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fevereiro 25, 2017

[Filme] Batalha Incerta


Título Original: In Dubious Battle
Realização: James Franco
Duração: 1h50min
Origem: EUA

Sinopse:
In the California apple country, nine hundred migratory workers rise up "in dubious battle" against the landowners. The group takes on a life of its own-stronger than its individual members and more frightening. Led by the doomed Jim Nolan, the strike is founded on his tragic idealism-on the "courage never to submit or yield." Published in 1936, In Dubious Battle is considered the first major work of Pulitzer Prize-winning author John Steinbeck.

In Dubious Battle - Batalha Incerta. O filme baseado na obra-prima e homónima, de John Steinbeck. 

Não será o melhor filme de 2017, mas é um filme que vale a pena ver pela história e pelo facto de ser baseado no livro de um escritor único e inigualável que nunca desilude.

Trailer:


dezembro 07, 2016

A Prayer for Owen Meany - John Irving

Título original: A Prayer for Owen Meany
Ano da edição original: 1989
Autor: John Irving 
Editora: Harper

"«I am doomed to remember a boy with a wrecked voice not because of his voice, or because he was the smallest person I ever knew, or even because he was the instrument of my mother's death, but because he is the reason I believe in God; I am a Christian because of Owen Meany.» In the summer of 1953, two eleven-year-old boys - best friends - are playing in a Little League baseball game in Gravesend, New Hampshire. One of the boys hits a foul ball that kills the other boy's mother. The boy who hits de ball doesn't believe in accidents; Owen Meany believes he is God's instrument. What happens to Owen, after that 1953 foul ball, is extraordinary."

John Irving é um dos meus escritores favoritos, não é segredo. Gosto particularmente da forma como nos permite acompanhar a vida das personagens, desde que nascem até ao dia em que morrem. Também gosto do sentido de humor que está presente em todos os livros que já li dele.

Este, A Prayer for Owen Meany, não me encheu as medidas e sinto que estou a cometer, quase uma heresia, porque as opiniões que tenho lido são todas tão boas que sinceramente fico um pouco constrangida. Para mim, neste livro, John Irving alongou-se demais, e sinto que o livro se tornou um pouco repetitivo. Por outro lado, não senti qualquer empatia com Owen Meany. Não sei se estava à espera que ele fosse mais "adorável", o que também não faz muito sentido, conhecendo John Irving, dificilmente Owen seria "adorável". Isto, aliado ao tema da fé e da religião, fez com que este livro, não me tivesse tocado particularmente. Não me identifiquei com o tema, com as personagens e com as sua angustias e julgo que foi, essencialmente por isso, que não me encheu as medidas.

No que à história diz respeito, não há muito a acrescentar ao que já é dito na sinopse.
O narrador desta história fantástica, quase uma versão alternativa da vida de Cristo, é John Wheelwright o melhor amigo de Owen Meany. John é neto da mulher mais rica e respeitada de Gravesend, New Hampshire e Owen é filho do dono de uma pedreira da cidade. John é um miúdo normal, sem nada que o destaque das outras crianças, a não ser o facto de não saber quem é o seu pai. Owen é a pessoa mais pequena que Gravesend conhece, possui uma voz estridente, é inteligente e é a pessoa mais obstinada e tenaz que John alguma vez conheceu ou viria a conhecer na sua vida. A história gira à volta destes dois e da amizade que os une, mesmo depois de Owen ter, acidentalmente, morto a mãe de John num jogo de basebol.
Owen acredita que Deus tem uma missão para ele, missão essa que lhe é revelada num sonho recorrente. Depois de, durante a peça de Natal onde faz de menino Jesus, ter uma visão, onde vê a sua lápide com o dia e ano em que morreu, Owen passa a ter a certeza de que sabe onde, quando e como vai morrer. John não acredita em nada do que o amigo diz e faz tudo para o convencer de que é apenas um sonho.
A verdade é que Owen passa a viver em função daquilo que julga ser certo e imutável. Prepara-se para aquele dia, fazendo tudo para estar onde acha que Deus lhe disse para estar naquele dia. Até que ponto é ele quem provoca a sua morte? Até que ponto poderia ter sido diferente? Não sabemos. Ninguém sabe e ninguém pode saber.
John, quase sem se aperceber é absorvido pela força de Owen. Tudo aquilo que conquista e todas as suas escolhas acabam por ser condicionadas por Owen, que parece saber exactamente por onde John deve seguir e o que é melhor para amigo. Quase que deixa tudo preparado e encaminhado para que John não se perca depois de ele morrer. E John não se perde, mas também não avança muito, preso a uma personagem inesquecível e a uma história difícil de acreditar. É agora crente mas, como São Tomé, precisou de ver para crer.

E, sem entrar em mais pormenores, é isto.

Embora tenha sido um livro que me pareceu longo demais, lê-se relativamente bem. Tem o cunho de John Irving espalhado pelas páginas, no entanto, para mim não tem John Irving suficiente. Não posso, no entanto, não recomendar a leitura. Acho que, embora não sendo um livro para toda a gente, é um livro que vale a pena ler.

Boas leituras!

Excerto (pág. 79):
"And so that day after Thanksgiving, when Owen Meany met my cousins, provided me two very powerful images of Owen - especially on the night I tried to get to sleep after the foul ball had killed my mother. I lay in bed knowing that Owen would be thinking about my mother, too, and that he would be thinking not only of me but also of Dan Needham - of how much we both would miss her - and if Owen was thinking of Dan, I knew that he would be thinking about the armadillo too."


Este foi uma das histórias de John Irving que serviu de inspiração ao cinema - Simon Birch. Fica aqui o trailer:

fevereiro 15, 2016

O Nome da Rosa - Umberto Eco

Título original: Il Nome della Rosa
Ano da edição original: 1980
Autor: Umberto Eco
Tradução: Jorge Vaz de Carvalho
Editora: Gradiva

"Um estudioso descobre casualmente a tradução francesa de um manuscrito do século XIV: o autor é um monge beneditino alemão, Adso de Melk, que narra, já em idade avançada, uma perturbante aventura da sua adolescência, vivida ao lado de um franciscano inglês, Guilherme de Baskerville.
Estamos em 1327. Numa abadia beneditina reúnem-se os teólogos de João XXII e os do Imperador. O objecto da discussão é a pregação dos Franciscanos, que chamam a igreja à pobreza evangélica e, implicitamente, à renúncia ao poder temporal.
Guilherme de Baskerville, tendo chegado com Adso pouco antes das duas delegações, encontra-se subitamente envolvido numa verdadeira história policial. Um monge morreu misteriosamente, mas este é apenas o primeiro dos sete cadáveres que irão transtornar a comunidade durante sete dias. Guilherme recebe o encargo de investigar esses prováveis crimes. O encontro entre os teólogos fracassa, mas não a investigação do nosso Sherlock Holmes da Idade Média, atento decifrador de sinais, que através de uma série de descobertas extraordinárias, conseguira no final encontrar o culpado nos labirintos da Biblioteca."

E aqui está, Umberto Eco, um dos meus autores favoritos. Não sei do que gosto mais, se da escrita, das histórias, do sentido de humor discreto, ou do desafio constante que é cada livro dele, a nível mental. 
O Nome da Rosa é uma releitura. Li-o há muitos anos e foi um daqueles livros de que gostei, adivinhando apenas uma ínfima parte da grandeza do autor que tinha acabado de conhecer. Foi um daqueles livros, à semelhança do primeiro que li de Saramago, Memorial do Convento, que me fez pensar, provavelmente tropecei em ti demasiado cedo. No entanto, deixaram-me uma impressão tal que olho para eles, até hoje, como sendo dos principais responsáveis pela leitora que sou hoje. :)

Esta reedição, do primeiro romance de Umberto Eco, com uma nova tradução (chancela Gradiva) de uma edição revista pelo próprio autor, pareceu-me uma óptima oportunidade para colmatar esta lacuna nas minhas estantes, e para voltar a reler um livro que me tinha deixado muito boas impressões.

