maio 14, 2020

[Kindle] O Espião Português - Nuno Nepomuceno

Título original: O Espião Português
Ano da edição original: 2015
Autor: Nuno Nepomuceno
Editora: Edições ASA

“E se toda a sua vida não passar de uma mentira? André Marques-Smith é um bom rapaz. Dedicado à família e aos amigos, é o mais jovem funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros português a assumir a tão desejada direcção do Gabinete de Informação e Imprensa. Uma dedicação profissional que esconde um coração partido. Freelancer é o nome de código de um espião da Cadmo, uma organização semigovernamental internacional. A par do MI6 e da CIA, a Cadmo age nos bastidores da política mundial, moldando o mundo tal como o conhecemos. Freelancer é metódico e implacável, um dos seus operacionais mais cotados.”

O Espião Português é, como o título indica, um livro de espionagem.

Fiquei na dúvida, antes de iniciar a leitura, se o mundo literário ainda tem alguma coisa a dizer sobre o universo da espionagem e, depois de terminar, acho que sim.
Depois de ler este livro, acho que o mundo da espionagem continua a ser um mundo fascinante, independentemente de não estarmos no meio de uma guerra mundial, ou da guerra fria. :)
Neste caso em particular, tratando-se de um escritor português, cuja personagem principal é portuguesa, existe uma familiaridade e empatia com André Marques-Smith, que é especial e não seria tão imediata se ele fosse de outra nacionalidade.

O Espião Português é, portanto, uma história típica de espionagem que envolve gente bonita e perigosa, que são mais do que aparentam. Há muita ação, ou como já ouvi sobre alguns filmes de ação, tem muitos "murros e pontapés nas trombas".
Tem, para além disto uma boa história de suporte a toda a ação, e personagens com as quais criamos empatia. Está bem escrito, com algumas revelações que, se pode dizer, são surpreendentes.

De que precisamos mais numa história deste género? Diria que nada.

Não tenho bem a certeza quando é que me cruzei com o nome de Nuno Nepomuceno mas, muito possivelmente foi no Goodreads. Terei apanhado alguma crítica de alguém, cuja opinião valorizo.

Li sempre coisas muito positivas sobre os livros dele e, andava curiosa, há algum tempo. Felizmente, confirmaram-se todas as críticas positivas que li e por isso recomendo, sem quaisquer reservas.

Boas leituras!

Excerto:
"Está a correr. Não tem a certeza de quantos são. Olha para trás. Os guardas dobram a esquina do corredor. São apenas dois. Não, três. O certo é que mais venham a caminho. De arma em punho, gritam em sueco. Um deles atira, mas falha. Uma luz de presença estala, deixando o corredor um pouco mais escuro. Vindo de cima, o besouro do alarme ressoa-lhe nos ouvidos. O corredor parece não ter fim. Sente as solas duras a escorregar sobre o chão antigo de pedra. As dores no pé começam a incomodá-lo verdadeiramente. «Stanna, stanna!», ordenam eles, como se parar fosse mesmo uma opção. Tem de continuar a correr!" 

abril 17, 2020

Jovens Corações em Lágrimas - Richard Yates

Título original: Young Hearts Crying
Ano da edição original: 1984
Autor: Richard Yates
Tradução: Miguel de Castro Henriques
Editora: Quetzal

"Michael Davenport e Lucy Blaine são um casal jovem e atraente. Michael formou-se em Harvard e tem a ambição de uma carreira literária; Lucy é bonita, discreta, culta e muito rica.
Recém-casados, mudam-se para Nova Iorque nos início dos anos 1950. Michael trabalha no seu primeiro livro de poemas, enquanto sustenta a família com um medíocre emprego diurno - paradoxalmente, em nome da sua liberdade criativa, recusa-se a tocar no dinheiro da sua mulher. Nesses anos, em que a contracultura Beat começa a dar os primeiros sinais, Michael e Lucy descobrem, por acidente, a nova boémia artística nova-iorquina. Embora deslocados e inseguros face à sofisticação e licensiosidade deste leque de fascinantes possibilidades sociais, sabem que encontraram o que procuravam. Porém, o curso dos acontecimentos e das relações (incluindo a deles, Michael e Lucy Davenport) deixá-los-á sempre algo aquém das suas expectativas.
Jovens Corações em Lágrimas demonstra mais uma vez a inigualável mestria de Richard Yates, o grande cronista do sonho Americano e das suas depressões."


Jovens Corações em Lágrimas é, mais uma vez, um livro onde nada parece correr bem às personagens. Página a página vamos vendo as decisões que tomam e vamos sentido que mais tarde ou mais cedo, algumas trarão consequências.

