Era filha de Else e demorou quinze anos a pôr no papel a história da mãe, sem sentimentalismo mas com o amor e a admiração inevitáveis, criando um pedaço de grande literatura, um clássico do nosso tempo.

Tu Não És Como as Outras Mães é a história de Else Kirschner, uma judia de Berlim que assiste à ascensão dos nazis ao poder.
Antes de isso acontecer, Elsa é descrita como sendo uma mulher jovem que renega, de certa forma, as suas origens judaicas, porque não é religiosa. Não pensa em si como judia e sim como alemã. O que ela quer é ser livre, amar quem quiser, casar se quiser e viver a vida como entender. Muitas vezes acaba por parecer uma miúda mimada a quem todos acabam por ceder, porque é uma mulher bonita, com cabelos ruivos e vistosos e, porque é divertida e inteligente.

Else a mim pareceu-me cheia de contradições. Curiosamente, fazendo questão de ser uma mulher livre, nunca deixa de depender de um homem para conseguir viver e cuidar dos filhos. Nunca trabalhou um dia na sua vida, nem antes nem depois da subida de Hitler ao poder, nem durante a guerra, nem depois da guerra terminar.
É egoísta. Diz que vive para os filhos mas as suas ações nem sempre demonstram isso.
Acaba por sofrer com tudo o que se passa durante a 2ª Guerra mas, ao mesmo tempo, sabemos que teve muita sorte e que foi poupada a muitos horrores, ao contrário dos próprios pais.

O livro é escrito pela filha mais nova, Angelika, que é ela própria, uma personagem exuberante. Cresce mimada, protegida pelos pais e acaba por ser pouco consciente do que se passa à sua volta e, só mais tarde conhece a verdadeira história da família.
O livro é um relato interessante do que se passou naquela altura visto de um ponto de vista que não é muito comum. Uma classe, mais ou menos privilegiada, que viu tudo começar a acontecer e, parece que foi muito lenta a reagir. Infelizmente, percebemos hoje, que essa falta de reação não só foi possível como é repetível, sendo que estamos a assistir, por todo o lado a dinâmicas muito semelhantes e, nada fazemos para as impedir. Com a agravante que hoje até temos acesso a muito mais informação e, por isso, menos desculpas temos para ficarmos alienados.
É interessante a forma como Angelika relata tudo, sem tentar embelezar ou tornar a sua mãe, ou até ela própria, mais consensuais.

No geral gostei da escrita e gostei da história mas, confesso que o achei um pouco aborrecido. Não sei se a estrutura, com muitas cartas contribuiu para isso.
Não deixou, no entanto, de ser um livro que me ficou na memória, principalmente pela forma como a história é abordada. Sem grandes heróis, onde as vítimas não têm de ser necessariamente boas pessoas ou perfeitas. São humanas, comentem erros, tomam decisões que, por vezes, podem parecer a quem está de fora, egoístas e difíceis de explicar mas, quem somos nós para julgar se nunca estivemos sujeitos às mesmas condições?

Recomendo. É uma boa leitura!

Excerto:
"Else nunca havia estado no estrangeiro e toda a vida desejara fazê-lo. A ideia de partir com um homem que amava para terras estranhas do Sul, de que só ouvira falar, lera ou sonhara apenas, de ver cidades antigas e belas, aldeias brancas sob céus azuis, o mar, palmeiras e laranjeiras, era tão poderosa que nem sequer pensou em Hans por um instante que fosse. Lançou-se ao pescoço de Erich, rindo e chorando de felicidade.
Só quando ficou sozinha começou a pensar — não propriamente se havia de renunciar à viagem por amor a Hans, não, isso não havia ninguém que lhe pudesse pedir, mas como havia de lho dizer. Acreditava que sabia como ele ia reagir! Ia implorar-lhe para não ir com aquele desespero terrível que a irritava porque lhe doía. Ia começar com a velha ladainha para convencê-la de que aquilo que ia fazer era injusto, impulsivo, egoísta, perigoso, irresponsável, inconsciente. Que pensasse pelo menos nas pobres crianças, já que não pensava nele. Que ganhasse juízo finalmente e que pensasse no que tinha verdadeiramente valor na vida, e que não era a diversão e a aventura, mas a família: pais, filhos, um homem que estava sempre com ela para o que desse e viesse. Que a amava como nunca ninguém a amara ou iria alguma vez amar.
E ela, Else, iria esperar, com uma impaciência ressentida, até que ele acabasse de falar e não teria argumentos para apresentar. Porque ele teria razão em tudo o que diria, e o único argumento dela, que não podia pura e simplesmente dispensar as coisas belas e estimulantes na vida, nunca seria um argumento para Hans. Portanto, ficaria calada e ele, agora na segunda fase da raiva impotente, iria apresentar armas de maior calibre: que devia ter consciência de que era uma mulher de meia-idade, com trinta anos, e que já não era nova. Já não tinha muito tempo diante dela e que se continuasse assim mais uns anos iria ficar sozinha pelo caminho, disso podia estar certa. Uma mulher trintona com dois filhos, ninguém a quereria. Nem ele. Porque mesmo o maior dos amores teria um fim se estivesse sempre a ser pisado, e ele já estava prestes a pôr um ponto final. 
E depois viria outra vez com a história de Munique e da propriedade que lá tinha e a fábrica de cerveja e a vida fantástica que poderiam ter lá, eles os quatro, e ela estremeceria até à medula. Baviera e cerveja e Hans, de calções de couro, faces vermelhas, a dançar à volta dela. Então preferia ficar sem ninguém e em Berlim. Mas haveria de certeza sempre alguém a querê-la, em primeiro lugar Hans, com quem tinha uma filha afinal de contas, com quem brincava como um louco e que nunca abandonaria, nem mesmo se um dia ficasse farto dela. 
Pois era assim que as coisas iriam correr e ela desejava ter já passado por tudo aquilo, pois já não suportava a expressão desesperada dele e a velha ladainha e a sua própria má consciência, que ele tão bem sabia manipular. Mas o que era uma má consciência comparada com o deleite que iria desfrutar naquela viagem! Seis semanas com Erich, o sol, países fascinantes, desconhecidos — o prelúdio de uma vida nova, enobrecida. 
Ao final do dia, comunicou a Hans os seus planos. 
Não aconteceu nada do que previra. Hans não implorou, não barafustou, não apelou à sua consciência. Transformou-se numa espécie de estalactite, branco-azulado, rígido e frio, e disse com uma voz áspera, que não lhe conhecia: se fosse com Erich de viagem, sairia de casa de imediato e nunca mais as veria, nem a ela nem à filha. A decisão era dela, e que fizesse o favor de a tomar de imediato.
Sentiu o susto como um murro no estômago. Else sentiu-o alastrar para baixo, até às vísceras, e para cima, até ao peito. Ficou com a garganta tão seca e a língua tão grossa que mal podia engolir. 
Sabia que havia de chegar a um ponto em que Hans não vergaria mais, mas não esperava que já tivesse chegado. Vinha num momento extremamente inoportuno. Mas tinha de decidir: ou Hans, o carvalho que nunca oscilaria até ao fim dos seus dias, ou Erich, a cana movediça, pelo tempo de uma viagem em cujo final estava a incerteza. A resposta dela foi clara: Erich, a viagem e a incerteza. Sempre escolhera o amor, a alegria, o «completamente diferente», ia escolher agora a segurança à custa daqueles tesouros? Não, ela não! Só havia uma vida, com uma juventude breve e doses pequenas de felicidade. O futuro era um conceito hipotético. Planeá-lo era construir castelos no ar. Tinha o destino ao alcance da mão? Havia de sacrificar a felicidade imediata, palpável, a uma segurança longínqua, desconhecida, em vez de gozar a vida; havia porventura de se blindar contra a vida? 
Que estava à espera, disse Hans. 
Quando ouviu o som da sua voz áspera, estranha e das palavras que proferiu como ultimato, sentiu apenas um pequeno tremor nas vísceras. Já tinha decidido. Apesar disso, queria tentar dar-lhe a oportunidade de uma conversa que atenuasse a decisão que ele tomara. 
Ia partir em viagem, disse ela, era definitivo. Mas ele que pensasse em Bettina, não podia castigar a filha pelo comportamento da mãe, fazendo-a infeliz. 
Se alguém fazia a filha infeliz, disse ele, esse alguém era ela. Que entendesse isso e que nunca o esquecesse era o mais importante para ele agora. E além disso não fazia tenções de conversar com ela sobre Bettina. Era filha dela e tinha o nome do marido, Fritz, e esperava que o amante, Erich, a tomasse a seu cargo. 
Se aquelas eram as suas palavras de despedida, perguntou Else, com asco. 
Sim, disse ele, e abandonou a sala."