O Nome da Rosa é, à semelhança de outros do autor, um livro pesado, em termos históricos e culturais, que nos inunda com conhecimento e factos até ao último ponto final. Não nego que às vezes o achei demasiado denso, mais maçudo que os outros que já li dele, estes sobre temas ou épocas até mais obscuras para mim do que a que é retratada neste. No entanto, e mais uma vez, a escrita de Umberto Eco leva-nos de um extremo ao outro, aliviando a pressão na leitura de forma hábil e, quando damos por ela, estamos na última página e de sorriso no rosto. :)

Como diz na sinopse, a ação de O Nome da Rosa passa-se em plena idade média numa abadia beneditina, numa altura em que a inquisição reinava. A abadia foi o lugar escolhido para uma histórica reunião entre os teólogos do Papa João XXII e do Imperador Luís IV. Nela, os seguidores de João XXII e do Imperador esgrimem argumentos sobre os Franciscanos, para uns - os seguidores de João XXII - não passam de hereges que devem arder na fogueira, para outros - os do lado do Imperador - um grupo de homens que pregam a pobreza, a abnegação e a ajuda ao próximo como forma de viver a religião e o amor a Deus.
Guilherme de Baskerville, ele próprio um franciscano chega à abadia, acompanhado de Adso de Melk, um adolescente curioso, seu discípulo e escrivão e o narrador desta história. Guilherme viaja até à abadia com a missão de mediar a reunião que vai ocorrer e acaba envolvido numa investigação policial. No dia em que chegam, os monges lidam com a morte misteriosa de um dos seus jovens monges. Conhecendo o poder de dedução de Guilherme de Baskerville, o abade pede-lhe que tente trazer alguma luz à misteriosa morte de um dos seus irmãos, antes que toda a delegação chegue para a reunião. Mas, nem Guilherme, com o seu extraordinário raciocínio, e muito menos Adso de Melk, poderiam prever a dimensão da tragédia que está para se abater sobre a abadia...

Todas as mortes violentas que ocorrem na abadia, parecem estar ligadas à biblioteca, uma das maiores e mais ricas bibliotecas do mundo. O acesso à biblioteca era muito restrito. Existem livros perigosos, o conhecimento deve ser partilhado apenas com alguns, e de acordo com o critério de poucos. Existem livros que nunca deveriam ter sido escritos porque podem pôr em causa toda a religião e a forma como é pregada e praticada. Existem outros livros cujos ensinamentos devem ser mantidos no seio de um grupo restrito e privilegiado para que não seja diminuída a importância destes na sociedade. Existem pessoas capazes de tudo para defender um ideal, uma visão e, especialmente existem pessoas capazes de tudo quando acreditam estar a fazer a vontade de Deus.

O Nome da Rosa é muito mais do que um policial, e também o retrato de um época onde a Igreja tinha muito poder e lutava, com todas as armas, para manter e aumentar a influência que tinha sobre as pessoas. Uma época onde, ao mesmo tempo até se respirava algum desejo de mudança, com algumas correntes a pregarem uma maior aproximação às vidas dos fiéis, ao despojamento de bens materiais e a uma vida dedicada aos outros. 
Uma época onde a ciência ainda era vista como uma heresia, algo que punha em causa a existência de Deus. A luta interna dos homens de fé que, ao mesmo tempo, tinham sede de conhecimento, muitos deles forçados a uma vida eclesiástica como único meio para aceder a esse mesmo conhecimento.Um equilíbrio difícil de manter, principalmente de manter longe das fogueiras da Santa Fé. :/

Resumindo e baralhando, O Nome da Rosa é um livro que devem ler, numa altura da vossa vida em que tenham uma maior disponibilidade mental porque vai valer muito a pena. Umberto Eco é um autor que não podem deixar passar ao lado.

Boas leituras!

Excerto (pág. 174):
" - Digo que muitas destas heresias, independentemente das doutrinas que defendem, encontram sucesso entre os simples, porque lhes sugerem a possibilidade de uma vida diferente. Digo que, muito amiúde, os simples não sabem muito sobre doutrina. Digo que aconteceu frequentemente que turbas de simples confundiram a pregação cátara com a dos patarinos, e esta em geral com a dos espirituais. A vida dos simples, Abbone, não é iluminada pela sabedoria e pelo sentido vigilante das distinções que nos fazem sábios. E está obcecada com a doença, com a pobreza, tornada balbuciante pela ignorância. Muitas vezes, para muitos deles, a adesão a um grupo herético é apenas uma maneira, como outra qualquer, de gritar o próprio desespero. Pode-se queimar a casa de um cardeal seja porque se quer aperfeiçoar a vida do clero, seja porque se julga que o Inferno que ele prega não existe. Isso faz-se sempre porque existe o inferno terreno, em que vive o rebanho de que nós somos pastores."


Deixo-vos o trailer da adaptação para o cinema do livro de Umberto Eco, The Name of The Rose, com o fantástico Sean Connery. Do que me lembro é bastante fiel à história do livro.

janeiro 26, 2014

Desgraça - J. M. Coetzee

Título original: Disgrace
Ano da edição original: 1999
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: José Remelhe
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Com cinquenta e dois anos, o professor David Lurie perde o emprego e os amigos depois de um romance com uma das suas alunas, refugiando-se na quinta da filha, Lucy. As tentativas de David para se relacionar com Lucy e com uma sociedade feita de novas complexidades raciais são perturbadas por uma tarde de violência que os vai modificar, a ele e à filha, de uma forma que ele jamais poderia prever." 

J. M. Coetzee é um autor para o qual não devemos partir de ânimo leve. As suas histórias têm uma espécie de força para a qual temos de estar preparados . A violência, não apenas física, que lá vamos encontrar é, à falta de melhor palavra, desconcertante e toda a dinâmica que ele cria chega a ser desconfortável. 
Quando o título do livro é Desgraça, não podemos dizer que fomos apanhados desprevenidos.

(pode conter spoilers)

Desgraça passa-se na África do Sul, o país que todos conhecemos pelas piores razões, mesmo que pelo meio surjam coisas boas, quando o nome África de Sul surge, a nossa primeira reacção é, naturalmente, de apreensão. David Lurie é um dos brancos daquele país, tem cinquenta e dois anos, divorciado, com uma filha e professor universitário na Cidade do Cabo. Dá aulas apenas porque precisa da estabilidade financeira, não sente qualquer vocação e não sente por parte dos seus alunos qualquer afeição ou interesse particular pelas suas palestras literárias.
É, ao mesmo tempo, obstinado e fiel aos seus princípios, não pensa no país como sendo preto e branco, vê pessoas e principalmente vê mulheres, miúdas mais novas que lhe despertam interesse. É o que acontece com Melanie, uma das suas alunas com quem acaba por se envolver. Gosta dela, para além do físico, e em plena crise de meia idade, não vê qualquer sinal de perigo na relação que mantém com a rapariga. Naturalmente, nem tudo corre como esperado e David, após uma espécie de julgamento académico, levado a cabo pelos seus pares na universidade, é expulso da instituição, acusado de assédio sexual. Para além da questão moral, que é discutida por alguns colegas de David, principalmente colegas femininas, a sensação que fica é que, David foi expulso porque não entrou no jogo da expiação e remorso que os seus colegas teriam desejado. Não precisavam  de remorso verdadeiro apenas de um pedido de desculpa que David nunca esteve disposto a pedir. Desculpa porquê? Nunca fez nada de mal.

Sem nunca alcançar a gravidade do que lhe aconteceu mas sabendo que o melhor é desaparecer por uns tempos, parte para o interior, para viver uns tempos com a filha Lucy. E é aqui que tudo começa. É engraçado como deste livro de Coetzee as referências que tinha eram apenas a da história inicial, da relação da personagem com uma aluna e dos problemas raciais à volta. Na realidade esta é apenas uma parte da história e que fica mais ou menos resolvida assim que ele parte para junto da filha. A história com Melanie parece servir apenas para nos dar a conhecer David, a forma como vive e o que pensa. Serve também para mostrar dois mundos distintos, o meio urbano onde todos tentam ser o mais civilizados possível, e o meio rural onde a violência é uma realidade e a questão racial é um problema muito mais concreto.

