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maio 31, 2024

A Mulher Comestível - Margaret Atwood

Título original: The Edible Woman
Ano da edição original: 1969
Autor: Margaret Atwood
Tradução: Paulo Moreira
Editora: Edições Livros do Brasil

"Marian é uma mulher deliberadamente vulgar, que espera casar-se mais dia menos dia. Gosta do seu trabalho, da amiga quase ninfomaníaca com quem partilha o apartamento, do seu noivo excessivamente fleumático. Ao princípio tudo parece correr bem. Mas Marian não contou consigo mesma, com aquilo que é na realidade: uma mulher que deseja um pouco mais do que aquilo que tem, que inconscientemente vai sabotando os seus próprios planos, a sua rotina, a sua digestão. E Marian descobre, por fim, que há coisas que não suporta.
A Mulher Comestível foi publicado em 1969, coincidentemente com a ascensão do feminismo na América do Norte. Muita gente pensou de imediato que o livro era, pois, um produto desse movimento. Ora o romance fora escrito, na verdade, quatro anos antes. Como diz a própria autora: «Eu encaro o livro mais como protofeminista do que como feminista, Não existia qualquer movimento feminista quando o escrevi, em 1965, e eu não tenho o dom da clarividência apesar de, a exemplo de muitas mulheres dessa época, ler Betty Friedan e Simone de Beauvoir à porta fechada. Vale a pena realçar que as opções da minha heroína se mantêm praticamente inalteradas ao longo de todo o livro: ou uma carreira que não conduz a parte alguma, ou um casamento para escapar à carreira. Mas estas eram as opções de qualquer jovem, ainda que instruída, no Canadá dos anos 60. E seria aliás um erro acreditar que as coisas mudaram verdadeiramente.»"

A Mulher Comestível foi o primeiro livro que Margaret Atwood publicou. Foi escrito nos anos 60 e foi publicado durante os anos 70.

Marian é uma jovem mulher que trabalha numa empresa de inquéritos, partilha casa com Ainsley e namora Peter, um advogado júnior.
Marian, tirou um curso superior, não gosta particularmente do trabalho que faz e não se identifica com as colegas de trabalho. 

Conhece e namora Peter há algum tempo e Peter é uma espécie de Peter Pan, não quer casar tão cedo, quer continuar a viver a vida de um jovem sem responsabilidades e sem compromissos. Gosta de Marian porque acha que ela o compreende e é sensivel às suas necessidades. 
Marian parece conviver bem com esta espécie de acordo entre os dois. Não sabe se quer casar, ou se o quer fazer com Peter. Por outro lado, sente que gostaria que ele o quisesse.

Na verdade Marian não sabe muito bem quem é e o que quer para ela. Não se sente enquadrada com o que esperam dela, como mulher mas, ao mesmo tempo também não sabe o que fazer senão o que esperam dela: casar, deixar de trabalhar, ter filhos e cuidar da casa e do marido. Que alternativa tem?

Por outro lado Ainsley a amiga com que partilha casa, é aparentemente mais moderna, não quer casar mas quer ter um filho porque acha que a maternidade é o ponto alto da feminilidade. Inicia, por isso, uma busca incessante do pai ideal para o seu futuro bebé. Vale tudo para conseguir um progenitor que seja bonito, inteligente e saudável. 

Os dias vão passando sem grandes sobressaltos até que Marian conhece Duncan um rapaz estranho que a intriga e desafia. Não percebe porquê mas acaba sempre por gravitar para ele. Na mesma altura, Peter lá se decide que está na altura de dar o passo seguinte e pede Marian em casamento, numa noite de grande confusão e de desorientação para Marian. Esta aceita. Que outra resposta possível poderia existir?

A partir dessa altura algo muda em Marian. Começa de forma gradual a rejeitar todo o tipo de alimentos. É incapaz de comer carne ou peixe porque sente que está a matar os animais. Acaba por deixar de comer até os vegetais porque começa a olhar para eles como seres vivos capazes de sentir dor.