A história gira à volta do jovem casal Michael Davenport e Lucy Blaine. 
Ele um aspirante a escritor, de origens humildes, formado em Harvard. Moderadamente conhecido por um poema que publicou quando era mais novo, e que lhe trouxe alguma notoriedade no meio.
Ela veio de uma família abastada, bonita e culta. Quando conhece Michael é uma jovem alegre, cheia de ideias e, fica um pouco fascinada pela cultura de Michael.

Conhecem-se, apaixonam-se, casam-se e têm uma filha. Michael, por orgulho, não aceita que Lucy utilize o dinheiro de família para os sustentar ou ajudar na sua carreira literária.
Enquanto trabalha no seu novo livro de poemas, o livro que sente o consagrará como um escritor de culto e de relevância, trabalha para uma revista, trabalho que lhe permite pagar as contas. 
Vivem, por isso, sem luxos, num pequeno apartamento em Nova Iorque, cidade que fervilha de ideias, onde tudo acontece e onde vivem todas as novas mentes brilhantes do século XX.
Para Lucy, a mudança de vida é grande, mas respeita a decisão de Michael e, na verdade, sente-se feliz com o que tem. Sente-se encantada por Michael e pelo seu talento.

Os dois desejam pertencer à nova cena artística. Conhecem, por mero acaso, alguns desses artistas e começam a ser presença assídua nas festas e encontros do meio.
Parece que desejam pertencer a este meio mais do que desejaram alguma outra coisa nas suas vidas. Não querem apenas conhecer estas pessoas, artistas das mais diversas áreas, querem ser os seus melhores amigos. Querem pertencer e ser reconhecidos, pelo que acham ter para oferecer ao mundo.

São um casal apaixonado que vemos, inicialmente, com uma certa candura e inocência. Desejam ficar na história, de certa forma, mudar o mundo. São jovens e parecem ter tudo para serem felizes. No entanto, a constante insatisfação, a vontade de se destacarem e de pertencer, torna-os extremamente infelizes. Ao estarem tão focados nos outros, são incapazes de reconhecer neles próprios motivos para serem felizes.
Michael torna-se ciumento, amargurado e imensamente infeliz. Lucy, que sempre foi mais uma espectadora na vida dos dois do que propriamente participante, percebe que necessita de outras coisas na vida dela e afasta-se de Michael, divorciando-se dele.
Após a separação, e depois de uma fase inicial onde se sente perdida, Lucy, inicia um processo de autodescoberta onde experimenta a escrita, a pintura e a representação. Chegando à conclusão de que não é especialmente boa em nenhuma delas.
Michael, após a separação, oscila entre fases de profunda depressão, associadas à bebida, e fases de esperança alucinada.

O livro, embora até seja um livro volumoso, lê-se muito bem. 

É um livro que nos põe a reflectir sobre a vida e sobre aquilo que nos faz felizes. Põe-nos a pensar sobre as pessoas da nossa vida e de como todos nós mudamos ao longo dos anos. Mudamos a muitos níveis, mudamos fisicamente, mudamos de opiniões, descobrimos de que afinal já não faz sentido perseguir algo que sonhamos ter desde sempre. Crescemos, mudamos e, acho que, se mantivermos a mente aberta, descobrimos coisas que nunca pensámos vir a descobrir quanto mais gostar.
Ter objetivos é muito bom, essencial até, mas estes objetivos têm de deixar algum espaço para a descoberta. Nem sempre a linha recta, sem possibilidade de desvios é o melhor caminho para alcançarmos o que quer que seja. Temos de tentar viver o melhor possível, com aquilo que sabemos e com o tempo que temos disponível.

Richard Yates não me desilude. Gosto dos livros dele e pronto, não há mais nada a dizer!

Recomendo e boas leituras!


Excerto:
"Ela então parou de falar, como se falar não a pudesse senão levar a um estado de exaustão, e Michael não tinha nada para dizer. Sentia-se mais fraco do que ressentido e sabia que nenhuma resposta seria adequada, por isso contraiu os maxilares para se impedir a si mesmo de responder de todo. De vez em quando, durante os intervalos da estrada em que não se viam árvores, olhou para as estrelas que cintilavam no céu escuro como se lhes perguntasse se alguma vez - alguma vez - chegaria a altura em que ele faria algo como deveria ser."

abril 16, 2020

Morreu Luís Sepúlveda

São poucos os escritores cuja morte me deixa abalada e triste. 
Aconteceu com Saramago, com João Aguiar, com Umberto Eco e, agora com Luís Sepúlveda.

Sinto que perdi alguém próximo, alguém que ainda tinha muito para dar ao mundo das letras, mas não só. 