A filha de David, já adulta, vive sozinha numa quinta no interior do país. Cultiva hortaliças, planta flores e tem um canil. É uma mulher branca a viver sozinha numa quinta e David não percebe como a filha não vê os perigos que isso pode trazer. Para Lucy, o pai é um homem da cidade, instruído e que vem para ali cheio de preconceitos e que simplesmente não percebe que a felicidade está nas coisas simples, trabalhar no campo, ajudar animais em perigo e viver de forma a não ofender ninguém. Ela acredita que vivendo de forma honesta, sem tiques de proprietária colonialista, nada de mal lhe pode acontecer. David acaba por se ir adaptando à vida no campo, ao contrário do que a filha pensa, ele não é um pseudo-intelectual preconceituoso. Ambos têm muito a aprender um com outro. Na verdade David gosta da oportunidade que a vida lhe está a dar para conhecer melhor Lucy, a filha independente que sempre fez o que quis, sem precisar de grande orientação por parte dos pais. Acima de tudo, existe em David uma necessidade de encontrar um lugar no mundo onde se possa sentir útil. Para David envelhecer não tem sido pacífico, principalmente por causa das mulheres, o seu calcanhar de Aquiles. :) Por isso pretende aproveitar toda a história com a aluna para recuperar o tempo perdido com a filha e ser um pai mais presente, protegê-la dos perigos e se conseguir sair de todo este processo uma melhor pessoa tanto melhor.

Infelizmente os receios de David acabam por ser concretizar no dia em que os dois são atacados na propriedade de Lucy, por um grupo de homens, quase uns miúdos, que fazem mais do que roubar o carro de David. A violência, mais insinuada do que descrita, é revoltante e as consequências vão muito para além do físico. 
David martiriza-se por não ter conseguido proteger a filha. Lucy após um período de isolamento, encontra uma forma de despersonalizar o que lhe aconteceu e tenta contextualizar, justificar o comportamento dos homens que a atacaram. Ela começa a encarar tudo aquilo como o preço a pagar para poder permanecer ali, como se a violência de que foi vítima estivesse escrita nas condições contratuais que vinham com a compra do seu pedaço de terra. Existe a partir dali uma dinâmica entre as personagens que é desconcertante. Com o pai a não saber lidar com as ideias de uma filha que achava ser mais inteligente, mais livre e evoluída, no seu entender. Sem conseguir perceber a teimosia da filha em querer continuar ali, a viver, lado a lado com um dos miúdos que violou. A lidar com a culpa, completamente incapaz de convencer a filha a sair daquele lugar, a relação entre os dois degrada-se. David regressa à Cidade do Cabo, apreensivo por deixar Lucy sozinha mas consciente de que lhe faz mais mal que bem, naquele momento. Volta para um cidade que já não reconhece e que deixou de o aceitar. Percebe finalmente o que precisa de fazer relativamente a Melanie e à família desta, pede perdão, e volta para junto da filha que, quer ela saiba quer não, precisa mais dele do que imagina. Volta redimido e predisposto a retirar-se da equação e concentrar-se na recuperação física e psicológica da filha.

Desgraça é um livro violento, com personagens difíceis de esquecer, complexas e inesperadas, que nos exasperam e nos comovem. Gosto de Coetzee e do que faz com as palavras. Gosto da forma como conta uma história e de como cria em nós, leitores, empatias. 

É um livro que deve ser lido, por toda a carga emocional e humana que transporta e porque Coetzee é realmente um escritor muito bom. 

Boas leituras!

Excerto:
"(...) Na minha opinião, aquilo que me aconteceu só a mim diz respeito. Noutra época, noutro local, talvez pudesse ser considerado um assunto público. Mas, neste local, nesta época, não é. É um assunto meu, apenas meu.
 - E a que local te referes?
 - A África do Sul.
 - Não concordo. Não concordo com o que estás a fazer. Pensas, porventura, que ao aceitares pacificamente o que te aconteceu, conseguirás diferenciar-te de agricultores como o Ettinger? Pensas, porventura, que o que aconteceu aqui foi um teste: se tiveres boa nota, recebes um diploma e um salvo-conduto para o futuro, ou uma tabuleta para colocares por cima da porta que fará com que a praga passe sem te atacar? Não é assim que a vingança funciona, Lucy. A vingança é como um incêndio. Quanto mais devora, mais fome tem."

Fica o trailer do filme inspirado na obra de J. M. Coetzee - "Disgrace" de Steve Jacobs, com John Malkovich no papel de David Lurie:

fevereiro 24, 2013

[Filme] A Vida de Pi

Título Original: Life of Pi
Realização: Ang Lee
Duração: 127 min
Origem: EUA

Finalmente arranjei um tempinho para ver a adaptação ao grande ecrã da inesquecível obra de Yann Martel e gostei bastante. Está muito fiel ao livro e as cenas com os animais estão assustadoramente realistas. Embora possa parecer estranho, acho que posso dizer que os actores foram bem escolhidos, porque embora o grande protagonista seja de facto Pi, se houvesse um óscar para os "actores" animais, Richard Parker teria que estar na lista de nomeados.
Ang Lee conseguiu transmitir a beleza visual descrita por Yann Martel sem esquecer o que realmente impressiona no livro, a história e o que a faz tão surpreendente.

Confesso que tinha algum receio que viesse a ser um filme "pipoca" mas, felizmente não foi esse o caso. É um bom filme, visualmente impressionante, com boas actuações e a história de Pi é algo que vale mesmo a pena conhecer. 
Espero que, para quem nunca leu o livro, A Vida de Pí seja tão surpreendente como foi o livro para mim. Para quem já leu o livro, talvez o filme, por ser tão tão fiel à obra, seja mais um regresso a um local que nos deixou muitas e boas recordações. :)

Qualquer que seja o caso, vejam!

julho 29, 2012

[Filme] A Vida de Pi


Entretanto está marcada a estreia do filme baseado na obra de Yann Martel, A Vida de Pi (já comentado aqui), para dia 29 Novembro de 2012, nos EUA. 

Acho este livro muito complicado de adaptar ao cinema, no entanto parece que Ang Lee parece ter conseguido.

O trailer deixa-me algumas reservas, visualmente parece muito bonito, quanto à história... O melhor é esperar para ver! :)

Fica o trailer:


julho 12, 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto

Título original: Terra Sonâmbula
Ano de edição: 1992
Autor: Mia Couto
Editora: Editorial Caminho

"Primeiro romance do moçambicano Mia Couto, já bem conhecido e apreciado pelo público português, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo os recentes tempos de guerra em Moçambique, da qual traça um quadro de um realismo forte e brutal.
Dentro deste cenário de pesadelo movimentam-se personagens de uma profunda humanidade, por vezes com uma dimensão mágica e mítica, todos vagueando pela terra destroçada, entre o desespero mais pungente e uma esperança que se recusa a morrer. 
Terra Sonâmbula é um romance admirável, sem dúvida uma das melhores obras literárias que nos últimos anos se escreveram em português."

Li este livro pela primeira vez há uns largos anos. Na altura, pouco percebi, no entanto gostei.
Porque é que gostamos de coisas que não percebemos? Talvez aquilo que não percebemos nos intrigue, nos desperte para o desconhecido e nos ajude a alargar horizontes e a sair da nossa zona de conforto.
Terra Sonâmbula, deve ter sido o primeiro livro "estranho" que li. Estranho na escrita, com personagens difíceis de conceber mas com uma linguagem que, embora não conseguisse captar na sua totalidade, não me era tão estranha assim. Um livro cheio de palavras inventadas que mostrou que uma história não tem de ser regrada e cheia de barreiras gramaticais. Quando se conseguem quebrar barreiras e ultrapassar preconceitos, a linguagem deixa de ser rígida e é possível reinventar toda a língua e as palavras tem o significado que lhe queremos dar. Não deixa de ser reconfortante que nem tudo na vida tenha de fazer sentido. Sabendo isso é mais fácil apreciar as coisas que realmente importam e a beleza de uma nova linguagem, a linguagem dos sonhos, dos sentimentos, a linguagem mais próxima da primeira palavra proferida pelo Homem há milhares de anos atrás.

Mia Couto é irrepreensível na forma como nos conta uma parte da história de Moçambique, apoderando-se dos sonhos dos dois jovens Muidinga e Kindzu. É um livro cuja beleza reside na forma como está escrito e nos sentimentos nobres que o escritor tão bem descreve. Tudo o resto é feio e angustiante, igual a todas as guerras.

Este é um livro difícil de descrever e de comentar porque embora fale de assuntos muito concretos e muito reais, fá-lo de uma forma pouco palpável e qualquer tentativa, da minha parte, para tentar fazer ver o porquê de este ser um livro especial e que não devem deixar de ler, seria uma tentativa inútil de chegar perto da qualidade literária de Mia Couto.
Por isso vou-me limitar aquilo que consigo transmitir por palavras "normais".


