Em 1944, Mathilde, uma jovem alsaciana, apaixona-se por Amine, um oficial marroquino que combate no exército francês durante a Segunda Guerra Mundial. Terminada a guerra, o casal muda-se para Marrocos e instala-se perto de Meknés. Amine dedica-se a recuperar a quinta herdada do pai, tentando arrancar frutos de uma terra pedregosa e estéril. Enquanto isso, Mathilde começa a sentir o jugo dos costumes conservadores do novo país, tão sufocante quanto o seu clima. Nem a maternidade apaga a solidão que sente no campo, longe de tudo, num lugar que não é o seu e a verá sempre como estrangeira.
A par e passo do drama familiar, ribombam a tensão e a violência que desembocarão, em 1956, na independência de Marrocos, país onde todos parecem viver no "país dos outros" e onde as mulheres, cercadas no país dos homens, têm de lutar a cada novo dia por um lugar, por uma voz. No centro do fogo cruzado de um país em plena transformação, Mathilde e Amine enfrentam o drama da ruptura dentro da própria família.
Depois do sucesso de Canção Doce, que arrecadou o Prémio Goncourt e conquistou mais de um milhão de leitores em cinquenta países, Leïla Slimani confirma a sua impressionante capacidade narrativa e compreensão da alma humana nesta saga familiar tão devastadora quanto verdadeira, inspirada na história da sua avó.
Amine, marroquino, foi para França combater ao lado dos franceses na 2ª Guerra Mundial, onde acaba por conhecer Mathilde, uma miúda nova cheia de sonhos que se apaixona por ele.
Amine era um jovem bonito, de pele dourada, que a via e ouvia. Para ele, Mathilde era uma lufada de ar fresco, uma rapariga divertida, leve e descomplicada. Apaixonam-se, casam-se e partem para Marrocos, certos de que a vida lhes reserva coisas boas.
No entanto, quando chegam a Marrocos tudo muda. Mathilde estranha tudo. Estranha as pessoas, os cheiros, a cultura. Sente-se sozinha e ressente-se por ver que Amine se tornou uma homem diferente daquele por quem se apaixonou e por quem deixou tudo para trás.
Amine, agora confrontado com os seus, sente pressão e tudo em Mathilde o envergonha. Começa a duvidar da decisão de casar com uma mulher tão francesa, loira, pálida, claramente não marroquina. Nos primeiros tempos em Marrocos só lhe vê defeitos, acha-a mimada e pouco tolerante. Em França gostava de tudo em Mathilde agora tudo nela o irrita.
O País dos Outros expõe a dificuldade que estes dois sentem. Mathilde num país que não é o dela, com uma cultura muito diferente da sua, onde as mulheres são vistas como propriedade dos maridos, dos irmãos, dos pais. Vai-se adaptando. Não quer desistir e voltar para França derrotada, dando razão à irmã que não apoiou o casamento de Mathilde e Amine.
Não se percebe muito bem porque fica, porque insiste. Não parece estar assim tão apaixonada pelo marido. Mas fica. Adapta-se.
Amine regressa ao seu país depois de ter estado na Europa. Regressa casado com uma europeia e, sente-se de certa forma deslocado na sua terra. Vive angustiado. Deveria ser mais marroquino? Torna-se instável, violento. É um homem perdido, sem saber quem é e onde é o seu lugar e muito menos onde, e como, pode encaixar Mathilde em tudo isto. Ama Mathilde mas sente-se ressentido por ela ser europeia, pouco submissa, obrigando-o a ser cruel e violento.
Aïcha e Selim são filhos de Mathilde e Amine. Aïcha, fisicamente mais parecida com pai, é uma menina insegura, muito inteligente, vai apredendo a viver lado a lado com a disfunção que é casamento dos pais.
Selim, fisicamente muito parecido com a mãe, é neste 1º volume apenas uma criança pequena, não tem muito protagonismo. O que percebemos muito cedo é que é um miúdo muito agarrado à mãe, facto que irrita Amine, porque o seu único filho varão tem de ser um macho exemplar e não um menino que passa os dias agarrado às saias da mãe.
Gostei da história e do ambiente marroquino. Como conheço pouco da história e cultura marroquina achei muito interessante toda a envolvência e dinâmica entre marroquinos e franceses.
Continuo a ter dúvidas sobre a escrita de Leïla Slimani. Já com Canção Doce senti que faltava qualquer coisa. Não sei muito bem o quê. Talvez sinta as personagens pouco profundas, os temas tratados de forma superficial. Estranhei que a questão da violência na relação entre Mathilde e Amine não fosse mais aprofundada. É como se não tivesse muita importância, como se fosse normal quase não afetar as personagens ou as suas ações.
Acho que ao querer falar de tantas coisas, acaba por se perder um pouco o foco.
Mas gostei, e recomendo sem qualquer hesitação. É um livro que se lê muito bem, a história é interessante e, fora as minhas estranhezas com a forma como Leïla Slimani conta as suas histórias, acho que ela escreve bem.
Boas leituras!
Excerto:
"Amine amava a mulher, amava-a e desejava-a ao ponto de acordar, por vezes, a meio da noite com vontade de a morder, de a devorar, de a possuir de uma maneira absoluta. Mas, de quando em quando, questionava as suas decisões. Que loucura fora aquela que lhe passara pela cabeça? Como é que achara que poderia viver com uma europeia, com uma mulher tão emancipada como Mathilde? Por causa dela, por causa daquelas dolorosas contradições, tinha a sensação de que a sua vida era regida por um movimento de pêndulo descontrolado. Por vezes, sentia uma necessidade violenta e cruel de regressar à sua cultura. de amar de corpo e alma o seu deus, a sua língua e a sua terra, e a incompreensão de Mathilde punha-o fora de si. Queria uma mulher parecida com a mãe, que o compreendesse nas entrelinhas, que tivesse a paciência e a abnegação do seu povo, que falasse pouco e trabalhasse muito. Uma mulher que o esperasse ao final do dia, silenciosa e dedicada, e que o observasse enquanto comia e encontrasse nisso toda a sua felicidade e toda a sua glória. Mathilde fazia dele um traidor e um herege. Por vezes, apetecia-lhe desenrolar um tapete de oração, pousar a testa no chão, escutar no seu coração e na boca dos filhos a língua dos seus antepassados. Sonhava fazer amor em árabe, dizer ao ouvido de uma mulher de pele dourada as palavras doces que se dizem às crianças. Noutras ocasiões, quando chegava a casa e a mulher lhe saltava para o pescoço, quando ouvia a filha cantar na casa de banho, quando Mathilde inventava jogos e fazia brincadeiras, ele deleitava-se, sentia-se superior aos outros. Tinha a sensação de ter sido arrancado da massa informe e, então, admitia que a guerra o mudara e que a modernidade se revestia de certas vantagens. Sentia vergonha de si próprio e da sua inconstância e tinha perfeita noção de que era Mathilde quem pagava por isso."

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