Sempre que pessoas como o Luís Sepúlveda desaparecem, é mais um pedaço de história que deixa de ser contada por quem a viveu. Perde-se um exemplo de honestidade, de justiça e de luta por um mundo melhor, com as armas que tinha, a sua escrita e a sua exposição como figura pública.

Os livros dele acompanham-me desde que me lembro, e sempre foi um escritor pelo qual senti muito carinho e, é com grande tristeza que o vejo partir, de forma tão prematura.

Na minha estante faltam muitos livros deles, alguns até dos mais conceituados. Alguns já li, muitos outros ainda tenho para ler. Vai, por isso continuar a fazer parte da minha vida, enquanto leitora.

Há um livro dele, dos mais recentes, História de um Gato e de um Rato que se tornaram amigos que deve ter sido dos livros que mais comprei. Acabei sempre por retirá-lo da minha estante para o oferecer. Gosto tanto dele e acho que é um livro tão bonito, que quero que faça parte das estantes das "minhas" crianças.

Ainda não tive oportunidade de voltar a comprá-lo.


Obrigada Luís Sepúlveda pela companhia, pelos ensinamentos e por todas as histórias que, tenho a certeza, contribuíram para formarem a pessoa que sou hoje.

Obrigada!

abril 04, 2020

[repost] A Peste - Albert Camus

Passaram-se praticamente 10 anos desde que li A Peste, de Albert Camus, e nenhum de nós pensou alguma vez, que estaríamos, em 2020, a passar por algo tão estranho e perigoso a tantos níveis.

Reli a minha opinião sobre o livro e, achei que fazia sentido voltar a destacá-la.


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A Peste é o primeiro livro que leio de Albert Camus, e estou certa não será o último, embora tenha sido um pouco diferente do que estava à espera.

Em A Peste, Orão é uma cidade próspera do litoral argelino, construída de costas voltadas para o mar, cujos habitantes vivem para trabalhar e acumular riqueza, vivendo de rotinas e sem qualquer sobressalto que os faça questionar a vida que levam. Orão é uma cidade moderna onde as relações humanas são relegadas para segundo plano, sobrevivendo no hábito e na tranquilidade das coisas dadas como certas, "Em Orão, como no resto do mundo,por falta de tempo e de reflexão, é-se obrigado a amar sem o saber." Os negócios são demasiado importantes e o divertimento tem dia e hora marcada. Fez-me alguma confusão a descrição de Albert Camus faz dos habitantes de Orão, tão indiferentes e desligados uns dos outros, mesmo durante a epidemia. Enquanto lia pareceu-me tão irreal que semelhante cidade existisse, mas a verdade é que é um retrato bastante fiel do que vivemos nos dias de hoje.
Fiquei ansiosa quando os ratos começaram a subir à cidade para morrer, por ver a falta de reacção da população. Era quase como se pensassem que ao ignorar o problema, ao não enfrentar a realidade, os ratos acabariam por desaparecer sem consequências. Eram algo desagradável, é certo, mas que apenas lhes alterava a rotina tranquila do dia a dia. Quando as pessoas começaram a morrer de forma tão avassaladora e em tão grande quantidade, a negação da epidemia deixou de ser possível e a cidade foi fechada ao exterior, ficando de quarentena por tempo indeterminado. A morte tinha-se instalado em Orão, separando famílias, amantes e amigos. Quando se viram isolados, sem poderem comunicar com o exterior, todos perceberam a importância que essas pessoas tinham nas suas vidas. Casamentos que se mantinham apenas pelo hábito ganharam nova vida e os amantes separados pelas portas da cidade reavivavam o sentimento devido à separação. Com o passar dos meses a dor da separação foi, para muitos a única razão para se manterem sãos, mesmo que para fim já nem os rostos das pessoas amadas conseguissem recordar com clareza.

Alguns viviam obcecados em fugir da cidade. Reencontrarem-se com quem ficou do lado de fora, era o mais importante. Aparentemente o medo de morrer sozinho era bem maior do que o perigo de contagiarem aqueles a quem desejavam voltar a ver e, que tinham por um golpe de sorte escapado à peste. Outros, como Rieux, Rambert, Tarrou e Grand, entregaram aqueles intermináveis meses de isolamento, medo e dor ao combate e à luta contra a epidemia. Relegando para segundo plano as aflições pessoais de cada um, em prol da comunidade. E houve, como sempre, aqueles que vêm em situações destas a oportunidade de lucrar com a miséria, como Cottard. Este livro tem de tudo e para todos os gostos... :)

