Junho 01, 2010

Parábola do Cágado Velho - Pepetela

"Falo de um amor e de uma transgressão.
Quem sabe, talvez a transgressão nunca fosse possível. Mas a granada existiu, essa granada que traçou no ar espantado do planalto a figura da mulher amada.
Mas uma granada, mesmo com tal magia, pode materializar um mundo?"


Pepetela começa a figurar-se como um dos meus escritores favoritos. Fala de temas sérios de uma forma encantadora, com aquela característica que os escritores africanos parecem ter de nos falarem de assuntos tão sérios, como a guerra, como se de um conto de fadas se tratasse. O melhor é que as personagens pouco têm de princesas ou príncipes, são reais e credíveis como não o são muitas "personagens" que se cruzam connosco no dia-a-dia. :)

Segundo o dicionário:
Parábola é uma "narração alegórica que encerra algum preceito de moral ou verdade importante".
Alegoria é a "representação de uma realidade abstracta através de uma realidade concreta, por meio de analogias, metáforas, imagens e comparações".

Parábola do Cágado Velho é assim: uma parábola sobre a guerra mas, sobretudo sobre as pessoas que convivem com ela, que nada fizeram para a despoletar e que nem sequer compreendem porque se luta.

Ulume (homem na língua Umbundu) sobe todos os fins de tarde ao alto do morro junto à gruta de onde todos os dias sai um cágado, mais velho que o mundo, para beber água da fonte. Todos os fins de tarde Ulume sente que o tempo pára, só existe ele e o cágado velho e Ulume fica apenas vazio, numa grande paz intranquila.
Ulume é casado com Muari (a primeira mulher na língua Kimbundu e outras línguas) e tem dois filhos, Luzolo e Kanda. Toma para sua segunda mulher Munakazi (a mulher na língua Mbunda), uma rapariga mais nova por quem se apaixona, primeiro pelos seus pés que parecia se olhavam, com os dedos grandes levantados, depois pelos seus olhos grandes e melancólicos.
Um dia os filhos vão-se embora para fazer a guerra, lutando de lados diferentes, um contra o outro. Esta guerra, que ninguém na aldeia de Ulume percebe e da qual não conhecem as razões, apenas traz desgraça à aldeia onde vivem. Soldados que invadem a aldeia e levam tudo o que encontram, homens em idade de lutar, mulheres e toda a comida que conseguem carregar. Os habitantes da aldeia são obrigados a recomeçar sempre que os soldados passam por lá, num ciclo vicioso, de prosperidade e pobreza. Decidem, por isso, mudar-se para um sitio mais isolado ao qual chamam de Vale da Paz, acreditando que os soldados não chegarão lá. Até ao dia em que chegam e, por causa de uma querela insignificante destroem o Vale da Paz partindo novamente como se nada mais lhes importasse.
Esta é uma das passagens mais irónicas do livro, porque a guerra não tinha acabado estava-se, antes numa espécie de tréguas: os soldados disseram não é bem assim, ainda não há paz, só se anda à procura dela, mas é difícil de encontrar neste caminhos e descaminhos das montanhas e Ulume achou eles tinham razão, a paz era uma pomba branca com lhe tinham explicado de outra vez e como seria possível encontrar uma pomba naquele matagal (...)
Por causa de uma mal-entendido o Vale da Paz é destruído e Ulume acreditou ver, por volta do meio-dia, um pássaro escuro sair lá de baixo e voar por cima deles em direcção ao sol. Seria a tal pomba mágica? Se fosse, deixara de ser branca, toda chamuscada. E com esta ligeireza de destrói a paz e a vida de todos aqueles que ali viviam.
Muitos haviam já partido para o Lago da Última Esperança, pois achavam que já muita gente conhecia o Vale da Paz e receavam o regresso dos homens armados. Os que ficaram e sobreviveram acabaram também eles por partir para o Lago da Última Esperança, um local ainda mais para dentro da Munda (montanha) onde esperavam reconstruir mais uma vez a vida destruída.

É um livro muito bem conseguido, sobre a guerra e o pós-guerra. É um perspectiva muito interessante sobre a guerra civil de Angola, porque penso ser essa parte da história angolana que Pepetela retrata, onde as populações mais afastadas dos centros urbanos não faziam ideia dos porquês da guerra e, é quando olhamos a guerra desta perspectiva que nos apercebemos de quão injusta esta pode ser, pois foram estes os que mais perderam, materialmente e emocionalmente.

Fala também do eterno conflito geracional entre os mais velhos, presos a costumes e tradições que os mais novos consideram ultrapassadas e ridículas. O medo que os mais velhos sentem de perder o controle sobre a juventude, que eles desistam de trabalhar a terra, que os esqueçam e não os respeitem, no fundo, o medo do desconhecido.

Por isto tudo que aqui disse e também pelo que não disse, leiam este livro porque vale a pena, é muito bonito! :)

7 comentários:

  1. É, de facto, um livro lindissimo. O que mais me impressionou a contraposição entre a tradição africana e uma modernidade marcada por uma guerra estúpida. O cágado, ou seja, a tradição, conserva o mundo maravilhoso da África profunda, pura e misteriosa...

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  2. Os livros do Pepetela falam sempre muito da guerra em Angola, quer da que levou à independência quer da civil. No entanto, fá-lo sempre de perspectivas diferentes e isso é muito interessante.
    Acho que o cágado, mais que a tradição é a própria África. :)

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  3. Nunca li esse livro, mas adoro Pepetela e a forma irónica como consegue expressar e apresentar a sua terra e as suas gentes.

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  4. Iceman: Se não leste deves ler! :) É muito bom.

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  5. Já ouvi falar sobre Pepetela.Nunca li nenhum livro dele.Vou comprar e ler com urgência.Valeu a dica e a apresentação.
    Obrigada

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  6. Eloah: Sempre às ordens! ;)
    Compre porque o mais provável é que goste e muito! :)

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  7. Bom eu tenho a Parábola do Velho Cágado de Pepetela mas ainda não li nada deste escritor, apesar de já terem dito que ia gostar bom depois de acabar « A viela da Duquesa» de Sveva Casati Modignani vou ler este e virei aqui dar a minha opnião.

    Boas leituras:)

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