Nada disto a faz parar para pensar no que se passa com ela. Não relaciona o seu distúrbio alimentar com estes novos acontecimentos na sua vida, no entanto, Marian parece estar, de forma inconsciente a gritar por ajuda. Quer mesmo casar com Peter? Quer ter filhos e deixar de trabalhar? O que significa Duncan na meio de toda a confusão em que se transformou a sua vida, até então, previsível?

A Mulher Comestível é um livro muito bem conseguido e divertido  que fala sobre o papel da mulher na sociedade e no quão pernicioso pode ser contrariarmos constantemente aquilo que somos, a nossa verdadeira essência.

Gostei muito, como tem sido habitual, Margaret Atwood não desilude, nem com o seu primeiro livro. :)

Recomendo sem qualquer hesitação. 

Boas leituras. 


Excerto (pág. 88):
"Queria que Peter se voltasse para mim e falasse comigo, queria ouvir a sua voz normal, mas ele não o fez; estudei os reflexos dos meus três companheiros no tampo preto da mesa, à medida que eles se moviam no que parecia uma espécie de piscina localizada por baixo do mesmo; exceção feita aos olhos de Ainsley, gentilmente pousados no seu copo, só via queixos. Passado algum tempo, notei com ligeira curiosidade que uma enorme gota de qualquer coisa molhada se tinha materializado perto da minha mão. Tacteei-a com a ponta do dedo e brinquei um pouco com ela antes de perceber, horrorizada, que se tratava de uma lágrima. Sendo assim, eu devia estar a chorar! Dentro de mim, algo se transformou num labirinto de trémulo pânico, como se tivesse engolido um enorme sapo. Estava prestes a soçobrar e a fazer uma cena, mas não podia.
Deslizei para fora da cadeira, tentando parecer o mais natural possível, atravessei a sala tendo todo o cuidado para evitar as outras mesas e dirigi-me para a casa de banho das senhoras. Certifiquei-me de que não estava lá mais ninguém - não podia ter testemunhas -, tranquei-me num dos pequenos cubículos cor-de-rosa e chorei durante vários minutos. Não conseguia perceber o que me estava a acontecer e porque estava a chorar daquela maneira; nunca me tinha acontecido nada assim e parecia-me tudo o mais completo absurdo.
 - Vê se te controlas - murmurei. - Não faças figuras parvas.
Indefeso, branco e macio, o rolo de papel higiénico era a minha única companhia, que esperava pacientemente pelo seu próprio fim. Arranquei-lhe algumas folhas e assoei o nariz."

março 19, 2023

[Ebook] MaddAddam- Margaret Atwood

Título original: 
MaddAddam
Ano da edição original: 2013
Autor: Margaret Atwood
Editora: Virago (Ebook ISBN: 9780748130191)

"By the author of The Handmaid's Tale and Alias GraceToby, a survivor of the man-made plague that has swept the earth, is telling stories.Stories left over from the old world, and stories that will determine a new one. Listening hard is young Blackbeard, one of the innocent Crakers, the species designed to replace humanity. Their reluctant prophet, Jimmy-the-Snowman, is in a coma, so they've chosen a new hero - Zeb, the street-smart man Toby loves. As clever Pigoons attack their fragile garden and malevolent Painballers scheme, the small band of survivors will need more than stories."

MaddAddam é o terceiro e último livro da trilogia composta por Oryx and Crake e The Year of the Flood (opiniões aqui e aqui), de Margaret Atwood.

O livro começa exatamente onde o anterior acabou e, como não quero inadvertidamente, contar algo que possa estragar a vossa leitura, digamos que... Zeb e o seu pequeno grupo estão a reorganizar-se e continuam à procura de Adam One. Toby e mais uns quantos nossos conhecidos, que incluem um Jimmy doente, entre a vida e a morte, acabam por se juntar ao grupo de Zeb. Com Toby, ou melhor com Jimmy, vêm os Filhos de Crake, incapazes de se afastarem de Jimmy.