Enfim, A Peste é um livro que faz um reflexão muito interessante sobre a morte e a vida, sobre as fragilidades humanas e sobre a forma como lidamos uns com os outros, em sociedade. Gostei muito de o ler, embora tenha ficado com a sensação de que a tradução desta edição não é das melhores. Fez-me confusão a forma distante como a história é narrada, numa espécie de crónica, onde os factos são relatados com muita objectividade pelo narrador. As excepções a esta objectividade resultaram, para mim, nos momentos que mais gostei de ler, embora falar de gosto seja provavelmente de mau gosto, pois foram momentos dramáticos. É o caso da morte do filho do juiz, apenas uma criança e a morte de Tarrou, uma pessoa intrinsecamente boa. Gostei muito das personagens que constituem o núcleo desta narrativa, Rambert, Grand, Cottard e, particularmente de Rieux e Tarrou.

Vale muito a pena ler A Peste. :)

Pretensos Factos:
- Dizem os dissecadores de livros que A Peste é uma alegoria à invasão de França pelas tropas alemãs, em 1940, em pleno nazismo. E, provavelmente essa leitura é válida.
- Albert Camus ter-se-à inspirado na epidemia de cólera que dizimou, em 1849, uma elevada percentagem da população de Oran, a segunda maior cidade da Argélia.

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Tudo isto vai passar, e a maioria de nós vai ficar bem, desde que, cada um de nós faça a sua parte e, sejamos sinceros, se o que nos pedem é que fiquemos em casa, não nos estão a pedir nada do outro mundo. O importante, nesta fase, é garantir que todos têm acesso ao melhor tratamento possível, em caso de necessidade.

Acredito que o difícil vai ser quando tudo isto passar. O desemprego e a recuperação económica vai ser algo que vai demorar mais do que uns meses e tudo isto irá deixar marcas profundas em todos nós, os que ficaram em casa e os que, por serem imprescindíveis, continuaram a trabalhar.

Mas, neste momento, não há muito que se possa fazer quanto a isso. Por isso, façamos todos o que nos pedem: Ficar em casa! Por nós, pelos nossos mas, também por todos os outros.

Boas leituras!

março 21, 2020

As Histórias de Terror do Tio Montague - Chris Priestley

Título original: Uncle Montague's Tales of Terror
Ano da edição original: 2009
Autor: Chris Priestley
Ilustrações: David Roberts
Tradução: Joana Neves
Editora: Arte Plural Edições

"Edgar não resiste às cativantes histórias de terror que o seu tio Montague lhe conta quando o vai visitar, do outro lado do bosque. Mas qual será a ligação do seu tio a estas histórias sinistras?
Prepara-te para morreres de medo quando descobrires que o tio Montague é, afinal, o protagonista da história mais terrífica de todas.
Um livro assustador... Terás coragem para o ler?"

Comprei este livro nas promoções do Halloween com a intenção de o oferecer às minhas sobrinhas de 10 anos. Tenho por hábito, a não ser que já conheça o autor ou o tipo de histórias, ler o que lhes compro, para perceber se está ou não adequado à idade. Como não conhecia o autor, e por se tratar de um livro de “terror”, este teve de passar pelo crivo e, acabou por ficar nas minhas estantes. Achei que ainda não era adequado para elas. Talvez para o ano. :)

Dito isto, As Histórias de Terror do Tio Montague, é um conjunto de histórias assustadoras, que o sinistro tio Montague conta ao seu sobrinho Edgar. O cenário é uma assustadora mansão, no meio de um pequeno bosque, para a qual Edgar se dirige todos os dias só para ouvir as histórias do Tio Montague.

As histórias não são assustadoras do tipo ficarmos com dificuldade em adormecer ou atravessar divisões às escuras mais rápido do que o normal, com receio da própria sombra. As histórias são um pouco assustadoras, até certo ponto duras e sem grandes rodeios. Acho que acima de tudo, estão muito bem escritas e tentam passar, de alguma forma, uma mensagem. Fiquei agradavelmente surpreendida por este pequeno livro.

Gostei e recomendo. :)

Boas leituras!

Excerto (pág.9):
“O caminho para casa do Tio Montague passava por um pequeno bosque. O carreiro ondulava por entre as árvores como uma serpente a esconder-se no mato, e embora o carreiro não fosse longo e o bosque não fosse nada grande, essa parte da caminhada parecia sempre demorar muito mais do que eu esperava."

