novembro 07, 2011

Balada da Praia dos Cães - José Cardoso Pires

Título original: Balada da Praia dos Cães
Ano da edição original: 1982
Autor: José Cardoso Pires
Editora: Booket (Dom Quixote)

"O romance foi escrito no período pós-revolução de 25 de Abril de 1974. A acção situa-se no princípio dos anos 60, e retrata alguns aspectos da sociedade portuguesa em plena época da ditadura salazarista. Relata a investigação dum assassínio; e a história começa com o relatório da descoberta de um cadáver enterrado na Praia do Mastro em 3 de Abril de 1960. Mais tarde, a polícia descobre tratar-se do major Luís Dantas Castro, um militar preso por tentativa de rebelião contra o regime vigente e que escapara da prisão."

Tenho de confessar que este livro me custou imenso a ler. Sinto-me saturada e, parece que a minha cabeça entrou em greve, estando a entrada/aquisição de novos conhecimentos sujeita a serviços mínimos. :) Ando com muito pouca paciência e sinto que a opinião com que fiquei deste livro reflecte exactamente isso. Achei o livro confuso, por vezes aborrecido e não houve uma única vez em que não adormecesse com ele nas mãos... Mas até gostei, não adorei, mas também não desgostei... :/ Não terá sido a melhor altura para o ler, isso é certo, mas enfim, foi nestas condições e é nestas condições que vai ficar.

Falando do livro que é para isso que aqui estamos.
Em a Balada da Praia dos Cães, é relatada a investigação de um homicídio. A vítima é o Major Luís Dantas Castro, fugido da cadeia onde se encontrava por ter participado num golpe de estado. Os suspeitos, três pessoas, todas cúmplices na sua fuga da prisão: Filomena, a amante, o arquitecto Fontenova Sarmento, companheiro de fuga e o cabo Barroca, facilitador da fuga. Elias Santana é o investigador encarregue de desvendar este crime. Elias Santana, também conhecido por Covas, é uma personagem peculiar mesmo sendo uma personagem em todos os sentidos normalíssima, não deixa de ser uma personagem que desperta curiosidade e empatia. Gostei dele, dele e da Filomena. Filomena era amante da vítima, uns bons anos mais nova que o Major, dona de uma grande beleza e de uma personalidade forte. Surge neste relato como a personagem que nos conta o que se passou, de uma forma muito desprendida e desiludida. Filomena, ou Mena, era a obsessão de Dantas e acaba, ao longo da investigação, por ser tornar, de certa forma numa obsessão para Elias, um solitário.
Inicialmente a personagem do Major Dantas surge como uma personagem por quem poderemos ter algum respeito, um revolucionário que morre prematuramente, um dos muitos homens e mulheres que lutaram pela liberdade do país. No decorrer da investigação, a nossa opinião acerca deste homem vai-se alterando e no fim o que sentimos é que, para além de detestável, o major era louco e, acabamos por perceber as razões que levaram à sua morte. Enfim, as melhores acções podem partir até de pessoas menos boas. ;)

A acção passa-se na década de 60, em pleno Estado Novo, estando o livro cheio de referências à repressão e à actuação menos clara das autoridades. Aqui a PIDE é uma força omnipresente, curiosamente ridicularizada na voz de Elias Santana e do seu chefe. No entanto a influência que a polícia política tinha nas investigações da época é notória, particularmente por a vítima e os suspeitos estarem ligados a grupos de resistência anti-salazarista. O livro acaba por dar uma perspectiva da época que não é muito comum, a da polícia dita "normal" e que é interessante.

O livro está escrito de uma forma original, pois inclui excertos dos interrogatórios e do que ficou escrito no processo de investigação e que se integram, de forma natural, na narrativa e na forma como o autor conta a história. Dilui-se assim, a linha que separa a ficção da realidade, tornando a investigação menos realista mas, ao mesmo tempo tornando a historia mais real. Gostei da forma que José Cardoso Pires encontrou de nos contar uma história que, não sei se é baseada ou não numa investigação real.

O lado menos bom da questão foi o ter achado a história um pouco confusa, o que, fruto ou não da minha menor capacidade de concentração, não deixou de me afastar um pouco da história e, manter o interesse foi por vezes complicado.

Concluindo, foi um livro que tive alguma dificuldade em ler mas que não deixei de achar bom e que me deixou com vontade de ler outros deste escritor português que nunca tinha lido. Por isso acho que é uma leitura que vale a pena e que recomendo. :)

Boas leituras!

Excerto:
"Entre o lagarto Lizardo e a malga das sopas o chefe de brigada está todo virado para o estendal de notícias que se abre diante dele com badaladas de primeira página a anunciar o defunto. Retrato do dito: o De Cuju, dito cujo, fardado de oficial. Descrições, conjecturas sobre o podre, um cheiro a cadáver que até arrepia. Depois vem o passado, história antiga, como é uso nas conversas de velório, o morto fez, o morto aconteceu, ai coitadinho; e andante, andante, resmunga o polícia em pijama, segue o funeral."

7 comentários:

  1. Ora aqui está um livro cuja a leitura ando a adiar. Peguei nele uma vez e logo nas primeiras páginas apercebi-me que não iria ser uma leitura fácil e desde fui sempre adiando... Ainda bem que nesta tua opinião referes que gostaste. ;) Comprei-o por ter lido também outras boas opiniões.

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  2. tonsdeazul: Não é um livro linear, isso é verdade. Embora tenha sido difícil de ler e por vezes tenha sido aborrecido, foi um livro que me foi mantendo interessada e fiquei com a sensação de que vai ser um livro para reler daqui a muitos anos, talvez depois ter lido outros do José Cardoso Pires e conhecer melhor a forma como escreve.

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  3. quem matou o Dantas castro?

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