maio 17, 2026

[Ebook] Levarei o Fogo Comigo - Leïla Slimani

Título original: J'emporterai la feu (Le Pays des Autres, 3)
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara

Mia e Inès formam a terceira geração da família Belhaj, que conhecemos nas páginas de O País dos Outros. Nasceram em Marrocos, na década de 1980, num país dividido entre o desejo de modernidade e o medo de perder a alma e as tradições. É todo um novo mundo, e as duas irmãs terão de encontrar nele o seu lugar, cada uma à sua maneira, na solidão ou no exílio, no excesso ou na contenção, enfrentando o preconceito e o desprezo enquanto abraçam todas as promessas.
O fôlego que as move é a ânsia de liberdade, que tem as suas raízes nas mulheres cujo sangue lhes corre nas veias: a avó Mathilde, a mãe Aïcha e a tia Selma. É nessa busca pela liberdade que Mia parte para Paris, levando consigo o fogo e a escrita. Caberá a Mia contar a história do seu povo.
Levarei o Fogo Comigo completa um tríptico magistral, retrato dos heróis e heroínas deste e de outros tempos. Uma saga inspirada na família da escritora, eivada de um impressionante vigor poético, que chega ao fim, mas permanecerá com os milhões de leitores que se apaixonaram por estas vidas.

Levarei o Fogo Comigo é o livro que fecha a trilogia O País dos Outros de Leïla Slimani. Uma saga familiar que acompanha os Belhaj e os Daoud, desde o dia em que Marthilde e Amine chegam a Marrocos, recém-casados e muito jovens até à velhice de ambos.

Neste terceiro e último volume, os anos passaram e Aïcha é agora uma respeitada ginecologista em Marrocos, Selim foi para os EUA e tornou-se fotógrafo e nunca mais regressou a Marrocos.

Mehdi, marido de Aïcha, trabalha para o governo no sector bancário. Continua idealista mas a proximidade do poder e do dinheiro tornaram-no mais flexível e menos radical. Tenta fazer o que é correto e justo estando dentro do sistema.

Mia é a filha mais velha de Aïcha e Mehdi e, é uma miúda curiosa, gosta de ler e começa, desde muito cedo a questionar o papel da mulher. Na verdade queria ser um rapaz, porque acha que o pai iria gostar mais dela se ela fosse um menino. Mais tarde acaba por perceber que o que sente não está só relacionado com pai. A verdade é que gosta de meninas de forma diferente. Ao contrário das amigas gostava de namorar com uma menina e não com um menino. Desde cedo percebe que é gay.
Acha que quer seguir os passos do pai, vai estudar para França, começa a trabalhar numa consultora financeira e até se sente de certa forma feliz. Vive longe de Marrocos, é livre, vive a vida como quer e com quem quer. Embora pareça que tem tudo para ser feliz, o desconforto que sempre sentiu, de não pertencer a lado nenhum, de nunca se sentir suficientemente boa e de ansiar pela aprovação do pai ao mesmo tempo que evita regressar a casa. Sente que Marrocos nunca a iria compreender e aceitar, o pai dificilmente a iria aceitar e compreender. Talvez estivesse enganada quanto ao pai mas, infelizmente nunca o saberá.
Quando percebe que a vida de escritório não é para ela e, depois de andar à deriva, sem saber que rumo tomar, acaba por se tornar uma escritora relativamente bem sucedida.

Inês é a filha mais nova de Aïcha e Mehdi. Bonita, simpática, é uma miúda de quem todos gostam. É fácil gostar de Inês, ao contrário da irmã, que é carrancuda e turbulenta. Inês adora a irmã, enquanto criança tem-lhe uma verdadeira devoção. Perdoa-lhe tudo, as respostas ríspidas, as mentiras, a violência. Parece que Inês consegue ver para além da fachada dura de Mia, percebe que a irmã vive num furacão de emoções que não consegue exteriorizar de outra forma. Adora a irmã e não há nada nem ninguém que a consiga afastar de Mia. Mia, por se lado, tem ciúmes de Inês, a menina perfeita, a filha querida e amada. Com quem se compara e sente que sairá sempre a perder. Não percebe de imediato que a irmã será a sua mais acérrima defensora e a sua melhor amiga.
Inês, como a mãe, vai para França estudar medicina e, é em Paris que as duas se vão mantendo o contacto.

Mathilde, já com alguma idade, é quem cuida da quinta, agora que Amine está com demência e não é capaz de trabalhar. Continua igual a si própria. Não mantem uma relação próxima com os filhos nem com ninguém. 
Na verdade, o livro não aprofunda muito mais a vida destes dois. Amine está demente e, naturalmente um dia, acaba por morrer. A família junta-se pela primeira vez depois de muitos anos, por causa do funeral de Amine e, nem nesse dia, parece existir vontade de estarem uns com os outros. Tudo naquele dia é confrangedor. Aïcha e Selim nem na casa onde nasceram e cresceram se sentem em casa. É um local que lhes provoca ansiedade, a mãe provoca-lhes ansiedade, tudo naquele sítio lhes parece estranho e, ao mesmo tempo, intimidante.

Voltei a não sentir tanta ligação com a história e com a forma como é contada. Sinto que Leïla Slimani quis colocar tudo no livro, tocar todos os temas mais ou menos polémicos, a homossexualidade de Mia, a libertinagem dos costumes, a questão política em Marrocos, o 11 de setembro, a luta de Mehdi por alguma coisa em que ele próprio já não acreditava verdadeiramente. Parece que acaba por não aprofundar nada e dispersa a atenção.

Mais uma vez, gostei de conhecer mais um pouco da história de Marrocos.

Com este Levarei o Fogo Comigo acentua-se ainda mais a divisão da sociedade marroquina e o impacto dos franceses no país com a procura de uma identidade própria.

É muito estranho que toda a família Belhaj e depois os Daoud tenham nascido e crescido em Marrocos e conheçam tão mal o próprio país. A cultura, a língua, tudo.
Como crescem em guetos franceses, estudam em colégios franceses e vão estudar para França assim que podem, a vivência que têm de Marrocos é completamente enviesada. É triste crescer num sítio sem se deixar tocar por ele.

Gosto da escrita de Leïla Slimani mas sinto falta de qualquer coisa nas histórias que ainda não consegui identificar o que será. 
No entanto gosto mesmo da escrita e gostei bastante desta trilogia. Talvez por retratar a vida de uma família ao longo de três gerações, tenha sentido falta de os conhecer a todos melhor. Nas sagas familiares talvez tenhamos de perder mais tempo a conhecer cada uma das personagens. 
Mas, gostei. Gostei e recomendo.

Boas leituras!

Excerto:
"Ele está sempre presente na minha mente, o tremor da sua mão quando fumava os seus cigarros, a maneira como esmagava a beata, a sua forma de se sentar, o barulhinho de quando virava as páginas de um livro. O seu sorriso. O meu pai tão ingénuo que acreditava que todos os muros cairia e que construiríamos túneis. Esse túnel não existe ou, se existe, é um lugar soturno e frio onde não parei de rastejar como um animal cego e obstinado. Uma vez que ele morreu, este jogo não serve para nada e não tirarei dele nenhuma alegria. Para quando servia tentar saber qual era o meu lugar, qual era o meu país, quando eu nem sequer sabia quem era? Que quer dizer «identidade» quando perdemos a memória? Não a dos povos, não, essa pouco me importa, mas as histórias que a minha avó me contava, as fábulas que o meu pai inventava, esses íntimos <era uma vez> que constituem quem sou e com os quais cubro as paredes. Quando me perguntam de onde sou, nunca sei o que dizer, como o balbuciar de um gago tentando pronunciar uma palavra e que, exausto, acaba por desistir. O meu pai, «the great pretender», adorava fazer-se passar pelo que não era e, tal como ele, tornei-me a minha própria falsária, cópia de má qualidade de um quadro de mestre, falso bilhete que nada vale, a não ser para os ingénuos que merecem ser roubados."

maio 10, 2026

[Ebook] Vejam Como Dançamos - Leïla Slimani

Título original: Regardez-nous danser (Le Pays des Autres, 2)
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara

1968, Marrocos: Mathilde, alsaciana, e Amine, oficial do Exército marroquino, são um casal com uma longa história atrás de si e um incerto futuro pela frente, à imagem do país onde vivem. Esta é a história de uma família hesitante entre a tradição e a modernidade, protagonizada por uma mulher enredada entre duas culturas, sufocada pelo conservadorismo do país onde escolheu viver e dividida entre a dedicação à família e o amor à liberdade. É também a história de um país que acabou de conquistar a independência e que procura o seu lugar, entre o espartilho religioso e o fascínio pelo Ocidente, entre a repressão e o hedonismo.