(Pág. 13):
“Uma das muitas excentricidades do meu tio era que, embora claramente não lhe faltasse dinheiro, ele nunca tinha querido ter nada a ver com luz elétrica – nem com iluminação a gás, na verdade -, e iluminava toda a casa apenas com luz de velas, e mesmo assim, com pouca. Por isso, segui-lo até ao seu escritório era sempre muito desconcertante; apesar de estar seguro em casa do meu tio, não me sentia nada confortável em ficar às escuras lá dentro, e apressava-me sempre para não o perder de vista – e para não deixar de ver a luz das velas.
Enquanto o meu tio caminhava pela casa cheia de correntes de ar, a luz das velas tornava-me certamente mais nervoso; a sua passagem tremeluzente criava toda a espécie de sombras grotescas na parede, que dançavam e saltitavam por todos os lados, dando a irritante impressão de ter uma vida própria e parecendo fugir para se esconder debaixo da mobília ou correr pelas paredes acima para se refugiar nos cantos dos tetos.
Depois de caminhar mais tempo do que pareceria possível, a avaliar pelo tamanho da casa tal como parecia vista de fora, chegámos ao escritório do meu tio: uma divisão vasta, com diversas estantes cheias de livros e de raridades que o velho senhor tinha trazido das suas viagens. Das paredes pendiam vários quadros e gravuras, e as janelas com caixilhos de bronze estavam tapadas por pesadas cortinas. Mesmo que ainda fosse de dia, o escritório estava sempre escuro como uma gruta.”

Avenue of Mysteries - John Irving

Título original: Avenue of Mysteries
Ano da edição original: 2015
Autor: John Irving
Editora: Transworld Publishers Ltd. - Black Swan

"Juan Diego's little sister is a mind reader. As a teenager, he struggles to keep anything secret - Lupe knows all the worst things that go through his mind. And sometimes she knows more. Whata terrible burden it is to know - or to think you know - your future, or worse, the future of someone you love. What might a young girl be driven to do if she thought she had the power to change what lies ahead?
Later in life, Juan Diego embarks on a journey to fulfil a promise he made in his youth. It is a long story and it has long awaited an ending, nut Juan Diego is unable to write the final chapters.
This is the story of what happens when the future collides with the past."

Por coincidência tenho levado para as férias de Verão livros do John Irving. Talvez seja por serem grandes ou porque tenho a certeza de que serão boa companhia à beira-mar. O ano passado não foi exceção e Avenue of Mysteries foi uma das minhas companhias de Verão. Sim, do Verão. Ando com muita dificuldade em manter o Quero Um Livro a par das minhas leituras. E não é porque estou a ler mais.  Acho que estou a atravessar uma espécie de bloqueio. :)

Agora que devemos estar todos, não por bons motivos, mais por casa, acho que vou conseguir recuperar tudo o que tenho pendente aqui no blogue.

Voltando ao livro.

Juan Diego e Lupe são irmãos. Ele tem 14 anos e uma capacidade extraordinária para as letras e para as línguas. Lupe é mais nova, tem uma forma de falar que só o irmão percebe e consegue ler os pensamentos dos outros e, de vez em quando, parece que consegue prever o futuro.
Os dois são inseparáveis e praticamente não existem um sem o outro, não deixam, no entanto, de ser muito diferentes.
Vivem numa lixeira, com o dono da lixeira que, pode, ou não, ser o pai de Juan Diego. :) A mãe, de dia trabalha no orfanato católico da cidade, Niños Perdidos, e à noite é prostituta.

É a história destes dois que vamos conhecendo através da mente perturbada do, agora adulto, Juan Diego, durante uma estranha viagem às Filipinas.
Nesta viagem às Filipinas, Juan Diego, agora um cidadão norte-americano e um escritor bem-sucedido e reconhecido, espera conseguir cumprir a promessa feita ao "el gringo bueno", quando era apenas um adolescente em Oaxaca. Prometeu-lhe que iria às Filipinas prestar homenagem ao pai sepultado naquele país.
É numa espécie de transe constante, em que temos dificuldade em perceber o que é real, que Juan Diego vai dando a conhecer os acontecimentos que mudaram a vida dos dois irmãos e que o marcaram profundamente.

Avenue of Mysteries é um livro estranho. Talvez seja a primeira coisa que me ocorre dizer sobre ele. Primeiro estranhei-o, depois foi-se entranhando. :) Pareceu-me um pouco pateta, ou forçadamente estranho, mas a verdade é que, mais uma vez, o poder das personagens criadas por John Irving acaba por me prender. É curioso como no meio do absurdo, as personagens, muitas vezes elas próprias absurdas, nos parecem tão humanas.

O livro está repleto de situações caricatas, de relações improváveis e de acontecimentos tristes que nos fazem rir.
É também, como tem sido habitual em outras obras de Irving, uma crítica à religião, à intolerância e à política externa dos Estados Unidos.