Como Jimmy não está em condições de manter a tradição de contar histórias ao Filhos de Crake e porque estes são muito ciosos das suas rotinas e rituais, acaba por ser Toby a escolhida por eles para manter a tradição.
Toby conta-lhes histórias de Crake, de Oryx, de Jimmy e do próprio Zeb que parece estar a tornar-se para eles uma espécie de Deus.

As histórias são inspiradas nas próprias memórias que Zeb partilha com Toby. Ficamos a conhecer a sua relação com Adam One, como chegou até ali e qual foi o seu papel em tudo o que aconteceu. Através dele conhecemos também o papel e a história de Adam One.

Os Filhos de Crake são criaturas curiosas, em particular uma das crianças do grupo, a quem Toby ensina a escrever e a ler.
É curiosa a forma como esta criança, que não tem qualquer passado e que desconhece muitos dos conceitos que para Toby e os outros humanos são dados adquiridos, começa a apreender tudo. A ironia para eles é desconhecida, não percebem o que é ler ou escrever, não têm maldade e a violência é-lhes dolorosa e incompreensível. 
É esta criança que mais tarde vai continuar a contar as histórias de Zeb, Crake, Oryx e Fuck (têm de ler para perceber) aos outros, quando Toby e Zeb já não estiverem entre eles. É é assim que a vida continua. E é assim que começa a nascer uma nova "humanidade", talvez melhor que a anterior, talvez apenas diferente da anterior. 

MaddAddam é o livro que cola todas a pontas soltas e que tece um fio entre as vidas de todas as personagens que conhecemos nos livros anteriores.
É o livro de Toby e Zeb. É o livro dos Filhos de Crake, como nova espécie senciente no planeta Terra. Os que vão herdar o planeta e toda a história da humanidade que existiu antes deles.
É o livro da esperança e da continuidade.

Esta é uma trilogia que vale muito a pena ler. Para além de estar muito bem escrita e de ter personagens que ficam connosco por algum tempo, levanta questões pertinentes e que nos fazem refletir. 
Refletir sobre o percurso da humanidade, o que nos torna naquilo que somos, a necessidade quase inata de sabermos de onde viemos, de termos um passado, algo que nos ligue a este mundo e aos nossos semelhantes, a idolatria e a necessidade de nos sentirmos protegidos por algo superior a nós e que não conseguimos compreender completamente.

Mais um que recomendo sem qualquer reserva. Leiam os três, não são livros que valham por si só.

Boas leituras!