Em Terra Sonâmbula, Mia Couto fala-nos de um país destruído pela guerra, onde as pessoas se sentem perdidas e desenraizadas. Todos são órfãos de alguma espécie, todos perderam e têm a certeza de que vão continuar a perder. Muidinga é um rapaz, de idade um pouco indefinida, é jovem mas não consegui perceber quão jovem seria, que foi salvo por Tuhair. Sem qualquer memória do que lhe aconteceu, o rapaz tem como única referência este homem que foge de algo ou de alguém que não identifica. Encontram abrigo num machimbombo incendiado à beira da estrada, uma estrada que parece ela própria deslocar-se. Toda a paisagem envolvente parece mudar, como se não fossem só as pessoas a deslocarem-se, fugindo da guerra, de um conflito que não conseguem perceber. Como se toda a terra fosse sonâmbula e caminhasse sem destino certo.
Perto do machimbombo Muidinga encontra uns cadernos, junto a um cadáver. Estes cadernos foram escritos por Kindzu, mais um jovem sem idade, porque as crianças da guerra parecem-nos sempre mais velhas, precocemente envelhecidas. Nos seus cadernos Kindzu registou a viagem que iniciou com o objectivo de se tornar um naparama, figuras temidas pela população por serem uma espécie de exército de almas guerreiras, abençoadas pelos feiticeiros e que lutavam contra a guerra. O relato da aventura de Kindzu passa a ser uma parte importante na vida de Muidinga e Tuhair, permitindo-lhes evadir-se da vida triste e temerosa que levam no machimbombo destruído. Com os cadernos de Kinzu a capacidade de sonhar e a esperança de um futuro mais risonho mantêm-se vivas!

Terra Sonâmbula foi o primeiro livro de Mia Couto e a "brincriação" com as palavras é genial e refrescante. É curioso voltar a uma obra mais antiga de um escritor que têm evoluído na forma como escreve, tornando-se mais maduro. As últimas obras dele são mais "normais" mas igualmente boas. São apenas uma outra vertente de um escritor que acredito, escreveria novamente e com a mesma qualidade Terra Sonâmbula.
O livro para além da guerra e das pessoas que nela se vêm envolvidas, fala nas tradições, nas crenças de uma sociedade fechada e muitas vezes preconceituosa.
Com este livro veio-me à memória um dos pouco poemas que conheço e recordo (não sou dada à poesia) do tempo da escola, "Pedra Filosofal" de António Gedeão:

"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."


Obra de leitura obrigatória!

Boas leituras!

Excerto (um dos infinitos possíveis de escolher):
"Na realidade, eu já desistira de escutar. Pensava sobre as semelhanças entre mim e Farida. Entendia o que me unia àquela mulher: nós dois estávamos divididos entre dois mundos. A nossa memória se povoava de fantasmas da nossa aldeia. Esses fantasmas nos falavam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português. E já não havia aldeias no desenho do nosso futuro. Culpa da Missão, culpa do pastor Afonso, de Virgínia, de Surendra. E, sobretudo, culpa nossa. Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava. Não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com os olhos postos no mar."

Deixo-vos ainda o trailer do filme Terra Sonâmbula, de Teresa Prata, baseado neste livro de Mia Couto:


junho 21, 2012

Por Favor Não Matem a Cotovia - Harper Lee

Título original: To Kill a Mockingbird
Ano da edição original: 1960
Autor: Harper Lee
Tradução: Fernando Ferreira-Alves
Editora:Difel

"Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos os dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX."


Não sei por onde começar... Por um lado tenho imensas coisas para dizer, por outro, o que dizer sobre este livro fabuloso, emocionante e divertido? Harper Lee escreveu um único livro e, fê-lo tão bem, que ficou sem palavras, optando por não escrever mais nada.

A história passa-se numa pequena cidade do sul dos EUA, em Maycomb, nos anos 30, em plena Grande Depressão, no seio de uma comunidade conservadora e fechada. 
Scout Finch é uma menina de 7 anos, rebelde e maria-rapaz, é extremamente inteligente e possui uma inocência desarmante. O irmão, Jem, uns anitos mais velho é o seu companheiro inseparável de brincadeira. Juntamente com Dill, o rapaz que passa os Verões em casa da tia, vizinha dos Finch, formam um trio maravilha, cujas brincadeiras acabam muitas vezes em castigo. Um preço baixo a pagar pelo excesso de imaginação. :)
Atticus Finch é pai de Scout e Jem, viúvo e advogado, é um pai invulgar para a época, deixando as crianças mais ou menos à vontade e tratando-os sempre como seres inteligentes e capazes, e não como meras crianças. A relação deste com os filhos é fantástica porque, embora estes o tratem pelo nome, muito raramente o chamam de pai, o carinho que os une é indiscutível e notório. As personagens são, a par da história, um dos pontos mais fortes deste livro.

Quando Atticus é escolhido para defender em tribunal um negro acusado de violar uma jovem branca, a vida da família Finch sofre alguns percalços, com os habitantes de Maycomb a não tolerarem que Atticus trabalhe para os "pretos". Muitas destas pessoas admitem até a inocência do rapaz, no entanto nem lhes passa pela cabeça ilibá-lo do que quer que seja, nunca quando do outro lado está um branco, mesmo que um não muito estimado na comunidade.

São estas contradições, estes defeitos de carácter que Scout e Jem vão estranhando, ao longo de todo o processo, e questionando, uma vez que, na sua inocência de pessoas bem criadas, não conseguem perceber o conceito de racismo.
Por Favor Não Matem a Cotovia é um livro que mais do que tudo fala de respeito. Respeito pela diferença, respeito pelo espaço dos outros, pelas opiniões dos outros e respeito pelos mais velhos. O facto de não se focar apenas no racismo poderá ser umas das razões que o tem destacado, ao longo dos anos, de toda a literatura que existe sobre o tema. No entanto, acredito que é o tom despretensioso com que é escrito, onde nenhum ponto de vista é imposto, que o tornam na obra incontornável e actual que é. Quem ainda acredita que é na cor da pele que reside o nosso valor como seres humanos não se sentirá ofendido ou espicaçado com a leitura deste livro, no mínimo sentir-se-à envergonhado por nunca se ter apercebido de algo tão óbvio e de ter precisado que uma criança de 7 anos lho explicasse.

Para além dos temas mais ou menos pesados, o livro é naturalmente muito divertido pois, Scout, Jem e Dill são crianças maravilhosas. A leitura é muito fluída, não só porque a escrita é muito acessível mas porque as personagens estão todas muito bem desenvolvidas e a autora consegue manter-nos, enquanto leitores, sempre interessados na história.

Gostei muito e por isso, recomendo, sem quaisquer reservas.

Boas leituras!

Excerto:
"Tinha a sua própria visão das coisas, talvez bastante diferente da minha... filho, eu disse-te que se tu não tivesses perdido a cabeça, eu ter-te-ia mandado ler para ela na mesma. Queria que visses qualquer coisa nela...queria que visses o que é a verdadeira coragem, em vez de pensares que coragem é um homem com uma arma nas mãos. Coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim. Raramente se ganha, mas às vezes conseguimos. E Mrs. Dubose ganhou, do princípio ao fim, da cabeça aos pés. Segundo a sua visão das coisas, ela morreu livre e sem dever nada a ninguém. Era a pessoa mais corajosa que já conheci."

Nota: Existe pelo menos um filme baseado na obra de Harper Lee: "To Kill a Mockingbird". Fica aqui o trailer:

fevereiro 19, 2012

[Filme] A Solidão dos Números Primos

Título Original: La Solitudine dei Numeri Primi 
Realização: Saverio Costanzo
Duração: 118 min
Origem: Itália

Sinopse:
Alice e Mattia. Torino. Duas crianças da mesma idade cujas consciências são marcadas por um trauma profundo que de nunca se libertarão. Conhecem-se. Poderiam amar-se. Separam-se (ele aceita um emprego na Alemanha e ela casa-se). Poderiam voltar a encontrar-se se permitissem a si próprios o que, de uma forma ou de outra, sempre se proibiram.