Leïla Slimani, uma das vozes mais importantes da literatura francesa, regressa à história da própria família para construir um romance cheio de personagens inesquecíveis e imagens fortes. Retratando um tempo e um lugar em que ressoam os ecos do Maio de 68 e as mulheres encetam o pedregoso caminho da emancipação, a escritora reafirma a sua impressionante destreza narrativa e o olhar clínico sobre a intimidade.

Vejam como Dançamos é o segundo livro da Trilogia O País dos Outros e, deste gostei bastante. Talvez porque tivesse menos Mathilde e Amine. A relação dos dois não me cativou nada. Não na forma como foi descrita por Slimani.

Neste segundo volume a história centra-se mais nos dois filhos do casal, já crescidos. Aïcha a terminar o curso de medicina em França e o irmão, Selim, ainda a estudar e a viver com os pais.
Os dois são muito diferentes um do outro. Aïcha continua a ser uma miúda tímida, muito inteligente mas sem grandes competências sociais. Insegura, quase pede licença para existir. Estuda, faz amigos com dificuldade e apaixona-se por Mehdi, um jovem marroquino, revolucionário, cheio de ideias de liberdade e de uma sociedade marroquina menos conservadora. Mehdi é uma espécie de intelectual de esquerda. :) É muito interessante ver a evolução de Aïcha ao longo da história. É uma personagem muito bem desenvolvida.
O irmão não sabe o que fazer da vida. Sendo o único rapaz, o pai espera que ele se interesse pela quinta e o ajude. Ele não está interessado e tem medo do pai. Não se sente bem em casa e estranha o próprio país que não conhece de todo.
Fisicamente destaca-se, é loiro de olhos claros e, sente que nunca será realmente aceite no seu país, o único que conhece. Por isso, e porque faria tudo para sair de casa, para longe dos pais que não o compreendem, junta-se a uma comunidade de hippies estrangeiros e parte com eles. Vai conhecer o seu próprio país, para além dos portões da quinta dos pais.

Neste livro seguimos também a vida de Selma e de Omar, irmãos de Amine.
Selma é uma miúda rebelde para a cultura e hábitos marroquinos. É bonita demais e simpática demais para o conservadorismo dos irmãos, Amine e Omar. Tenta ser feliz longe deles. Apaixona-se por um piloto americano, que a engravida e abandona. Amine, para esconder a vergonha desta gravidez fora do casamento, obriga a irmã a casar com um ex-companheiro de Amine na guerra, bem mais velho que Selma. É muito triste ver Selma castrada desta forma e sem o apoio da cunhada Mathilde. Lamenta que a cunhada não lhe devolva agora, a forma aberta e sincera como recebeu Mathilde, quando esta chegou a Marrocos, completamente perdida e assustada. Achou que a cunhada era sua amiga e sente-se traída por esta não a defender do irmão.

Omar sempre teve ciúmes de Amine, o irmão mais velho a quem todas a oportunidades foram dadas. É um rapaz violento, um pouco desequilibrado, muito revoltado com tudo e com todos, a viver num país que procura desesperadamente encontrar uma identidade própria depois da independência da França. Omar tem um fim trágico. É uma daquelas personagens que sabemos à partida que não pode acabar bem tal é a sua atração pelo caos.

Neste segundo volume, aprofunda-se mais ainda a questão da relação tensa com França. Aïcha e Selim nasceram em Marrocos mas como são filhos de uma francesa, estudaram sempre numa escola francesa. Como todos os miúdos da sua idade, Aïcha parte para França para prosseguir os estudos superiores.
Enquanto vivem em Marrocos os únicos marroquinos nas suas vidas são os tios, a avó, o pai e os empregados da quinta. Só se dão com franceses e apenas sabem falar francês. Não conhecem o país onde nasceram e vivem numa bolha que os deixa, à medida que crescem, com crises de identidade e com um sentimento de que não pertencem a lado nenhum. Apenas a quinta dos pais os une e até esse lugar onde cresceram lhes traz memórias que preferiam esquecer.

Gostei mais deste segundo volume do que do primeiro. Achei as personagens mais bem desenvolvidas e achei a história mais coesa.

Gostei e recomendo.

Boas leituras!

Excerto:
"Enquanto a filha estava nos bancos da faculdade, enquanto Selma vivia a sua vida em Rabat, ei-la ali, naquela cozinha, com o rosto por cima de uma toalha a cheirar a pano molhado. Que se aprende dentro de uma cozinha? Século após século, as mulheres criaram na cozinha poções para curar e fazer crescer, para consolar e fazer feliz. Nela, prepararam decocções para os velhos em fim de vida e remédios para as raparigas que já não tinham o período. Aqueceram o óleo para espalhar na barriga de uma criança com cólicas e, com farinha, água e um pouco de gordura, garantiram que famílias inteiras se aguentassem de pé. Tanta coisa não era nada? Elas nada aprenderam?
Nesses momentos, tinha vontade de explicar a vida a Amine. Dizer-lhe que podia parecer descanso, mas quer ele estava enganado. Ele acha que ela faz aquilo tudo por amor e só lhe apetece gritar: «Isto a que chamas amor é trabalho!» Estariam as mulheres assim tão cheias de afecto, de benevolência, que podiam passar uma vida inteira, a cuidar dos outros?"

"No bairro de lata, nada mudava. Nem na paisagem, nem nas casas, nem sequer nas conversas ou nos hábitos. Ruminavam-se os mesmos problemas, sofria-se ainda e sempre dos mesmos males, morria-se das mesmas doenças e reclamava-se das mesmas dores. Fatima percebeu, então, que era isso a miséria: um mundo que não muda. Os burgueses, as pessoas ricas e instruídas, quando se encontram, perguntam sempre pelas novidades. A vida reserva-lhe surpresas. Falam do futuro e até de revolução. Acreditam que é possível mudar."

[Ebook] O País dos Outros - Leïla Slimani

Título original: Le Pays des Autres (première partie - La guerre, la guerre, la guerre)
Ano da edição original: 2015
Autor: Leïla Slimani
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Alfaguara

Em 1944, Mathilde, uma jovem alsaciana, apaixona-se por Amine, um oficial marroquino que combate no exército francês durante a Segunda Guerra Mundial. Terminada a guerra, o casal muda-se para Marrocos e instala-se perto de Meknés. Amine dedica-se a recuperar a quinta herdada do pai, tentando arrancar frutos de uma terra pedregosa e estéril. Enquanto isso, Mathilde começa a sentir o jugo dos costumes conservadores do novo país, tão sufocante quanto o seu clima. Nem a maternidade apaga a solidão que sente no campo, longe de tudo, num lugar que não é o seu e a verá sempre como estrangeira.
A par e passo do drama familiar, ribombam a tensão e a violência que desembocarão, em 1956, na independência de Marrocos, país onde todos parecem viver no "país dos outros" e onde as mulheres, cercadas no país dos homens, têm de lutar a cada novo dia por um lugar, por uma voz. No centro do fogo cruzado de um país em plena transformação, Mathilde e Amine enfrentam o drama da ruptura dentro da própria família.

Depois do sucesso de Canção Doce, que arrecadou o Prémio Goncourt e conquistou mais de um milhão de leitores em cinquenta países, Leïla Slimani confirma a sua impressionante capacidade narrativa e compreensão da alma humana nesta saga familiar tão devastadora quanto verdadeira, inspirada na história da sua avó.

Amine, marroquino, foi para França combater ao lado dos franceses na 2ª Guerra Mundial, onde acaba por conhecer Mathilde, uma miúda nova cheia de sonhos que se apaixona por ele. 
Amine era um jovem bonito, de pele dourada, que a via e ouvia. Para ele, Mathilde era uma lufada de ar fresco, uma rapariga divertida, leve e descomplicada. Apaixonam-se, casam-se e partem para Marrocos, certos de que a vida lhes reserva coisas boas.
No entanto, quando chegam a Marrocos tudo muda. Mathilde estranha tudo. Estranha as pessoas, os cheiros, a cultura. Sente-se sozinha e ressente-se por ver que Amine se tornou uma homem diferente daquele por quem se apaixonou e por quem deixou tudo para trás.
Amine, agora confrontado com os seus, sente pressão e tudo em Mathilde o envergonha. Começa a duvidar da decisão de casar com uma mulher tão francesa, loira, pálida, claramente não marroquina. Nos primeiros tempos em Marrocos só lhe vê defeitos, acha-a mimada e pouco tolerante. Em França gostava de tudo em Mathilde agora tudo nela o irrita.