Excerto:
"They're preternaturally beautiful, thinks Toby. Unlike us. We must seem subhuman to them, with our flapping extra skins, our aging faces, our warped bodies, too thin, too fat, too hairy, too knobbly. Perfection exacts a price, but it's the imperfect who pay it.
Each of the Crakers has one hand on Jimmy. They're purring; the hum gets louder as Toby walks over to them.
'Greetings, Oh Toby', say's the taller of the two women. How do they know her name? They must have listened more carefully than she'd thought last night. And how should she reply? What are their own names, and is it polite to ask?
'Greetings', she says. 'How is Snowman-the-Jimmy today?'
'He is growing stronger, Oh Toby', says the shorter woman. The others smile. (...)
'Snowman-the-Jimmy is coming closer to us', says the short woman. 'Then he will tell us the stories of Crake, as he always did when he was living in his tree. But today you must tell them to us.'
'Me?' says Toby. 'But I don't know the stories of Crake!'
'You will learn them', says the man. 'It will happen. Because Snowman-the-Jimmy is the helper of Crake, and you are the helper of Snowman-the-Jimmy, That is why.'
'You must put on this red thing', says the shorter woman, 'It is called a Hat.'
'Yes, a hat', says the tall woman. 'In the evening, when it is moth time. You will put this hat of Snowman-the-Jimmy on your head, and listen to this shiny round thing that you put on your arm.'
'Yes', says the other woman, nodding. 'And then the words of Crake will come out of your mouth. That is how Snowman-the-Jimmy would do it.'
'See?' says the man. He points to the lettering ond the hat: Red Sox. 'Crake made this. He will help you. Oryx will help too, if the story has an animal in it.'
'We will bring the fish, when it is getting dark. Snowman-the-Jimmy always eats a fish, because Crake says he must eat it. Then you will put on the hat and listen to this Crake thing, and say the stories of Crake.'
'Yes, how Crake made us in the Egg, and cleared away the chaos of bad men. How we left the Egg and walked here with Snowman-the-Jimmy, because there were more leaves for us to eat.'
'You will eat the fish, and then you will say the stories of Crake, as Snowman-the-Jimmy always did', says the shorter woman. They look at her with their uncanny green eyes and smile reassuringly. They seem entirely confident of her abilities.
What are my choices? thinks Toby. I can´t say no. They may get disappointed, and go away by themselves, back to the beach, wheres the Painballers can grab them. They'd be easy prey, especially the children. How can I let that happen?
'All right', she says. 'I will come in the evening. I will put on the hat of Jimmy, I mean Snowman-the-Jimmy, and tell you the stories of Crake.'
'And listen to the shiny thing', says the man. 'And eat the fish.' It seems to be the ritual.
'Yes, all of that', says Toby.
Shit, she thinks. I hope they cook the fish."

março 11, 2023

[Ebook] The Year of the Flood - Margaret Atwood

Título original: The Year of the Flood
Ano da edição original: 2009
Autor: Margaret Atwood
Editora: Hachette Digital (Ebook ISBN: 9780748113378)

"By the author of The Handmaid's Tale and Alias Grace. The sun brightens in the east, reddening the blue-grey haze that marks the distant ocean. The vultures roosting on the hydro poles fan out their wings to dry them. the air smells faintly of burning. The waterless flood - a man-made plague - has ended the world. But two young women have survived: Ren, a young dancer trapped where she worked, in an upmarket sex club (the cleanest dirty girls in town); and Toby, who watches and waits from her rooftop garden. Is anyone else out there?"

Este é o segundo livro da trilogia de Margaret Atwood, o que se segue a Oryx and Crake (a minha opinião aqui) e que nos leva para o ano 25, o ano do dilúvio seco, o ano da praga que dizimou quase toda a humanidade.

Passa-se no mesmo período de tempo que Oryx and Crake, dando-nos a perspetiva do lado de fora dos muros dos complexos tecnológicos. Mostra-nos como era a vida de quem estava de fora antes da misteriosa praga que parece ter poupado apenas duas mulheres, Toby e Ren.

Vamos conhecer os God's Gardeners, uma comunidade fundada por Adam One, cujos princípios assentam no respeito pela natureza e por todos os animais. Eram uma espécie de ativistas do clima e que lutavam para que todos percebessem que a terra não iria aguentar muito mais tempo se os humanos continuassem a comportar-se de forma predatória.
Plantavam os próprios alimentos, não comiam carne e peixe. Na sua maioria eram cientistas, que trabalhavam nos Complexos, para os Corps e, que fugiram por não concordarem com os projetos e com as experiências que lá se faziam.
Esta era, pelo menos, a face visível do grupo. Como em tudo, nem tudo é apenas aquilo que conseguimos ver e ouvir com os nossos olhos e ouvidos.
Nesta comunidade todos eram bem-vindos, desde que respeitassem as regras e todos tinham um papel ou trabalho na comunidade em prol de todos. 