Não consigo não recomendar John Irving, e este não seria de certeza a exceção.

Leiam John Irving e deixem-se surpreender.

Boas leituras.

Excerto (pág. 15):
“What Juan Diego said was that he’d had two lives – two separate and distinctly different lives. The Mexican experience was his first life, his childhood and early adolescence. After he left Mexico – he’d never gone back – he had a second life, the American or midwestern experience. (Or was he also saying that, relatively speaking, not a whole lot had happened to him in his second life?)
What Juan Diego always maintained was that, in his mind – in his memories, certainly, but also in his dreams – he lived and relived his two lives on “parallel tracks”.
A dear friend of Juan Diego’s – she was also his doctor – teased him about the so-called parallel tracks. She told him he was either a kid from Mexico or a grown-up from Iowa all the time. Juan Diego could be an argumentative person, but he agreed with her about that.”

dezembro 15, 2019

[Kindle] Lugar Caído no Crepúsculo - João de Melo

Título original: Lugar Caído no Crepúsculo
Ano de edição: 2014
Autor: João de Melo
Editora: Dom Quixote

"Uma viagem pela vida e pelo Além num romance surpreendente e muito aguardado. O que nos acontece depois da morte? Esta é a pergunta implícita ao longo das páginas deste romance. Um livro que impõe a vida, em protesto contra a tragédia da morte humana, recusando-se a aceitar o silêncio e a escuridão do desconhecido e do sagrado – os mistérios acreditados pela fé de muitos, mas não pela angústia dos que questionam o Além. É com elegância e com a qualidade literária a que João de Melo nos habitou que somos guiados numa viagem pelo outro lado, cruzando o Limbo, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. Com uma abordagem distinta dos conceitos tradicionais e numa escrita marcada pelo realismo fantástico, o autor humaniza a imagética cristã, conferindo-lhe uma realidade mais próxima do mundo e da vida. O Limbo, recentemente extinto por decreto papal, solta os espíritos esquecidos que lá moravam e abre-lhes caminho para a glória eterna. O Purgatório, sem o fogo ardente das almas, converte-se num estado depressivo cuja dor parece cingir-se à dimensão do sentimento e do espírito. O Paraíso, mesmo como reino da liberdade, mantém oculto o mistério de Deus. E o Inferno traz consigo uma paisagem gelada, surpreendentemente erguida a sul do Tejo (o rio que as almas condenadas têm de atravessar na velha barca do Sr.Vicente)."

João de Melo é um dos meus favoritos. A forma como escreve é tão próxima que será um daqueles escritores que até com uma lista de compras de supermercado impressiona.

Quando percebi o tema de Lugar Caído no Crepúsculo fiquei um pouco apreensiva. O Limbo, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. E não é uma história típica, romanceada, com desenvolvimento de personagens, com um enredo. É uma espécie de ensaio, talvez...
Confesso que a probabilidade de eu não gostar, por causa do tema, era elevada, mas como foi escrito por João de Melo, gostei. Gostei e muito.

Descobri com este livro o prazer de ler de manhã, enquanto o pão está a torrar e a água para o chá ferve. :) 

A melhor forma de passar o que é este livro é recorrer a excertos de alguns dos cadernos que constituem o livro:

Assim na Terra como no Céu:

"Passa-se de cá para lá, perde-se de vista o anil e o amarelo e a cal do dia. Vem até nós a noite vazia e misteriosa da eternidade. Eis que a alma entra nela, no mistério dessa noite eterna. Abre os olhos no escuro, tenta em vão compreender o que acaba de ocorrer com a sua pessoa, e nada. Só o escuro continua a mover-se, a expandir-se sobre o mar de um rio chamado infinito. Nessa altura, já nada se pode ver somente com o olhar, e menos ainda medir o tempo e os lugares recorrendo apenas aos restantes sentidos. Talvez que todos eles, de novo unidos num único, não sejam mais do que uma espada de sombra a trespassar a última batida surda do coração: não este que sustenta a vida, mas o das trevas mais profundas, ou o da luz perpétua que nos guia para o além de um lugar caído no crepúsculo."