O País dos Outros expõe a dificuldade que estes dois sentem. Mathilde num país que não é o dela, com uma cultura muito diferente da sua, onde as mulheres são vistas como propriedade dos maridos, dos irmãos, dos pais. Vai-se adaptando. Não quer desistir e voltar para França derrotada, dando razão à irmã que não apoiou o casamento de Mathilde e Amine.
Não se percebe muito bem porque fica, porque insiste. Não parece estar assim tão apaixonada pelo marido. Mas fica. Adapta-se.

Amine regressa ao seu país depois de ter estado na Europa. Regressa casado com uma europeia e, sente-se de certa forma deslocado na sua terra. Vive angustiado. Deveria ser mais marroquino? Torna-se instável, violento. É um homem perdido, sem saber quem é e onde é o seu lugar e muito menos onde, e como, pode encaixar Mathilde em tudo isto. Ama Mathilde mas sente-se ressentido por ela ser europeia, pouco submissa, obrigando-o a ser cruel e violento.

Aïcha e Selim são filhos de Mathilde e Amine. Aïcha, fisicamente mais parecida com pai, é uma menina insegura, muito inteligente, vai apredendo a viver lado a lado com a disfunção que é casamento dos pais.
Selim, fisicamente muito parecido com a mãe, é neste 1º volume apenas uma criança pequena, não tem muito protagonismo. O que percebemos muito cedo é que é um miúdo muito agarrado à mãe, facto que irrita Amine, porque o seu único filho varão tem de ser um macho exemplar e não um menino que passa os dias agarrado às saias da mãe.

Gostei da história e do ambiente marroquino. Como conheço pouco da história e cultura marroquina achei muito interessante toda a envolvência e dinâmica entre marroquinos e franceses.
Continuo a ter dúvidas sobre a escrita de Leïla Slimani. Já com Canção Doce senti que faltava qualquer coisa. Não sei muito bem o quê. Talvez sinta as personagens pouco profundas, os temas tratados de forma superficial. Estranhei que a questão da violência na relação entre Mathilde e Amine não fosse mais aprofundada. É como se não tivesse muita importância, como se fosse normal quase não afetar as personagens ou as suas ações.
Acho que ao querer falar de tantas coisas, acaba por se perder um pouco o foco. 

Mas gostei, e recomendo sem qualquer hesitação. É um livro que se lê muito bem, a história é interessante e, fora as minhas estranhezas com a forma como Leïla Slimani conta as suas histórias, acho que ela escreve bem.

Boas leituras!

Excerto:
"Amine amava a mulher, amava-a e desejava-a ao ponto de acordar, por vezes, a meio da noite com vontade de a morder, de a devorar, de a possuir de uma maneira absoluta. Mas, de quando em quando, questionava as suas decisões. Que loucura fora aquela que lhe passara pela cabeça? Como é que achara que poderia viver com uma europeia, com uma mulher tão emancipada como Mathilde? Por causa dela, por causa daquelas dolorosas contradições, tinha a sensação de que a sua vida era regida por um movimento de pêndulo descontrolado. Por vezes, sentia uma necessidade violenta e cruel de regressar à sua cultura. de amar de corpo e alma o seu deus, a sua língua e a sua terra, e a incompreensão de Mathilde punha-o fora de si. Queria uma mulher parecida com a mãe, que o compreendesse nas entrelinhas, que tivesse a paciência e a abnegação do seu povo, que falasse pouco e trabalhasse muito. Uma mulher que o esperasse ao final do dia, silenciosa e dedicada, e que o observasse enquanto comia e encontrasse nisso toda a sua felicidade e toda a sua glória. Mathilde fazia dele um traidor e um herege. Por vezes, apetecia-lhe desenrolar um tapete de oração, pousar a testa no chão, escutar no seu coração e na boca dos filhos a língua dos seus antepassados. Sonhava fazer amor em árabe, dizer ao ouvido de uma mulher de pele dourada as palavras doces que se dizem às crianças. Noutras ocasiões, quando chegava a casa e a mulher lhe saltava para o pescoço, quando ouvia a filha cantar na casa de banho, quando Mathilde inventava jogos e fazia brincadeiras, ele deleitava-se, sentia-se superior aos outros. Tinha a sensação de ter sido arrancado da massa informe e, então, admitia que a guerra o mudara e que a modernidade se revestia de certas vantagens. Sentia vergonha de si próprio e da sua inconstância e tinha perfeita noção de que era Mathilde quem pagava por isso."

outubro 04, 2025

[Ebook] Crónicas Marcianas - Ray Bradbury

Título original: The Martian Chronicles
Ano da edição original: 1950
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Paulo Tavares
Editora: Cavalo de Ferro

«Não precisamos de outros mundos, precisamos de espelhos, não queremos conquistar o cosmo, só queremos estender as fronteiras da Terra até ele», escreveria muitos anos depois destas Crónicas Marcianas Stanislaw Lem, em Solaris, uma das outras grandes obras que ultrapassam em muito as fronteiras da ficção científica e que são, em certa medida, devedoras deste livro fundador de Bradbury, publicado pela primeira vez em 1950, sobre a chegada do Homem a Marte — um território de mares vazios, colunas de cristal e ruínas de cidades axadrezadas, habitado por uma misteriosa civilização — e as suas tentativas de conquistar e colonizar este planeta.
Crónicas Marcianas tornou-se uma das obras mais célebres e traduzidas de Ray Bradbury, oferecendo uma visão da essência contraditória do Homem, dos seus sonhos de infinito e da sua natureza destrutiva. Borges, um dos muitos confessos admiradores desta obra, dedicou-lhe um dos seus famosos Prólogos, no qual se interrogava: «Que fez este homem de Illinois para que, ao fechar as páginas do seu livro, episódios sobre a conquista de outro planeta me povoem de terror e de solidão? Como podem estas fantasias tocar-me de um modo tão íntimo?»

Gostei muito deste livro de pequenas histórias, com relação entre si, sobre a conquista e a colonização de Marte pelos humanos.

As primeiras histórias descrevem a vida dos marcianos antes da primeira expedição humana, a Marte, que foi bem sucedida. Depois é descrita a primeira expedição que aterra com sucesso, todos sobrevivem, mas nenhum contacto é feito com a Terra e ninguém regressa a casa para contar como correu e o que encontraram os primeiros humanos ao aterrar em Marte. 
O aparente falhanço da primeira expedição não parece diminuir a vontade de voltar a tentar. E é isso que vai acontecendo ao longo de anos e décadas a fio, algumas são bem sucedidas, outras nem por isso mas, o contacto começa a ser feito com a Terra e, as viagens entre os dois planetas tornam-se seguras.
 
E os marcianos das primeiras histórias? Como é a vida em Marte entre humanos e marcianos? Os humanos começam a colonizar Marte e, não é precisa muita imaginação para perceber que, a determinada altura, os marcianos passam a ser uma espécie extinta. Os humanos foram para Marte para fugir de uma Terra destruída por guerras contínuas, espoliada até ao limite. Porque seria diferente com Marte? Porque é que os humanos seriam diferentes? Porque é que deixariam de se comportar como a espécie dominante e respeitar a civilização existente?

Gostei muito. De Ray Bradbury apenas li Fahrenheit 451, de que gostei (opinião aqui) não tendo ficado impressionada com a escrita. Deste Crónicas Marcianas, gostei muito, da escrita e da forma como o mundo marciano é construído. Tem sentido de humor e é muito imaginativo. Gostei bastante.

Recomendo sem qualquer reserva.

Boas leituras!