Conhecemos Toby que trabalhava no SecretBurger, para Blanko, um homem asqueroso de quem não conseguia fugir, até que é salva por Adam One que a leva para os God's Gradeners.
É lá que conhece Zeb, o homem que passa a amar secretamente, e Pilar, que lhe ensina tudo sobre abelhas e sobre as propriedades das plantas e das ervas.

Ren é apenas uma pré-adolescente quando a mãe, Lucerne, abandona o pai e a arrasta com ela para ir atrás de Zeb, completamente apaixonada por ele. Juntam-se aos God's Gradeners, mas não são verdadeiras crentes nos ensinamentos de Adam One.
Nos God's Gardner, Ren conhece Amanda, uma miúda divertida, segura de si, uma sobrevivente. As duas tornam-se inseparáveis no tempo que partilham no Edencliff Rooftop. 

Ao longo do livro vamos viajando entre o passado e o ano 25 e ficar a conhecer o que levou cada uma destas personagens a estarem onde estavam quando a história começa.

Quando a praga ataca, e todos começam a morrer, os God's Gardeners já quase não existem. Depois de Zeb se ter afastado de Adam One, em desacordo com a atitude pacifista do líder, o grupo acabou por se dividir e seguir caminhos distintos. 
Toby também acaba por se afastar e, quando tudo começa, está a trabalhar num salão de beleza, que oferece tratamentos estéticos. É lá que fica barricada, convencida que é a única sobrevivente. Os seus dias passam-se a dormir e a vigiar a sua horta para impedir que seja atacada pelos piggons e outras espécies, criadas nos Complexos e, que agora circulam livremente.

Ren, depois de ter regressado com a mãe para o Complexo de onde tinha fugido, e depois de terminar os estudos, está a trabalhar como bailarina exótica num bar de reputação duvidosa. Quando todos começam a morrer, Ren está fechada numa espécie de sala de pânico de onde não consegue sair, depois de todos lá fora terem morrido. 

Não quero contar-vos tudo e retirar-vos o prazer da descoberta, por isso, termino dizendo que Jimmy, o Snowman de Oryx and Crake, o guru dos Filhos de Crake, vai perceber que afinal não é o último Homem à face da Terra.

É um livro que se lê bem, embora tenha gostado mais do primeiro.
Como o terceiro livro, Maddaddam, começa onde este acabou, sem grandes preâmbulos, aconselho-vos a ler os três livros de seguida, como se fossem um só.

Gosto dos livros de Margaret Atwood. São assustadoramente reais e realistas sendo ao mesmo tempo pura ficção. 
A escrita é boa, as personagens bem construídas e as histórias originais e interessantes. 

Recomendo Margaret Atwood sem qualquer hesitação. 

Boas leituras!

Excerto:
"New people kept arriving among the Gardeners. Some were genuine converts, but other's didn´t stay long. They'd be there for a while, wearing the same baggy, concealing clothes as everyone else, working at the most menial tasks, and, if they were women, weeping from time to time. Then they´d be gone. They were shadow people, and Adam One was moving them around in the shadows. As he'd moved Toby herself.
This was guesswork: it hadn´t taken Toby long to realize that the Gardeners did not welcome personal questions. Where you´d come from, what you'd done before - all of that was irrelevant, their manner implied. Only the Now counted. Say about others as you would have them say about you. In other words, notihing. (...)
Then there was Zeb. Adam Seven. Toby didn´t believe Zeb was a true Gardener, any more than she was. She´d seen a lot of men of that general shape and hairiness during her SecretBurger days, and she´d bet that he had some game going; he had that kind of alertness. Now what was a man like that doing at the Edencliff Rooftop?"

junho 27, 2021

[Kindle] Oryx and Crake - Margaret Atwood

Título original: 
Oryx and Crake
Ano da edição original: 2003
Autor: Margaret Atwood
Editora: Anchor Books (Ebook ISBN: 9781400078981)

"Pigs might not fly but they are strangely altered. So, for that matter, are wolves and racoons. A man, once named Jimmy, lives in a tree, wrapped in old bedsheets, now calls himself Snowman. The voice of Oryx, the woman he loved, teasingly haunts him. And the green-eyed Children of Crake are, for some reason, his responsibility."