Depois de ler o livro, já opinado aqui, que adorei, fiquei com curiosidade para ver como tinha sido feita a adaptação para o cinema desta história, porque achava que seria complicado passar para o grande ecrã uma história feita de coisas que se sentem e adivinham e não tanto de coisas que se vêm ou dizem.

Gostei do filme e acho que os actores foram muitíssimo bem escolhidos. É uma história, à semelhança do que acontece no livro, feita de silêncios, olhares que dizem mais do que as palavras poderiam dizer. O filme transmite uma aura de irrealidade que se adequa à irrealidade do mundo em que Mattia e Alice vivem, afastados dos outros e um do outro, mesmo quando estão juntos. 
Embora o filme se tenha mantido fiel ao livro no essencial, o final foi diferente e não sei ainda se o prefiro ao do livro. Para além disso acho que se deu pouco ênfase à personalidade amargurada de Mattia, a paixão pela matemática e pelos números primos, o cuidado que tem para perturbar o menos possível o mundo à sua volta para que nunca mais uma acção sua transforme de forma irreversível a vida dos que o rodeiam. 
No geral acho que se aprofundou pouco a personalidade dos dois, no entanto gostei muito do filme. Se não tivesse lido o livro acho que o teria achado mais confuso. O livro ajudou a interpretar algumas reacções e, pessoalmente deu uma outra dimensão ao filme.

Gostei e aconselho, tanto o livro como o filme! 

E, já agora a banda sonora também merece um destaque, mais que não seja porque é do extraordinário Mike Patton! :)
http://youtu.be/JyofAXy6gT8


Fica o trailer do filme:

janeiro 22, 2012

[Filme] Millennium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres

Título Original: The Girl With The Dragon Tattoo
Realização: David Fincher
Duração: 158 min
Origem: USA

Sinopse:
Mikael Blomkvist é um jornalista de meia-idade, divorciado, que tem passado a sua vida a denunciar a corrupção do mundo dos negócios de Estocolmo na sua revista Millennium.
Quando Henrik Vanger, um poderoso empresário, o convida para um trabalho de investigação, Mikael tem nas mãos material irrecusável. Mas para sua surpresa descobre que, desta vez, esse material não tem nada a ver com escândalos financeiros, mas com o desaparecimento da sobrinha do empresário, Harriet, 36 anos antes, num encontro de família. Com a ajuda da sua nova e rebelde parceira, Lisbeth Salander, uma hacker de alto nível com problemas de comportamento social, irão desvendar muitos segredos da família de Henrik, até então escondidos na penumbra.


Fui ontem ver a versão de David Fincher para a sobejamente conhecida história de Stieg Larsson, Millenium I - Os Homens que Odeiam as Mulheres e gostei bastante.
Já vi os três filmes suecos de que gostei bastante mas acho que este do David Fincher consegue captar melhor a essência do livro, sendo-lhe mais fiel e fiquei com a sensação de que conseguiu explicar melhor todos os acontecimentos. Digo isto porque, vi todos os filmes com o meu mais-que-tudo, que não leu os livros e que neste, pese embora já ter visto os filmes suecos, não houve necessidade de o enquadrar com pormenores do livro, o que acabou por acontecer depois de vermos a versão sueca dos mesmos.

Gostei da escolha dos actores e, embora  Noomi Rapace como Lisbeth Salander seja difícil de igualar, a actriz escolhida por Fincher para este papel, Rooney Mara, não deixou mal a Lisbeth. Embora num registo um pouco diferente porque a Lisbeth de Rooney Mara tem uma aparência mais frágil que a de Noomi Rapace, ambas apanharam muito bem a personalidade da Lisbeth de Stieg Larsson.
Daniel Craig foi também uma boa escolha para o Mikael Bloomkvist, talvez até mais credível que o Michael Nyqvist, da versão sueca.

Embora o filme tenha sido feito a contar com as adaptações dos dois últimos livros da trilogia, não sei se este será o género de filme que o público americano aprecie e valorize de forma a que seja possível a realização/produção dos outros dois filmes. Mas este é, por si só, um filme que vale a pena ver, independentemente de vir a ter continuação ou não.

Deixo-vos os trailer da versão David Fincher:


E o trailer da versão de Niels Arden Oplev, Män Som Hatar Kvinnor:


maio 29, 2011

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar - Stieg Larsson

Título original: Luftslottet Som Sprängdes
Ano da edição original: 2007
Autor: Stieg Larsson
Tradução do Inglês: Mário Dias Correia
Editora: Oceanos

Contém spoilers
"Lisbeth Salander sobreviveu aos ferimentos de que foi vítima, mas não tem razões para sorrir: o seu estado de saúde inspira cuidados e terá de permanecer várias semanas no hospital, completamente impossibilitada de se movimentar e agir. As acusações que recaem sobre ela levaram a polícia a mantê-la incontactável. Lisbeth sente-se sitiada e, como se isto não bastasse, vê-se ainda confrontada com outro problema:o pai, que a odeia e que ela feriu à machadada, encontra-se no mesmo hospital com ferimento menos graves e intenções mais maquiavélicas...
Entretanto, mantêm-se as movimentações secretas de alguns elementos da Säpo, a polícia de segurança sueca. Para se manter incógnita, esta gente que actua na sombra está determinada a eliminar todos os que se atravessam no seu caminho. Mas nem tudo podia ser mau: Lisbeth pode contar com Mikael Blomkvist que, para a ilibar, prepara um artigo sobre a conspiração que visa silenciá-la para sempre. E Mikael Blomkvist também não está sozinho nesta cruzada: Dragan Armanskij, o inspector Bublanski, Anika Gianninni, entre outros, unem esforços para que se faça justiça. E Erika Berger? Será que Mikael pode contar com a sua ajuda, agora que também ela está a ser ameaçada? E quem é Rosa Figueirola, a bela mulher que seduz Mikael Blomkvist?"
Fim dos spoilers. ;)

Chega assim ao fim a Trilogia Millennium. Trilogia que teria sido decalogia não tivesse o autor, Stieg Larsson, falecido antes de terminar o quarto dos dez livros que tinha planeados com Lisbeth e Mikael Blomkvist. Aqui entre nós que ninguém nos ouve, por muito que tenha gostado da Lisbeth e companheiros, dez volumes teriam sido um exagero. Achei até que este terceiro poderia ter sido bem mais pequeno... :)

Este terceiro volume começa exactamente onde o anterior acabou. Lisbeth, depois de no segundo volume ter regressado do mundo dos mortos, dá entrada no hospital em estado considerado muito grave. Com uma bala alojada no crânio, os médicos não se atrevem a avançar prognósticos. No mesmo helicóptero que a levou ao hospital viaja o homem que a pôs entre a vida e a morte, também ele bastante ferido, e que tem sido a causa de todos os problemas que Lisbeth já enfrentou na vida. Irá Lisbeth recuperar, sem sequelas, dos ferimentos? Será essa a única preocupação de Lisbeth enquanto estiver internada no hospital? Ou o homem que quase a matou vai, mais uma vez tentar acabar com a vida de Lisbeth?
Enquanto Lisbeth, no hospital, luta para sobreviver, cá fora Mikael Blomkvist continua a trabalhar num artigo que vai ajudar a ilibar Lisbeth de todas as acusações que pendem sobre ela e que terá de enfrentar assim que estiver em condições de receber alta médica. O artigo em que Mikael Blomkvist está a trabalhar envolve pessoas que pertencem à Polícia Secreta sueca, a Säpo, e que vão fazer tudo para impedir qualquer investigação sobre os podres da Companhia. Portanto, Lisbeth está entre a vida e a morte no hospital, Mikael e todos na redacção da Millennium são ameçados e perseguidos por causa do artigo e, para ajudar à festa, Erika Berger tem à perna um tarado qualquer que a persegue e ameaça. Um livro cheio de coisas boas, portanto. :)
Sobre a história mais não digo sob pena de spoilar toda a trilogia. :) Cuidado que a sinopse não tem e que pode, inclusive, estragar algumas revelações do segundo volume, para quem ainda não o leu. Para além de ser uma sinopse que levanta falsas questões, mas isso é outra história. :)

Confesso que este último livro não me convenceu, achei-o demasiado extenso e a história não foi exposta de uma forma cativante, Lisbeth quase não aparece e Mikael, aparecendo mais, pareceu-me menos interessante que nos primeiros dois livros e é, neste livro, até um pouco irritante. As histórias que giram à volta da conspiração contra Lisbeth têm algum interesse, mas estão de tal forma rodeadas de informação secundária que parece que estamos a ler um livro sobre a história da polícia secreta sueca. Este livro pedia acção e um ritmo mais acelerado, o que nos outros livros não me fez assim tanta falta. No fundo acho que este livro poderia ter ganho se fosse mais sucinto e mais objectivo. Stieg Larsson quis falar de tanta coisa, introduziu tantas personagens, que a história de Lisbeth perdeu alguma consistência.
Para além disso a história do tarado que persegue Erika Berger e todos os outros dilemas que esta atravessa ao longo deste livro não me interessaram por aí além e senti-os apenas como distracções. Erika sempre me foi algo indiferente, pelo que o seu maior protagonismo neste livro fez com que a minha leitura se ressentisse um pouco. Para além disso, Mikael Blomkvist neste livro pareceu-me demasiado convencido, muito presente na história mas com uma presença muito superficial, muito pouco emotiva e sem empatia com as outras personagens. Mais uma consequência da ânsia do autor de falar de tudo e mais alguma coisa, tornando a história demasiado tentacular, notando-se que sentiu alguma dificuldade em fechar todas as frentes que abriu.