Excerto:
"Trouxeram quinze mil pés de tábua de pinho do Oregon e setenta e nove mil de sequóia da Califórnia para construírem a Décima Cidade, uma pequena povoação limpa e bonita junto aos canais de pedra. Nas noites de domingo, era possível ver a luz vermelha, azul e verde dos vitrais das igrejas e ouvir as vozes que cantavam os hinos numerados: «Cantemos agora o setenta e nove»; «Cantemos agora o noventa e quatro.» E, em certas casas, ouvia-se a batida forte de uma máquina de escrever, o romancista a trabalhar; ou o arranhar de uma caneta, o poeta a trabalhar; ou nenhum som, o antigo vagabundo a trabalhar. Em muitos aspectos, era como se um grande terramoto tivesse arrancado as raízes e os alicerces de uma cidade de Iowa e depois, num abrir e fechar de olhos, um tornado de proporções dignas de Oz tivesse transportado a cidade inteira para Marte, pousando-a sem um único solavanco..."

agosto 31, 2025

[Ebook] Torto Arado - Itamar Vieira Júnior

Título original: Torto Arado
Ano da edição original: 2018
Autor: Itamar Vieira Júnior
Editora: Leya


Bibiana e Belonísia são filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário. Intrigadas com uma mala misteriosa sob a cama da avó, pagam o atrevimento de lhe pôr a mão com um acidente que mudará para sempre as suas vidas, tornando-as tão dependentes que uma será até a voz da outra.

Porém, com o avançar dos anos, a proximidade vai desfazer-se com a perspectiva que cada uma tem sobre o que as rodeia: enquanto Belonísia parece satisfeita com o trabalho na fazenda e os encantos do pai, Zeca Chapéu Grande, entre velas, incensos e ladainhas, Bibiana percebe desde cedo a injustiça da servidão que há três décadas é imposta à família e decide lutar pelo direito à terra e a emancipação dos trabalhadores. Para isso, porém, é obrigada a partir, separando-se da irmã.

Numa trama tecida de segredos antigos que têm quase sempre mulheres por protagonistas, e à sombra de desigualdades que se estendem até hoje no Brasil, Torto Arado é um romance polifónico belo e comovente que conta uma história de vida e morte, combate e redenção, de personagens que atravessaram o tempo sem nunca conseguirem sair do anonimato.


Bibiana e Belonísia são irmãs, e é através delas que a história vai ser contada. As duas são filhas do curandeiro da fazenda onde a família vive e trabalha desde sempre. O pai. conciliador e ponderado, era respeitado por todos. Fazia partos, curava doenças e dava voz aos Encantados, os espíritos antigos que vagueavam pelo mundo, tão mais poderosos quanto o culto que os humanos lhes faziam.

Depois de um acontecimento trágico, que marca a vidas das duas irmãs, as duas seguem juntas, cada vez mais unidas. A adolescência afasta-as, cada uma com dificuldade em perceber a outra, inseguras e com visões aparentemente diferentes da vida que as espera. Seguem separadas mas a ligação que as une, o afeto que têm uma pela outra nunca desparece e, a vida tratará de as voltar a unir.

Belonísia gosta de trabalhar a terra, gosta de aprender com o pai. Não espera muito da vida. É pensativa, sossegada. Tem medo de perturbar o meio que a rodeia e das consequências que isso pode trazer. Só depois de muito sofrimento é que se vai encontrar, conhecer-se a si própria e ganhar o seu espaço no mundo.
Bibiana, também influenciada pelo futuro marido, começa a questionar as condições em que vivem. O facto de continuarem a trabalhar de graça, sem terem nada de seu. Sem qualquer possibilidade de sequer sonharem a terem uma vida diferente. 
Acaba por ir embora com o marido. Querem melhorar as suas vidas e ajudar todos os outros a terem condições para seguirem o caminho que quiserem, para que o único caminho não seja o herdado pelos pais - trabalharem uma terra que não é deles, terem uma casa que não permitia criar raízes, casarem e continuarem a gerar trabalhadores para a fazenda.

A história segue a vidas destas duas irmãs, descendentes de escravos libertados, dezenas de milhar de pessoas que foram libertadas sem qualquer apoio ou plano de integração. Sem terra, sem dinheiro e sem saber ler, andavam de terra em terra em busca de morada. Um sítio onde pudessem trabalhar as terras do proprietário e, em troca, poder construir uma casa, que não podia ser de pedra. Tinham também autorização para, nos poucos tempos livres, plantar para eles próprios, para comerem ou para venderem. 

Estas foram as condições que os escravos libertos encontraram quando a escravatura foi abolida. 
Conquistaram a liberdade de poderem ir embora para onde quisessem, quando quisessem, no entanto, quão livre é uma pessoa que não tem casa e que não recebe dinheiro pelo seu trabalho? Quão livre é alguém a quem foi negada educação?

Torto Arado está muito bem escrito e com personagens que são impactantes. Consegue passar a ideia das dificuldades que viviam, a violência latente, o preconceito, a acomodação ao conhecido a dificuldade em quere fazer diferente e quebrar o ciclo.

Vou regressar a Itamar Vieira Júnior, não tenho dúvidas sobre isso e, por isso, só posso recomendar.

Boas leituras!

Excerto:
"Um dia, meu irmão Zezé perguntou ao nosso pai o que era viver de morada. Por que não éramos também donos daquela terra, se lá havíamos nascido e trabalhado desde sempre. Por que a família Peixoto, que não morava na fazenda, era dita dona. Por que não fazíamos daquela terra nossa, já que dela vivíamos, plantávamos as sementes, colhíamos o pão. Se dali retirávamos nosso sustento.
Esse dia vive em minha memória. Não se apaga nem se afasta ainda que envelheça. O sol era tão forte que quase tudo ao alcance de minha visão estava branco, refletindo a luz intenda do céu sem nuvens. Meu pai retirou o chapéu, calor fazia minar de seu corpo um suor grosso que lavava seu rosto, escorrendo pela fronte e pelas têmporas. Escorria pelo lado anterior de seus braços, formando grandes manchas em sua camisa surrada. O barro cobria sua calça, sua enxada, seus braços, o seu chapéu largo em suas mãos. Eu atirava milho e restos de comida para as galinhas. «Pedir morada é quando você não sabe para onde ir, porque não tem trabalho de onde vem. Não tem de onde tirar o sustento», apertou os olhos olhando para a cova diante de seus pés, «aí você pergunta pra quem tem e quem precisa de gente para trabalho "moço, o senhor me dá morada?"». De pronto seu olho se ergueu para meu irmão, «Trabalhe mais e pense menos. Seu olho não deve crescer para o que não é seu». Apoiou a enxada em pé no solo, segurando a ponta do seu cabo com um dos braços. «O documento da terra não vai lhe dar mais milho, nem feijão. Não vai botar comida na nossa mesa.» Retirou papel e fumo do bolso e começou a fazer um cigarro. «Está vendo esse mundão de terra aí? O olho cresce. O homem quer mais. Mas suas mãos não dão conta de trabalhar ela toda, dão? Você sozinho consegue trabalhar essa tarefa  que a gente trabalha. Essa terra que cresce mato, que cresce a caatinga, o buriti, o dendê, não é nada sem trabalho. Não vale nada. Pode valer até para essa gente que não trabalha. Que não abre uma cova, que não sabe semear e colher. Mas para gente como a gente a terra só tem valor se tem trabalho. Sem ele a terra é nada.»"

maio 18, 2025

[Ebook] À Espera do Dilúvio - Dolores Redondo

Título original: Esperando al Diluvio
Ano da edição original: 2022
Autor: Dolores Redondo
Tradução: Ana Maria Pinto da Silva
Editora: Planeta

"Entre 1968 e 1969, o assassino, que a imprensa batizou de John Biblia, matou três mulheres em Glasgow. Nunca foi identificado e o caso continua em aberto até hoje.
Neste romance, passado no início dos anos 80, Noah Scott Sherrington, investigador da polícia escocesa consegue localizar John Biblia, mas no momento de o prender sofre um ataque de coração. Apesar da sua saúde frágil, contra o conselho médico e a recusa dos seus superiores para que continue a perseguir o assassino em série, Noah segue um palpite que o levará a Bilbau, em 1983. Poucos dias antes de um dilúvio varrer a cidade.
Dolores Redondo define-se como «uma escritora de tempestades» e com este novo romance, baseado em factos reais, leva-nos ao epicentro de uma das maiores tempestades do século passado, ao mesmo tempo que retrata uma época de plena agitação política e social. É uma homenagem à cultura do trabalho, cheia de nostalgia de um tempo em que a rádio era uma das poucas janelas abertas para o mundo e, sobretudo, para a música. É também um hino à camaradagem e às histórias de amor que nascem de um capricho.
Uma obra deslumbrante com personagens que nos levam da mais terrível crueldade à esperança no ser humano."

Scott Sherrington, polícia de investigação escocês, vive obcecado por encontrar John Bíblia, um assassino em série, nunca identificado, que anda há décadas a assassinar jovens raparigas. Todas estas raparigas, partilham entre si o facto de estarem menstruadas na altura em que são assassinadas.