Margaret Atwood tem sido uma das melhores descobertas dos últimos tempos. A capacidade que tem de imaginar um futuro, onde nos coloca enquanto espécie humana, em situações limite e, onde tudo nos parece credível, é muito difícil de fazer e ela faz isso muito bem.
Leva-nos a acreditar que tudo pode, de facto, vir a acontecer como ela descreve. É assustador e fascinante ao mesmo tempo. 

Em Oryx and Crake a autora leva-nos a um tempo onde a humanidade parece ter sido extinta devido a uma praga que nos deixou a todos muito doentes. 
É nessa realidade que conhecemos Snowman, aparentemente o último Homem na Terra. Vive no cimo de uma árvore e é adorado pelos Filhos de Crake, uns seres de olhos verdes, e que são muito parecidos com os humanos. Estes e Snowman parecem ser as últimas criaturas racionais que circulam pela face da Terra. O resto do mundo é habitado por animais, aparentemente inofensivos, mas que possuem uma espécie de inteligência quase humana que, ironia das ironias, os torna particularmente perigosos.

É Snowman, nascido Jimmy, que nos conta o que se passou para que se tenha tornado no último Homem à face da Terra.
Jimmy descreve uma sociedade bastante diferente da que conhecemos, constituída por pequenas comunidades, que mais não são que complexos empresariais detidos por grandes empresas tecnológicas, ligadas à investigação biogenética. Quem lá trabalha tem acesso a casa e escola para os filhos, não existindo qualquer necessidade de saírem do complexo. O que se passa fora das paredes destes complexos não é muito explorado, mas a ideia que se quer fazer passar é a de que, lá fora é perigoso e de que, quem vive dentro de um dos complexos é privilegiado. 

Jimmy nasceu e cresceu numa dessas bolhas protetoras, por ser filho de dois cientistas e investigadores muito respeitados. Apesar de não não poder dizer que teve uma infância feliz, reconhece que fazia parte de uma elite privilegiada. 

Tudo parecia possível naquele tempo. Um tempo em que a engenharia genética estava de tal forma avançada, que as empresas que trabalhavam na área se tornaram muito poderosas.
É possível, por exemplo, criar porcos geneticamente modificados os Pigoons, para recolha de órgãos que serão transplantados em humanos. Autênticas quintas de cultivo de órgãos humanos, onde os porcos já se parecem muito pouco com porcos e são, aos nossos olhos, autênticas aberrações. 

Crake, que Jimmy conheceu na escola, dedicou toda a sua vida e inteligência a tentar criar o ser humano perfeito. Ele acha que as hormonas, o sexo e as ligações emocionais são fraquezas no ser humano, que nos tornam mais agressivos e, por isso, devem ser inibidas.
O ser humano perfeito não questiona, só pensa em sexo para procriar, não se sente emocionalmente ligado a outros seres humanos e não acredita em Deus ou qualquer outra coisa mais espiritual. Só assim, numa forma mais primitiva, o Homem poderá ser verdadeiramente feliz.
Os Filhos de Crake são o resultado dessa investigação.

O que se passou para que Jimmy seja o último homem na Terra e se Crake tinha razão sobre a felicidade dos Homens é o que vamos descobrindo ao longo do livro. 

Gostei muito e vou querer ler os outros dois livros da trilogia - The Year of the Flood e MaddAddam.

Recomendo!

Boas leituras.