Enfim, o livro tem coisas boas, como é óbvio, tudo o que me fez gostar e querer ler a trilogia está também neste terceiro volume, mas a verdade é que neste o equilíbrio entre a história central e todos os temas paralelos não foi tão bem conseguido. Não é mau, mas podia ser bem melhor. :)

Recomendo a trilogia mas, como já o referi antes, nunca ao preço de editora que sobrevaloriza e muito estes livros. Leiam se tiverem oportunidade, mas se não o fizerem não vem daí mal ao mundo! :)

Boas leituras!


Excerto:
"Faltava pouco para a uma e meia quando Hanna Nicander, uma das enfermeiras, acordou o Dr. Anders Jonasson.
- Que se passa? - perguntou ele, ainda meio atordoado.
- Helicóptero a chegar. Dois pacientes. Um homem já de idade e uma rapariga; ela com ferimentos de bala.

- Já vou, já vou - resmungou Jonasson, cansado."


Deixo-vos os trailer do terceiro filme:


Não posso deixar de expressar a minha estranheza por Stieg Larsson descrever o Blomkvist como um homem extremamente bem parecido e a quem as mulheres dificilmente resistem. Tendo visto os filmes é inevitável que a imagem de Blomkvist que eu tenho na minha cabeça seja a do actor que o representa no filme e, não querendo discutir gostos, que todos sabemos que não se discutem, a verdade é que o actor está longe de ser irresistível! Tirando a imagem dos actores que são diferentes da imagem que Stieg Larsson transmitiu nos livros, os filmes estão bastante fieis a eles e vale a pena ver, principalmente porque a interpretação da actriz Noomi Rapace, que faz de Lisbeth Salander, é digna de ser ver. :)

maio 15, 2011

A Rapariga que Sonhava Com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo - Stieg Larsson

Título original: Flickan Som Lekte Med Elden
Ano da edição original: 2006
Autor: Stieg Larsson
Tradução do Inglês: Mário Dias Correia
Editora: Oceanos

"Depois de uma longa estada no estrangeiro, Lisbeth Salander regressa à Suécia, cede o pequeno apartamento onde vivia à sua amiga Miriam Wu, e instala-se luxuosamente numa zona nobre da cidade. Pela primeira vez na vida é economicamente independente, mas cedo percebe que o dinheiro não é tudo: não tem amigos, nem família e está só. Mikael Blomkvist, que tentara contactar Lisbeth Salander durante meses, sem sucesso, desiste e concentra-se no trabalho. À Millennium chegou material para uma notícia explosiva: o jornalista Dag Svensson e a sua companheira Mia Johansson entregam na editora dois documentos que provam o envolvimento de personalidades importantes numa rede de tráfico de mulheres para exploração sexual. Quando Dag e Mia são brutalmente assassinados, todos os indícios recolhidos no local do crime apontam um suspeito: Lisbeth Salander. O seu passado sombrio e pouco convencional não abona a favor da sua imagem e a polícia move-lhe uma implacável perseguição. Lisbeth Salander, que está disposta a romper de vez com o passado e a punir aqueles que a prejudicaram, tem agora de provar a sua inocência e só uma pessoa parece disposta a ajudá-la: Mikael Blomkvist que, apesar de todas as evidências, se recusa a acreditar na sua culpabilidade."

E Lisbeth Salander volta, neste segundo livro da trilogia, para me fazer companhia. Companhia estranha, é certo que por vezes perturbadora, mas essencialmente boa companhia. Lisbeth continua, neste livro, a ser uma personagem que me fascina. Gosto realmente desta rapariga! :)

Em A Rapariga que Sonhava Com Uma Lata de Gasolina e um Fósforo (mais um título muitíssimo bem escolhido), encontramos Lisbeth multimilionária, depois de no livro anterior ter desviado uns quantos milhões ao corrupto Wennerström, que regressou recentemente à Suécia e não sabe muito bem como se adaptar à sua nova condição de muito rica. A Lisbeth que encontramos está mais madura e aparentemente mais equilibrada e serena. Depois de um ano fora, ela não é esperada por ninguém, as poucas pessoas que se preocuparam com o seu desaparecimento súbito, já haviam desistido de a procurar e seguiram com as suas vidas. Foi o caso de Mikael Blomkvist, que depois de várias e infrutíferas tentativas para a encontrar se rendeu à evidência de que ela não desejava ser encontrada por ninguém, muito menos por ele.
É penosa a solidão e o desamparo de Lisbeth, na fase inicial do livro, mais ainda porque é uma solidão evitável, uma vez que existe quem se preocupe e goste dela.

As vidas de Mikael e Lisbeth voltam a cruzar-se quando Dag Svensson e Mia Johansson são assassinados e a principal suspeita é Lisbeth.
Dag era um jornalista que estava a escrever um livro, a ser editado pela Millennium, sobre o tráfico de mulheres, algumas menores, na Suécia e Mia, namorada de Dag, estava em vias de terminar a sua tese de doutoramento sobre o mesmo tema. Ambos pretendiam revelar e expor publicamente figuras importantes da vida política e social sueca, envolvidas no tráfico de mulheres e comércio sexual das mesmas. Mikael Blomkvist vê-se de repente envolvido em mais uma corrida contra o tempo, enquanto tenta provar a inocência de Lisbeth e ao mesmo tempo encontrar o verdadeiro responsável pelo crime que vitimou os seus dois amigos. O historial de violência e o internamento de Lisbeth numa clínica psiquiátrica, que foi a sua casa na adolescência, não vão facilitar a tarefa de Mikael, muito menos com a polícia e a opinião pública sueca a considerarem-na uma sociopata tresloucada que nunca deveria ter tido alta da clínica. Enquanto isso, Lisbeth vai fazendo a sua própria investigação mais com o intuito de encontrar Zala, um nome ligado ao seu passado e que surgiu associado ao tráfico de mulheres que Mia e Dag investigavam, do que para provar a sua inocência. Chega inclusive a afirmar que não é inocente, isto porque "Não há inocentes. Há apenas diferentes graus de responsabilidade."
Lisbeth não tem, nem nunca teve, uma vida fácil e neste livro ela inicia uma viagem ao passado para o resolver definitivamente. Deixar de fugir ou de se esconder deixou de ser opção. Conhecendo Lisbeth, sabemos de antemão que as coisas não vão correr bem para muita gente e a própria Lisbeth irá passar por situações de vida ou morte.
E acho que não vale a pena dizer mais nada acerca da história do livro, até porque o giro é ser-se surpreendido. :)

À semelhança do Os Homens que Odeiam as Mulheres, já lido e comentado aqui, Stieg Larsson não tem qualquer pressa em avançar para a acção, perde-se em pormenores e histórias paralelas, o que provavelmente acaba por afastar alguns leitores menos pacientes. E mesmo o mais pacientes (caso da que aqui vos escreve) por vezes sentem alguma impaciência pela calma que define todo o livro, pelos desvios que distraem e que nos afastam da acção e da vida das personagens. No entanto confesso que, depois de lido, a impressão que fica é a de que acabámos de ler um livro com mais de 600 páginas, sem qualquer esforço e as personagens eram reais e estiveram sempre muito próximas. E isso é positivo. :)
É claro que existem passagens do livro que são perfeitamente dispensáveis, como a da descrição de um Mikael deslumbrado com a máquina de café topo de gama que Lisbeth tem no novo apartamento. Dispensável é também a muita publicidade que se faz ao IKEA e à Apple e passava bem sem saber que Bublanski e Modig (polícias destacados para a investigação criminal) foram ao Burger King e comeram um Whooper e um Veggie Burger, respectivamente. Enfim, distracções dispensáveis mas que não pesam muito na opinião final acerca do livro.