Quando Scott parece ter descoberto John Bíblia e se prepara o prender, sofre um ataque cardíaco fulminante. John foge e Scott quase morre, abandonado à beira do rio, num dia de chuva abundante. 
Scott acorda numa cama de hospital e não se lembra de quase nada. Lembra-se que encontrou John, tem a certeza de que era John Bíblia e depois, é só um espaço em branco. Não se lembra de mais nada.

No hospital Scott descobre que quase morreu e que o seu ataque cardíaco foi mais do que um ataque. Scott está gravemente doente, com um problema cardíaco intratável, que a qualquer momento o pode matar de vez. A sua situação clínica exige repouso, boa alimentação e zero stress, tudo aquilo que a vida de Scott não permite. 
Em estado de choque por todas estas novidades, com alguma dificuldade em aceitar a sentença de morte que lhe passaram no hospital, Scott só pensa em apanhar John Bíblia antes de morrer. Sente que mais ninguém o conseguirá fazer e ficar parado à espera que a morte decida que chegou a sua hora não lhe parece ser, sequer, uma opção.

Quando sai do hospital não perde tempo e retoma as investigações que o levam a Bilbau, para onde acredita que John Bíblia fugiu depois de quase ter sido preso por Scott.
Em Bilbau, uma cidade portuária, onde muita gente chega e de onde muita gente sai, Scott encontra pessoas duras e trabalhadoras, que gostam de se juntar para beber e relaxar ao fim de um dia de trabalho. Na verdade, Bilbau não é muito diferente de Glasgow, terra natal de Scott.

Chove copiosamente todos os dias e todo o dia. As pessoas são afáveis desde que não se sintam invadidas na sua privacidade e são genuinamente alegres e generosas não obstante a vida dura que levam.
Em Bilbau, sob disfarce, Scott conhece Maite, a dona de um bar perto da pensão onde está a viver. Apaixona-se por Maite, e luta contra o sentimento porque, na verdade, estando a morrer, não faz muito sentido arrastar outra pessoa para o fim triste que o espera.
Conhece Rafa, um jovem com 16/17 anos, com paralisia cerebral. É um miúdo solitário, discriminado pelos outros miúdos mas que se sente acolhido por Scott, adivinhando o que o trouxe ali e ansioso por poder ajudar.
Conhece ainda Mikael, uma espécie de polícia do sítio, que também acaba por se juntar a Scott e ajudá-lo na perseguição a John Bíblia.

À Espera do Dilúvio, é um policial típico, diria eu, e não digo isto de forma depreciativa. Tem momentos de grande tensão e descrições perturbadoras, que incomodam. Dolores Redondo faz isso bem, tem uma escrita que prende e a história principal está bastante bem construída.

Onde é que este livro me perdeu um pouco? No romance de faca e alguidar de Scott e Maite porque parece forçado. Um amor descoberto depois de uma sentença de morte, em que lhe deram meses, semanas, talvez dias de vida? Parece um pouco o enredo de um daqueles filmes que passam no Star Life, com atores bonitos, paisagens impecáveis, vidas perfeitas e zero argumento e representação. :p

Dispensava também as premonições e as partes mais espirituais de Scott. Não combina com ele, não sei. Parecem-me deslocadas e uma muleta para justificar alguns desenvolvimentos, como se a autora não tivesse capacidade para fazer de outra forma. 

Mas, tirando estes pormenores gostei muito da história e da forma como é contada. Da envolvente chuvosa, escura e húmida que concorre com a alegria dos bascos e com as festas da cidade que não são prejudicadas pela chuva incessante.

Não sendo este o meu género de eleição diria que é um bom livro, com uma boa história, bem escrito e que vale a pena ler. 

Boas leituras!

Excerto:
"Avançou escondendo-se atrás dos troncos e procurando entre o matagal os exíguos raios de luz da Lua, que de vez em quando se infiltravam por entre as densas nuvens de tempestade. O estrondo que as árvores faziam era fenomenal. Os ramos batiam uns de encontro aos outros e Scott Sherrington teve a sensação de que caíam por toda a parte pedaços da ramagem quebrada pela fúria do vento. Tentou concentrar-se; se não o fizesse, corria o risco de caminhar ao acaso e acabar na outra extremidade do bosque. Como se alguém tivesse escutado as suas preces, as luzes traseiras do Capri brilharam no escuro como os olhos de um monstro lendário. O terreno formava ali uma planície, e a folhagem espessa da árvore debaixo da qual Clyde havia estacionado parecia ter mantido o solo razoavelmente compacto à sua volta, mas pela ladeira inclinada atrás de si a água descia formando um pequeno regato natural de água lamacenta. As luzes dianteiras do carro projetavam-se na direção da margem iluminando as bátegas de chuva, que como cortinas embaladas pelo vento ondulavam diante dos faróis do Capri.
Scott Sherrington sobressaltou-se. Sem se dar conta, tinha-se aproximado muito, demasiado."

março 09, 2025

[Ebook] A Amiga Genial - Elena Ferrante

Título original: 
L'Amica Geniale - Infancia, Adolescenza
Ano da edição original: 2011
Autor: Elena Ferrante
Tradução: Margarida Periquito
Editora: Relógio D'Água Editores

A Amiga Genial é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente.
Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro.
Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas acções. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja.
Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração.
O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue.
A Amiga Genial tem o andamento de uma grande narrativa popular, densa, veloz e desconcertante, ligeira e profunda, mostrando os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que os leitores desejariam que nunca acabasse.

Elena e Lila vivem num bairro em Nápoles. Elena, filha de um porteiro municipal e Lila filha do sapateiro. Nunca saíram dos limites do bairro, apenas conhecem as pessoas do bairro e não fazem ideia de como é mundo para além do bairro.

Elena é uma miúda insegura, bonita e inteligente mas insegura. Lila é dura, muito inteligente, sem papas na língua, é rebelde e desafiadora. Parece não se importar com nada, não expressa sentimentos e não parece valorizar a amizade que Elena tem por ela.
Elena tem por Lila uma admiração sem limites e é a sua maior defensora. Vive e cresce, num carrossel de emoções, entre a felicidade de poder partilhar a vida com Lila e o medo que a amiga deixe de a achar interessante. O que a move é a aprovação de Lila, sentir que a amiga a admira ou até que a inveja.  Lila obriga-a a sair da sua zona de conforto. Por causa de Lila continua a estudar para além da instrução primária, por Lila, é a melhor aluna do liceu. Por Lila, é capaz de tudo.

Lila é uma miúda que cresce franzina, meio revoltada e que desabrocha tarde. É muito inteligente, com capacidades acima da média mas, ao contrário de Elena, não consegue que os pais a deixem continuar os estudos e acaba por não conseguir sair da vida castradora do bairro, que a condiciona e limita. Torna-se numa bonita rapariga que atrai todos, especialmente os rapazes. Todos querem namorar Lila e ela não quer namorar ninguém. Mas, nem Lila consegue escapar às teias apertadas que constituem a vida no bairro.

A história passa-se nos anos 50, após o fim da 2ª Guerra Mundial e o bairro é uma pequena comunidade, autossuficiente, onde todos têm um oficio. São pobres, vivem com dificuldade e a Itália acabou de sair de uma guerra. Todos se conhecem, os filhos brincam na rua e mais tarde casam-se uns com os outros. Os negócios passam de pais para filhos. Os meninos aprendem um ofício e as meninas ajudam as mães nas tarefas domésticas até terem idade, elas próprias para casarem e constituírem a sua própria família.
É um sítio violento onde se vive em permanente tensão. Existem quezílias entre famílias, por motivos políticos e não só. 
Os pais são pessoas secas, pouco habituadas a desmonstrações de afecto. Educam os filhos para serem trabalhadores, para ficarem junto deles e contribuírem para a economia da casa.
Só Lila parece destoar, quer ver o que existe para além das ruas do bairro, quer quebrar o ciclo de pobreza e Elena é arrastada pelas fantasias da amiga. Toma-as como suas. É por causa de Lila que provavelmente irá deixar o bairro para trás.