Excerto: 
"How long had it taken him to piece her together from the slivers of her he'd gathered and hoarded so carefully? There was Crake's story about her, and Jimmy's story about her as well, a more romantic version; and then there was her own story about herself, which was different from both, and not very romantic at all. 
Snowman riffles through these three stories in his head. There must once have been other versions of her: her mother's story, the story of the man who'd bought her, the story of the man who'd bought her after that, and the third man's story - the worst man of them all, the one in San Francisco, a pious bullshit artist; but Jimmy had never heard those.
Oryx was so delicate. Filigree, he would think, picturing her bones inside her small body. She had a triangular face - big eyes, a small jaw - a Hymenoptera face, a mantid face, the face of a siamese cat. Skin of the palest yellow, smooth and translucent, like old, expensive porcelain. Looking at her, you knew that a woman of such beauty, slightness, and one-time poverty must have Led a difficult life, but that this life would not have consisted in scrubbing floors.
"Did you ever scrub floors?" Jimmy asked her once.
"Floors?" She thought a minute. "We didn't have floors. When I got as far as the floors, it wasn't me scrubbing them." One thing about that early time, she said, the time without floors: the pounded-earth surfaces were swept clean every day. They were used for sitting on while eating,  and for sleeping on, so that was important.  Nobody wanted to get old food on themselves. Nobody wanted fleas."

setembro 09, 2018

[Kindle] Alias Grace - Margaret Atwood

Título original: Alias Grace
Ano da edição original: 1996
Autor: Margaret Atwood
Editora: Anchor

"It's 1843, and Grace Marks has been convicted for her involvement in the vicious murders of her employer and his housekeeper and mistress. Some believe Grace is innocent; others think her evil or insane. Now serving a life sentence, Grace claims to have no memory of the murders. An up-and-coming expert in the burgeoning field of mental illness is engaged by a group of reformers and spiritualists who seek a pardon for Grace. He listens to her story while bringing her closer and closer to the day she cannot remember. What will he find in attempting to unlock her memories? Captivating and disturbing, Alias Grace showcases bestselling, Booker Prize-winning author Margaret Atwood at the peak of her powers."

Acho que nunca me tinha cruzado com nada de Margaret Atwood até ter começado a ver Handmaid's Tale, uma adaptação do livro, com o mesmo nome, desta escritora canadiana. A série é muito boa e por ser tão boa achei por bem tentar conhecer a escritora. Tendo em conta a vasta obra de Margaret Atwood, pareceu-me redundante estar a ler Handmaid´s Tale, A História de uma Serva, na edição portuguesa e praticamente dos únicos livros editados por cá e por isso acabei por comprar este Alias Grace para ler no Kindle.


Tendo em conta a história de Handmaid's Tale, acho que estava à espera que Alias Grace fosse semelhante. Na verdade é diferente do que estava à espera e, embora não tenha sido o que, por algum motivo, achei que ia ser, foi muito bom ter descoberto Margaret Atwood.

Alias Grace é a história de uma rapariga, Grace Marks, irlandesa e a filha mais velha de uma família numerosa. Conhecemos Grace quando toda a família parte para a América em busca de uma vida melhor do que a que a Irlanda do século XIX tinha para lhes oferecer. Partem de barco, naquela que iria ser a viagem que mudou a vida da pequena Grace para sempre.
A mãe não resiste à viagem até ao Canadá e Grace vê-se, num país estranho, responsável por cuidar dos irmãos mais pequenos e por aguentar o temperamento difícil do pai.
Para fugir a uma vida miserável onde o pai lhe ficava com todo o dinheiro que ganhava como criada, Grace aceita servir numa casa mais afastada da família. Ali acaba por conseguir ganhar alguma independência e conhece Mary Whitney, que se torna a sua primeira e única amiga. Mary Whitney, pouco mais velha que Grace, acaba por ser a única referência feminina na vida de Grace, depois da morte da mãe.
Grace é apenas uma miúda, bonita, responsável, educada, inocente e sem grandes ambições. Procura ganhar a vida de forma honesta e talvez a única coisa que sabe que não quer para si é uma vida igual à da sua mãe. Não pensa em casar, muito menos com um homem como o pai.
Os dias vão passando sem grandes sobressaltos, entre o trabalho e as gargalhadas com Mary, e Grace sente-se quase feliz. Até que um dia alguma coisa muda em Mary e, sem contar demasiado sobre a história, Grace vê-se novamente sozinha, sem a sua única amiga e, sem nada que a prenda àquela cidade. É por isso que aproveita a visita de uma ex-criada da casa, Nancy Montgomery, e parte com esta para servir na quinta de Thomas Kinnear, onde Nancy trabalha como governanta.