Gostei! E gostei porque está bem escrito, porque gosto muito da forma como o autor vai construindo a história e da forma como no final as peças do puzzle encaixam na perfeição. Porque e, mais uma vez o tema é a violência sobre as mulheres e nunca é demais alertar para qualquer tipo de violência, quer seja sobre as mulheres quer seja sobre homens ou crianças. Neste livro agradou-me especialmente que o desenrolar da história fosse credível, coisa que nos livros do género não é muito comum. Excepção feita para a sensação de que a Suécia só pode ser minúscula, porque toda a gente se conhecia... :) Gostei que me permitisse ter uma imagem da Suécia e dos suecos mais realista, atenuando um pouco a imagem de que os países nórdicos são perfeitos e infalíveis. Mas o que me faz dizer que gostei sem grandes hesitações, é a personagem da Lisbeth. Gosto dela, e sei que é das poucas personagens que me vai ficar pela memória, quando tiver acabado de ler a trilogia. Aliás, uma das críticas menos boas que posso fazer ao livro é mesmo ter achado que, sendo um livro centrado nela, a presença dela poderia ter sido mais evidenciada e explorada.
Finalmente, gostei porque mesmo já tendo visto os filmes e, portanto já conheça o fim da trilogia, o prazer da leitura não foi muito afectado e, só posso imaginar e invejar, confesso, o friozinho na barriga que certas passagens mais tensas poderão provocar. Mesmo nestas condições, gostei do livro e mesmo nestas condições vou ler já a seguir o terceiro e último livro da trilogia.

Posto isto, só posso dizer para lerem! ;)


Excerto:
"Estava deitada de costas, presa por correias de couro à armação de ferro da cama estreita. As correias, cruzadas, apertavam-lhe o peito, e tinha as mãos algemadas aos lados do catre.
Havia muito que desistira de tentar libertar-se. Estava acordada, mas tinha os olhos fechados. Se os abrisse, ver-se-ia, envolta em escuridão; a única luz era uma débil risca amarelada que se filtrava por cima da porta. A boca sabia-lhe mal e ansiava por poder lavar os dentes."

Trailer do filme baseado no segundo volume da trilogia e bastante fiel à história:

janeiro 11, 2011

Este País Não é Para Velhos - Cormac McCarthy

"Quando Llewelyn Moss encontra uma mala cheia de dinheiro, depois de um tiroteio entre narcotraficantes, pensa que lhe saiu a sorte grande. Mas Llewelyn não sabe que o seu acto o acaba de converter numa das pessoas mais procuradas no Texas. Entre os seus múltiplos perseguidores encontra-se Anton Chigurh, um implacável assassino armado com uma estranha pistola pneumática, cuja máxima concessão à piedade consiste em atirar uma moeda ao ar para decidir o destino das suas vítimas. Também o procurará o velho Xerife Ed Tom Bell, que está disposto a fazer o que for necessário para ajudar as pessoas que jurou proteger..."

Desde que vi o filme A Estrada, baseado na obra homónima de Cormac McCarthy, que andava muito curiosa para ler um dos livros deste escritor norte-americano. E assim Este País Não É Para Velhos veio parar às minhas mãos. No início confesso alguma desilusão com a escrita de McCarthy, repetitiva e a imprimir um ritmo ao livro um pouco "pastoso", mas ao chegar ao fim do livro a verdade é que gostei, a leitura acaba por entrar no ritmo imposto pelo autor, acabando por fazer sentido o ritmo que ele escolheu para o livro e por isso posso dizer que gostei muito do livro.

A história passa-se no Texas e ao longo da famigerada fronteira EUA/México. Llewelyn Moss, um soldador e veterano da guerra do Vietname, numa das suas saídas para caçar, encontra uma mala cheia de dinheiro. Ignorando todos os sinais de perigo, ou seja todos os mortos que faziam companhia à mala, Llewelyn pega na mala e leva-a consigo. Acabou de lhe sair a sorte grande, pensou ele. Uma vez que se tratava de muito dinheiro e de dinheiro ligado ao tráfico de droga, Llewelyn torna-se, de um momento para o outro, o homem mais procurado do Texas. Sabendo-se perseguido, Llewelyn foge com a mala cheia de dinheiro. O que ele não podia imaginar é que um dos seus perseguidores é um assassino implacável e violento, Anton Chigurh, um autêntico psicopata.
Chigurh é uma personagem sinistra que não faz concessões na sua vida, para ele tudo está interligado e não lhe compete a ele decidir, apenas agir de acordo com as consequências que os actos dos outros desencadeiam. Não é por decisão dele que Llewelyn, e todos os que com ele se cruzam, têm de morrer. Afinal, não foi que ele colocou a pasta de dinheiro nas mãos de Llewelyn.
O livro vai narrando a perseguição de Llewelyn e toda a carnificina que dela resulta. Muita violência, muito sangue e muitos mortos constituem este livro. Mas nem só disto vive a história, aliás o mais interessante da história é mesmo o que se refere à personagem do Xerife Bell, um homem competente que foi apanhado no meio da carnificina perpetrada por Chigurh. Homem que o Xerife Bell tem dificuldade em compreender, que teme e que o faz repensar toda a sua carreira. O Xerife Bell é um homem de boa índole e que começa a sentir-se deslocado num mundo que, em pouco anos, se tornou tão violento. A parte que mais me cativou neste livro foram aquelas onde o Xerife Bell, como narrador, partilha com o leitor aquilo que o atormenta. A sensação de que "Este país não é para velhos" é algo que o acompanha todo o livro, enquanto vai tentando apanhar Chigurh e salvar Llewelyn de uma morte mais que certa. A escrita de Cormac McCarthy é também diferente nestes trechos do livro, mais pulsante e mais viva.

"A outra coisa são os velhos, e eu não consigo deixar de pensar neles. Olham para mim e vejo-lhes sempre uma pergunta estampada no rosto. Não me recordo de as coisas serem assim há uns anos. Não me lembro de ser assim quando eu era xerife nos anos cinquenta. Olhamos para eles e nem sequer têm um ar confuso. Parecem enlouquecidos, nem mais. Isto incomoda-me. Ficamos com a impressão de que eles acordaram e não sabem como é que vieram parar ao lugar onde estão. Bom, num certo sentido não sabem."

Enfim, gostei bastante deste livro. Não fosse a escrita de McCarthy ser, à falta de melhor adjectivo, esquisita porque faz um uso exagerado da conjugação "e", e o livro teria deixado em mim ainda melhor impressão. Não sei se esta predilecção pelo "e" está presente nos outros livros do escritor, mas julgo que neste em particular funcionou um pouco para induzir no leitor uma sensação de adormecimento, perante a violência que ia sendo descrita. Um pouco como quando vemos imagens de extrema violência a que, por vermos tantas vezes, na televisão ou onde quer que seja, somos já um pouco indiferentes. Terá sido essa a intenção, pelo menos assim espero, porque sem ser neste contexto o exagero de "e" é muito irritante! :)

Vou ler outros livros dele, de certeza! :)

Nota: Este livro de Cormac McCarthy foi adaptado ao cinema, pelos irmãos Cohen, em 2007. No Country For Old Men ganhou 4 óscares: o de melhor director, melhor actor secundário (Javier Bardem, no papel do assustador Chigurh), melhor imagem e melhor argumento adaptado. Confesso que quando vi o filme pouco percebi... É um filme estranho, no mínimo, mas está fiel ao livro. Neste caso gostei mais do livro, se bem que agora até gostava de voltar a ver o filme, pode ser que agora perceba mais do que para lá acontece! :p

Fica aqui o trailer e, boas leituras!


janeiro 03, 2011

The Cider House Rules - John Irving



"The reason Homer Wells kept his name was that he came back to St Cloud's so many times, after so many failed foster homes, that the orphanage was forced to acknowledge Homer's intention to make St Cloud's his home."