Tinha muitas expectativas para este livro. É um livro sobejamente conhecido que andou nas bocas de todo o mundo, adaptado à televisão pela Max (trailer aqui) e, embora tivesse muitas expectativas, a verdade é que, lá no fundo, sempre achei que talvez não fosse bem a minha praia.
Embora a envolvência seja interessante, com a descrição de Nápoles e com a caracterização das pessoas que habitam o bairro, que são, de certa forma, cativantes, no fim, não consegui sentir grande entusiamo pelo que me estava a ser contado. 
A vida de Lila e Elena pareceu-me aborrecida, repetitiva, com acontecimentos redundantes e, embora o livro até seja grande, parece que nada acontece, nada evolui e a obsessão de Elena por Lila torna-se cansativa. Não sei, a escrita não me pareceu especialmente inspirada e dei por mim a pensar, isto em série ou filme até é capaz de funcionar, mas como livro, não me entusiasma.

A Amiga Genial segue a vidas destas duas miúdas até à adolescência. Para sabermos o que a vida lhes reserva existem mais três livros: História do Novo Nome, A História de Quem Vai e de Quem Fica e História da Menina Perdida.  

Tenho pena de não ter achado nada de especial e, não sei se terei vontade de ler os outros três livros. Talvez me fique pela série.

Boas leituras!


Excerto:
"A nossa amizade começou no dia em que eu e Lila decidimos subir a escadas escuras que, degrau após  degrau, lanço a pós lanço, iam até à porta do apartamento de dom Achille.
Lembro-me da luz violácea do pátio, dos odores de um entardecer ameno de Primavera. As mães estavam a fazer o jantar, eram horas de ir para casa, mas nós deixámo-nos ficar, dando provas de coragem ao desafio, sem dizermos uma palavra. Havia algum tempo que não fazíamos outra coisa, dentro e fora da escola. Lila enfiava a mão e o braço inteiro na escuridão de uma boca de esgoto, e eu fazia o mesmo logo a seguir, com o coração aos saltos, esperando que as baratas não me subissem pela pele e que os ratos não me mordessem.
Lila trepava até à janela do rés-do-chão da senhora Spagnoulo, pendurava-se da barra de ferro a que estava preso o arame da roupa, balançava-se e depois deixava-se cair para o passeio, e eu em seguida fazia o mesmo, embora com medo de cair e de me magoar. Lila espetava sob a pele o alfinete de segurança ferrugento que achara na rua sei lá quando, mas que guardava na algibeira como se fosse o presente de uma fada; eu observava a ponta de metal a abrir-lhe um túnel esbranquiçado na palma da mão, e depois, quando ela o retirava e mo estendia, fazia a mesma coisa.
A certa altura lançou-me um olhar dos dela, firme, de olhos semicerrados, e dirigiu-se para o prédio onde morava dom Achille. Gelei de medo. Dom Achille era o papão das histórias infantis, estava terminantemente proibida de me aproximar dele, de lhe falar, de olhar para ele, de o espiar, tinha de agir como se ele e a família não existissem."

fevereiro 22, 2025

[Ebook] El Descontento - Beatriz Serrano

Título original: 
El Descontento
Ano da edição original: 2023
Autor: Beatriz Serrano
Editora: Temas de Hoy

"La presentadora del pódcast Arsénico Caviar y ganadora del Ondas, debuta con una afilada novela sobre una mujer harta del trabajo. El descontento es la historia de Marisa, una mujer en la treintena que vive anestesiada mediante orfidales y vídeos de Youtube. Solo así es capaz de soportar las rutinas y pesares de su día a día en una agencia de publicidad a la que tan solo acude presencialmente para ahorrar dinero en aire acondicionado durante el sofocante agosto madrileño. Marisa odia el trabajo. Sin embargo, no puede dejarlo: le gustan demasiado las cosas bonitas. La semana previa a un team building organizado por su empresa, la ansiedad de Marisa se dispara; compartir un fin de semana entero con sus compañeros de oficina le resulta insoportable, y el recuerdo enterrado de una tragedia ocurrida en la oficina tiempo atrás vuelve para atormentarla. A medida que pasan los días, su máscara social, tan cuidada y pulida a lo largo de los años, se irá resquebrajando hasta hacerlo volar todo por los aires. Esta es una novela sobre las crisis vividas por cualquier persona que trabaja. Sobre la soledad, la necesidad de vínculos y conexiones y de encontrar la chispa para no tirarse delante de un autobús un lunes por la mañana."

El Descontento é uma história dos tempos modernos. Uma jovem, do meio criativo e publicitário, odeia de forma visceral tudo o que diz respeito ao seu trabalho. Odeia o escritório e todos os seus rituais, odeia os colegas, que mal conhece e que não quer conhecer. Odeia a vida acelerada, as horas desperdiçadas a fingir que está a ser produtiva. Odeia o fingimento de todos e odeia a hipocrisia de todos acharem que o que fazem é importante e que pode mudar o mundo.

Vive atormentada com a sensação de desperdício da sua vida mas, ao mesmo tempo não parece ter motivação para alterar nada. Não pensa em despedir-se, não vocaliza o seu desespero, não tenta fazer diferente de todos os outros que critica. Aparece todos os dias, participa nos rituais, faz o que acha que esperam dela e, deve estar a fazer alguma coisa bem, porque vai sendo promovida e olham para ela como uma espécie de referência na área. Se ao menos pudessem ouvir tudo que lhe passa pela cabeça...

Vamos acompanhando o dia-a-dia de Marisa, a ansiedade de que sofre, a angústia, os pensamentos homicidas e suicidas, a tristeza e a solidão que a acompanham desde que se lembra mas que piorou com a morte da única colega de trabalho que parecia compreende-la. É viciada em vídeos de Youtube, aos quais recorre para tudo na sua vida, para dormir, para relaxar, para "roubar" ideias para o seu trabalho, para aprender pequenos factos sobre tudo e sobre nada. Parece que toda a sua experiência de vida está ligada a um vídeo que viu no Youtube.

Quando a empresa onde trabalha decide organizar um team building, que implicará um fim-de-semana fora com todos os seus colegas de trabalho, Marisa parece começar a ceder à pressão e, embora acabe por perceber que os colegas a podem surpreender pela positiva, o estado mental de Marisa não lhe permite aproveitar o momento.

Parece um livro deprimente mas, a forma como Beatriz Serrano nos expõe os pensamento de Marisa é divertida e com muita ironia à mistura. Embora seja um livro leve, com uma escrita bastante oral, que me permitiu lê-lo na língua original sem grandes dificuldades, está ao mesmo tempo carregado de uma ansiedade, de uma tristeza e de uma espécie de desespero que o bom humor da escrita apenas atenua.

É um livro que nos faz pensar e com o qual todos nós nos conseguimos identificar, de alguma forma.

Gostei bastante. Da escrita, que aproxima Marisa de todos nós, do sentido de humor e, da forma como a história se desenrola. 

Recomendo. Se estiverem numa fase má na vossa vida profissional, recomendo precaução porque, pode ajudar a aligeirar mas também pode piorar o vosso estado mental. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Observo a mi jefe con ganas de estamparle la mandarina en la cara. Me resulta increíble que haya sido capaz de encontrar él solo a dos personas sin piernas pero necesite mi ayuda para encontrar a una mujer.
 - De qué tipo? - pregunto intentando no mostrarme demasiado irritada.
 - No lo tengo claro - dice de manera pensativa -, quizás una mujer que pueda empoderar a otras mujeres, pero también a los hombres.
 - Ajá.
Repaso mi lista mental de vídeos de YouTube, de charlas y ponencias feministas con oradoras excelentes que me he puesto antes de dormir y pienso en las que puedan resultar más descafeinadas, más amables, más empresariales. Una parte de mí se muere del asco, como si estuviera traicionando a mi proprio género.
«Empoderar a los hombres», como si les hiciera falta creerse todavía más su poder. Pienso em charlas sobre brecha salarial, sobre por qué las mujeres abandonan su carrera para cuidar de sus hijos o sobre la carga mental que suponen las tareas del hogar. Pienso en charlas sobre destruir el género, el sexo, el patriarcado. Pienso en charlas sobre el machismo en el lugar de trabajo, sobre la necesidad de políticas igualitarias mejor aplicadas o sobre la falta de compromiso real en las empresas en temas de igualdad. Sé que mi jefe no busca eso, sino que busca una oradora tipo de género feminimo que pueda llenar una hora de tiempo haciendo un montón de variaciones de la frase «Querer es poder». Como todos los demás, tengan o no tengan piernas. Lo único que me pide es una mujer. Cualquier mujer. Quiere llevar a una ponente para que no salten las alarmas, para cubrirse las espaldas, para salvar la reputación. Que se joda. Le lanzo dos nombres de dos charlas que he visto últimamente.
 - La primera de ellas es terapeuta menstrual. - Veo como sus ojos se abren de par en par pero anota su nombre - No te asustes, simplesmente enseña a entender los ciclos menstruales para sacarles mayor partido alegando que a las mujeres nunca se han explicado cómo funciona nuestro ciclo; por ejemplo, dependiendo del momento hormonal en el que estés pudes ser más creativa o estar más encerrada en ti misma o ser más agresiva, y eso puede beneficiarte en tu día a día.
 - Y eso puede servir a los hombres?
 - Bueno, creo que si pueden empatizar con un señor sin piernas también podrán empatizar con una mujer con la regla.
Ramón toma nota, aunque no parece muy convecido.
 - La segunda de ellas es una mujer trans que fue prostituta y ahora escribe, produce y dirige su propria serie en HBO. Tiene un monólogo muy interesante en YouTube que se titula «A mí también me suda el coño», échale un vistazo."

novembro 04, 2024

[Ebook] Luanda, Lisboa, Paraíso - Djaimilia Pereira de Almeida

Título: Luanda, Lisboa, Paraíso
Ano da edição original: 2018
Autor: Djaimilia Pereira de Almeida
Editora: ´Companhia das Letras

"Chegados a Lisboa, Cartola e Aquiles descobrem-se pai e filho na desventura. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo. Será esta amizade capaz de os salvar?