O Limbo:

"Eu vim aqui parar logo após o acidente. Cheguei em estado de graça. E agora vejo formas, vagas, difusas formas de gente que parece adormecida ou num estado que pode comparar-se ao da hibernação. Não propriamente pessoas, tal e qual nós as conhecemos no nosso mundo; mas figuras, espectros que a toda a hora entram e saem do interior de uma espécie de nuvens esparsas que se sobrepõem umas às outras, por ali acima, como se mais não fossem do que castelos aéreos, navios voadores, montanhas suspensas do ar. Por onde quer que se ande no Limbo, as almas ao cruzarem-se connosco, largam um discreto, adocicado odor a incenso. Esse alegre cheiro a festa e a especiaria fica depois a perdurar nos ares até nos transmitir a sua alegria. (...) Ei-las por aí, as almas: sobrepondo-se, entrecruzando-se, passando de um lado para o outro no espaço sem fim dos céus toldados pelas ondas de incenso. Mas nada disso passa de ilusão óptica, porquanto elas permanecem imóveis; só as nuvens, vindo de um lado para o outro, sugerem a ideia de um movimento universal, embora sem peso nem espessura. (...)
Não serão, só por si, a prova da existência de Deus; mas atestam a substância divina a que pertencem como seres criados por Ele, merecedores de entrar nesta antecâmara do Paraíso.
À qual a santíssima Igreja Católica resolveu pôr o nome de Limbo."

" - Mas isto assim não é vida nem morte! Nada aqui anda nem desanda, porquê? Há que fazer alguma coisa por nós! Quem poderá suportar tamanha sensaboria? 
A ideia soltara-se-me de dentro, sem querer nem eu a ter premeditado. Foi como o tal relâmpago que atingirá o nosso avião em cheio e em pleno voo. Acto contínuo, também ela faiscou e fez remoinho no meio das almas que se acomodavam por ali, à minha volta. Foi logo tomando as mentes e as vontades, de patamar em patamar, indo de baixo para cima, até se perder de vez o alcance do seu raio de ação. (...) De repente, todo o imenso oceano dos espíritos entregues ao Limbo deu ouvidos à minha ideia. Pôs-se a pensar nela, a inquietar-se, a estremecer com receio da proposta seguinte e a fremir como um enxame de abelhas dentro da colmeia. As almas, que até então pareciam morcegos pendurados de cabeça para baixo do tecto de uma gruta, deram não só sinais de acordar do sono perpétuo da ausência como de ter entendido que era necessário abrir os olhos contra o peso da luz."

O Purgatório:

"As almas do Purgatório não falam, não se apoiam nem amparam umas nas outras. Nem se confortam entre si. Parecem toupeiras cegas, surdas e mudas, pelo menos na aparência. Poderia tratar-se de um exército exaurido nas suas forças, pela dureza da batalha, ali acampado no intervalo de uma manobra de guerra, a recuperar energia e vontade para enfrentar o combate seguinte. Ou tratar-se de uma cidade semimorta, saqueada pelos bandidos vencedores, e da qual já só restassem velhos, doentes, desventurados que já nem podem erguer-se do chão para se porem de novo a caminhar, à cata do horizonte. Uma cidade paralela a outra, a dos novos-ricos que só não roubaram a outrem o pão que levavam à boca. Um campo tão imenso, tão cheio de infelizes refugiados, que não se consegue medir com o olhar nem com o alcance da alma."

"Essas pessoas só voltam a chegar-se aos humanos quando eles envelhecem, coxeiam e ficam a pontos de morrer. Preferem velhinhos um tanto ou quanto taralhoucos; capazes de as divertirem com as suas confusões, os seus ditos sem sentido, as suas histórias repetidas vezes sem conta. 
Pessoas aparentemente bondosas, diria eu, tidas na conta da chamada boa vizinhança - mas vivem afinal com a maldade empedernida nos olhos, nos dentes, no estômago, no coração, na hipocrisia dos voluntariado e da bondade social."

O Paraíso:

"Ao fim de muito voar através do vazio sideral, lá chegámos à morada do senhor Deus Dei. (...) Logo um meio braço, trajado com hábito de frade, nos convidou, num gesto simples, a entrar no Navio da Glória e a juntarmo-nos aos outros - esses inúmeros outros que lá dentro se moviam e removiam por entre arcos e espadas refulgentes de luz, feixes de cores luminosas como as dos relâmpagos à chuva e uns suaves acordes de harpa.
Quais sonâmbulos ou sonhadores, os possessos divinos moviam-se ao ritmo de um deixa-andar preguiçoso, visivelmente repousado, numa sonolência que mais parecia o movimento das imagens em câmara lenta do que seres embalados pela divina graça do Senhor. (...) Tratava-se - sobre isso não existia dúvida nenhuma no meu coração - dos Justos chamados à eternidade do senhor Deus Dei. Só poderiam ser assim, tal e qual se me afiguraram: gordos, ternos, tranquilos, de uma cor rosada que atestava a saúde feliz e a boa coloração da santidade. Figuras bojudas, como as que adornam os altares e jazem nos quadros religiosos dos templos de todo o mundo, irradiavam à minha volta uma serenidade deslumbrada, adormecida.
Todas essas figuras pareciam dormir. sonhar, reviver em êxtase. O sono dos Justos aparentava o mais despojado de todos os gozos espirituais: um prazer deliciado e adormecido, remanso próprio dos eleitos, a paz eterna do Céu, tão imponderável como se consistisse numa levitação."

"Pelo contrário: Deus, omnipresente e omnipotente, viu morrer e matar, assistiu aos fuzilamentos, à abertura de valas comuns e ao pesadelo dos fornos crematórios nos horrores do Holocausto nazi, é nunca por nunca moveu um dedo pelas vítimas inocentes, nem se dignou travar a tempo a loucura dos vencedores sobre os vencidos nos campos de batalha, no saque das cidades e das casas e no estupro das mulheres. Ninguém sabe em nome de quê nem de quem Ele se absteve de intervir, que até permitiu crimes e genocídios à mão de indivíduos e exércitos, bem como os ignominiosos autos-de-fé da Inquisição em nome da Santa Madre Igreja Católica. E tantos, tantos cruzados guerreiros e outros ditos infiéis miseravelmente mortos por nada e para nada. Deus fora sempre o silêncio mais atroz de toda a catástrofe humana."

O Inferno:

"Começou a entristecer desde que o Inferno se lhe revelou sem o tal fogo higiénico da cremação, que tanto desejara para a sua morte, mas antes branco e frio como os países de clima extremo, com invernos tão longos quanto escuros e tempestuosos, e onde a vida nunca ia além de um dissabor e de um incómodo. A sua tristeza comportava o ódio que desde sempre votara à neve. (...) E agora, por uma cruel e manifesta ironia, um mundo todo de branco, gelado, desértico, esperava-o no Além, onde teria início a perpetuidade da morte. (...)
Não teve mais remédio senão seguir atrás dos outros e em corrente de fila única. (...)
O que viu, mal terminou a travessia dessa garganta, deixou-o em estado de choque. na sua frente, abria-se o abismo de um espaço sem medida possível para cima e para os lados, nem mais luz do que a da Lua Cheia, num firmamento falso e espelhado, sem nuvens. Entre a poalha luminosa do luar e a penumbra desses lugares, tão secretos que até lhes pareciam interditos, os seres convertiam-se em vultos na multidão, numerosos, aconchegados, sempre em fila uns atrás dos outros. (...)
Perdera-se dos outros, da mesma forma que eles se haviam perdido de si. Aquele, agora, era o pórtico de entrada para a mais absoluta solidão da sua morte. Deixava de ser possível interagir com a existência e a humanidade dos outros. (...) Agora olhava, via esquadrões de gente parada, hirta como estátuas na margem de um estradão ermo e gelado, sobre o qual deslizavam contínuas multidões de cegos em busca do seu lugar na perpetuidade da morada do Diabo; (...) Andou assim durante dias e dias, talvez anos, talvez séculos terrenos, no meio da multidão ondulante que com ele vagueava por ali sem um destino."

"A ausência consciente e inexplicável dos outros, colocados ali mesmo ao lado, ao alcance de um simples gesto, de uma mão estendida. Eis o absoluto verdadeiro. Contra ele, nada de nada se podia.
Perdeu o ânimo, perdeu a esperança. Perdeu o fio derradeiro que lhe restava da memória em que ainda acreditava. Perdeu a paz inexistencial da morte. Perdeu, enfim, a ideia da existência do Bem. Como Deus não estava ali, nem em lado nenhum, apenas o Mal o chamava para si, porque só a ele passava a pertencer. Deixou até de saber quem era de novo, onde estava, tanto em concreto como em abstracto; nem o que fazia ele naquele desterro gelado e silencioso. No qual se sentia preso, morto e mal enterrado. Ao mesmo tempo que se despersonalizava, algo de contrário à falência da sua pessoa vinha agora de regresso a si, acendendo uma réstia de luz na sua mente e tornando-a receptiva a um derradeiro assomo de sentimentos humanos. E o que sentiu não foi mais do que a crua desesperança, o desespero absoluto, a escura perda de tudo - menos da sua dor. O sofrimento vinha-lhe dos outros, que estavam mais ou menos à mão e à sua volta, como se os espíritos deles lhe enviassem mensagens e promessas de um novo Pentecostes."


Um livro cheio de ironia e sentido de humor que tenta descrever o que os católicos acreditam ser o que os espera depois da morte. É claramente uma crítica social e à Igreja Católica e, está muito bem escrito, outra coisa não seria de esperar de João de Melo.

Vale muito a pena ler e recomendo sem reservas.

Boas leituras!