Nesta fase da leitura, já sabemos que Grace Marks se encontra presa, acusada de ter sido cúmplice no assassinato de Nancy Montgomery e Thomas Kinnear e é a própria que conta a sua história ao Dr, Simon Jordan, um médico interessado em aprofundar conhecimentos sobre saúde mental.
Embora muita gente acredite que Grace foi efetivamente culpada pela morte violenta de Nancy e Thomas, muitos outros têm dificuldade em aceitar que a doce Grace tenha sido capaz de tamanho acto de violência. A própria Grace não se recorda de praticamente nada do que aconteceu naquele dia.
O que aconteceu naquele dia e, será Grace Marks inocente ou culpada, são as perguntas que nos perseguem durante a leitura, A primeira será, mais ou menos respondida. A segunda não terá uma resposta taxativa. Para além de a culpa e inocência poderem ser conceitos muito subjectivos, acho que Margaret Atwood deixou, propositadamente, essa ambiguidade no ar, porque na realidade não é um tema fácil de se julgar e para o qual não existem, mesmo à luz dos conhecimentos atuais, regras que definem sem margem para dúvidas que alguém é culpado ou inocente, podendo até ser ambos.
Gostei bastante da escrita de Margaret Atwood, da forma como foi desenrolando a história de Grace, contada por ela própria, sendo que, ao longo de praticamente todo o livro não sabemos os pormenores da condenação de Grace e se ela é culpada ou inocente. Às vezes achamos que é culpada, outras achamos que é inocente e no fim... bem, no fim continuamos sem saber ao certo no que acreditar.
O livro faz um retrato interessante da época, do papel que a mulher ocupava na sociedade, principalmente as mulheres de classes sociais, ditas inferiores, as que circulam nos bastidores da alta sociedade. As crenças e o desejo que estas mulheres tinham de uma vida melhor, de querer fugir ao destino das suas mães e das suas avós e de todas as mulheres que viveram antes delas, como se a pobreza fosse uma doença crónica e hereditária da qual não se consegue escapar.
A abordagem às doenças mentais, pouco estudadas na época, e ao funcionamento da nossa memória quando expostos a situações traumáticas e de grande stress, é muito interessante e leva-nos a olhar para este caso em particular de uma outra perspectiva. 

Em boa hora descobri esta escritora. Vou de certeza ler mais livros dela e por isso só posso recomendar.
Recomendo este Alias Grace e Handmaid's Tale, a série, porque ainda não li o livro, se tiverem oportunidade de ver não deixem de o fazer, porque é genuinamente e assustadoramente boa.

Boas Leituras!

Nesta minha opinião não vos vou deixar um excerto, deixo-vos antes três extras: :)

 - Descobri que existe uma mini-série, do Netflix, baseada neste livro, Alias Grace:



 - O próprio livro é baseado em factos reais. Em 1843, Thomas Kinnear e Nancy Montgomery foram assassinados por dois dos seus criados, Grace Marks e James McDermott. Toda a narrativa que Margaret Atwood constrói é ficcionada, mas estas pessoas efectivamente existiram.

 - Não deixem de ver Handmaid's Tale. É uma série da Hulu. A 1ª temporada, segundo sei, é uma adaptação fiel do livro de Margaret Atwood. A 2ª temporada, que estreou este ano, continua a história de June onde a escritora a deixou, na última página do livro.