«Se o entendimento entre duas almas não muda o mundo, nenhuma ínfima parte do mundo é exactamente a mesma depois de duas almas se entenderem.»

Luanda, Lisboa, Paraíso, o segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida, é o balanço tocante de três vidas obscuras, em que esperança e pessimismo, desperdício e redenção, surgem lado a lado."

Cartola e Aquiles, pai e filho, partem de Luanda para Lisboa para que Aquiles seja operado ao calcanhar que nasceu torto.
Chegados a Lisboa, o pai Cartola, apesar de achar que tinha tudo planeado, é surpreendido pela dimensão da cidade e pela indiferença das pessoas. Sente-se perdido e desorientado.
Depois a operação acaba por não correr tão bem como esperavam, o tempo vai passando e o regresso a Luanda parece cada vez mais distante.

Em Luanda deixaram Glória (mulher e mãe), doente, e Justina (filha e irmã). Em Luanda, Cartola era completamente dedicado a Glória. Em Lisboa sente pouca vontade de regressar a casa e, não é só por vergonha de as coisas não terem corrido como planeado. A verdade é que, apesar das dificuldades que sente em Lisboa não quer regressar para Glória e a sua doença.
 
Aquiles, adolescente, vê-se preso a uma deficiência que o atormenta, numa cidade que não conhece e que estranha, e a ter de cuidar do pai que parece estar, lentamente, a enlouquecer. Sente vergonha de Cartola por ser tão "estrangeiro" em Lisboa e, sente pena do pai.

É uma história triste que é, certamente, a história de muitos dos que chegam a Lisboa, sem ninguém que os receba, e que os ajude, acabam por ser engolidos pela cidade, empurrados para guetos, condenados à mera sobrevivência.

Gostei bastante da escrita, da história e das personagens e por isso só posso recomendar.
 
Voltarei, certamente a Djaimilia Pereira da Almeida

Boas leituras! 


Excerto:
"O rapaz sorriu. O pai pareceu-lhe jovem. Aquela era a sua segunda juventude. Continuava com a ilusão de que podia começar do princípio. A chuvada dera-lhe uma esperança pasmada, infantil. Não podia impedi-lo de se atirar nos braços de Lisboa e de se magoar. Mas ninguém tinha ensinado a Aquiles como se lidava com um adulto que recomeça, o que fazer diante dele. Ao olhar para a cara do pai, os olhos de Cartola atingiram o filho com uma ingenuidade que o assustou. Parecia ter regredido décadas e ser agora mais novo do que ele. Um horizonte reabria-se para Cartola numa imensidão ponte Aquiles não cabia. O homem que tinha à sua frente não era simplesmente um velho, como começara por lhe parecer no avião, mas um jovem em início de vida, um velho doente, nascido de novo. Aquiles abraçou o pai para o aquecer. Tremia de medo. «Poça, faz frio em Lisboa, Papá.» O pai, ensopado, estava quente por dentro. Tinha os lábios secos contornados num sorriso inocente. Quase dava para ver na cara dele o menino que um dia tinha sido. Aquiles soube que estava sozinho. Ele era o coxo e a bengala. "

outubro 26, 2024

[Ebook] Ecologia - Joana Bértholo

Título: Ecologia
Ano da edição original: 2018
Autor: Joana Bértholo
Editora: Editorial Caminho

"Numa sociedade que se fundiu com o mercado - tudo se compra, tudo se vende - começamos a pagar pelas palavras.

A estranheza inicial dá lugar ao entusiasmo.
Afinal, como é que falar podia permanecer gratuito? Há seis mil idiomas no mundo.
Seis mil formas diferentes de dizer ecologia, e tão pouca ecologia.
Seis mil formas diferentes de dizer paz, e tão pouca paz. 
Seis mil formas diferentes de dizer juntos, e cada um por si."

E se a linguagem e as palavras passassem a ser pagas? Primeiro são só algumas palavras e as pessoas, de uma forma geral, não se opõem. Depois a lista de palavras que são pagas começa a crescer e comunicar começa a ser, quase um luxo. 
No início parece que é para que algumas palavras ou idiomas não morram, para que o vocabulário permaneça rico. É para estudar a linguagem, perceber o que nos distingue como seres humanos. No fim, acaba por ser, como é natural, uma questão de poder e dinheiro. 

Gostei da escrita, muito fluída e oral. Gostei da história e embora não seja um livro muito fácil de ler, há imensas coisas que fogem ao meu entendimento, a verdade é que se lê muito bem.

Não sendo um livro fácil de ler, também não é um livro fácil de comentar. Tem camadas e mais camadas. :)

Gostei muito e recomendo. Joana Bértholo é para manter debaixo de olho.

Boas leituras! 

Excerto:
"O anúncio foi feito esta manhã, em Dublin, na sede da multinacional Gerez: As palavras BERÇO, ENTRETANTO e INGREDIENTE estão entre as primeiras cinquenta palavras sujeitas ao período de testes do Plano de Revalorização da Linguagem. A Gerez, empresa mediática graças à recente polémica em torno da privatização do genoma humano, é também célebre pela sua directora-executiva, Darla Walsh, que esteve mais de três horas a responder à imprensa internacional. O tema que suscitou mais perguntas foi a taxação dos termos. Walsh explicou: «Cada palavra tem um sentido e um peso diferentes, e por isso o valor de cada uma delas varia, como as pessoas vão ter oportunidade de experienciar nos próximos meses. O objectivo é estarmos todos mais conscientes do que dizemos, mais atentos ao modo como falamos. Tenho a certeza de que, a partir de agora, as pessoas vão deixar de falar por falar. Isso vai necessariamente enriquecer-nos, às nossas relações e à nossa vida enquanto comunidade.»
A apresentação do projecto incluiu simuladores que os próprios jornalistas puderam testar, e assim compreender o dispositivo que permitirá, doravante, a taxação do que é dito. Durante a conferência de imprensa, Walsh partilhou as motivações pessoais para este ambicioso projecto: «Falo onze idiomas e sou fascinada por línguas. Quero encontrar a sua raiz universal, perceber como tudo começou, como funciona... Com a tecnologia disponível, isso é possível. Estamos a poucos passos de conseguir computar todas as emissões humanas e, quando o fizermos, vamos poder aprender coisas inimagináveis. Uma nova era, uma transição só comparável à da roda, do fogo, ou à introdução da linguagem escrita.»
Eloquente e rigorosa, Walsh falou sobre como a linguagem faz de nós humanos, a ligação entre as nossas identidades culturais e os diferentes idiomas, e o quão pouco sabemos sobre as suas origens. Referiu-se também à actual desvalorização da palavra, a uma cultura de opinião em que já não se distingue um facto de uma «pós-verdade», na qual «o jornalismo, a literatura e as relações interpessoais perderam o norte». Reforçou a ideia de que «somos gratuitos a falar» e anunciou como missão da Gerez e do seu Plano de Revalorização da Linguagem rectificar isso.
Segundo nos foi possível apurar, às listas internacionais, ditadas pela Gerez/CCM, cada Mercado irá ter autonomia para emitir as suas próprias listas, consoante o idioma e a cultura. O Mercado do Português©, por exemplo, revalorizará, na Primeira Vaga, as palavras «peúga» e «cimbalino», enquanto o Mercado do Português do Brasil© reconhecerá termos como «grampeador» e «bunda»."