"Homer Wells' odyssey begins among the apple orchards of rural Maine. As the oldest unadopted child at St Cloud's orphanage, he strikes up a profound and unusual friendship with Wilbur Larch, the orphanage's founder - a man of rare compassion and an addiction to ether. What he learns from Wilbur takes him from his early apprenticeship in the orphanage surgery, to an adult life running a cider-making factory and a strange relationship with the wife of his closest friend..."

Estou a ter sérias dificuldades em escrever a minha opinião sobre este livro. O problema não reside em saber se gostei ou não, porque aí a resposta é inequivocamente sim!, gostei e muito! A questão é que, tal como nos outros livros do John Irving que já li, as histórias são tão completas, tão cheias de tudo, que é difícil decidir o que é importante ou não referir, porque é tudo importante, porque nada acontece por acaso e porque os livros dele mais parecem uma temporada completa de uma série televisiva... :)
Depois de muito escrever e muito apagar decidi manter esta opinião o mais simples possível, e não acrescentar à sinopse muito mais do que já está dito.

Homer Wells é o orfão mais velho a viver em St Cloud's, um orfanato rodeado por habitações abandonadas, numa cidade quase fantasma. A única ligação ao mundo civilizado é feita pela estação de comboios, onde chegam as mulheres que procuram St. Cloud's para terem orfãos, deixando os seus bebés no orfanato, ou para fazerem abortos, prática que o Dr. Wilbur Larch faz, ilegalmente, a todas as mulheres que o procuram.
Dr. Wilbur Larch é o fundador do orfanato e um viciado em éter, que começou a utilizar para anestesiar as dores provocadas pela gonorreia, doença transmitida por uma prostituta, que foi a primeira e única experiência sexual da sua vida. É um homem de bom coração, de convicções fortes, que cria Homer Wells, a única criança da história do orfanato a quem não conseguiu arranjar uma família, como o filho que nunca teve, educando-o para ser útil, ensina-lhe tudo que sabe sobre trazer ao mundo orfãos ou abortos. Prepara-o para ser o seu substituto quando a altura certa chegar.
No entanto Homer, como qualquer adolescente, começa a sentir necessidade de conhecer o mundo fora de St Cloud's. Depois de se aperceber de que, embora concorde com o que Wilbur Larch faz ilegalmente, ele nunca seria capaz de o fazer, decide partir com o casal jovem que aparece em St Cloud's, Candy e Wally. Wilbur é um acérrimo defensor da legalização do aborto mas também o é dos seus orfãos e, por isso, deixa que Homer parta para viver a sua vida e fazer as suas próprias descobertas. Nunca deixa de acreditar, no entanto, que Homer irá voltar, porque ele pertence a St Cloud's. O orfão que foi devolvido tantas vezes tem o seu lugar no orfanato e só lá é que ele poderá ser útil.
Homer parte com Wally e Candy, por quem se apaixonou desde a primeira vez que a viu. Parte para Ocean's View onde aprende tudo o que há para aprender acerca do fabrico de sidra de maçã. Lá conhece pessoas fantásticas que o ajudam e acolhem como se ele fosse um deles. Será que finalmente Homer Wells conseguiu ser adoptado?
É encantadora a forma como vamos acompanhando as descobertas de Homer num mundo tão cheio de novidades e onde a inocência de Homer pode ser desarmante.
Homer nunca perde o contacto com St Cloud's onde Wilbur Larch nunca desistiu de o tornar no seu sucessor. Torná-lo médico é o seu objectivo, mesmo que para isso tenha de lhe construir uma nova identidade e dar-lhe uma nova vida. Acabará Homer por aceitar esta nova vida que Larch escreveu para ele? Estará ele disposto a ir contra a sua decisão de nunca praticar um aborto? Veremos... :)

E a história de uma forma muito resumida é esta. Custa-me deixar de fora desta opinião personagens como a Melony, que tão importante é para o desenrolar dos acontecimentos, as enternecedoras enfermeiras Edna e Angela, o Angel, Ray Kendall e a Olive Worthington e todos os trabalhadores da quinta, porque existe tanto mais para dizer acerca deste livro e sobre os temas que aborda. O tema central é o aborto, mas fala mais sobre as mulheres e a sua vida nos anos 40 e 50 do século passado. Fala também de racismo, de sexo, de crianças abandonadas e indesejadas, de adopção, de violência doméstica e de sacrifício mas, também fala de amor, de heróis, de amizade e de justiça. Não pensem, no entanto, que o tom do livro é pesado e deprimente. Nada disso, o tom é sempre de permanente ironia e comédia contida.
Se tem momentos dramáticos? Claro que tem, momentos como aquele em que Curly Day pensou que iria ser adoptado pelo casal bonito (Candy e Wally), que ele iria ser escolhido porque era o "melhor orfão" e ficou despedaçado por estes terem partido com Homer. É claro que Curly percebeu tudo mal, Candy e Wally não estavam lá para adoptar ninguém, mas não deixa de ser angustiante a aflição do rapazinho. Toda a situação desenrola-se de forma muito caricata e de certa forma cómica, mas não deixa de ser um momento particularmente triste do livro. Tal como é triste a forma como John Irving descreve a chegada e partida das mães que não o querem ser, a vergonha e a dor estampadas nos seus rostos. É triste e chocante a descrição dos abortos, mas também o é a descrição dos abandonos e das razões que levam as mulheres a cometerem tais actos.
John Irving é um autor pouco comum, que escreve autênticas histórias de vida, que nos apresenta personagens fantásticas e permite que acompanhemos as suas vidas desde que nascem até à sua morte, tornado-as tão familiares que nos sentimos abandonados quando lemos a última frase do livro. E agora, o que vai ser deles?, pensamos.

Gostaria que ao lerem esta opinião ficassem com um gostinho do que são as histórias do Irving, mas isso é impossível porque os livros dele são estranhos, divertidos, absurdos, dramáticos, tristes, envolventes, chocantes, polémicos e viciantes. Só lendo é que se consegue apreender todo o génio de John Irving como o escritor e como contador de histórias.
Existem autores que não nos fazem correr para a livraria mais próxima quando lançam um novo livro mas que, quando lemos nos fazem pensar no quanto sentimos a sua falta. Ler John Irving, para mim é isso: não corro para a livraria para comprar os seus livros, dele apenas li quatro livros e com intervalos de tempo grandes entre eles, mas de cada vez que o leio é como encontrar um velho amigo.

Não só recomendo como exijo que leiam pelo menos um livro dele para verem se tenho razão ou não! :p Recomendo todos os que já li dele (a minha opinião sobre Um filho do Circo aqui) mas, este The Cider House Rules (As Regras da Casa na edição portuguesa há muito esgotada) e o The World According to Garp (O Estranho Mundo de Garp na edição portuguesa) simplesmente genial, talvez sejam mais emblemáticos do que é a escrita de Irving. Leiam!!! :)

Para os que possam estar renitentes devido ao tema do aborto, esclareço que este livro não é um livro pró-aborto, não sendo também um livro que condene o aborto. O que este livro espelha é a uma realidade e todos os argumentos apresentados nele são verdadeiros e todas as justificações justas. Não me fez mudar o que penso sobre o assunto, nem veio revalidar a minha opinião. Quem é a favor do aborto não o é de ânimo leve e não o é sem compreender alguns dos argumentos dos que tem outra forma de pensar. Para mim é e será sempre, uma questão de saúde pública, de justiça social, de igualdade de direitos e uma questão acima de tudo pessoal. Se seria capaz de o fazer? Provavelmente não, mas essa seria uma decisão minha e não algo imposto por terceiros. Que não seja o tema do aborto a afastar-vos deste livro, até porque, embora seja um assunto importante para a história, não é de todo A história.

Boas leituras!


Nota: John Irving tem visto alguns dos seus livros serem adaptados para o cinema (livros adaptados ao cinema aqui). Foi o caso do The Cider House Rules. Nunca vi o filme mas pelo que já li sobre ele está bastante diferente do livro. John Irving trabalhou nesta adaptação que foi galardoada com dois Óscares, o de Melhor Actor Secundário para Michael Caine (Dt. Larch) e o de Melhor Argumento Adaptado.

Fica aqui o trailer do filme, que conto ver brevemente: