julho 22, 2010

Cinco Quartos de Laranja - Joanne Harris

"Framboise regressa à pequena cidade onde nasceu, na província francesa, e abre aí um restaurante que rapidamente se torna famoso, graças às receitas de um velho caderno que pertencera à sua mãe. Essa espécie de diário contém igualmente uns estranhos apontamentos cuja decifração lançará uma nova luz sobre os dramáticos acontecimentos que marcaram a infância da protagonista nos dias já longínquos da ocupação nazi. Framboise recorda os sabores e os sentimentos da sua infância, numa França marcada pela dor e pela penúria da guerra, e muito especialmente um episódio que marcou a vida da família e constituiu, para ela, a perda definitiva da inocência. Agora, já no Outono da vida, chegou a hora de enfrentar a difícil verdade."

Já disse aqui que a Joanne Harris é uma das minhas escritoras favoritas. Aguardo sempre com alguma ansiedade os livros que escreve e é das poucas que compro sem qualquer hesitação, qualquer que seja o preço marcado. :) Não é um escritora unânime, eu própria tenho livros dos quais gosto menos e não a considero perfeita. Mas há algo nos livros desta escritora que tenho dificuldade em expressar por palavras mas que me encanta. Os seus livros são difíceis de rotular, ela escreve romances, considerados mais femininos, é verdade, mas como são normalmente tão pouco ortodoxos e livres de regras e de pudores é complicado colocá-la na mesma prateleira que a Sveva Casati Modignani, Nora Roberts ou outras. Falam de amor, mas às vezes é um amor tão retorcido que não sei se serão livros assim tão românticos. Os livros têm todos algo de fantástico e até algum horror, mas não são de todo livros de fantasia e de terror. Falam de factos históricos, mas a intenção também não é dar lições de história. A dificuldade em classificar os livros da Joanne Harris está na originalidade das suas histórias e na genialidade da sua escrita. Percebo que nem todos gostem. Eu gosto! :)

O Cinco Quartos de Laranja é, de todos os que já li dela , aquele que mais me encheu as medidas. Este narra a história de Framboise e da sua família, em Les Laveuses, uma pequena aldeia francesa, durante a ocupação da França pela Alemanha. Framboise é a mais nova de três irmãos, Cassis e Reine-Claude. Vivem os três com a mãe, Mirabelle Dartigen. O pai de Framboise morreu na guerra, morto na frente quando defendia as fronteiras de França contra as investidas da Alemanha nazi.
Os Dartigen não são uma família normal, a mãe é uma mulher torturada, amarga, seca como uma ameixa, rígida e, aparentemente, incapaz de amar. É acometida por dores de cabeça tão fortes que a deixam violenta e irascível e, depois prostrada na cama. Essas dores de cabeça são sempre precedidas pelo cheiro de laranjas, que só ela consegue sentir. Este é um fruto completamente proibido em casa. Mirabelle é desequilibrada e instável, receia a qualquer momento ficar louca. Demonstra o seu amor pelos filhos através da culinária, cozinhando autênticos festins que serve de cara fechada, mas no qual colocou todo o seu afecto.
As crianças crescem sem carinho, cheios de regras e de deveres, mas sem amor, sedentas de atenção. Aprendem a temer a mãe e evitar os seus ataques. São pequenos selvagens e por isso, facilmente seduzidos por Tomas Leibnitz, um alemão de falinhas mansas e olhos doces que os começa a usar como informadores no seu negócio de mercado negro.
Framboise tem 9 anos e é um criança corajosa, inconsequente, teimosa, inteligente mas, acima de tudo é carente. Sente um abandono tão grande dentro de si que o alemão de voz doce, com os seus sorrisos e os seus presentes a deixam num estado de adoração perigoso. Por ele e para o agradar, Framboise é capaz de tudo.
Demasiado parecida com a mãe, tem por ela um ódio inimaginável, vivendo as duas num desafio constante. Framboise é o catalisador de toda a história. Na inocência e na crueldade dos seus 9 anos, ela é responsável pelo desenrolar dos acontecimentos trágicos que acabaram em mortes e na fuga dos Dartigen para longe de Les Laveuses.
Anos mais tarde, Framboise volta a Les Laveuses como a veuve Simon, e a ninguém revela a sua verdadeira identidade. Receia que o nome Dartigen ainda seja capaz de despertar ódios antigos na pequena comunidade. Framboise tornou-se uma mulher determinada, intolerante e por vezes fria. Não quer desafiar ninguém, apenas regressou à velha quinta da mãe, onde pretendia acabar os seus dias em paz. Nem tudo lhe corre como esperado e ela será obrigada a reviver os horrores da infância. É, aliás ela quem nos conta a história, doída pela culpa que sente e triste por não ter tido a capacidade de entender a mãe, que não era só aquilo que aparentava.

Eu gosto muito deste livro. Adoro as personagens, principalmente a Framboise, que nos arrepia por ser tão cruel, mas que temos dificuldade em odiar, por ser uma criança, mas principalmente porque é uma criança amargurada e mal amada e a mãe Mirabelle que é tão atormentada, por algo que não sabemos, com aquelas enxaquecas que a deixam quase louca. Incapaz de demonstrar o amor que sente pelos filhos, e que se revela no livro de receitas, onde no meio das receitas foi escrevendo uma espécie de diário, que deixou a Framboise quando morreu.
Não é uma história bonita, está cheia de rancores e de sentimentos obscuros, associados a crianças o que torna a coisa ainda mais perturbadora. Não sei se a posso considerar uma história de amor, o que é de certeza é uma história sobre actos e consequências. Tudo o que fazemos tem uma reacção e nem sempre é possível controlar a reacção, especialmente se estivermos em tempo de guerra e numa aldeia de província ocupada pelas tropas invasoras. Especialmente se formos uma criança mal-amada e que se comporta quase como um cachorrinho ao menor gesto de carinho e afeição.

Leiam! :)

Nota: O próximo livro de Joanne Harris O Rapaz de Olhos Azuis, será editado em Portugal, pela ASA, lá para Setembro. Segundo a agenda da autora, ela estará em Portugal entre 14 e 19 Setembro para o apresentar. Mais notícias, em português, sobre a autora estão neste blogue que descobri há pouco tempo: http://joanneharris.blogs.sapo.pt/.

17 comentários:

  1. Eu adoro Joanne Harris!
    Li dois dela: Chocolate e Sapatos de Rebuçado. Simplesmente fantásticos!

    Bjokas*

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  2. Nunca li nada desta autora, apesar de não ser uma autora que me seja indiferente! Vi a adaptação para cinema do livro "Chocolate" e gostei bastante.
    Continua o registo para descobrir a sua escrita! :)

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  3. Também gostei muito do filme "Chocolate". Nunca tinha lido nada da Joanne Harris e o primeiro que li foi precisamente o "Chocolate". Não me fascinou e confesso que gostei mais do filme que do livro. Depois a minha irmã ofereceu-me este Cinco Quartos de Laranja e nunca mais parei de a ler. :)

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  4. Tb já li o "chocolate" mas este tenho mesmo de ler pelos seus comentários...Boas leituras!

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  5. Ajude-me a esclarecer um mistério para quem, como eu, ainda é novata nestas andanças dos blogs:
    vi que o meu blog se encontra nos seus "blogs que está a seguir"... não era suposto eu encontrar no meu, na zona dos "seguidores", a sua imagem? bjs e obg

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  6. Cris: E eu estou lá, sou a Natacha. :) A foto é que é diferente, porque quando eu faço seguir algum blogue faço-o através do gmail e a imagem que vês no teu blogue é a que tenho associada a esse mail. Não é mesma que está aqui no blogue... Mistério resolvido? :)
    Bjs e bom fim-de-semana. :)

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  7. Não são os melhores? Tens de me recomendar algum!
    Qual é o teu favorito?

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  8. Aquele de que gosto mais é mesmo este Cinco Quartos de Laranja. O Xeque ao Rei é um pouco diferente dos que ela costuma escrever, mas é muito bom, surpreendente. Também gosto do Praia Roubada, embora seja mais soft, mais normal. Muito por onde escolher, portanto. ;)

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  9. Hi quando for á livraria vou dar uma vista de olhos. Cinco Quartos de laranja é um livro que sempre me intrigou. Depois de ler a tua opinião fiquei ainda mais curiosa.

    Obrigada pela ajuda!

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  10. Não vou dizer que vais gostar do Cinco Quartos de Laranja, como eu gostei, porque , como já disse, a Joanne Harris escreve, às vezes, sobre temas que podem ser desconfortáveis. Nem toda a gente gosta de encontrar isso quando se senta a ler um livro. Visto teres gostado tanto do Chocolate e o Sapatos de Rebuçado, que não são os meus favoritos, talvez te identifiques mais com o Xeque ao Rei ou a Praia Roubada. ;)

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  11. Esse foi o primeiro livro da autora que li. Adorei! Parabéns pelo blog! :)

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  12. Ana Luísa: Obrigada! Já espreitei o teu blogue e parece-me que vou ser visita assídua. Tentei comentar, mas não consegui. Não sei se por aselhice minha ou se por uma outra razão qualquer que neste momento me está a escapar... :)

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  13. Também sou fã desta autora já há alguns anos e nunca pensei que houvesse mais interessados na sua obra!
    O primeiro livro que li foi este que agora tão bem descreves - cinco quartos de laranja, e sem dúvida,adorei!
    Desconhecia por completo Joanne Harris, peguei neste livro ao acaso, pela sua capa e titulo tão sugestivos e dai em diante fiquei fascinada pelas suas obras.
    Já li todos os seus livros publicados, excepto os de culinária e enconto-me a ler o mais recentemente publicado, " O Rapaz de Olhos Azuis" e confesso, consegue sempre surpreender-me sempre pela positiva.
    Simplesmente não é uma escritora qualquer, nem mais qualquer uma que escreve, consegue ser cativante e por vezes surpreendente através das histórias que nos conta. Mais do que aventuras, vivências e experiências fantásticas também são registos com os quais nos identifica-mos no nosso dia a dia.
    Por isso continuem a ler esta autora, que realmente vale a pena!

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  14. Estou lendo este livro, confesso que estou há tempos tentando terminá-lo , ele é intenso. Estou adorando, às vezes acho que estou dentro do livro junto com os personagens.

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  15. Sim, ela é fantástica! Uma de minhas autoras preferidas. Suas histórias e sua escrita me arrebatam de um jeito que não sei explicar. Não li este ainda, mas em Os Sapatinhos Vermelhos ela cita alguns personagens dessa história...

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    Respostas
    1. Este, não sei se é por ter sido dos primeiros que li dela, é o meu favorito. Já o li mais do que uma vez. Não me canso da Framboise. :)

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