setembro 02, 2012

Enquanto Salazar Dormia... - Domingos Amaral

Título original: Enquanto Salazar Dormia...
Ano da edição original: 2006
Autor: Domingos Amaral
Editora: "Colecção BIIS" da Leya

"Lisboa, 1941. Um oásis de tranquilidade numa Europa fustigada pelos horrores da II Guerra Mundial. Os refugiados chegam aos milhares e Lisboa enche-se de milionários e actrizes, judeus e espiões. Portugal torna-se palco de uma guerra secreta que Salazar permite, mas vigia à distância.

Jack Gil Mascarenhas, um espião luso-britânico, tem por missão desmantelar as redes de espionagem nazis que actuavam por todo o país, do Estoril ao cabo de São Vicente, de Alfama à Ericeira. Estas são as suas memórias, contadas 50 anos mais tarde."

Sentia alguma curiosidade em relação aos livros deste escritor, Domingos Amaral. Parecem retratar épocas interessantes da nossa história e não há assim muitos que escrevam sobre nós, portugueses. Curiosidade satisfeita e... pronto. :) Gostei da história mas a escrita pareceu-me demasiado, como hei-de dizer?, demasiado simples, talvez seja por aí. As personagens são interessantes q.b., mesmo o Jack Mascarenhas, Don Juan de algibeira, não deixa de ser uma personagem simpática. Tive receio que se tornasse mais um Tomás Noronha da literatura portuguesa, mas felizmente as (muitas) investidas sexuais do luso-britânico estão melhor enquadradas na história e este tem muito mais pinta do que o pseudo-garanhão que José Rodrigues dos Santos criou. No entanto, acho que o destaque que o autor dá às proezas sexuais e às conquistas de Jack, acabam por afastar o leitor da história e não são sendo assim tão divertidas, acabam por se tornarem isso mesmo distracções à leitura. :)

Enquanto Salazar Dormia, Lisboa estava repleta de refugiados da II Guerra Mundial. Refugiados ricos e excêntricos, espiões ingleses e alemães, e muitas mulheres deslumbrantes e desinibidas, que viveram numa capital diferente da que hoje conhecemos, onde as conspirações eram mais que muitas, algumas com capacidade para resolverem a guerra.

Conhecemos Jack Gil Mascarenhas (que raio de nome!), um luso-britânico, quando este regressa a Portugal, passados 50 anos, para o casamento do seu neto com uma portuguesa. É no momento em que aterra no aeroporto de Lisboa que todas as recordações da época dourada que viveu em Lisboa, nos anos 40, começam a ressurgir. São essas memórias que ele vai partilhando connosco. Vai-nos falando de uma Lisboa difícil de imaginar, digna de um filme de Hollywood, repleta de uma vida, à primeira vista impossível de conceber em plena ditadura de Salazar. Para manter o país fora do conflito mundial, Salazar acabou por permitir que Portugal se tornasse num ninho de espiões, vigiando as suas acções, mas interferindo o menos possível nas suas missões. Enquanto a grande maioria dos portugueses sofria na pele a mão pesada do regime, cada vez mais pobres e menos livres, estes estrangeiros especiais viviam num autêntico El Dorado, onde tudo era permitido.
E o livro é isto, um livro de memórias de um ex-espião, que viveu em Portugal os melhores anos da sua vida, onde conheceu as mulheres mais bonitas e libertinas de que há memória e onde contribuiu de forma muito concreta para a resolução do conflito mundial.

Do ponto de vista histórico, o livro é muito interessante, retratando uma época fascinante. A história em si também é boa, está bem estruturada e prende o suficiente para se irem virando páginas atrás de páginas. O que torna este livro mais normal, quando poderia ter sido muito bom, é a escrita desinspirada, os clichés e a obsessão pelo sexo, embora se perceba o porquê deste ser tema recorrente, achei exagerado e não muito bem conseguido. Escrever sobre sexo é complicado, existe uma linha muito ténue entre o que tem qualidade e o que é apenas ordinário. Neste caso não é ordinário é apenas óbvio e não acrescentou nada à história.

Não sei se voltarei a ler mais algum livro dele. Não me impressionou mas não ponho de parte voltar a ele.

Recomendo. É um livro que se lê bem.

Boas leituras!

Excerto:
"Nunca esperei regressar a esta rua, e nunca esperei que o meu velho coração sentisse tanta emoção ao pisar os passeios da Lapa. Quando saí do táxi em frente ao hotel foi como se uma bola de demolição tivesse chocado comigo. Fiquei sem respiração por momentos, invadido por sentimentos, memórias de cheiros, imagens e vozes. Não me lembro sequer de ter pago o táxi, nem me recordo das palavras do porteiro, a dirigir-me com cortesia para a recepção. Nada, de repente, existia. A não ser Lisboa, 50 anos atrás. A minha Lisboa, onde amei tanto e tantas vezes."

7 comentários:

  1. Olá,
    Já leste o "Uma companhia de estranhos" do Robert Wilson? É sobre o mesmo tema mas muito melhor. E é o culpado de não ser capaz de gostar do "Enquanto Salazar dormia". Demasiado simples e o Jack Gil como pseudo-garanharão irritou-me profundamente. (sim, tenho uma relação de ódio por este livro o que significa que, provavelmente, é muito melhor do que achei).

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    1. Do Robert Wilson apenas li "O Cego de Sevilha" de que gostei bastante. Os livros dele são daqueles para os quais olho com muita frequência, mas continuam muito caros... :) Nota mental para comprar esse que referes.
      Jack é um bocadinho irritante mas, pelo tema, vale a pena ler, podemos sempre saltar as partes do engate. :p

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  2. Oi, eu gostei bastante do livro. O facto de estar escrito de forma simples acho que foi uma das coisas que ajudou.
    Mas confesso que agora fiquei com vontade de ler essa alternativa :)

    Obrigada

    THE WORLD VIEWED FROM WHERE I AM
    http://worldviewedfromwhereiam.blogspot.pt/

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    1. Pelo tema acho que vale a pena mas, teria sido muito mais interessante se a escrita fosse mais inspirada. :)
      Também fiquei com vontade de ler o que a Patrícia refere, até porque já conheço o escritor e gosto bastante dele.

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  3. Boas! Devias experimentar o "Quando Lisboa Tremeu" dele, tem uma escrita simples, mas eu, pessoalmente gostei :)

    www.metaforaderefugio.blogspot.com

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    1. Sugestão anotada. Embora tenha achado a escrita pouco interessante, não creio que possa julgar toda a obra do escritor apenas por um livro. :)

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  4. Do Domingos Amaral li "ninguem morre de amor" e não gostei muito, podia ser um livro bestial mas ... falta-lhe algo.
    Não vou ler mais nada deste autor.

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