junho 18, 2011

Ernestina - J. Rentes de Carvalho

Título original: Ernestina
Ano da edição original: 1998
Autor: J. Rentes de Carvalho
Editora: Quetzal Editores
"Ernestina é mais do que um romance autobiográfico ou um volume de memórias de família ficcionadas. É um retrato de Trás-os-Montes, dos anos 1930 aos anos 1950, um romance que transcende o relato regionalista e que transpôs fronteiras, transformando-se num fenómeno editorial na Holanda. Ernestina é também o nome da mãe do autor e da intrépida protagonista deste livro. Sobre ela J. Rentes de Carvalho disse: «Mãe de um só filho, a sua vida, que foi de uma tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muitos e fortes os laços que a ela me prendem.»"

Quando lemos pela primeira vez um escritor e gostamos muito do que encontramos, gera-se quase automaticamente uma certa ansiedade quando pegamos num segundo livro para ler. E se A Amante Holandesa tivesse sido o único livro de jeito que J. Rentes de Carvalho escreveu? Felizmente não foi esse o caso e, Ernestina só veio confirmar que este é um autor para se continuar a ler. :)
Ernestina é um livro que o autor assume ser autobiográfico e onde nos é contada a história da sua família, o seu nascimento,"Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930", a sua infância em Vila Nova de Gaia, onde nasceu, e na aldeia de Estevais, em Trás-os-Montes, onde regressava todos os anos e onde viveu durante algum tempo com os avós. "E como se de par em par se abrissem as portas que me tinham ocultado a grandeza do viver, gritei de alegria e corri ladeira acima na pressa de encontrar o meu destino." É desta forma que termina a narrativa de J. Rentes de Carvalho, que com quinze anos acaba de encontrar mais uma razão para sorrir. :)
Numa escrita despretensiosa e bem-humorada, J. Rentes de Carvalho partilha connosco as suas memórias de infância, homenageia os avós e a terra que o viu crescer e faz-nos sentir da família. E que família esta! Repleta de personagens cativantes, com histórias caricatas, faz com que ler sobre as suas vidas seja uma autêntica viagem ao passado. É um livro cheio de humor, de cheiros e de cor, de certa forma inocente e, porque o autor não se coíbe de partilhar connosco as coisas menos boas da história familiar, o livro acaba por ser muito genuíno e enternecedor. Mais do que uma história autobiográfica, este é também um livro sobre Trás-os-Montes e sobre o Portugal das décadas 30 a 50, a forma como vivíamos e convivíamos.
Gostaria de destacar a viagem que J. Rentes de Carvalho descreve com mais pormenor, e que era feita todos os anos, entre a cidade e a aldeia. É fascinante a forma como ele descreve esta viagem longa, feita de comboio pelos velhinhos caminhos de ferro portugueses. É um dos pontos altos deste livro! :)
Enfim, é uma leitura que aconselho vivamente a todos. Aos que tiveram infâncias felizes junto de avós com cheiro a terra e a fumo e que se identificam com as memórias aqui desfiadas e, aos que não conhecendo esta realidade poderão, de certa forma, vivê-la nas palavras de J. Rentes de Carvalho.

Recomendadíssimo!

Boas leituras!

Excerto:
"Que mais me ficou? O banho na varanda, numa tina de água fria. O cheiro dos lençóis de linho e o da palha fresca das enxergas. Os cachos de uvas do ano anterior, pendurados para se tornarem passas. Uma gaveta com brinquedos esquecidos. O gosto da água bebida por uma pucarinha de barro. Correr de nossa casa para a casa da avó e ao abrir da porta aspirar fundo, por gosto, o odor conjunto dos estábulos, das pipas vazias, das talhas do azeite e das arcas da salmoura, dos toros de pinho, da resina das estevas, da fuligem secular entranhada em paredes seculares."

11 comentários:

  1. Ora aí está uma boa razão para leres este livro ou, então dá-lo à tua mãe para que ela o leia. Para mim qualquer "desculpa" é boa para se ler J. Rentes de Carvalho! :)

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  2. redonda: Será que alguém não gostou? :)

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  3. Não foi o primeiro livro de Rentes de Carvalho que li e mais uma vez correspondeu às expectativas.
    A viagem de comboio para Trás-os-Montes, fez-me lembrar as viagens que em jovem, tenho 49 anos fazia também em Setembro com os meus pais e irmãos para Carrazeda de Ansiães, na linha do Douro até ao Tua, e depois carreira até Carrazeda.
    A ansiedade, as bagagens as mudanças das paisagens, enfim fez-me lembrar e foi bom.

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    1. Acabei por reler a minha opinião e o sorriso de saudades dos tempos onde tudo parecia possível voltou. Voltou também a vontade de ler mais Rentes de Carvalho... Muito muito bom!

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  4. Excelente livro! As recordações de infancia vieram-ME em catadupa e fizeram-me deliciosamente FELIZ!
    Um grande agradecimento ao autor de "ERNESTINA" por me ter trazido tanta FELICIDADE ao ler avidamente as suas páginas! BEM HAJA

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  5. A leitura de ERNESTINA lembrou-me Miguel Torga...pelo idêntico engenho e brilho literário.
    A viagem de ida e regresso à aldeia é um retrato do passado e uma lembrança que sabe bem recordar.

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